O pensamento nietzschiano é marcado essencialmente
pela mescla de suas dimensões semântico-conceitual e retórico-expressiva, que necessitam
ser levadas em consideração para se realizar uma boa leitura. Meu objetivo é
enfocar inicialmente o conceito de genealogia, aplicado ao problema da
consciência e do conhecimento, para então evidenciar sua conexão com a face
retórico-expressiva da escrita nietzschiana. Meu intuito não é fazer uma
abordagem panorâmica, exaustiva, nem mesmo pormenorizada, mas apenas apontar
alguns elementos mais relevantes.*
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| Friedrich Nietzsche |
Genealogia
A
forma de pensamento e de escrita que se consolidou de modo hegemônico no ocidente
é essencialmente linear e classificatória. Ela consiste no encadeamento
sucessivo de conceitos e signos linguísticos intermediários que esquadrinham a
realidade em gêneros, espécies, tipos, raças, agrupando-os em níveis maiores e
menores de generalidade e especificação. Trata-se de uma estratégia de domínio
cognitivo da realidade, expulsando, na medida do possível, o que é indefinido, caótico,
ambíguo. Tudo o que escapa a definições rigorosas deverá ser relegado a um
plano de verdade inferior, como da superstição, da mitologia e até mesmo da
arte. Nesse momento, não é difícil perceber o que significa a verdade: uma
acoplagem bem-feita entre todo este universo intelectual, bastante bem
codificado — de preferência por relações lógicas e numéricas como nas ciências
naturais —, e o âmbito dos fatos. Ocorre, porém, que este último plano não é
essencialmente distinto do primeiro, e esse é um dos pontos de apoio essenciais
da crítica de Nietzsche à gramática de nosso pensamento.
Desde
Kant nós sabemos que todo ato perceptivo é eivado por interesses de diversas
ordens. Nosso campo da atenção não é homogêneo, como dirá mais tarde a teoria
da Gestalt, de tal forma que em cada instante em que somos conscientes,
dirigimos nossa consciência para partes distintas do que é percebido, de acordo
com nossas necessidades. Em linhas gerais, isso significa, para Nietzsche, que
nosso desejo de sobrevivência pauta
continuamente nosso olhar, nossa audição, nosso tato. Nada é percebido na
singularidade instantânea, particular e única de sua emergência no plano da
consciência, pois no exato instante em que temos consciência, já domesticamos a
coisa como objeto cognitivo. Ora, o que mais significa isso senão que a
percepção humana somente se dá através do filtro da massa indefinidamente
abrangente de nossos conceitos, palavras, símbolos etc.?
Se
conectarmos as duas ideias-chave desses parágrafos iniciais, podemos concluir
com Nietzsche que a verdade pensada como adequação do intelecto à coisa é, em
grande medida, uma redundância socialmente
favorecida e premiada. Cada afirmação que se qualifica como verdadeira
significaria uma espécie de troféu que a cultura confere a si mesma na pessoa
de cada um de seus membros, reafirmando o gosto e o gozo de exercer seu poder
de domesticação cognitiva do real. Essa auto-premiação, porém, não se reforça
apenas por todo ato cognitivo, mas também de comunicação.
A
vida no âmbito da natureza é marcada por uma correlação múltipla de forças,
seres e fenômenos que adquirem funções igualmente diversificadas. Nem todos
esses elementos são imprescindíveis, pois alguns podem consistir em meros
acréscimos a processos mais basilares. Há formas de vida parasitárias, outras
muito bem organizadas e robustas, outras com sobrevida altamente problemática
etc. — isso repercute no interior de cada organismo, composto, mesmo que em
proporções diminutas, por partes cuja interrelação também não é estática, nem
uniforme. Nesse panorama, cabe questionar: o que representa a consciência para
o ser-vivo humano?
Observando
o conjunto das forças e atividades que nos compõem em nossa totalidade
somato-psíquica, Nietzsche afirma que o ser-consciente (ou seja, a consciência)
é supérfluo. Se atentarmos para as múltiplas formas de vida animal, vemos que
as características que atribuímos à consciência, ou seja, o saber de si, a
reflexão sobre nossas motivações, a colocação de fins às nossas práticas, a
ponderação de valores para escolhas etc., poderiam muito bem não existir. É de
se supor que tenha havido uma constrição externa a cada indivíduo para que a
consciência tenha surgido, desenvolvido e alcançado o refinamento próprio às
sociedades ocidentais tardias. Esse fator exógeno consistiu no exercício
forçado de se desenvolver e aperfeiçoar a capacidade de comunicação. Se pudesse
viver solitariamente, o ser humano não apenas não teria desenvolvido a
consciência por não ter acesso ao fenômeno da linguagem, que é propriamente
social, mas mais fundamentalmente por não se ver obrigado ao trânsito
comunicativo com seu semelhante. Essa obrigação deriva, em primeiro lugar, da
condição frágil e desamparada de cada indivíduo, que sempre necessitou do outro
para poder subsistir. Desde os primórdios da humanidade foi necessário somar
forças, contrair relações de toda espécie para poder fazer frente à
precariedade da vida no âmbito meramente natural.
