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sábado, 23 de abril de 2016

Equilíbrio instável


Vladimir Safatle escreveu em sua coluna da Folha de São Paulo (22/04/16): “... uma das maiores ilusões da Nova República foi acreditar que a redemocratização brasileira exigia de seus principais atores políticos a capacidade de tecer alianças com os setores mais arcaicos da sociedade”. Ao mesmo tempo, porém, ele tem escrito várias vezes a favor da necessidade de uma repactuação política no Brasil.

Bom, o que é um pacto senão tecer alianças, fazer acordos, ceder e cobrar, transigir etc.? O que Lula fez em seus dois mandatos na presidência foi precisamente costurar um grande pacto nacional que propiciou diversas conquistas sociais. É preciso considerar que estas não foram maiores porque o ponto de equilíbrio no pacto entre um gari e um banqueiro está, obviamente, muito mais próximo deste último. “Os setores mais arcaicos da sociedade” são aqueles que possuem inevitavelmente maior poder de fogo, conseguindo, assim, impor os termos de qualquer “novo pacto” que se queira realizar agora.

A esquerda brasileira, infelizmente, é por demais utópica. Ela pensa que, em algum momento, é possível zerar a marcha da história e recomeçar tudo em termos muito mais vantajosos aos trabalhadores. O próprio Safatle é favorável a eleições gerais como uma espécie de mini-refundação da república, esquecendo que as pessoas que irão votar são as mesmas de antes, e agora nutridas de maior resignação e mais desiludidas, o que faz com que os votos de evangélicos, que sempre são dados com fé, sejam mais significativos do que na última eleição.

Ao que tudo indica, uma parte significativa de nossa esquerda ainda sonha em chegar ao poder destruindo/destituindo todas as camadas econômicas e políticas mais poderosas, seja por uma revolução comunista, seja pela vontade majoritária do povo, em um movimento auto-gestado. Essa atitude, de um utopismo impressionante, implica em ações como temos visto de intelectuais e políticos como Safatle e Luciana Genro, que combatem de forma feroz e ácida o governo Dilma, colaborando para minar a governabilidade, e que, em seguida, fazem propaganda apaixonada de um novo pacto, como se este pudesse ser feito com atores diferentes e com princípios ditados em sua maioria pela e para as classes baixas.

Na verdade, muito do processo de desestabilização política que vivemos se deveu exatamente à tentativa “heróica” de Dilma em impor aos poderosos do capital financeiro cláusulas mais propícias no pacto que havia sido gestado por Lula. Ela forçou a queda drástica da taxa de juros cobrada no país, empregando a Caixa Econômica Federal e o Banco do Brasil como agentes financeiros capazes de determinar o que o mercado privado de capitais passou a cobrar pelos empréstimos às pessoas físicas e jurídicas. Muitos analistas dizem que a elite econômica se assustou terrivelmente com essa atitude, passando a trabalhar sistematicamente contra o governo. Em outras palavras, Dilma tentou fazer precisamente o que essa esquerda pretende: um novo pacto bem mais vantajoso para as classes menos favorecidas. O grande, enorme, problema está no fato de que o equilíbrio alcançado por Lula no cenário político e econômico brasileiro ainda era muito instável, e tornou-se cada vez mais.

A ironia em todo este percurso reside no fato de que esses atores políticos de esquerda contribuíram, em sua medida, para desestabilizar este quadro mais ainda. Em vez de se unir ao redor de um governo popular como o de Dilma e Lula, de modo a, aumentando sua força, poder impor pactos melhores que os anteriores, nossa esquerda quer fazer uma espécie de formatação de nosso HD político, para poder escrever e digitar tudo de novo, como se a mentalidade política atual do país não fosse fortemente herdeira de senhores de escravos, coronéis, ditadores, plutocratas, oligarcas e uma legião de admiradores de fascistas, homofóbicos, racistas, misóginos, fundamentalistas religiosos etc. — Enquanto anda com a cabeça nas nuvens de uma sociedade nova, reformatada e repactuada, nossa esquerda dita “autêntica”, tropeça nas rochas de nossa realidade histórica, ajudando a espalhar o entulho que trava o progresso possível.


3 comentários:

savinho theodoro disse...



Uma ótima análise. A direita sempre foi mais unida e pragmática e com menos mimimi. Luciana Genro para mim foi a maior decepção.Indiretamente acabou apoiando este movimento golpista.

Andre disse...

Excelente e sensata opinião. Se a maioria dos pensadores e artífices de esquerda adotasse essa linha mais pragmática, com mudanças menos drásticas, mas constantes, e um discurso menos radical, mas verdadeiro, a história podia ter sido outra.

Kico (Henrique Lobo Weissmann) disse...

Concordo com sua visão a respeito da esquerda, realmente esta visão utópica a mina. A respeito das citações, elas me fazem lembrar do conceito de "faking it" de Scruton