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domingo, 12 de junho de 2016

Sobre o erotismo


O erótico é a linguagem do sexual, pondo-se como veículo e prática de sedução, recusa, saber, incerteza, questionamento. É a expressão de um excesso que se prende e se potencializa como inquietude diante do desejo, demandando a eloquência dos corpos e de suas imagens, metáforas, metonímias, sons, fisionomias. Ganha vida no equilíbrio instável entre o excesso e a falta, entre a potência e a fraqueza como forma de fazer falar o sexual. Este, fantasmático por excelência, ganha intelecção ao expor seu caos como duplicidade infinitamente rebatida nos gestos, nas imagens, na palavra.

O não-saber de si se completa e se reforça no não-saber sobre o outro, que, por também ignorar a si, instaura o erótico como um diálogo de surdos para o significado mais íntimo e interno do que é expresso. Dessa ignorância surgem tanto a eloquência e a vivacidade do erótico quanto sua paralisia, seu definhamento e sua explosão como violência injustificada. No erótico, o sexual exprime-se em seu descompasso e inadequação perante si mesmo. Precisamente por ser marcado pela instabilidade entre o excesso e a falta, o sexual se põe e se fala como erótico, firma-se na mobilidade da percepção de um signo, símbolo, imagem como convite emaranhado no e tingido pelo negativo, pela negação, insuportabilidade e ruptura. Isso nos diz que o erótico é uma via de codificação da violência sexual, na medida em que a força de ruptura do primeiro demanda uma via de escape para a angústia a ela associada.

Se o sexual fosse uma realidade primeira, não haveria erotismo, como parece ser o caso nos animais irracionais. Em nossa espécie, o sexo existe essencialmente como desvio, como um efeito de secreção da excitabilidade corporal absorvida e armazenada no âmbito das representações imagéticas: fantasias, traços de memória, ideias. Dada a disparidade inapelável entre a concretude da excitação, do investimento afetivo, por um lado, e o complexo representacional, por outro, entre eles vigora, ao mesmo tempo, uma insuficiência e um excesso, uma inadequação constitutiva que mobiliza infinitas buscas e rebuscamentos que tendem a um universo barroco de representações tão ricas em formas, cores, formatos, sons, quanto incapazes de nos devolver a uma plenitude vivencial, satisfeita pela fusão com o substrato somático, natural, originário, de nosso ser. Os objetos fantasísticos ocupam esse lugar miraginal de resgate de uma plenitude perdida.

Nesse cenário, qual o papel do interdito, da proibição, do tabu, da lei? De um ponto de vista tanto psicanalítico quanto filosófico, trata-se de uma temática extremamente complexa e difícil de tratar nesse tempo de que dispomos. Em linhas gerais, podemos dizer, a partir das primeiras formulações clássicas de Freud sobre a sexualidade infantil, que o sexual é transgressivo antes mesmo de qualquer vivência consciente sobre interdições, devido ao fato de surgir como uma torrente transbordante íntima/interna, momento em que o próprio eu se percebe como transgredido, violado, posto sob ameaça de ruptura iminente. Saltando diversos argumentos intermediários, dizemos que todo interdito sexual é uma espécie de exteriorização metafórica para a vivência inconsciente fundadora de nós mesmos, em que o sexual institui-se como o gozo da ruptura do que nos define. Identificamo-nos com a lei e por meio dela nos aproximamos do outro, momento em que a violação do interdito figura como projeção metonímica do penetrar e ser penetrado, da ruptura de nosso invólucro corporal, psíquico, afetivo. A lei é uma espécie de pele que absorve os investimentos inconscientes que remanescem de um estrato subjetivo arcaico, próximo ao surgimento da individualidade como vivência de uma situação-limite entre a integridade que vive e o dilaceramento que goza.

II

Os conceitos de erótico e pornográfico são bastante imprecisos, móveis, mescláveis, inviabilizando uma definição objetivamente segura, a partir da qual se possam discernir concretamente obras, gestos, imagens etc. Eles funcionam como princípios gerais, pontos de fuga, aos quais aproximamos uma obra ou suas partes. Toda pornografia é erótica, mas nem todo erotismo é pornográfico, e isso nos situa agora no plano do estético/cultural, em que a análise é facilitada (pois nosso tempo aqui é reduzido). Dizemos que a diferença reside no fato de o erótico definir-se como em movimento pendular, móvel e instável entre a certeza, a indefinição, o saber e o assenhoramento do sexual. O pornográfico, embora não elimine toda incerteza, dúvida e negatividade, insere-as em um complexo imagético em que vigora a intenção de enfatizar a positividade, a evidência, a certeza do objeto como objeto-de-prazer, como veículo de satisfação, de gozo, mesmo que não consumado. Essa não-consumação é importante porque há pornografia leve e erotismo pesado, sem que isso contrarie o que falamos antes.

O pornográfico vive e se nutre da simulação da presença, da fabricação imagética da realidade do objeto sexual (sua entificação miraginal), enquanto o erótico questiona essa presença, situa-a em um complexo expressivo heterogêneo e heteróclito, em seu esforço próprio de (de)codificação da incerteza, do caos e da violência. Embora a obscenidade seja comum a ambos, tem valor diferenciado, pois para o pornográfico ela significa um convite que pretende nos situar na percepção afetivamente preenchida de que já usufruímos da intimidade viscosa do objeto sexual, de já termos penetrado na circunferência libidinal do objeto e devassado sua sacralidade cotidiana, normal, pudica. No erótico, diferentemente, o obsceno é uma aresta, uma fímbria, uma zona fronteiriça móvel que instiga e instila o olhar como fazendo parte da própria cena, reduzindo-o, porém, nesse mesmo passo, a um mero componente em meio a vários outros neste palco sexualis.

Por mais estranho que pareça, o pornográfico dá a satisfação da recusa do sexual. Na proporção mesma em que simula a presença positiva do objeto de desejo, serve como álibi para a dispensa do esforço de atravessar a negatividade do desejo alheio. Existe um quê de catártico em toda imagem pornográfica, que evoca o sexual com a virulência típica do que se presta a ser apenas um meio para esquecer, recalcar, negar, processos de vinculação com o real que demandam compromissos mediados por construção.

Em relação a este aspecto, o erótico desafia o conceito freudiano clássico de sublimação como desvio da meta satisfação com objetos sexuais para outros, situados em planos distintos, como ciência, arte, religião. Que uma arte seja sublimação e, ao mesmo tempo, erótica, porém, não deveria ser causa de nenhuma estranheza, em virtude de que sublimar diz respeito não propriamente ao objeto percebido, mas ao tipo de investimento afetivo nele realizado, de modo que, tal como nos ensina o próprio Freud, todo sintoma neurótico significa uma sexualização inconsciente de objetos, mesmo quando estes nada têm de sexuais. O que conta propriamente no erotismo como sublimação é o modo com que toda a energia sexual trazida à tona com as imagens é, por assim dizer, neutralizada na articulação com os outros elementos, questionando sua realidade e presença sexualmente literais. Isso não significa, porém, que a excitação esteja excluída, proscrita, pois ela pode ser perfeitamente um dos componentes dessa articulação heterogênea dos componentes estéticos.