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domingo, 18 de junho de 2017

Por que a Globo quer a saída de Temer?


Em toda essa luta intestina pelo poder, travada entre representantes dos diversos poderes: políticos, jurídicos, mediáticos, empresariais etc., a faceta mais enigmática é a determinação resoluta das organizações Globo em retirar Michel Temer do poder. Considerando-se ter sido esse grupo mediático o carro-chefe do processo de impeachment, junto com juízes e procuradores-estrela da Lava Jato, e ainda o fato evidente de ele apoiar integralmente todas as “reformas” em curso, resta muito pouco para explicar este engajamento pela continuidade do “primeiro a gente tira Dilma e depois o resto”.

O fato de o mandatário da república ter sido flagrado em uma conversa com indícios de crimes graves chega a ser ridículo como este “pouco” para esclarecer o empenho dos Marinho. Não nos esqueçamos: a conversa gravada entre Joesley e Temer não foi espontânea, e sim fruto de uma ação orquestrada para produzir provas, confirmando o já anunciado nas conversas e tratativas do empresário com procuradores e juízes. Parafraseando Sérgio Machado, é impossível a Globo não saber “dos esquemas do Temer”, antes mesmo da campanha contra Dilma: tratou-se apenas do timing certo para retirar um dos pés de apoio do agora acusado como chefe da pior quadrilha criminosa do Brasil.

Considerando ser a fragilidade do governo federal um grande empecilho para não apenas a celeridade, mas até mesmo à própria aprovação das reformas trabalhista e previdenciária, o empenho político da Globo seria contraditório. Inicialmente, esse paradoxo seria desfeito ao se assumir sua intenção de trocar Michel temer por alguém do PSDB, mas não é de hoje que os principais nomes do partido estão gravemente atingidos por denúncias de corrupção e desvio de dinheiro público. Faria pouco sentido armar toda esta a ação combativa com o propósito de catapultar João Dória ao Palácio do Planalto, considerando sua pouca experiência administrativa, ausência de fatos capazes de engrandecer sua imagem, pouquíssimo carisma popular, baixíssima representatividade eleitoral no nordeste etc.

Em suma: falta algum elemento propositivo a compensar a instabilidade política e a deslegitimação de um governo até agora completamente orientado a cumprir os objetivos do grande empresariado, cujo principal porta-voz são as organizações Globo.

A única resposta viável me parece ser o desejo de apoiar Jair Bolsonaro à presidência da república. A história política, pelo menos desde o início do século XX, tem exemplos fartos de a extrema direita ser tomada como “solução” pseudo-política das massas em situação de desesperança, anomia, instabilidade econômica e institucional. Em vez de lutar pela construção de mecanismos inclusivos e de distribuição das oportunidades de trabalho, favorecendo a distribuição de renda e o alargamento da participação democrática nas decisões, tem-se exatamente o inverso: uma regressão político-democrática, tomando o sacrifício individual como preço por uma ordem e estabilidade impostas desde cima pela mão suficientemente forte, cujo autoritarismo se coaduna perfeitamente com a “condição de desamparo”, tão bem estudada por Freud. Aquele defensor dos governos ditatoriais e dos mecanismos de tortura se presta especialmente bem a esse papel. Ao contrário de João Dória, sua inexperiência administrativa lhe é favorável, pois o regime imaginário a ser mobilizado em sua propaganda mediática espontânea é exatamente a atuação extra-institucional, não-política, agindo como um rolo compressor sobre não apenas a desordem, mas fundamentalmente sobre as diferenças, sobre as heterogeneidades das demandas. Em vez do esforço de construção de uma sociedade igualitária, tem-se o princípio regressivo de achatamento das diferenças por imposição de cima para baixo.

O Brasil sempre foi uma sociedade autoritária, golpista e avessa ao espírito democrático, tendo experimentado breves momentos de estabilidade para a construção do espírito de cidadania. O projeto político favorecido pelas organizações Globo é uma reação forte e radical ao que os governos de Lula e Dilma representaram como construção democrática. Quanto maior a percepção de instabilidade das instituições políticas, quanto maior a descrença e a desesperança em soluções “políticas”, mais se pavimenta a via do autoritarismo. Esperamos que o Brasil não siga este caminho.