<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-2257787801295386827</id><updated>2012-03-05T09:50:28.491-03:00</updated><title type='text'>Blog do Verlaine</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2257787801295386827/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Verlaine Freitas</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10829879484126407328</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-G8tX_Am1rhU/TuaO2ql9tFI/AAAAAAAAAFo/R439dUrIlOA/s220/DSCN1829%2Bb.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>48</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2257787801295386827.post-8023268588846039262</id><published>2012-03-02T23:49:00.000-03:00</published><updated>2012-03-02T23:49:16.552-03:00</updated><title type='text'>Da obscura lógica do desejo</title><content type='html'>&lt;div style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;div style="font: 13.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: normal normal normal 13px/normal Verdana; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Considere esses três cenários:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: normal normal normal 13px/normal Verdana; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; min-height: 16px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: normal normal normal 13px/normal Verdana; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;1º: Nas primeiras décadas dos jogos olímpicos da era moderna, notava-se com alguma frequência que em competições mais longas os atletas tinham alguma forma de diminuição brusca de suas forças físicas e/ou emocionais perto do fim da prova, tal como a ocorrência de cãibras, fraquezas súbitas nas pernas, e outras perdas de eficiência motora, que faziam com que, mesmo estando em condições propícias para ganhar a competição,&amp;nbsp;&amp;nbsp;eram derrotados nos momentos finais. Com a crescente profissionalização do esporte, isso foi diminuindo gradativamente.&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: normal normal normal 13px/normal Verdana; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; min-height: 16px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-VyHl-YV5PFg/T1GELymJ4mI/AAAAAAAAAJw/6U8qZ8uYxpM/s1600/Long_Distance_Running.jpg" imageanchor="1" style="clear: right; float: right; margin-bottom: 1em; margin-left: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="200" src="http://1.bp.blogspot.com/-VyHl-YV5PFg/T1GELymJ4mI/AAAAAAAAAJw/6U8qZ8uYxpM/s320/Long_Distance_Running.jpg" width="320" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: normal normal normal 13px/normal Verdana; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;2º: Já há muito tempo estabeleceu-se, em leis trabalhistas, um período de férias dentro de um calendário anual, em que a quase totalidade dos trabalhadores tem a opção de um período de descanso a cada doze meses. Em um cenário típicamente neurótico, no décimo primeiro mês, ou seja, nas semanas finais do período de trabalho, algumas pessoas passam por uma crise, seja emocional, de stress ou até mesmo de pânico. Naturalmente, é sempre possível localizar problemas semelhantes a estes ao longo de todo o período, mas o que me interessa aqui é a especificidade desta ocorrência sintomática, em que a proximidade do período das férias provoca uma alteração substantiva na constelação psíquica/emocional suficientemente distinta de todo o cotidiano.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: normal normal normal 13px/normal Verdana; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; min-height: 16px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: normal normal normal 13px/normal Verdana; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;3º: Quando se fala de insônia, o que vem à mente em primeiro lugar é passar a noite em claro, ou demorar bastante a adormecer. Esta forma, entretanto, é apenas uma, entre várias outras, como por exemplo acordar repetidas vezes ao longo da noite, fazendo com que todo o período não somente seja bastante interrompido, como também pouco reparador, uma vez que o sono não se aprofunda. Mas há outro, que também é bastante típico, em que o sono é interrompido com uma ou duas horas de antecedência em relação ao período que a própria pessoa a precisaria para se sentir satisfeita. Nesses casos, não há dificuldade nenhuma em adormecer, nem de ter um sono aprofundado, mas sim de permanecer dormindo nesses momentos finais em que,&amp;nbsp;&amp;nbsp;ao que parece, o sono começa a ter uma intensidade menor do que a necessária para manter a pessoa adormecida. Caso a pessoa não consiga voltar a dormir, então se configura realmente uma insônia, pois todas as atividades durante o dia ficarão comprometidas.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: normal normal normal 13px/normal Verdana; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; min-height: 16px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: normal normal normal 13px/normal Verdana; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Está muito claro o que há de comum entre estes três casos. Em todos eles temos não apenas um&amp;nbsp;&lt;i&gt;fracasso&amp;nbsp;&lt;/i&gt;subjetivo de finalizar um processo relativamente longo, dentro de sua realidade própria, mas também visivelmente uma atitude de&amp;nbsp;&lt;i&gt;auto-sabotagem&lt;/i&gt;,&amp;nbsp;&amp;nbsp;um atentado contra uma forma de auto-realização.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: normal normal normal 13px/normal Verdana; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; min-height: 16px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: normal normal normal 13px/normal Verdana; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Não é difícil fazer uma análise com base em uma perspectiva psicanalítica por assim dizer clássica, ortodoxa. Apesar das infinitas diferenças das motivações, censuras, desejos e fantasias inconscientes dos indivíduos (diferenças que devem sempre ser levadas em conta a fim de se respeitar a verdade individual da constituição psíquica), estaria em jogo a associação da vitória esportiva, das férias merecidas e do descanso para um novo dia de trabalho com algum desejo inconsciente submetido a uma censura,&amp;nbsp;&amp;nbsp;também inconsciente, de tal modo que se tem uma proibição de acesso a um&amp;nbsp;&lt;i&gt;representante atual&amp;nbsp;&lt;/i&gt;de objetos de desejo primários,&amp;nbsp;&amp;nbsp;arcaicos. Ao mesmo tempo em que os objetos atuais atraem com um poder de fascínio suficiente para estimular sua busca, são também repelidos com igual força, fazendo com que sejam recusados nos momentos derradeiros para sua realização.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: normal normal normal 13px/normal Verdana; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; min-height: 16px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: normal normal normal 13px/normal Verdana; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Apesar da complexidade tanto do problema abordado, quanto dos fundamentos teóricos dessa explicação, quero apontar para um aspecto que me parece frágil, que é o fato de que lhe essa auto-sabotagem é percebida quase que exclusivamente como uma&amp;nbsp;&lt;i&gt;determinação negativa&lt;/i&gt;,&amp;nbsp;&amp;nbsp;ou seja, como recusa, proibição, censura, impedimento em relação a um objeto de desejo. Embora seja verdade que nessa perspectiva a realização do desejo ainda se faça, pelo fato de que a vitória ou a noite de sono completa são fantasiadas como realizando um desejo inconsciente, o fracasso em seu alcance absorve quase que integralmente a dimensão de censura e impedimento. De minha parte, gostaria de propor uma interpretação que, sem abandonar esse aspecto do problema, o aborda a partir de uma&amp;nbsp;&lt;i&gt;determinação positiva&lt;/i&gt;, que tal forma que cada uma das formas de auto-anulação é índice de uma&amp;nbsp;&lt;i&gt;afirmação desiderativa&lt;/i&gt;, correspondendo a realização não apenas de uma censura, mas também de um desejo.