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quinta-feira, 13 de julho de 2017

Qual inimigo queremos?


O preceito bíblico de amar ao inimigo, segundo Nietzsche, é efetivamente praticado — e na verdade segundo uma lógica pré- ou extra-moral — por aquelas e aqueles que são fortes, que possuem a suficiente nobreza de caráter e a robustez emocional de saber do mundo como campo de forças. Nesse palco de várias atrizes e vários atores, fazer valer seus princípios valorativos e sua vontade consiste em reconhecer a força e a verdade alheias em uma disputa eternamente não resolvida de forma final, derradeira. Quem é forte se rejubila com este enfrentamento na exata medida em que as jogadoras e os jogadores se enfrentam no campo aberto das possibilidades de equacionamento dos quereres.

Outro é o caso das pessoas fracas, cuja marca distintiva é a dissimulação, os subterfúgios, as espertezas traiçoeiras e, sobretudo, a baixeza de espírito, o apego às mesquinharias, tudo isto resultando na tentativa de obter uma vitória moral-moralista sobre o outro. Nesse momento, a objetividade do enfrentamento político das verdades cede lugar a uma espécie de esgrima de artifícios retóricos não apenas morais, mas moralistas.

Com base neste panorama conceitual pode-se avaliar o quão pequena e politicamente abjeta é a comemoração ufanista, pseudo-patriótica do prefeito João Dória para com a condenação explicitamente sem provas materiais de Luiz Inácio Lula da Silva. Ignorando completamente o quanto o juiz Sérgio Moro precisou se defender longamente de ser um juiz partidário, pois frequentou largamente eventos promovidos pelo próprio prefeito; desconsiderando o fato de toda a peça sentencial se basear apenas em delações obtidas com base em atenuações de pena radicais, Dória estende bandeiras do Brasil como se a condenação de seu adversário político fosse um troféu para este nacionalismo mais do que abjeto.

É bom ter adversárias e adversários, é imperioso medir a própria verdade com a alheia, é salutar sair de seu próprio umbigo e atravessar a incerteza que significa ter de se haver com o outro, mas causa nojo e até náuseas confrontar-se com uma postura tão mesquinha, baixa- e politicamente moralizante quanto a de João Dória. Essa qualificação não é levantada apenas em virtude das ações em si, mas também pelo modo como ela fomenta o mesmo tipo de atitude nas mentes de todas e de todos que aguardam apenas tais exemplos para dar vazão a uma atitude anti-política, regressiva em termos éticos e falsa como princípio humano para lidar com a diferença. Tudo o que nós queremos são adversárias/os e mesmo inimigas/os honestas/os, que saibam celebrar a luta como uma busca por uma verdade comum, e não como quem esgrima uma verdade moralista subterrânea para atingir a quem se expõe no palco das diferenças públicas e políticas.


quarta-feira, 12 de julho de 2017

Injustiça perfeita


A injustiça no Brasil não seria perfeita se apenas absolvesse grandes empresários e políticos poderosos flagrados em conversas altamente comprometedoras e com indícios claros de atos ilegais. Ela jamais se daria por satisfeita com a impunidade à luz do dia, servida de bandeja e temperada com elogios rasgados a quem ameaça matar delatores. Nesse mundo de uma injustiça que a cada dia se afirma soberana, é necessário, ainda, que as decisões e sentenças contra adversários políticos do sistema sejam baseadas apenas em convicções e delações obtidas sob uma pressão semelhante a tortura.

Nesse mundo, todo o sistema jurídico vai se transformando em um instrumento radicalmente iníquo da política: seu braço direito, que, junto com o dos meios de comunicação, tende a esmagar a possibilidade de um mundo melhor.

Nenhum político foi tão radicalmente investigado, e por tanto tempo, quanto Luiz Inácio Lula da Silva, e não por acaso isso se liga ao fato de ter saído de seu segundo mandato presidencial com quase 90% de aprovação popular. Como já se disse à exaustão, este é o verdadeiro “crime” deste grande estadista. Sentenciá-lo significa a celebração da lei do mais forte, da auto-afirmação de um sistema que já não precisa esconder sua predileção por A ou por B. — Não bastaria aparecer aos sorrisos com Aécio Neves, nem participar de festas e eventos promovidos por membros do PSDB: Sérgio Moro precisava condenar sem provas materiais o inimigo político número 1 daquele grupo com o qual se confraternizou abertamente tantas vezes.

Somente quando um sistema jurídico não precisa mais justificar de forma cabal suas sentenças, podendo prescindir da materialidade das provas e se basear tão-somente em delações não comprovadas, somente aí é que esta máquina se sente convicta o bastante para ser um tentáculo das forças políticas que tentam estrangular as forças progressistas.

