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sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Justiça, poder e individualidade: Édipo-rei, de Sófocles, e o Íon, de Eurípedes


O trágico, na Grécia antiga, significou o entrelaçamento dialético, vertiginosamente não-resolvido, entre os planos da totalidade cósmica, do movimento de instauração da experiência da comunidade político-democrática e da afirmação da individualidade ao se unificar ao redor do eu. Nessa confluência de realidades distintas, cada uma impõe sua própria verdade, ao mesmo tempo em que se dá a conhecer como arbitrária, insuficiente, buscando sempre uma dobra sobre si mesma para se afirmar. O teatro trágico grego representa a tentativa de exprimir esse modus vivendi multifacetado por meio da força da ambiguidade das palavras, do canto, das imagens, do pensamento, da ação. Nenhuma outra figura cultural seria capaz de fazer justiça à intuição íntima do quanto é, ao mesmo tempo, necessário e impossível traduzir num plano da consciência a dor ínsita na condição humana de um ser calcado em contradições insolúveis. — O objetivo deste texto é tomar as tragédias Édipo-rei, de Sófocles, e Íon, de Eurípides, como testemunhas de dois momentos distintos do percurso grego antigo na plasmação poética da consciência trágica.

Várias são as noções centrais que permeiam essas duas peças, mas vamos nos limitar a três delas: justiça, poder e conhecimento de si. Em ambas as tragédias, o núcleo estético gravita ao redor da ideia de uma justiça cósmica em contraste com o desejo de instauração do direito humano, de tal forma que os protagonistas situam-se de forma nuclear nos destinos da polis, porque são seres poderosos, capazes de ditar os caminhos de todos os cidadãos, mas tudo isso somente pode ocorrer, somente se firma em sua legitimidade operante em virtude do discernimento esclarecido de quem sou eu, de quem me gerou, de qual meu percurso. Este último aspecto não é efêmero ou marginal, pois significa uma base literária concreta como via possível de conscientização do trágico como movimento, como produção de sentido a ser agarrado pelas mãos mágicas do ímpeto poético, resgatado da noite sombria e eterna do seio da natureza em sua repetição tão infinita quanto o apetite de Cronos por seus filhos.

Em Édipo-rei, como sabemos, o personagem central faz convergir, em todas as dimensões de seu ser — desde o fato de que era manco até sua sapiência e arrogância —, o caráter heteróclito da figuração trágica da existência. Sua inteligência em deslindar o enigma da esfinge é proporcional à petulância de mandar matar um vidente cego e ancião, como proporcional também à virulência com que cega a si mesmo e pretendia assassinar sua própria mãe. O furor de suas atitudes e a eloquência de seu intelecto configuram a inquietude essencialmente humana como o preço do desejo ímpio de se livrar de um sentido preestabelecido pelo útero da natureza. Toda a démarche do processo jurídico de investigação do criminoso converge no aprofundamento de uma desgraça, cujo sentido dramático consistirá precisamente na única via de afirmação de si mesmo como humano: a assunção da culpa como filete esganiçado de esperança de ser si mesmo. Tal como disse Nietzsche, o trágico não existe sem o apolíneo, sem a sedução do vínculo unitário de tudo ao discernimento luminoso do ser das coisas e de si mesmo. Em Édipo-rei, porém, o apolíneo parece trabalhar também a serviço do esfacelamento dionisíaco, constituindo um nó dialético, em princípio inexpugnável, pois o saber confere ao protagonista uma salvação desgraçada, ou uma desgraça humanizada, o que dá no mesmo, na construção de um si mesmo que somente se impõe devido à dor que é sentida na assunção de um crime sem autoria.

Nessa vertigem de tentar escavar uma via estreita e pedregosa de contingência no meio de um pântano de forças cósmico-coletivas monolíticas e absolutas, a plasmação poética significa precisamente a tentativa de mostrar que tanto a positividade do desejo instaurador de leis quanto o destino férreo traçado pelo deus são iníquos, contraditórios em sua prepotência de doação de sentido inequívoco. Somente a transcendência poético-literária faz transitar na composição jubilosa das imagens de dor, de percurso e de desejo de salvação a única via possível de liberdade, a saber: da consciência do quão insuficiente significa a legitimidade do existir. Uma vez despido da aparência de fusão uterina com a raiz ontológica, ou seja, sagrada, de tudo, mas ainda não nutrido pela ilusão de unidade consciente de si consigo mesmo, o ser humano se apercebe como um eterno estrangeiro no espaço traçado por sua própria consciência, desistido do deus e bajulado eternamente pelo brilho ofuscante de seu saber.