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: normal normal normal 13px/normal Verdana; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; min-height: 16px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: normal normal normal 13px/normal Verdana; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Usando a atmosfera lúdica do primeiro caso, gostaria de começar falando de uma característica de todo jogo que muitas vezes passa desapercebida. Em qualquer competição, desde a brincadeira infantil até um jogo profissional,&amp;nbsp;&amp;nbsp;quando existe muita disparidade de forças, o prazer é bastante diminuído, até o ponto de ficar totalmente sem graça participar do jogo. É muito evidente que competir com alguém que não demonstra nenhuma habilidade praticamente torna sem sentido a atividade, pois a vitória sem alguma forma de resistência é inexpressiva (a rigor nem existe "competição"). Obviamente, quando não há nenhuma possibilidade de vitória de nossa parte, o jogo também não é atrativo, embora nesse caso ainda possa ser estimulante pelo fato de podermos de alguma maneira testar nossas habilidades. Desse modo, o prazer do jogo consiste propriamente nessa&amp;nbsp;&lt;i&gt;zona de indefinição&amp;nbsp;&lt;/i&gt;entre a vitória e a derrota, de tal forma que a primeira só oferece o prazer do jogo quando é mediada pela possibilidade de derrota, sendo que, quanto mais indefinida ela é, mais a competição tende a se tornar "eletrizante". O comércio com a derrota, a proximidade dela, a exposição aos momentos de fracasso são um ingrediente não apenas necessário, mas constituinte do "verdadeiro" prazer do jogo. Nesse sentido, um dos vários fatores que explicam o sucesso do futebol em todo o mundo seria a grande margem de indefinição da posse de bola, tornando o acaso um elemento constante ao longo de toda a competição. Prova disso é o fato de que em vários jogos se ouve o comentário de que o placar até aquele momento era injusto,&amp;nbsp;&amp;nbsp;uma vez que não tinha relação aparente com o quanto um dos times jogou melhor.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: normal normal normal 13px/normal Verdana; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; min-height: 16px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: normal normal normal 13px/normal Verdana; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Nesse arco de possibilidades combinatórias entre a derrota consumada e a vitória por inteiro -- agora não mais especificamente do jogo em sentido literal, mas deste tomado como metáfora das ofertas de satisfação dos objetos de desejo --, podemos dizer que cada pessoa encontrará modos de se posicionar frente às motivações para a persistência de seu investimento nas inúmeras vicissitudes do que determinada realidade demanda. Eu diria que o fundamento mais seguro de análise é o de uma radical indefinição,&amp;nbsp;&amp;nbsp;por princípio, daquilo que mais atrai, seduz, nesse torvelinho dialético entre o perder-se totalmente em meio à solicitude eletrizante do enfrentamento com os obstáculos, por um lado,&amp;nbsp;&amp;nbsp;e a saída definitiva dele pela consumação da "vitória". Isso não deve ser interpretado como uma recusa de determinar o que seja forte o suficiente como mobilizador dos investimentos psíquicos, mas sim como uma tomada deliberada de posição que insiste no fato de que o desejo humano é suficientemente móvel para se fixar em quaisquer das infinitas formas de equacionamento entre a necessidade de solucionar o conflito psíquico inconsciente e as possibilidades de satisfação oferecidas na objetividade da constituição histórica dos objetos de desejo.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: normal normal normal 13px/normal Verdana; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; min-height: 16px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: normal normal normal 13px/normal Verdana; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Trata-se de um princípio não apenas metodológico, algo como uma caricatura do princípio de indeterminação do elétron de Heisenberg transposto para o âmbito desiderativo (= de desejo), mas sim a posição de um princípio teórico/clínico que afirma a dependência do desejo em relação a uma lógica de associações fantasísticas&amp;nbsp;&lt;i&gt;anteriores&amp;nbsp;&lt;/i&gt;ao que podemos conceber como da ordem de um prazer positivamente considerado, a saber, do que é agradável, "gostoso", aprazível, feliz, auto-realizador. Deste modo, essa lógica submerge todo o prazer em um complexo de associações inconscientes que o tornam muitas vezes algo paradoxal, incompreensível,&amp;nbsp;&amp;nbsp;uma vez que se mescla indissoluvelmente a todos os resíduos das etapas de sua constituição.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: normal normal normal 13px/normal Verdana; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; min-height: 16px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: normal normal normal 13px/normal Verdana; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Voltando aos três casos acima, podemos dizer que eles, na medida em que indicam uma compulsividade, um enrijecimento do desejo, demonstram alguma forma de&amp;nbsp;&lt;i&gt;fixação&lt;/i&gt;, em que a derrota, a incompletude, a insuficiência, a tensão da expectativa etc. tornaram-se especialmente sedutoras, fascinantes. Passaram a representar um meio de prazer que assumiu uma densidade tal que este não mais&amp;nbsp;&lt;i&gt;transparece&amp;nbsp;&lt;/i&gt;nessas formas concretas em que se realiza. Cada uma configura uma espécie de continuidade do próprio percurso de constituição do desejo, cujo modo de afirmação,&amp;nbsp;&amp;nbsp;por mais paradoxal que seja, passou a ser mediado pela negação da positividade do prazer com um objeto reconhecido como fonte de satisfação. Em todos os três casos, quanto mais próximo se está de uma saída definitiva, "satisfatória", desse enredamento do desejo nas peripécias conflituosas e contraditórios de sua lógica,&amp;nbsp;&amp;nbsp;quanto mais "alto" se vai neste processo de acumulação de etapas na consecução de um processo, mais esta "queda" representada pelo fracasso, pela crise emocional e pela insônia parecem atrair com a mesma força com que o abismo seduz aquele que ousa se medir com um vazio que não conhece medidas.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: normal normal normal 13px/normal Verdana; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; min-height: 16px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: normal normal normal 13px/normal Verdana; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: #0b5394; font-size: small;"&gt;Se você gostou dessa postagem,&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: normal normal normal 13px/normal Verdana; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: #0b5394; font-size: small;"&gt;compartilhe em seu mural no Facebook.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;a href="" name="fb_share" share_url="http://verlainefreitas.blogspot.com/2012/03/da-obscura-logica-do-desejo.html" type="button_count"&gt;Compartilhar&lt;/a&gt; &lt;br /&gt;&lt;script src="http://static.ak.fbcdn.net/connect.php/js/FB.Share" type="text/javascript"&gt;&lt;/script&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2257787801295386827-8023268588846039262?l=verlainefreitas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/feeds/8023268588846039262/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/2012/03/da-obscura-logica-do-desejo.