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segunda-feira, 3 de outubro de 2016

A pedagogia da anti-política


A Globo e Sérgio Moro (e demais atoras/es coadjuvantes) ensinaram muito bem às classes médias e baixas a odiar a quem defende seus direitos e interesses. Ensinaram tão profissionalmente, que até intelectuais, professoras/es universitários e formadores de opinião aderiram à cartilha de odiar não apenas o PT e partidos de esquerda, mas a política enquanto tal. Paradigmático o caso da cidade de SP: embora João Dória tenha sido eleito em 1º turno com 53% dos votos válidos, isso significa tão-somente cerca de um terço de todo o eleitorado, perdendo para a soma dos votos brancos, nulos e abstenções.

A Globo instilou o ódio ao pensamento progressista, que labora arduamente em meio às infinitas tratativas, alianças, avanços e os inevitáveis retrocessos. De uma tacada só, auxiliada pelo judiciário mais do que cúmplice, achatou a vida do indivíduo centrado em si mesmo, que se masturba eternamente com seus aparelhos tecnológicos e agora perdeu a vergonha de votar em um bibelô do sistema como se isso nos aproximasse da riqueza, de forma análoga a como nos sentimos próximos a nosso ídolo (religioso ou artístico) por comprar o CD, a camiseta, a água ungida. O voto assimilou a dinâmica subjetiva do pensamento mágico: aprisiona uma força cósmica desassociada do pensamento crítico sobre sua dinâmica material, histórica.

Muito agora retorna por fazer. Fomos reconduzidos a um estágio de consciência de classe e de tarefa de cidadania anteriores a 1990, com o agravante da desilusão astuciosa e laboriosamente magnificada pelas lentes da Globo e pelas mãos do judiciário e do ministério público. Para sair desse pântano será necessário, em primeiro lugar, uma aguerrida luta para fazer com que o horror à pobreza se desvincule do horror às/aos pobres: é essa conexão que se estabelece na bajulação diária de figuras pomposas das/os milionárias/os nas telas novelescas. O poder, em suas diversas formas, mas principalmente a econômica, é abrilhantado na narrativa meritocrática mais-do-que-ideológica: é simplesmente falsa, movida e sustentada apenas pela sistemática ocultação do berço esplêndido de onde brota, como que magicamente, toda a capacidade gerencial que, a bem dizer, não é necessária para a enormíssima maioria dos herdeiros de mega-fortunas.

O grito contra a corrupção, a cada esquina da travessia política, mostra-se como um blefe inacreditável. Um ministério de notáveis investigados e o PP, o partido mais afetado pela ação da Lava Jato, tendo ganhado uma grande quantidade de prefeituras pelo Brasil, tornam-se uma prova contundente que as/os próprias/os verdeamarelas/os indignadas/os não acreditam mesmo nessa lenga-lenga. Pura atuação, puro auto-engano (no melhor dos casos), pura encenação para atenuar a consciência culpada de dizer que não tolera políticas voltadas para os pobres. A cada passo fica mais claro que quanto mais bem-sucedidos fossem os governos Lula e Dilma em fazer avançar o poder aquisitivo das classes baixas, mais risco eles corriam, mais ódio instilavam em quem sempre odiou o progresso das classes menos favorecidas, mais seriam demonizados ao menor pretexto que surgisse: Sérgio Moro e Cia. forneceram-no em bandeja de prata, na qual a cada rodada política servem uma cabeça de petista, temperada pelas cores globais.




5 comentários:

Dag Vulpi disse...

Parabéns Verlaine Freitas. Seu texto vai ao encontro daquilo que entendo ser o mais próximo dos fatos políticos ocorridos por essas bandas tupiniquins nos últimos tempos.

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Dag Vulpi

Ricardo Veiga disse...

Data maxima venia, Mestre:

"Não foi a Globo e nem o Moro que nos ensinaram a odiar os políticos brasileiros atuais, foi o comportamento criminoso, inescrupuloso e odioso dessa gente tornado público nas denúncias e delações.