De nada serve a consciência da legitimidade da pólis, se a ela escapa a solidez que a natureza desde sempre forneceu como base do sentido da vida. É preciso, pois, eternamente negociar as bases de um contrato, que o tempo todo precisa ser reformado, e o trágico demonstra a consciência grega de que toda lei é uma astúcia para fazer valer os direitos de cidadania para aquele que, sabendo-se como usurpador, quer se dar a conhecer como um legítimo filho da ordem natural do ser. O desejo final de Édipo de ser reconhecido como culpado pelo que fez demonstra um elevadíssimo grau de tensionamento dessa cisão entre a natureza sobrenatural e a pólis estrangeira. Somente o rebaixamento do valor como criminoso é capaz de elevar um desterrado à condição de autóctone, ou seja, à posição de legítimo possuidor da consciência de seu desejo.

Quando chegamos a Eurípides, a democracia já percorreu o caminho da suficiente partição dos territórios de legitimidade das esferas divina, natural e humana, sendo esta última também repartida entre opinião individual e coletiva. O mito de um povo autóctone não é mais a única figura a ser traduzida poeticamente para dar conta da consciência da precariedade do sentido, pois já possui uma finalidade política bem estabelecida: legitimar o poderio bélico e político ateniense. Nesse momento, o conhecimento de si do indivíduo se dá sobre o influxo do desejo de afirmação de si de um povo, existe como figura poética para enfatizar a legitimidade da violência apropriativa do outro. Em vez de o percurso da auto-gnose exprimir o caráter insolúvel da contradição que anima o existir humano como confluência da Natureza abissal e do Estado solar, ele agora quer demarcar um mito fundador que confere suficiente solidez a um projeto político que se pretende perpetuar. Se em Édipo-rei o apolíneo parece trair si mesmo colocando-se a serviço do aprofundamento doloroso do dionisíaco na figura da culpa, agora ele reina absoluto. A peça de Eurípides começa e termina dentro do templo de Apolo, demonstrando que o percurso noturno da dúvida entre o início, que glorifica o deus, e o término, que é glorificado pela deusa, será enquadrado pela luminosidade solar da certeza de si.

Em Édipo-rei, todo deslocamento horizontal parece transformar-se, a qualquer momento, em mais uma via de tensionamento vertical entre a luminosidade do saber e da lei, e o abismo sombrio da natureza sagrada. Labirinto é o que temos, mas permeado não apenas de falsas saídas, mas de um pseudo-solo, carente da certeza de que não atuamos apenas como fantoches da vontade divina. No Íon, de forma substancialmente distinta, temos uma narrativa linear, distendida entre dois polos luminosos, que conferem sentido a toda a negatividade intermediária. Se no Édipo a arrogância humana perante os deuses é ao mesmo tempo punida e identificada à única via possível de afirmação de si através de sua figuração poética, agora temos um deus que mente de forma ridícula no início da peça e garante a felicidade no final. Se no Édipo a ilusão de ser um rei legítimo é aniquilada pela crueza de saber um criminoso, no Íon a ilusão do rei em ser pai é produzida pelo deus e reafirmada como uma bênção, não só individual, quanto coletiva.

O espaço democrático e jurídico na positividade da pólis será precisamente o que é plasmado na peça de Eurípides: uma eterna negociação de aparências talhada para caber nos trilhos da racionalidade. A ratio é, propriamente, a capacidade de dividir, de particionar, sendo a base fundamental para a percepção jurídica da legitimidade. Em um processo jurídico, cada uma das partes será precisamente isso: uma parte de uma totalidade cujo sentido já não mais cabe questionar se está preestabelecido: até os deuses mentem politicamente, advogando por sua necessidade societária. Tudo é válido, tudo é admissível, tudo possui sua cota de legitimidade, desde que se insira de forma suficientemente bem argumentada, racionalizada, no projeto de robustez da unidade do corpo político. Para este, a inteireza do indivíduo já não é mais um problema, ou melhor, será um dos problemas a serem inseridos nesta grande narrativa da — e que é a — pólis.

Tudo isso, porém, não significa dizer que a tragédia de Eurípides seja apenas um discurso fúnebre sobre o trágico, mas sim a elevação à consciência de si de que o trágico como tal não é possível. Ele somente tem sua legitimidade de existência como processo assegurada no plano da duplicidade imagético-literária e estética. Se, como disse Nietzsche, a tragédia morreu de forma trágica nas mãos de Eurípedes, em certa medida este replica no âmbito da discursividade democrático-jurídica a consciência poética de impossibilidade de um sentido, ou seja, é como se fôssemos persuadidos de que o poder da palavra poética de instaurar uma aparência de sentido necessita, ela mesma, de uma outra imagem, uma nova tradução. No limite, o que resta são apenas conflitos entre formas de traduzir nossa precariedade no mundo.

(Este texto foi apresentado no VI Congresso de Psicanálise, Direito e Literatura, na UFMG, em 18/09/2015.)


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