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2257787801295386827/posts/default/8023268588846039262'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2257787801295386827/posts/default/8023268588846039262'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/2012/03/da-obscura-logica-do-desejo.html' title='Da obscura lógica do desejo'/><author><name>Verlaine Freitas</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10829879484126407328</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-G8tX_Am1rhU/TuaO2ql9tFI/AAAAAAAAAFo/R439dUrIlOA/s220/DSCN1829%2Bb.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-VyHl-YV5PFg/T1GELymJ4mI/AAAAAAAAAJw/6U8qZ8uYxpM/s72-c/Long_Distance_Running.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2257787801295386827.post-6435955310382530874</id><published>2012-02-25T00:27:00.000-02:00</published><updated>2012-02-25T00:27:54.674-02:00</updated><title type='text'>Elogio da escrita</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: small;"&gt;"Não há como escrever bem sem uma boa leitura": essa frase, e suas variações, tal como:&amp;nbsp; "é preciso ler muito para escrever bem" etc., é ouvida várias vezes pelos estudantes, principalmente no ensino fundamental e médio. De fato, a leitura contribui decisivamente para melhorar a percepção interpretativa da realidade, para formar o pensamento abstrato, para saber dialogar com várias perspectivas sobre o mesmo assunto etc. Por outro lado, com igual insistência deveria ser falado que é necessário muita escrita para se ter uma boa escrita. Tal como várias perspectivas pedagógicas gostam de falar freqüentemente, quanto mais alguém produz, é ativo na construção de um conhecimento, mais e melhor aprende. Costuma-se fazer uma gravação bastante clara entre percentuais de aprendizagem, desde a postura mais passiva, como a de apenas ler até a de construir um objeto a partir daquilo que foi não apenas lido, mas ouvido, escrito, falado e posto em prática. Nesse cenário, a escrita é de crucial importância, pelo fato de tendencialmente arrancar o sujeito do círculo traçado por suas próprias ruminações, de sua complacência com suas próprias idéias, hesitações e formas fragmentárias de concepção de si e da realidade.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/-RX0qaTrsBFw/T0fsddytWXI/AAAAAAAAAJo/MNFVVKRneng/s1600/writing.jpg" imageanchor="1" style="clear: right; float: right; margin-bottom: 1em; margin-left: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="180" src="http://4.bp.blogspot.com/-RX0qaTrsBFw/T0fsddytWXI/AAAAAAAAAJo/MNFVVKRneng/s320/writing.jpg" width="320" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: small;"&gt;Immanuel Kant, filósofo alemão, colocou de forma clara em sua primeira grande obra, a &lt;i&gt;Crítica da razão pura&lt;/i&gt;, que o sujeito é apenas um fenômeno para si, de modo que não se pode ter um conhecimento absoluto sobre a própria subjetividade. O pensamento é algo que precisamos esperar acontecer para sabermos o que estamos pensando. É interessante prestar atenção a como não conseguimos nos antecipar a nosso próprio pensamento, de modo que se estamos raciocinando sobre o assunto, precisamos não apenas ser ativos ao pensar, mas também espectadores, observadores, de nossa própria atividade intelectual. Todo pensamento é, então,&amp;nbsp; um misto de um impulso produtivo e um receptivo, de modo que, ao final, podemos nos aperceber do que somos pelo fato de que sedimentamos a nós mesmos naquilo que não apenas pensamos, mas também praticamos. Se, além disso, o espectador de nosso produzir é uma outra pessoa, cuja receptividade está ancorada em princípios interpretativos e formas de valoração diferentes, então este processo de sedimentar a si mesmo na forma do pensamento adquire uma exigência muito própria. Fazer dialogar as suas próprias leis e princípios de concepção de mundo com as de outras pessoas é um modo especialmente valioso para descobrir, em si mesmo, uma forma de pensar a realidade que não se pensaria apenas a partir de nossa própria demanda de compreensibilidade. Essa experiência está na base de uma velha piadinha contada nas salas de professores em todas as escolas: "Depois de uma aula, se nenhum aluno tiver aprendido nada, pelo menos você aprendeu". Isso é verdade especialmente quando se levantam questões inusitadas, críticas, oriundas de perspectivas muito alheias ao universo que uma determinada temática teórica foi construída.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: small;"&gt;Esse diálogo com o outro, seja pela fala, seja pela escrita, produz um movimento de exteriorização, de objetivação. Além disso, tal como toda a filosofia de Hegel quis mostrar, pode-se dizer também de um movimento de &lt;i&gt;alienação&lt;/i&gt;, mas não no sentido pejorativo de perda de si mesmo, de ceder aquilo que nos é próprio com vistas à idolatria e/ou subjugação ao outro. Trata-se, na verdade, de uma forma de sair de si mesmo de modo a participar da lógica do mundo, fazendo com que uma inércia subjetiva de associações arbitrárias de idéias ceda lugar a um compromisso entre si mesmo e a realidade, que inclui principalmente as formas de compreensão alheias.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: small;"&gt;O fato de que a escrita permanece no tempo é especialmente relevante. Ela exige uma "prestação de contas" em relação aos dados que serão lançados na mesa do conhecimento,&amp;nbsp; e cujas faces serão reconhecidas também como parte desta própria realidade. Isto é especialmente significativo na medida em que, ao estudar uma de determinada ciência, não dirigimos o olhar interpretativo diretamente para a realidade, mas tomamos como um objeto de estudo os próprios textos, que são, assim, a realidade a ser estudada em primeira instância.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: small;"&gt;Tal como um estalactite, que se sedimenta e cresce gradualmente ao longo de séculos, a escrita também pode precisar passar por processo semelhante em vários momentos. Na confecção de um texto teórico de maior extensão, como um projeto de pesquisa, dissertação de mestrado e tese de doutorado, creio que seja altamente relevante escrever mais de uma vez sobre o mesmo assunto, de modo a aprendermos com o que nós mesmos escrevemos. Trata-se não apenas de amadurecer uma idéia, mas também de olhar para ela &lt;i&gt;de fora&lt;/i&gt;, assumindo de forma viva essa perspectiva de exteriorização, de saída de si mesmo. Tal como pintores, especialmente antes do movimento de abstração, costumavam pintar várias versões do mesmo quadro até encontrarem aquela que mais se adequava esteticamente na articulação de todos os seus elementos, a escrita também pode exigir camadas de realizações, depósitos de insights, de intuições interpretativas que se somem ao longo do tempo, se sobreponham e possam, em seu entrelaçamento, produzir novas camadas de sentido e contribuir para o enriquecimento de todo o texto. -- Claro está, em relação a este trabalho acumulativo, que quanto mais elementos são somados neste processo "artesanal", mais se exige habilidade de construção de um texto &lt;i&gt;unitário&lt;/i&gt;, que não se perca nessa multiplicidade de elementos e que mantenha uma coerência satisfatória.