Engano: não há ódio popular da política.

Há perplexidade: "o que fazer numa democracia quando criminosos são legisladores e, às vezes, juízes?"

Concordo com sua avaliação negativa dos próceres do governo atual.

Um abraço,

Ricardo

Ana Deister disse...

Patético como a esquerda relativiza os problemas do país, e continua mantendo sobre si mesma a imagem do Messias. Me assusta a total incapacidade dos seus simpatizantes, de fazer um "mea culpa", única atitude capaz de resgatar um pouco da credibilidade nos valores que apregoa.

Verlaine Freitas disse...

Caro Ricardo, existem comportamentos ditos criminosos em nossos departamentos, em nossas universidades, em todos os partidos políticos, e nem por isso se exprime um ódio como vemos em relação ao PT e às esquerdas. É evidente que a corrupção é uma realidade generalizada em nosso país. O sistema a favorece em muito e até mesmo a exige, em diversos momentos ao se lidar com demandas absurdas de parlamentares que exigem contrapartida financeira para aprovar projetos necessários à população. Basta ler o livro "A privataria tucana" para você ver que os escândalos de corrupção dos governos tucanos deveriam ensejar um ódio muito maior do que aquele que vemos contra os petistas.

Diante de todo esse caldo cultural, porque especificamente o PT se transformou em alvo privilegiado do ódio político das classes médias? Precisamente pela articulação funesta e criminosa entre o judiciário capitaneado por Sérgio Moro e a mídia puxada pela rede Globo.

Verlaine Freitas disse...

Nós, da esquerda, sempre relativizamos os problemas do país. É verdade. Sempre consideramos que problemas são relativos e não absolutos. Muitas coisas podem estar ruins na vida de um indivíduo, de um grupo ou de uma sociedade, sem que isso seja visto como ‘problema’, pois, para que isto ocorra, é necessário situar a dificuldade ou qualquer coisa negativa sobre uma determinada ótica.

Muito do trabalho psicanalítico consiste, propriamente, em se alcançar uma via através da qual se atacam os problemas de diversas ordens, mas que poderiam ser agrupadas em duas: a) problematizar o que muitas vezes é extremamente prejudicial, mas não tem suficiente visibilidade, b) bem como desfazer falsos problemas, quando então uma queixa ou insatisfação deriva muito mais do modo como uma dificuldade é interpretada do que de sua realidade mais objetivamente percebida.

No que concerne à direita política em nosso país, seu grande problema reside precisamente em não refletir sob a ótica das relações que as coisas têm com as condições sociais, as capacidades individuais nos contextos de pobreza e penúria em que elas estão submetidas etc. Essa absolutização gera, por exemplo, a cegueira em relação à especificidade da violência contra a mulher e o discurso ideológico da meritocracia, que toma o indivíduo e suas potencialidades como algo não-relativo às condições concretas em que se podem desenvolver tais aptidões.

Em vez de ser uma crítica, dizer que nós sempre relativizamos as coisas é, na verdade, um elogio.

A esquerda não é composto por um pensamento único. É evidente que há milhares de pessoas com concepções de esquerda voltadas para alguma solução messiânica ou de revolução comunista, coisas nas quais não acredito em hipótese alguma.

Dizer que a esquerda como um todo acredita em um messias é apenas uma maneira de atacar o inimigo político ao ridicularizar seus posicionamentos. Lula não é, obviamente, o Messias. Seu governo teve vários pontos fracos, como por exemplo as ações relativas ao meio ambiente e sua desconsideração para com o ensino médio, entre outros. Só que ele saiu do governo com uma aprovação recorde de 89%, sendo reconhecido internacionalmente por vários de seus programas de assistência aos mais desfavorecidos. Ele é, de longe, o melhor presidente que o país teve desde o final da ditadura. Tendo condições políticas de governar, somente uma miopia política grave não permite ver que ele seria a melhor opção, não a perfeita, claro, pois esta não existe.