Claro está, porém, que o objetivo não é propriamente prender Lula, pois Sérgio Moro sabe perfeitamente de sua inocência, tal como todas e todos votantes a favor do impeachment de Dilma também atestavam sua honestidade. O texto final poderia ser apenas este: “condeno Lula a não se candidatar à presidência”. De forma análoga a como as senadoras e os senadores mantiveram os direitos políticos de Dilma, pois a única coisa que interessava era tirá-la do poder, da mesma forma Sérgio Moro poderia dizer que não condena Lula à prisão: trata-se de imputar uma “culpa” apenas até onde interessa ao braço jurídico do sistema político da direita brasileira.

Por fim, a injustiça em nosso país não seria perfeita se não cumprisse um ritual perverso, condenando Lula um dia após condenar todas as trabalhadoras e todos os trabalhadores assalariados no Brasil a uma perda radical de seus direitos: essa é a trajetória de nossa (in)justiça, esse é o percurso de um mundo neoliberal, que cassa direitos, que “libera” a todas e todos da base da pirâmide social a serem objeto do mais aviltante arbítrio e exploração predatória sistemática.

sábado, 1 de julho de 2017

Liberalismo medieval


O “liberal” no Brasil, como aponta o sociólogo Jessé Souza, é na verdade um “conservador”. Ele quer “liberar” ao grande empresariado industrial e principalmente financeiro as trilhas à exploração predatória não apenas de nossos recursos naturais, da telecomunicação, dos transportes etc., mas também da saúde, da educação e, agora estamos vendo, da aposentadoria e dos direitos trabalhistas. Trata-se não apenas de “conservadorismo”, mas de “reacionarismo”, pois se reage contrariando toda medida de progresso social.

Quem defende o “liberalismo” no Brasil, apoia com todas as letras o “aprisionamento” da classe trabalhadora aos meios cada vez mais restritos de seu puro trabalho sem direitos, sem perspectiva de amparo estatal, sem a garantia de se aposentar de forma digna, sem poder contar com educação e saúde públicas. O “liberalismo”, isso está claro, somente quer um estado mínimo para evitar o atendimento à classe trabalhadora no que ultrapasse o ganho monetário estritamente ligado à hora trabalhada. Tudo além disso deverá ser drenado para o bolso e os cofres do grande empresariado.

Outra — e radicalmente distinta — é a concepção do “máximo” e “mínimo” concernente  à disponibilidade financeira e política do Estado para socorrer bancos e empresas em dificuldade para cumprir seus contratos. O PROER de FHC, que despejou bilhões de reais para salvar bancos falidos, antecipou o mesmo tipo de atitude tomada pelo governo de Barack Obama na crise imobiliária e financeira de 2008: o Estado é e sempre continuará “máximo” no acolhimento, suporte e favorecimento dessas demandas absurdamente iníquas. Enquanto um programa de distribuição de renda como o Bolsa Família oferece às pessoas extremamente pobres um mínimo necessário para uma existência um pouco menos sofrida e é atacado vorazmente como “compra oficial de voto” e “sustento de vagabundas/os”, aqueles presidentes desperdiçaram dezenas de bilhões (mais de um trilhão, no caso dos EUA) para cobrir prejuízos sociais com atitudes criminosas de grandes capitalistas, mas usam como justificativa a necessidade de estabilidade do sistema.

O liberalismo regressivo de nossos tempos, o neoliberalismo, em suma, é o canto-presságio do fim da política: é a rapsódia que declama o sonho de transformar o mundo em células de trabalho geridas por capatazes que as colocam e mantêm nos trilhos. O Estado se restringiria à incumbência de robustecer o sistema ferroviário dessa malha de escoamento da riqueza para cima. Em vez de primar pela orquestração de um sistema de correção horizontal dos acordos, o núcleo central — que nem mais poderia ser chamado de “político” na acepção histórica do termo — se consumiria como avalista e fiador dos poderosos donos desses novos feudos, que voltam a ter seus servos atrelados às suas porções diminutas do que restou da partilha voraz dos grandes senhores.

Diferente do medievo, porém, esse novo feudalismo distribui não apenas migalhas, mas um poder imaginário a quem se submete a ele: mastiga-se a identificação com o núcleo de poder enquanto se engole a própria saliva, ruminando um chicle multi-colorido de valores sem substância, mas que alegram. Nessa toada de eterna planificação que nada mais faz do que lubrificar o caos das relações entre capital e trabalho a favor do primeiro, restará sempre o abrigo eterno da transcendência, vocalizado pelos emissários divinos que cobrarão sua quota financeira e de representatividade, dirigida explicitamente aos interesses do andar de cima. Colocadas/os nas fogueiras da inquisição do preconceito público elevado a norma das escolas, dos partidos e das organizações estatais estarão todas e todos que desviam dos valores pétreos e consagrados nos códigos pseudo-naturais, pseudo-divinos, abertamente cínicos.