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: small;"&gt;Mas a escrita não é boa apenas para produzir bons textos. Quando se começa a escrever periodicamente,&amp;nbsp; com uma frequência pelo menos semanal, é possível sempre notar mudanças na própria forma com que as idéias são articuladas, mesmo quando não estamos escrevendo. De forma análoga a como professores de música sempre recomendam que não se treine com um instrumento horas seguidas durante um único dia, mas sim menos tempo ao longo da semana, o hábito da escrita deveria fazer parte do dia-a-dia de todas as pessoas. Foi com uma surpresa desagradável, embora não muito grande, que ouvi de alguns alunos de uma disciplina de Estética (no sexto período de seu curso de graduação em belas artes), que eles, em três anos de curso, nunca precisaram escrever nem uma única linha para serem aprovados em suas disciplinas. Trata-se de um curso evidentemente prático, em que o fazer artístico é a alma e o princípio do aprendizado. Isso, entretanto, não dispensa em hipótese alguma a dimensão reflexiva sobre o que se faz, a qual deve necessariamente se consubstanciar no processo de escrita freqüente acerca do que se faz. É inegável que o próprio fazer artístico e a relação dialogada entre os alunos e destes com os professores inclui elementos reflexivos, mas a habilidade de expressão escrita sobre o que é feito me parece de tal ordem significativa que não pode ser negligenciada.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: small;"&gt;Naturalmente, tudo isso pressupõe uma &lt;i&gt;boa intenção &lt;/i&gt;por parte de quem escreve, uma vez que, no âmbito das formas, estilos e contextos de escrita, várias são as estratégias possíveis de enganos, em que pseudo-erudição, rebuscamentos, falsa profundidade etc. servem a fins regressivos, falsificadores. Considerando, entretanto, a intenção de progresso em relação a nossas formas de enxergar a realidade, a escrita sempre será um instrumento de valor inigualável.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: small;"&gt;Diante disso tudo, parece-me que os projetos pedagógicos escolares devem conceder maior espaço para as atividades de redação, de produção de textos, de modo a sistematicamente confrontar os estudantes com as suas próprias idéias. Além disso, tal como muitas pessoas gostam de ler romances, poesias, jornais etc. todos dias, deveríamos cultivar também o gosto por escrever freqüentemente. Se a leitura é uma viagem através das idéias, a escrita é um campo fértil em que florescem nossas próprias e inusitadas concepções de mundo.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; min-height: 15.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: #0b5394; font-family: Verdana, sans-serif; font-size: small;"&gt;Se você gostou dessa postagem,&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: #0b5394; font-family: Verdana, sans-serif; font-size: small;"&gt;compartilhe em seu mural no Facebook.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;a href="" name="fb_share" share_url="http://verlainefreitas.blogspot.com/2012/02/elogio-da-escrita.html" type="button_count"&gt;Compartilhar&lt;/a&gt; &lt;br /&gt;&lt;script src="http://static.ak.fbcdn.net/connect.php/js/FB.Share" type="text/javascript"&gt;&lt;/script&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2257787801295386827-6435955310382530874?l=verlainefreitas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/feeds/6435955310382530874/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/2012/02/elogio-da-escrita.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2257787801295386827/posts/default/6435955310382530874'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2257787801295386827/posts/default/6435955310382530874'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/2012/02/elogio-da-escrita.html' title='Elogio da escrita'/><author><name>Verlaine Freitas</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10829879484126407328</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-G8tX_Am1rhU/TuaO2ql9tFI/AAAAAAAAAFo/R439dUrIlOA/s220/DSCN1829%2Bb.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/-RX0qaTrsBFw/T0fsddytWXI/AAAAAAAAAJo/MNFVVKRneng/s72-c/writing.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2257787801295386827.post-6107625196816360130</id><published>2012-02-18T01:31:00.004-02:00</published><updated>2012-02-18T11:40:43.814-02:00</updated><title type='text'>O meio não é a mensagem</title><content type='html'>&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Há algum tempo, a MTV fez uma campanha de marketing ousada, em que durante alguns minutos era exposta uma frase, sobre um fundo azul, em que se lia: “Desligue a televisão e vá ler um livro”. A ousadia, naturalmente, está em que a emissora quis angariar para si a percepção de ser &lt;i&gt;suficientemente crítica &lt;/i&gt;sobre os conteúdos veiculados não apenas pela televisão em geral, mas como também por ela própria. O quanto este impacto negativo-crítico, na verdade reverte de forma favorável ao desejo de ter mais consumidores para estes mesmos conteúdos criticados nessa mensagem, isso é algo que gostaria de comentar futuramente. Quero hoje falar do que está implicado naquela frase, que indica algo interessante da percepção que se tem do papel do próprio meio das comunicações, sejam elas de massa ou não. Está em jogo, de forma explícita, a percepção de que o suporte, o “meio”, livro é um índice do quanto uma obra já se sobressai como tendo mais valor cultural do que um programa de televisão, por exemplo. Esse contraste fica muito claro nos dizeres da foto abaixo.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/-BgDEkDt6t48/Tz8bTrcHL1I/AAAAAAAAAJg/cjYp99bEQUQ/s1600/bbb_suicidio3.jpg" imageanchor="1" style="clear: right; float: right; margin-bottom: 1em; margin-left: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="257" src="http://2.bp.blogspot.com/-BgDEkDt6t48/Tz8bTrcHL1I/AAAAAAAAAJg/cjYp99bEQUQ/s320/bbb_suicidio3.jpg" width="320" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Essa perspectiva, que me parece equivocada, possui, entretanto, raízes em pelo menos quatro momentos da história de teorias sobre os meios de comunicação de massa. Um deles está na concepção de Walter Benjamin sobre o cinema, presente em seu texto “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”, em que o autor analisa o significado estético-político desse meio através de sua teoria dos choques, em que se diz que a velocidade da projeção e das mudanças nas cenas cinematográficas constituiria um bombardeio visual aos espectadores. Haveria uma analogia entre tais impactos e o significado crítico-estético do movimento dadaísta, com sua afronta às concepções tradicionais do objeto artístico. Tal como já se comentou sobre este famoso texto, Benjamin quer extrair um significado artístico/estético da própria dimensão material do cinema, como se o fato de ser constituído por uma sucessividade de imagens já qualificasse algo de seu teor, sua qualificação e sentido estéticos.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;O segundo momento são as reflexões de Adorno e Horkheimer sobre a indústria cultural na &lt;i&gt;Dialética do esclarecimento&lt;/i&gt;, em que, de forma semelhante a Benjamin, o cinema será criticado já na sua própria materialidade. Para os autores, o cinema transforma todas as imagens em uma forma de &lt;i&gt;escrita a ser decifrada&lt;/i&gt;, e não propriamente contemplada. O fluxo das imagens seria análogo a como se pode ler e hieróglifos, em que cada elemento imagético contém um significado a ser traduzido. Tal crítica deixa muito pouco, ou até mesmo nenhum, espaço para a reflexão acerca do modo específico com que tais imagens são articuladas para produzir arte, que exige propriamente contemplação e não apenas tradução estereotipada de imagens sucessivamente jogadas para os espectadores.