Ora,
apenas se pode comunicar alguma coisa na medida em que se sabe qual e como é
essa coisa. Embora se possa admitir um pensamento não consciente, entretanto o
ser humano, dotado da capacidade de comunicação, foi forçado cada vez mais a
formular para si de forma consciente o que pensa, deseja e precisa, em virtude
da necessidade de sobreviver em um âmbito adverso. A consciência, assim, surge
de um refinamento do pensar naquele meio de que somente o ser humano dispõe
para poder comunicar seu universo interior a seu semelhante: a linguagem. Por
mais que outros seres vivos se comuniquem, trata-se neles de um processo de
interação não mediado por um conjunto de signos móveis, arbitrários,
desconectados da singularidade de seus referentes. Somente a linguagem humana,
capaz de deslizar infinitamente sobre seus significados, trocá-los entre si,
rearranjar-se em novos conjuntos sintáticos e semânticos, somente uma linguagem
passível de erros, equívocos, falhas e interrupções é que pode levar à formação
do pensamento consciente, uma vez que ela obriga o desdobramento infinito da
atividade cognitiva sobre si. A própria linguagem já é resultado de um esforço
de fixação semântica do que era concebido inicialmente de forma rudimentar por
meio dos gestos, do olhar, do toque, dos meros sons vocais dispersos. Ela surge
como meio de estabelecer pontes cada vez mais seguras do significado entre os
indivíduos.
A
origem da consciência, claro está, é coletiva, social, vinculada a uma
utilidade e função apenas existente nos vínculos recíprocos e comunitários.
Ocorre que essa dimensão socializada do ser-consciente não reside apenas em sua
proveniência, pois adere a ela como sua marca constitutiva. Embora tenhamos uma
visão indubitavelmente privilegiada de nós mesmos, de nossas idiossincrasias,
dúvidas, veleidades, receios, contradições etc., o que há de verdadeiramente singular em nós deixa de
o ser ao passar pelo filtro homogeneizante, generalizador dos conceitos
assimilados do ser-coletivo. Apenas na profundidade do inconsciente é que o
si-mesmo pode se fazer valer de modo enfático, pois, na medida em que se torna
consciente, transforma-se, neste mesmo passo, em um si-pelo-outro. Se, como
disse Kant, o homem é um fenômeno para si, podemos dizer que se trata de um
fenômeno coletivizado, socializado. Está em jogo uma diluição societária da
concretude única da experiência individual, processo que se estende, então,
entre uma singularidade vivenciada, “verdadeira”, mas desconhecida, e um
fenômeno generalizado, “falsificado”, mas tornado consciente. É por isso que
Nietzsche diz que apenas uma diminuta parte de nós chega à consciência, e não é
nossa melhor parte: somente a que é agarrada pelas malhas dos conceitos sociais
e tornada genérica o suficiente para poder ser comunicada, incluindo a nós
mesmos como destinatários.
Uma
vez que se põe a questão da consciência nesses termos, a do conhecimento
desloca-se do vínculo entre sujeito e objeto para a problemática da integração
servil e de dependência entre indivíduo e sociedade. A rigor, quem conhece não
é o indivíduo, mas uma voz coletiva que estipula os graus e formas de
compreensibilidade do real por meio das infinitas regras da linguagem. Todos os
vocábulos e princípios de suas articulações, bem como as formas usuais de suas
composições, codificam valores sedimentados na inércia da vida coletiva, de
modo que somente o que é útil para a manutenção, em algum sentido, deste enorme
complexo societário, será passível de conhecimento no sentido próprio do termo.
Embora todos esses argumentos não nos autorizem a dizer que a consciência em si
seja um mal, sua hipertrofia é uma espécie de doença do ser-vivo humano,
contraída e alimentada, para não dizer tornada aguda, pelas eternas exigências
de adequação do indivíduo ao meio social.
Expressão
No
âmbito da escrita filosófica, a intenção comunicativa circunscreve o espaço de
uma homogeneidade entre autor e leitor, calcada no desejo de uma acoplagem
ótima entre pensamento e realidade, entre conceito e coisa. O rigor, a
coerência, a progressividade do mais simples ao mais complexo, a concatenação
adequada dos temas e tudo mais a que estamos acostumados como qualificadores de
um bom texto ocorre sob a premência de tornar o discurso cada vez mais transparente,
deixando de ser um obstáculo entre o âmbito do pensar e da realidade empírica.
