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sábado, 1 de julho de 2017

Liberalismo medieval


O “liberal” no Brasil, como aponta o sociólogo Jessé Souza, é na verdade um “conservador”. Ele quer “liberar” ao grande empresariado industrial e principalmente financeiro as trilhas à exploração predatória não apenas de nossos recursos naturais, da telecomunicação, dos transportes etc., mas também da saúde, da educação e, agora estamos vendo, da aposentadoria e dos direitos trabalhistas. Trata-se não apenas de “conservadorismo”, mas de “reacionarismo”, pois se reage contrariando toda medida de progresso social.

Quem defende o “liberalismo” no Brasil, apoia com todas as letras o “aprisionamento” da classe trabalhadora aos meios cada vez mais restritos de seu puro trabalho sem direitos, sem perspectiva de amparo estatal, sem a garantia de se aposentar de forma digna, sem poder contar com educação e saúde públicas. O “liberalismo”, isso está claro, somente quer um estado mínimo para evitar o atendimento à classe trabalhadora no que ultrapasse o ganho monetário estritamente ligado à hora trabalhada. Tudo além disso deverá ser drenado para o bolso e os cofres do grande empresariado.

Outra — e radicalmente distinta — é a concepção do “máximo” e “mínimo” concernente  à disponibilidade financeira e política do Estado para socorrer bancos e empresas em dificuldade para cumprir seus contratos. O PROER de FHC, que despejou bilhões de reais para salvar bancos falidos, antecipou o mesmo tipo de atitude tomada pelo governo de Barack Obama na crise imobiliária e financeira de 2008: o Estado é e sempre continuará “máximo” no acolhimento, suporte e favorecimento dessas demandas absurdamente iníquas. Enquanto um programa de distribuição de renda como o Bolsa Família oferece às pessoas extremamente pobres um mínimo necessário para uma existência um pouco menos sofrida e é atacado vorazmente como “compra oficial de voto” e “sustento de vagabundas/os”, aqueles presidentes desperdiçaram dezenas de bilhões (mais de um trilhão, no caso dos EUA) para cobrir prejuízos sociais com atitudes criminosas de grandes capitalistas, mas usam como justificativa a necessidade de estabilidade do sistema.

O liberalismo regressivo de nossos tempos, o neoliberalismo, em suma, é o canto-presságio do fim da política: é a rapsódia que declama o sonho de transformar o mundo em células de trabalho geridas por capatazes que as colocam e mantêm nos trilhos. O Estado se restringiria à incumbência de robustecer o sistema ferroviário dessa malha de escoamento da riqueza para cima. Em vez de primar pela orquestração de um sistema de correção horizontal dos acordos, o núcleo central — que nem mais poderia ser chamado de “político” na acepção histórica do termo — se consumiria como avalista e fiador dos poderosos donos desses novos feudos, que voltam a ter seus servos atrelados às suas porções diminutas do que restou da partilha voraz dos grandes senhores.

Diferente do medievo, porém, esse novo feudalismo distribui não apenas migalhas, mas um poder imaginário a quem se submete a ele: mastiga-se a identificação com o núcleo de poder enquanto se engole a própria saliva, ruminando um chicle multi-colorido de valores sem substância, mas que alegram. Nessa toada de eterna planificação que nada mais faz do que lubrificar o caos das relações entre capital e trabalho a favor do primeiro, restará sempre o abrigo eterno da transcendência, vocalizado pelos emissários divinos que cobrarão sua quota financeira e de representatividade, dirigida explicitamente aos interesses do andar de cima. Colocadas/os nas fogueiras da inquisição do preconceito público elevado a norma das escolas, dos partidos e das organizações estatais estarão todas e todos que desviam dos valores pétreos e consagrados nos códigos pseudo-naturais, pseudo-divinos, abertamente cínicos.

Um comentário:

Renato Fabiano disse...

A citação de Jessé Souza é excelente e abre o caminho para a obra desse sociólogo. Pelo pouco que pude pesquisar, recomendo e agradeço. Ideias como a citada, de que o liberal brasileiro é um conservador e da de que a escravidão define até hoje nossa sociedade merecem maior leitura e incorporação aos nossos argumentos para ajudarem a compreender parte da realidade da qual somos parte. Gratidão por compartilhar.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Jess%C3%A9_de_Souza
http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2017/09/1920559-escravidao-e-nao-corrupcao-define-sociedade-brasileira-diz-jesse-souza.shtml