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;O terceiro momento dessa série se dá de forma clara com a idéia de Marshall McLuhan de que “o meio é a mensagem”. Tal como a própria expressão diz, está em jogo a consideração de que os meios tecnológicos propiciam uma forma de ler a realidade que condiciona, modela e induz de tal forma a percepção, que, considerando o conjunto de produções em um determinado âmbito, como a televisão, o conteúdo próprio dessas obras seria ensinar a ver televisão. Tal como a seqüência de páginas de um livro moderno induziu certa percepção do conjunto das idéias nele contido diferente do modo como um pergaminho produzia uma leitura como que em um fluxo contínuo, o enquadramento, a luminosidade, a fluidez das imagens televisivas teria como seu conteúdo próprio a insistência com que se vende a adaptação a este modo de ver a realidade.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;O quarto momento que me ocorre é a crítica de Jean Baudrillard à sociedade de consumo, em que o autor, explicitamente concordando com a posição de McLuhan, diz de uma “cultura dos &lt;i&gt;mass media&lt;/i&gt;”, como se os meios de comunicação de massa possuíssem uma cultura específica, própria, em que reina não propriamente uma lógica de distorção ou de manipulação de uma suposta verdade objetiva dos fatos, da realidade exterior, mas sim a criação de uma neo-realidade, que funciona como uma imagem mítica. Para o autor francês, o que é próprio dos &lt;i&gt;mass media &lt;/i&gt;não é a produção de ideologias específicas, mas sim a manipulação de signos, em cujas características ressalta a auto-referência, de modo a que cada meio sempre vende a si mesmo ao público. Nessa perspectiva, toda obra de arte, como um quarteto de Beethoven, quando representada, mesmo que integralmente, em um programa televisivo, tenderá a ser absorvida e homogeneizada aos demais programas como um mero signo, no caso, de status, de erudição.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;É evidente que todas essas concepções teóricas possuem uma alta complexidade, contendo diversos fundamentos, hipóteses e conceitos que se entrelaçam de forma a nuançar as linhas gerais que esboçamos. Mesmo dentro e próximo dessa problemática há formulações que em alguns momentos relativizam essas linhas que apontamos. Apesar disso, parece-me suficientemente forte e bem caracterizada essa tendência de considerar o substrato material de um determinado meio de comunicação como já contendo um significado estético/artístico/subjetivo, e é a essa concepção que quero me contrapor.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;É preciso deixar claro, por outro lado, que a minha argumentação não visa dizer de forma alguma que a televisão, principalmente a de canais abertos, contenha um nível cultural minimamente satisfatório em suas atrações. É muito evidente que a qualidade média dos programas é bastante ruim, com uma lógica e princípio de estruturação radicalmente alienantes, tal como já comentei em relação aos &lt;a href="http://verlainefreitas.blogspot.com/2012/01/bbb-si-mesmo-como-espetaculo.html" target="_blank"&gt;reality-shows&lt;/a&gt;, por exemplo. Importa, nesse aspecto, distinguir a qualidade de &lt;i&gt;cada programa&lt;/i&gt;, em vez de fazer uma crítica geral aos meios de comunicação.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Começo respondendo à campanha da MTV com uma pergunta: quais livros eu deveria ler em substituição aos programas de baixo nível cultural? Seria, por exemplo, um manual de auto-ajuda com receitas fáceis para uma vida feliz? Ou contos eróticos de revistas femininas? Quem sabe um romance de Sidney Sheldon? — De forma análoga, quais livros se suicidam quando se vê um programa televisivo de mau gosto? Por acaso seriam esses mesmos livros que citei? — É por demais evidente que há&amp;nbsp; inumeráveis livros tão ruins ou piores que algum programa de televisão de baixo nível cultural, ao passo que há muita diferença entre a qualidade de programas televisivos, desde os de auditório apelativos e infantilizados, até programas de entrevista com teóricos importantes no panorama intelectual e político. É preciso se contrapor a essa homogeneização fácil, que idealiza de forma positiva o livro e de forma negativa os meios de comunicação em massa, como se a concentração requerida pelo livro já indicasse certa disposição cultural superior, enquanto a suposta posição distraída, descompromissada de quem assiste televisão já indicasse uma passividade da absorção do conteúdo da obra, de tal modo que esta fica sob a suspeita de ser algo &lt;i&gt;ruim por princípio&lt;/i&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Embora a teoria de Benjamin sobre o cinema seja interessante em alguns aspectos, como ao tratar da dimensão política, ela se baseia, entretanto, em fundamentos que me parecem francamente inadequados. No que diz respeito ao tema que tratamos aqui, eu diria que o filósofo não soube avaliar o quanto a dimensão estética consiste no &lt;i&gt;modo &lt;/i&gt;como se articulam os diversos elementos materiais em determinado meio expressivo. O impacto que o cinema teve no início do século XX me parece análogo ao vivido na Grécia devido ao progresso da democracia.&amp;nbsp; A recusa de Platão em relação aos poetas e a todo o âmbito das artes, com a sua mímesis da realidade, encontrou um eco na crítica que Benjamin faz ao cinema. Em vez de perceberam que o prazer da arte consiste na &lt;i&gt;forma &lt;/i&gt;como o sujeito se assenhora de toda a dimensão material, natural e historicamente sedimentada nos materiais artísticos, de modo a construir uma significação através do modo como essa orquestração de elementos é realizada, ambos quiseram já perceber na &lt;i&gt;literalidade &lt;/i&gt;do fazer artístico um significado cultural por si mesmo. Em nossos dias, quando já assimilamos de longa data o impacto cultural que o cinema produz, podemos ver claramente que, em vez de choques — que Benjamin associou aos traumas psíquicos —, podemos dizer que vários filmes são bem mais sonolentos e entediantes do que muitos livros que apelam para suspenses e incitam a imaginação a operar continuamente com novas imagens. Usando a tradicional diferenciação das artes representativas/miméticas proposta por Aristóteles, a saber, o &lt;i&gt;meio &lt;/i&gt;em que a representação é feita, o &lt;i&gt;modo &lt;/i&gt;como ela é realizada e o &lt;i&gt;objeto &lt;/i&gt;que é representado, podemos dizer que a teoria de Benjamin não concedeu a suficiente autonomia do &lt;i&gt;como &lt;/i&gt;em relação ao &lt;i&gt;meio&lt;/i&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Crítica análoga pode ser feita em relação à concepção de Adorno sobre o cinema, uma vez que em várias passagens Adorno parece deduzir, já da concretude do meio cinematográfico, um significado subjetivo, referente à disposição estética do espectador. Para o filosófo, pesou sobremaneira a gigantesca capacidade do cinema de fazer uma representação naturalista da realidade, englobando a imagem em movimento, o som, a narrativa e a música. Esse poder representacional concederia pouco espaço à imaginação do espectador, que ficaria, assim, submetido ao poder de duplicação da realidade engrandecida pelo brilho técnico do próprio meio. — Ora, não é necessário que uma obra de arte ceda espaço à imaginação em virtude de alguma “escassez representativa” em seus meios para que a fantasia seja exercitada em sentido próprio, ao constituir o sentido estético da obra como algo enigmático, que demande a participação ativa do espectador. A comparação entre Platão e Benjamin parece-me também pertinente no caso de Adorno, uma vez que se me afigura claro que ele não concebeu de forma adequada o quanto a construção do sentido estético pode ser suficientemente vigorosa para sobrepujar em muito o poder representacional/mimético que o cinema demonstrou possuir, não apenas na primeira metade do século XX, como também nos dias atuais, com o progresso contínuo da tecnologia digital.