Em contraste com isso, a escrita nietzschiana insere um componente
retórico-expressivo, com uma forte conotação estética, neste plano de
articulação conceitual. Dentre os vários elementos usados para essa estratégia,
temos a da incompreensão: um texto de
Nietzsche é um convite não aberto a todas as pessoas universalmente. Ele
demanda uma disposição intuitiva e afetiva, conectada a um dispor-se para a
realidade, de tal forma que o significado do texto, de alguma maneira, já deve
ser previamente assimilado pela própria abertura afetiva para compreendê-lo.
Isto, de fato, particulariza o universo semântico-conceitual dos enunciados a
uma plateia que já se sinta predisposta àquele.
Outro
elemento expressivo é o da polêmica:
o texto nietzschiano não pretende ser um tratado de cunho descritivo, com a
capacidade de abarcar a objetividade das coisas de forma afetivamente neutra.
Que o leitor se indigne com uma bravata, que ele se ofenda com uma colocação
francamente exagerada, que ele discorde já na própria formulação do que é dito,
tudo isso pode ser bem mais significativo para o conteúdo do texto do que a
concordância plácida, tranquila e sem aresta. Uma compreensão integral
falsifica o próprio princípio filosófico nietzschiano de denunciar a opacidade
cognitiva essencial entre o pensamento e a realidade. O choque argumentativo do
texto é, assim, parte integrante de sua propositura conceitual, retirando a
escrita deste universo antropomórfico de apropriação cognitiva da realidade
pelo âmbito societário.
Um
terceiro aspecto retórico são as lacunas:
nem tudo está escrito, nem tudo é mostrado, nem tudo é concluído. A manutenção
do hiato entre os conceitos, a interrupção prematura da argumentação, a
revelação parcial de uma hipótese, mais uma vez, obrigam o espectador a sair de
seu posicionamento narcisista de onipotência cognitiva, de se identificar
inteiramente com o que é falado. Para que nós não nos sintamos integralmente identificados
ao texto, ele mesmo não se identifica a si próprio, ou seja, recusa ser o que
ele mesmo promete a cada início de exposição conceitual. É precisamente no
esforço de preenchimento dessas lacunas, no risco de um percurso arbitrário, na
incerteza angustiante a ser sustentada, que o conhecimento se dá a perceber
como eterna e reiterada tentativa, convencendo-se de ser um empreendimento
humano, plástico, falho. Tal como disse Richard Wagner em de seus escritos
estéticos, o erro é o pai do conhecimento. Este último se firma na sempre
parcial, indecisa e incerta superação dos equívocos, das multiplicidades e
ambiguidades que permeiam a aventura humana de conhecer o real. O pensamento
nietzschiano é um convite enfático e reiterado para essa travessia.
Tudo
isso, porém, deve receber uma cláusula bastante explícita: não se trata de
dizer que a filosofia de Nietzsche seja apenas uma performance retórica
desprovida de exigências semânticas, conceituais e de hipóteses argumentativas.
Todos os livros do autor apresentam, sim, sempre o esforço de argumentar de
forma convincente, apoiando-se em um entrelaçamento forte de conceitos. A
questão consiste, na verdade, no abandono da pretensão de que o conhecimento
verdadeiro possa prescindir de sua dimensão retórica, expressiva, estética.
Desfazer-se da ilusão de uma escrita transparente e com significação plena não
pode ser comprado com o mero gozo de polêmicas inconsequentes. Todo o esforço
dos leitores de Nietzsche está em se equilibrar entre essas duas faces do saber.
* O presente texto foi a base de uma palestra
homônima apresentada na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, em Belo
Horizonte, em 11/09/2015.

3 comentários:
Texto muito claro e bem escrito. O movimento que os escritos de Nietzsche fazem são bastantes suculentos e recheados de pistas para a construção de uma nova disposição na existência. Uma dessas construções é a desconfiança em relação ao gabarito subsidiado ao modo hegemônico do conhecimento, que antes de tudo, compõe a relação de forças estabelecidas em um determinado contexto, determinada sociedade e uma determinada configuração do poder. Por este fio que o texto apresentado expõe com clareza o pensamento de Nietzsche e explora o bom trato com um assunto tão delicado - herança que o filósofo alemão nos deixa.
Texto muito claro e bem escrito. O movimento que os escritos de Nietzsche fazem são bastantes suculentos e recheados de pistas para a construção de uma nova disposição na existência. Uma dessas construções é a desconfiança em relação ao gabarito subsidiado ao modo hegemônico do conhecimento, que antes de tudo, compõe a relação de forças estabelecidas em um determinado contexto, determinada sociedade e uma determinada configuração do poder. Por este fio que o texto apresentado expõe com clareza o pensamento de Nietzsche e explora o bom trato com um assunto tão delicado - herança que o filósofo alemão nos deixa.
Obrigado, Camilo, pelo retorno. O pensamento de Nietzsche nos fornece realmente muito bons elementos de crítica da racionalidade que se consubstancia em nossos modos de vida atuais.
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