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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Dicas de redação - 3


Trago mais uma série de 12 recomendações para confecção de textos, principalmente teóricos, além das outras duas (links: primeira - segunda).

1.            Quando se escreve com base em concepções de outros autores — e isso constitui quase a totalidade dos trabalhos acadêmicos de monografia, dissertação e tese —, é preciso considerar que a função, a validade, o significado e a importância das formações conceituais lidas nos textos de referência não são simplesmente “transpostos” para a análise e o comentário. Muitas ideias no texto clássico podem ser paradoxais e obscuras, mas adquirem legitimidade por seu posicionamento na argumentação geral do autor. Na medida em que escrevemos um texto próprio, é necessário produzir uma nova legitimação para tais ideias, quase como se elas fossem nossas próprias. Em suma: não é porque uma formulação incompreensível ou equivocada está no texto original que ela possa ser “duplicada” em uma tese sem uma fundamentação de seu valor teórico.

2.            Ao se comentar um texto clássico, não é uma boa estratégia “narrar” o que é dito nele, dizendo: “inicialmente, o autor fala do conceito X”; “logo em seguida, o autor passa à temática Y”; “depois de falar sobre o núcleo de seu texto, o autor inicia a abordagem...”, pois isso confere a nosso texto a feição de um fichamento ou material de estudo. Há momentos em que esse tipo de exposição é legítimo e necessário, mas é preferível tecer um comentário com uma exposição conceitual própria, sem “contar o que acontece” no texto de referência.

3.            No uso de citações diretas (com aspas ou em bloco de texto recuado), é preciso ter atenção para não repetir o que a passagem citada diz. Uma vez que já se explicitou a ideia original, o comentário necessariamente deve ir além dela, pois caso contrário não se justifica usar o recurso da citação, cuja razão de ser reside precisamente no fato de a ideia ter sido expressa de forma concisa e enfática na respectiva passagem do texto original. — Eu tenho por regra restringir a um mínimo possível as citações diretas, por considerar uma tarefa precípua do trabalho interpretativo a colocação em perspectiva, a crítica, o debate das ideias dos textos clássicos, e não apenas sua exposição ou apresentação.

4.            Algumas palavras funcionam como “coringas” na escrita, aparentando dizerem alguma coisa, quando na verdade falam mais e mais, tornando o texto prolixo e, no limite, sem conteúdo. É o caso de “elementos”, “relações”, “aspectos”, “fatores”, “condições”, “circunstâncias”, que em grande parte poderiam ser simplesmente eliminadas sem acarretar perda alguma no argumento.

5.            No afã de demonstrar certeza e atitude propositiva, muitas vezes sobrecarrega-se o texto com palavras modalizadoras desnecessárias, como “todo”, “todos”, “sempre”. Não constitui diferença substantiva dizer, por exemplo, “Todos os seres humanos possuem a capacidade de linguagem”, pois “Os seres humanos possuem a capacidade de linguagem” já abarca a totalidade de nossa espécie. Trata-se de um desejo de reforço retórico que, na verdade, muitas vezes apenas dissimula falta de conteúdo.

6.            Embora esteja presente em textos acadêmicos bem conceituados, deve-se evitar o emprego frequente de “alguns comentadores dizem que...”, “muitos autores concordam com...”, “a maioria dos intérpretes diria que...”. Tais expressões devem ser preferencialmente seguidas de exemplos de pessoas que efetivamente atestam o que foi dito, pois senão tendem — com seu excesso — a configurar um “blefe”, uma afirmação vaga para dar suporte à própria argumentação que frequentemente não é comprovada.

7.            Deve-se evitar o excesso de expressões que denotem convicção, como “certamente”, “sem dúvida”, “seguramente”, por dois motivos: primeiro, porque tais partículas na verdade significam dúvida, incerteza; comparando as frases: “meu carro está no estacionamento” e “certamente meu carro está no estacionamento”, vemos que na segunda não há um saber pleno do fato, pois a partícula inicial coloca todo o peso cognitivo no sujeito, em seu estado de consciência, e não no vínculo com o objeto; outro motivo é que, devido exatamente a esse caráter paradoxal de tais vocábulos, eles demonstram a necessidade de auto-afirmação, de reforço das convicções, colocando em dúvida o quanto se possui, de fato, clareza da validade dos argumentos.

8.            Deve-se evitar a reafirmação do objeto ou pessoa em orações diferentes em uma mesma frase, principalmente com o uso de “o mesmo” ou “a mesma”; exemplo: em vez de “Uma vez que a ação dos políticos diz respeito ao bem comum, a mesma [ou: ela] não tem valor independente da opinião pública”, é preferível: “Uma vez que diz respeito ao bem comum, a ação dos políticos não tem valor independente da opinião pública”.

9.            É recomendável economizar ao máximo expressões que denotem quantidade indefinida como “vários”, “diversos”, “alguns”. Em boa parte das ocorrências, não acrescentam informação alguma, pois se limitam a estipular que a afirmação tem como objeto uma parte do universo dos referentes, o que frequentemente já está subentendido; em vez de: “Essa teoria contradiz diversas práticas científicas em voga na segunda metade do século 20”, é preferível: “Essa teoria contradiz práticas científicas em voga na segunda metade do século 20”. Além disso, elas tendem, com seu excesso, a indicar certa hesitação quanto à validade do que se diz.

10.        Outro acréscimo desnecessário porque também supérfluo são as palavras “possível” ou “possíveis”. Em alguns momentos, são úteis por indicarem viabilidade, mas, em geral, não acrescentam nada ao discurso. Exemplo: “Dentre as alternativas possíveis para o agente moral...”: se alguém decide segundo princípios morais, logo as alternativas já são possíveis, de modo que a frase não perde nada sem esse vocábulo: “Dentre as alternativas para o agente moral...”.

11.        Deve-se manter ao máximo a linearidade do texto, sem interpolar verbos com regências diferentes e outras formas prejudiciais ao fluxo de leitura. O exemplo mais claro é quando se interrompe a continuidade da frase com verbos ou adjetivos que solicitam preposições distintas: em vez de “A vida em sociedade tem origem na, e ao mesmo tempo depende da, observância das leis”, deve-se usar “A vida em sociedade tem origem na observância das leis e depende dela”;

12.        Embora não haja, em princípio, impedimento ao uso de expressões coloquiais em textos teóricos, elas não são recomendáveis, e seu excesso deve ser totalmente evitado. Uma vez que tais textos, particularmente no âmbito da filosofia e das ciências humanas, lidam com a articulação de vários temas parciais em um complexo geral, muitas vezes surge a necessidade de dizer que um/a autor/a “chama a atenção” para determinado aspecto de um problema. Essa é uma expressão por demais coloquial, e deveria ser substituída por “ressalta”, “enfatiza”, “salienta” ou “focaliza”.