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Se concedemos validade a essas considerações críticas, então torna-se clara a inadequação da idéia de McLuhan, pois a suposta “mensagem”, seja de qual meio for, não pode se limitar ao exercício com este. É inegável que há efetivamente influência dos diversos meios no modo como as pessoas se portam em relação a eles, mas eu diria que em hipótese alguma isso seja algo totalizante. Existe uma diferença infinita entre o sentido, o significado e valor estético de filmes como de Pasolini, François Truffaut e Glauber Rocha, por um lado, e os de suspense e de aventuras, como os estrelados por Sylvester Stallone e Chuck Norris. Falsifica enormemente a questão dizer que todo meio, mesmo que nos limitemos aos que envolvem tecnologia em sua produção, como televisão, cinema e rádio, tenha como seu sentido adestrar o público a eles mesmos. Por mais que a intenção seja crítica, no sentido de desmascarar a massificação e o condicionamento perceptivo, o resultado acaba indo contra esse propósito, pois dificulta o suficiente discernimento crítico da enorme diferença de valor entre as diversas produções.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Por fim, mesmo reconhecendo a enorme validade da teoria da sociedade de consumo de Baudrillard, não nos parece adequado dizer de uma “cultura dos &lt;i&gt;mass media&lt;/i&gt;”. Mesmo tomando esta idéia como um “tipo ideal”, a que os diversos produtos se aproximam, as formulações do autor tendem a não permitir a construção de um princípio que nos permita identificar, no âmbito dos próprios meios de comunicação, as diferenças qualitativas entre as obras. Não há uma cultura impregnada necessariamente aos meios de comunicação de massa, de modo que assistir à representação de um concerto de Beethoven pela televisão não necessariamente significa tomar essa atividade como propiciando acesso a um mundo de erudição, anulando o prazer estético com a música em sua dimensão artística propriamente dita. É inegável que isso pode efetivamente acontecer, mas o grande problema, tanto na posição de Baudrillard quanto dos outros três autores, é de certa generalização, que tende a traduzir o significado legível em um plano de contato com as obras para o de seu sentido cultural, estético, subjetivo — o que leva a um achatamento das possibilidades de valorização crítica das obras culturais.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; min-height: 15.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: #0b5394; font-size: small;"&gt;Se você gostou dessa postagem,&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: #0b5394; font-size: small;"&gt;compartilhe em seu mural no Facebook.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=2257787801295386827&amp;amp;postID=6107625196816360130&amp;amp;from=pencil" name="fb_share" share_url="http://verlainefreitas.blogspot.com/2012/02/o-meio-nao-e-mensagem.html" type="button_count"&gt;Compartilhar&lt;/a&gt; &lt;br /&gt;&lt;script src="http://static.ak.fbcdn.net/connect.php/js/FB.Share" type="text/javascript"&gt;&lt;/script&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2257787801295386827-6107625196816360130?l=verlainefreitas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/feeds/6107625196816360130/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/2012/02/o-meio-nao-e-mensagem.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2257787801295386827/posts/default/6107625196816360130'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2257787801295386827/posts/default/6107625196816360130'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/2012/02/o-meio-nao-e-mensagem.html' title='O meio não é a mensagem'/><author><name>Verlaine Freitas</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10829879484126407328</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-G8tX_Am1rhU/TuaO2ql9tFI/AAAAAAAAAFo/R439dUrIlOA/s220/DSCN1829%2Bb.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/-BgDEkDt6t48/Tz8bTrcHL1I/AAAAAAAAAJg/cjYp99bEQUQ/s72-c/bbb_suicidio3.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2257787801295386827.post-8678667896755970314</id><published>2012-02-10T23:30:00.000-02:00</published><updated>2012-02-10T23:30:30.571-02:00</updated><title type='text'>Crônica de uma vida provisória</title><content type='html'>&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: small;"&gt;Dividir o mundo entre aparência e a essência, entre as contingências, o efêmero e, portanto, não essencial, e o que há de mais profundo, significativo e, assim, mais verdadeiro, sempre nos foi ensinado pela filosofia e por todas as ciências. A metafísica — que já nos primórdios do pensamento ocidental separava de forma radical um mundo transcendente que concernia à verdade mais profunda de todas as coisas e o mundo das sombras em que nada tem sua própria verdade como seu modo de ser próprio no âmbito das aparências — vê-se refletida de forma bastante clara nas religiões ocidentais, em que a vivência mundana e afeita ao fluxo do tempo é contraposta a um mundo transcendente lastreado pelos desígnios divinos.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: small;"&gt;No âmbito psíquico, de constituição da subjetividade, podemos ver algo análogo a isso com a idéia psicanalítica de que por detrás de nossos atos conscientes, de um conteúdo manifesto em nossas ações, nossos esquecimentos, sintomas neuróticos e sonhos, há motivações, fantasias e desejos conectados intimamente àquilo que nos define como sujeitos. Não se trata apenas de algo mais profundo, mas que está submetido a uma lógica de aglutinação e de relação entre elementos subjetivos, emocionais e psíquicos que é bastante avesso àquilo que podemos entender e interpretar a partir dessa superfície perceptível de nossa vida.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;table cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="float: right; margin-left: 1em; text-align: right;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/-NcHhlyWHuoE/TzXD9M9jJ5I/AAAAAAAAAJY/tg8lLA9Lf1g/s1600/Rauschenberg3mini.jpg" imageanchor="1" style="clear: right; margin-bottom: 1em; margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" height="320" src="http://2.bp.blogspot.com/-NcHhlyWHuoE/TzXD9M9jJ5I/AAAAAAAAAJY/tg8lLA9Lf1g/s320/Rauschenberg3mini.jpg" width="213" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;R. Rauschenberg - &lt;i&gt;Estate&lt;/i&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: small;"&gt;Como está muito claro a partir de considerações de uma sociologia ligada ao modo de vida do homem contemporâneo, essa bipartição da realidade, seja ela subjetiva ou objetiva, não é algo situado apenas no âmbito teórico, em termos de desenvolvimento da história das idéias, mas se dissemina pela percepção cotidiana de todo habitante que compartilhe do processo de individualização radical operada no ocidente. Inumeráveis são os caminhos possíveis a serem traçados entre as especulações metafísicas, teóricas e científicas até a vivência de senso comum dos cidadãos de uma grande metrópole. Meu objetivo aqui é falar de um modo com que esses dois planos da existência se traduzem em certa expectativa de vida, correlata de modos de valoração da própria existência.