Um espaço de discussão sobre Filosofia, Psicanálise, Arte, Política, Crítica cultural e Atualidades.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Dicas de redação - 2


Em uma postagem anterior, listei doze dicas que considero muito úteis na confecção de um texto, principalmente teórico, e agora acrescento outras doze.

1. Deve-se evitar a pressa em concluir, que se evidencia por uma grande quantidade de conjunções como “portanto”, “assim”, “desse modo”. Muitas vezes, uma ideia mal foi colocada em uma primeira frase e a seguinte já se inicia com uma partícula conclusiva, o que se agrava com a inserção de outras nas orações seguintes, chegando ao paroxismo de se iniciar um parágrafo com um sonoro “portanto”! Toda vez que se cogite usar tais conjunções, deve-se questionar se a frase em questão é de fato uma consequência da anterior, pois frequentemente ela apenas acrescenta uma nova formulação do problema.

2. Em um texto teórico, deve-se evitar o excesso de anúncios de que se passará a um determinado tema ou assunto, como expresso pelas expressões típicas: “outro tópico de interesse é...”, “agora abordaremos o tema da...”, “passemos à temática do...”. Quando em quantidade excessiva, tais falas tendem a caracterizar o texto como um fichamento ou resumo, pois se perdem a fluência e a continuidade argumentativa.

3. Evite o excesso de substantivação de verbos: “a realização”, “a consumação”. Eles conferem ao texto um tom mais intelectual, mas quando em excesso tornam-no um tanto pedante e rebuscado. Em vez de “A televisão proporciona a deturpação das mensagens”, use “A televisão deturpa as mensagens”; em vez de “Essa medida provoca a redução de prejuízos”, use “Essa medida reduz prejuízos”. Como se vê nesses exemplos, a substantivação do verbo tende a escamotear a ausência de conteúdo, substituindo-o por uma formulação pretensamente mais sofisticada. Em alguns textos, quando se trocam todos os substantivos pelos verbos dos quais derivam, revela-se um discurso trivial, sem qualquer substância argumentativa.

4. Não cite palavras estrangeiras sem ter conhecimento do idioma, a não ser que tenha plena certeza de seu significado e de sua grafia. Uma vez que a indicação do termo original tem como sentido auxiliar a precisão da leitura, é contraproducente citar uma palavra que apresente incorreções de grafia e não corresponda à proposta de tradução. — Um caso muito comum em que se desmascara imediatamente a ausência de conhecimento do idioma original é a citação de substantivos alemães sem inicial maiúscula, pois, ao contrário de todas as outras línguas ocidentais, em alemão não só os nomes próprios têm inicial maiúscula, mas qualquer substantivo;

5. Não se devem começar frases (e muito menos parágrafos) com as expressões “ou seja” e “isto é”, pois elas somente fazem sentido para conectar uma explicação a uma ideia imediatamente anterior, em um fluxo de argumentação incompatível com a separação de frases; além disso, deve-se evitar seu excesso, pois muitas vezes a frase iniciada com essas locuções não explica a anterior, mas sim acrescenta outra ideia.

6. Evite o que podemos chamar de “explicativismo”, o excesso de elementos elucidativos. No afã de tornar claro um conceito teórico considerado um tanto difícil, colocam-se muitos apostos e especificações desnecessários. No limite, esse didatismo soa até mesmo ofensivo, dando a ideia de que a/o leitor não é capaz de apreender a ideia com apenas um elemento explicativo.

7. Em uma grande quantidade de vezes as palavras “pessoas”, “indivíduo” ou “sujeito” são totalmente dispensáveis, constituindo redundâncias. Quando se diz, por exemplo: “a recepção da indústria cultural pelas pessoas é muito influenciada por valores de classe”, a expressão “pelas pessoas” é dispensável, pois é genérica e somente indica o que já se sabe: não há recepção de indústria cultural a não ser por “pessoas”!

8. Sobrecarrega o texto empregar muitas vezes seguidas a preposição “de” entre palavras; isso ocorre quando se quer adensar uma formulação teórica, mas a escrita tende a ficar confusa. Exemplo: em vez de “A exigência da consideração da incerteza das condições históricas do objeto leva-nos...”, deve-se usar: “O fato de sermos exigidos a considerar a incerteza das condições históricas do objeto leva-nos...”.

9. Somente se devem indicar termos de língua estrangeira do texto estudado quando a tradução apresentar alguma dificuldade, momento em que o conhecimento do termo original tem valor; fora desses casos, configura uma inadequação, podendo ser visto como esnobismo.

10. Deve-se ter cautela com o uso de palavras que denotem intensidade ou ênfase diante de adjetivos, particularmente os que já exprimem uma intensificação; exemplos: “muito claro”, “bastante evidente”, “extremamente enfático”; cada um desses adjetivos já acentua a noção contida na palavra seguinte, não carecendo de qualquer reforçador na maioria das vezes.

11. Procure manter coerência entre os sentidos de prejuízo e de favorecimento entre verbos e seus objetos. Exemplos: “alcançar” tem implícito o sentido de conseguir algo bom, de modo que se insere certa dissonância cognitiva ao se dizer “Esse projeto alcançou grande fracasso nas avaliações da firma”, ao passo que “isento de” tende a se referir a algum ruim, de modo que “Essa perspectiva está isenta de vários aspectos positivos” deve ser alterada para “Essa perspectiva está desprovida de vários aspectos positivos”.

12. Embora seja um item de menor importância, em alguns casos contribui para a fluência da leitura: tendo falado de duas pessoas, e em seguida se quer referir a ambas com as palavras “a primeira” e “a última”, é recomendável que a designada como “primeira” tenha vivido anteriormente, quando for o caso. Exemplo: “Descartes tem uma filosofia tipicamente racionalista, enquanto Nietzsche se coloca no extremo oposto; enquanto o primeiro tem uma preocupação cognitiva, o último se esforça por refletir sobre os valores”.


4 comentários:

Diz disse...

Muito bom. Me diverti no último item :)
Vou repassar.

Ricardo Veiga disse...

Caro Verlaine,

Achei muito pertinentes e relevantes suas dicas, em três partes, pra melhorar a qualidade do estilo e dos textos acadêmicos.

Junto com o livro "A arte de escrever bem" de Dad Squarisi e Arlete Slavador, recomendarei aos alunos de graduação e pós "Dicas de redação" de Verlaine Freitas, disponíveis em seu blog.

Aliás, por favor, publique o texto na Amazon, por exemplo, usando a plataforma Creative Commons - a comunidade acadêmica agradecerá.

Refletindo sobre um artigo que estou escrevendo, tomarei suas recomendações como estímulo para aprofundar as meditações, na busca de um melhor resultado.

Obrigado!

Um abraço,

Ricardo


Verlaine Freitas disse...

Obrigado pelo retorno, Ricardo. Fico contente que minhas dicas lhe sejam úteis.
Grande abraço

Leísa Amaral disse...

Muito útil! Vou recomendar.