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domingo, 12 de novembro de 2017

O jornalismo canalha deve morrer


O colunista da revista IstoÉ, Mario Vitor Rodrigues, escreveu um artigo em seu blog intitulado “Lula deve morrer”. Tanto nas frases quanto nos parágrafos seguintes esta ideia estapafúrdia é repetida, e justificada por meio de todos os clichês que a grande imprensa usa para demonizar o PT como organização criminosa. Tal como em todas as outras vezes, tudo é falado como verdade absoluta, negligenciando completamente o quanto toda essa percepção é francamente manipulada pela indignação seletiva e pelas verdades parciais traduzidas à tona de forma imediatista — sem contar o apoio absurdo nas atitudes partidarizadas do judiciário.

Somente depois de a expressão “Lula deve morrer” ser empregada diversas vezes é que vemos que se trata de uma metáfora: a morte deve ser política. Um recurso cínico, canalha e desonesto do ponto de vista de um jornalismo responsável. Excita-se, estimula-se, provoca-se a leitura literal de que se trata da morte do indivíduo, tanto no título quanto no resumo do texto, para então, somente depois de municiar o ódio com esta abertura escandalosa de incitação a uma agressão ao ser humano, dizer que se trata tão-somente de uma figura de linguagem.

Este artigo reproduz em seu interior, de uma vez só, a velha e abjeta estratégia de toda a grande imprensa: noticiar de forma espalhafatosa com manchetes de primeira página uma acusação gravíssima contra seus opositores políticos para, alguns dias ou semanas depois, escrever um “erramos” no rodapé da página 5, mostrando o quanto o conteúdo da notícia original não procede, precisa ser relativizado, apresenta vários outros dados etc. Somos jogados de um fato ao outro, de uma expressão linguística a outra, de uma imagem a outra, e nessa medida os afetos políticos são exaltados, reprimidos, deslocados, retirando de cena toda a busca pela objetividade, todo o exercício em uma atitude sóbria de valoração das propostas políticas, das atitudes de nossos representantes. Pior até mesmo do que essas verdades parciais e as honras que são demolidas sob o império das manchetes de primeira página e das capas de revistas sensacionalistas é a incitação continua de nos movermos pelo afeto imediato, pelo apoio inconsequente de nossas ações e julgamentos no que nos é servido de bandeja nesses drops de notícias, opiniões e flashes televisivos.

Este jornalismo precisa morrer. Ele precisa ser posto sob a ótica da busca da objetividade. Este colunista da revista IstoÉ merece todo o nosso repúdio, toda a nossa indignação. Merece ser execrado publicamente como exemplo paradigmático de como não se deve transformar um adversário político em um inimigo de guerra. O cinismo com que excita o desejo de morte a seu adversário mereceria ser a certidão de óbito de sua atuação profissional como jornalista, a não ser sob a condição de se retratar clara e explicitamente. A manipulação hedionda que vimos agora, por si, seria suficiente para colocar sob suspeição qualquer outra linha a ser escrita por ele. 

Caso esta revista tenha algum brio, preze por algum orgulho de circular pelas bancas, consultórios e bibliotecas do país, deve despedir imediatamente esta figura, a bem do nosso jornalismo, que merece viver enquanto sustente um mínimo de respeito à dignidade humana, ao adversário como o diferente que merece e precisa existir para que continuemos a chamar o nosso espaço em comum de democracia, mais: de humanidade.