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: small;"&gt;Ideais, fantasias e devaneios circunscrevem um plano de assimilação interpretativa da realidade a partir de um complexo de imagens e valores que fazem com que tenhamos um "sistema" de leitura da realidade, de modo a pautar nossa existência, fazendo com que avaliemos todas as coisas, seja em sua presença, seja pelo peso de sua ausência. Creio que o indivíduo que se define ao redor do culto da própria personalidade, orgulhoso pela diferença de si em relação a todos os outros, pode facilmente nutrir com afinco e obstinadamente a fantasia de que o que faz agora, o modo como é no presente, aquilo que é capaz de realizar atualmente, bem como tudo o que gostaria de fazer, mas se vê incapaz, etc., que tudo isso, enfim, é apenas &lt;i&gt;provisório&lt;/i&gt;, são elementos de uma fase da vida, algo que deverá ser superado quando... "Eu me casar", "Acabar meu curso superior", "Passar a ter um modo diferente de encarar a realidade", "Ter a profissão que me realize intelectual, financeira e pessoalmente", e um sem-número de ideais, modos de ser e condições de vida suficientemente diferentes da realidade atual para proporcionar uma mudança tão candente que revele uma substância oculta, não perceptível através das contingências, efemeridades e desvios do agora.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: small;"&gt;Essa fantasia é auto-alimentada pela percepção de induzir a uma&amp;nbsp; mudança, aliada à virtude da espera, do bom senso de olhar "bem" para as coisas, julgando-as em seu valor atual. Trata-se de uma fantasia que se reveste da aura do realismo bem dosado, que, ao mesmo tempo, recusa se limitar a um mero conformismo, dado que pode incluir, também, algum esforço em direção a esses planos mais substanciais da existência, que supostamente realizam como que por dentro aquilo que alimenta a expectativa de realização mais essencial de si. Além disso, está em jogo toda uma possibilidade de se avaliar por mais de um ponto de vista, que também legitima a fantasia como não sendo míope, não centrada em um modo por assim dizer calcificado de ser.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: small;"&gt;Ocorre que, ao longo do tempo, esse substrato mais essencial da existência acaba se revelando como uma promessa eterna, que apenas se consubstancia como uma promissória a ser paga em um tempo que, independente das condições reais em que ela poderia ser saldada, insiste obstinadamente em não se realizar. Passam-se os anos, e a pretendida alteração de postura perante a realidade, por exemplo, não ocorre de forma satisfatória, de modo que sempre subjaz como uma raiz cuja seiva apenas gera os frutos provisórios que sempre amadurecem em sua forma original. Descobre-se, a contragosto, com o amargo paladar de um realismo resignado, que tudo aquilo que sempre se praticou era o que há de mais próprio, ou seja, essencial, o que efetivamente se pode produzir em virtude do que somos, a despeito de nossa "profundidade" idealizada.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: small;"&gt;Tal como a crítica da ideologia nos acostumou a pensar, chama-se de ideológico aquele modo de concepção da realidade que se situa por demais acima das vicissitudes, contradições e conflitos da realidade, do modo como ela se faz pela superação e embate das diferenças. De forma análoga, essa fantasia de um núcleo mais substancial de nós mesmos e da vida das circunstâncias constitui-se como um &lt;i&gt;mito&lt;/i&gt;, uma camada ideológica imune às vicissitudes da realização concreta e das nossas possibilidades de existência. Uma "ideologia pessoal", uma "ideologia subjetiva", que consubstancia uma camada de existência não afetada pelas contingências das quais nós nos lamentamos diariamente. A ideia que está por detrás dessa fantasia, tal como me parece, é a de que podemos escapar prolongadamente do fato de que não somos mais do que aquilo que podemos realizar. Como tarefa "política" e de orquestração de nossas possibilidades, podemos falar também de uma "utopia subjetiva", no sentido etimológico da palavra, ou seja, de um lugar (&lt;i&gt;tópos&lt;/i&gt;) que nos ocupa mais substancialmente do que a nossa capacidade de ocupá-lo.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: small;"&gt;Desnecessário é dizer, por outro lado, que mudanças substanciais não só podem, como efetivamente ocorrem ao longo da vida. A experiência de uma terapia psicanalítica bem realizada conflui para a uma &lt;i&gt;despersonalização&lt;/i&gt;, uma perda de certezas relativas, principalmente, a nossa própria identidade. Este é um caso, entretanto, paradigmático do que uma mudança substancial contém: algo inesperado, não preestabelecido através de alguma fantasia cultivada conscientemente. O que se sucede após este momento de ruptura está muito mais ligado a uma &lt;i&gt;negação &lt;/i&gt;do que sempre fomos, do que à instauração bem-sucedida de um plano ideal que já se delineava em nossas fantasias.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: small;"&gt;Essa circunstância de uma alteração inesperada, que no mais das vezes é mediada por um processo de negação às vezes difícil de suportar, tem uma analogia com a obra de arte. Um dos grandes pintores do século XX, Robert Rauschenberg, dizia que não pintava um quadro quando era capaz de imaginá-lo completamente. Se sua imaginação foi capaz de circunscrever toda a obra, isso seria um indício de que esta não conteria elementos suficientemente significativos em termos estéticos, dado que ele mesmo não foi capaz de ser surpreendido pela configuração material do artefato, da "coisa-pintura".&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: small;"&gt;Se dermos suficiente crédito a essa relação entre a experiência psicanalítica e a da criatividade estética, podemos generalizá-la no sentido de que rupturas essenciais ocorrem, mas no mais das vezes estão associadas a um processo de negação da &lt;i&gt;inércia &lt;/i&gt;de nossa auto-percepção, de ruptura do véu que tecemos ao redor de nós mesmos com nossas fantasias idealizadas. — Sem a suficiente determinação para tal negatividade perante o que somos, essa vida provisória se torna "crônica", uma distensão indefinida do que sempre deveria passar, mas cuja essência se mostra no modo como usurpa a dignidade do ideal.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; min-height: 15.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: #0b5394; font-family: Verdana, sans-serif; font-size: small;"&gt;Se você gostou dessa postagem,&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: #0b5394; font-family: Verdana, sans-serif; font-size: small;"&gt;compartilhe em seu mural no Facebook.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;a href="" name="fb_share" share_url="http://verlainefreitas.blogspot.com/2012/02/cronica-de-uma-vida-provisoria.html" type="button_count"&gt;Compartilhar&lt;/a&gt; &lt;br /&gt;&lt;script src="http://static.ak.fbcdn.net/connect.php/js/FB.Share" type="text/javascript"&gt;&lt;/script&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2257787801295386827-8678667896755970314?l=verlainefreitas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/feeds/8678667896755970314/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/2012/02/cronica-de-uma-vida-provisoria.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2257787801295386827/posts/default/8678667896755970314'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2257787801295386827/posts/default/8678667896755970314'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/2012/02/cronica-de-uma-vida-provisoria.html' title='Crônica de uma vida provisória'/><author><name>Verlaine Freitas</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10829879484126407328</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-G8tX_Am1rhU/TuaO2ql9tFI/AAAAAAAAAFo/R439dUrIlOA/s220/DSCN1829%2Bb.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/-NcHhlyWHuoE/TzXD9M9jJ5I/AAAAAAAAAJY/tg8lLA9Lf1g/s72-c/Rauschenberg3mini.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2257787801295386827.post-2385194084487454691</id><published>2012-02-04T00:10:00.002-02:00</published><updated>2012-02-04T16:14:49.779-02:00</updated><title type='text'>Crítica do humor político</title><content type='html'>&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;O humor tem várias faces, e creio que, apesar de várias teorias pretenderam falar dele a partir de um princípio geral, seu objeto em cada caso merece uma consideração específica. É inegável que haja, de fato, alguns elementos universalmente verificáveis em todas as formas de humor, mas o modo como nos dispomos perante objetos e circunstâncias específicas podem esclarecer de forma interessante o fenômeno como um todo.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/-VOYbnJLmPpU/TyyS_JzGZwI/AAAAAAAAAJQ/BOiJQvUkThg/s1600/Sue+poli%CC%81tico.jpg" imageanchor="1" style="clear: right; float: right; margin-bottom: 1em; margin-left: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="160" src="http://4.bp.blogspot.com/-VOYbnJLmPpU/TyyS_JzGZwI/AAAAAAAAAJQ/BOiJQvUkThg/s200/Sue+poli%CC%81tico.jpg" width="200" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Quero hoje falar do humor que toma a política e os políticos como seu objeto, especialmente quando se trata de uma crítica generalizada a este âmbito da organização social. Em quase todo jornal impresso, mais à esquerda ou à direita no espectro político, temos espaço para alguma charge dirigida a assuntos da atualidade, e são bastante freqüentes aquelas peças que se dirigem, não a determinadas personalidades e eventos específicos, mas à política em geral, tal como a que pode ser vista à direita.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Todo juízo moral, quando é generalizado, sempre corre o risco de exprimir tão-somente um preconceito, constituindo-se em uma renúncia ao esforço da reflexão sobre cada caso. Quando essa generalização se soma ao cômico, então temos um estado de coisas bastante propício a uma dissimulação, à construção de uma aparente inteligência através da atitude de distanciamento sublime perante o objeto criticado. Somos imediatamente transportados para um plano da realidade tipicamente lúdico, ficcional, em que nos permitimos certa liberalidade perante nosso senso de realidade, podendo gozar do escárnio relativo ao objeto, sem que, ao mesmo tempo, tenhamos que pagar o preço da responsabilidade de um juízo sóbrio, objetivo, que se comprometa com argumentos. Defrontados com uma exigência de análise e explicitação de fundamentos, somos resguardados pelo álibi do: “é apenas brincadeira, sei que na realidade as coisas são diferentes”.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;É inegável que o humor trafega pela região turva da diferença e da identificação. Aristóteles, em sua &lt;i&gt;Poética&lt;/i&gt;, já dizia que a comédia está baseada em &lt;i&gt;tipos naturais&lt;/i&gt;, de modo que sempre rimos de algo com que nos identificamos de alguma maneira. Por outro lado, o escárnio e a zombaria também significam o &lt;i&gt;esforço &lt;/i&gt;de nos afastarmos disso com que nos identificamos. Essa ambigüidade pode ser vista especialmente no caso das piadas relativas a homossexuais e loucos, quando uma secreta e inconfessável atração se alia à repulsa, formando uma &lt;i&gt;solução de compromisso&lt;/i&gt;. Theodor Adorno apontava para a interessante frequência com que os nazistas faziam troça dos judeus, imitando-os incessantemente. Tal como um boneco de vudu, a imagem do escárnio quer apreender e confiscar a dignidade do outro na medida em que eu o aproximo de mim e o enclausuro nessa imagem que posso manipular a meu bel-prazer.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Certa vez, um colega de trabalho me disse que um grande amigo dele, conhecido há vários anos, havia entrado para a política, ocupando um cargo público. Meu colega disse, então, que simplesmente passou a evitá-lo, deixando de ser seu amigo de forma proposital. Claro está que o motivo não é outro que não a perspectiva de que o amigo entrou em uma área da vida sujeita às piores influências, reunidas sob o rótulo geral de corrupção. Tal repugnância se mostra claramente visível em diversas charges que mostram políticos como ratos em esgotos, porcos se regateando na lama, vampiros a sugar o sangue de contribuintes e outras metáforas bastante enfáticas em sua tentativa de expulsão catártica da decrepitude humana na figura do político.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Façamos um “pacto” com nós mesmos. Comprometamo-nos com planos de ação específicos, projetos bem delineados, metas de produtividade, e até mesmo de compromisso com formas de lazer enriquecedoras, como ir a teatros, concertos e cinemas. Não nos surpreendamos, entretanto, o quanto nos “vendemos” facilmente por formas de distração insignificantes, dando atenção a coisas mesquinhas, com desperdício de tempo, energia e dinheiro, não apenas uma, duas ou cinco vezes, mas de forma repetida e freqüente ao longo de anos. Experimentamos, assim, o quanto &lt;i&gt;venal &lt;/i&gt;se pode ser em relação a nossos próprios desígnios. Em outra circunstância, vemos, de forma análoga, o quanto é tentador usufruir da posição privilegiada de um amigo em uma fila pedindo para entrar no lugar à sua frente, aumentando mais ainda o tempo de espera de quem está atrás. Essas e infinitas outras formas de corrupção individual, praticadas de forma imperceptível, &lt;i&gt;acima &lt;/i&gt;e &lt;i&gt;abaixo &lt;/i&gt;da zona ácida de nossa metralhadora moral, demonstram todo o mar de agitação moral contraditória que encontra nessa imagem ambígua que escarnece do, e ao mesmo tempo se identifica com o, político de forma altiva e sublime no humor.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;O político é apresentado como aquele que está imerso integralmente nesse lodaçal da perdição ética, de cuja certeza temos as provas em cada escândalo e denúncia de malversação do dinheiro público. Sob o pretexto de manter viva a consciência crítica em relação a tudo isso, somos levados a nos desfazer da tarefa de julgar especificamente os autores de cada escândalo. Trata-se de uma crítica que, através de seu sentido expiatório, catártico, que quer despejar toda a fúria perante nossa própria venalidade, serve muito bem à preguiça de uma crítica reflexiva. Temos aí a já muito conhecida (mas muitas vezes esquecida) idéia de que essa crítica generalizada cai perfeitamente bem ao propósito de políticos acintosamente desonestos para se manterem no poder, uma vez que a generalização de escárnio apenas desobriga a todos da exigência de seriedade com o voto e com o envolvimento com as causas públicas. A acidez radical da zombaria pseudo-crítica tem como resultado concreto a &lt;i&gt;apatia resignada &lt;/i&gt;em relação a toda possibilidade de se fazer política, digerindo com uma complacência impressionante a corrupção como um mal tão corriqueiro quanto se mostra repulsivo nas charges. Não tenho a menor dúvida de que a quase totalidade dos eleitores de políticos acusados, processados e condenados repetidas vezes por corrupção professa tal atitude de escárnio e desconfiança apática em relação a toda a esfera política.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Tudo isso, entretanto, não pretende desconsiderar a validade do humor como instrumento de crítica ao âmbito político. Em vários momentos ele pode ser usado de forma criativa para a chamar a atenção para algum aspecto que não despertaria o devido interesse, além de poder contribuir para a disseminação de alguma ideia. Para que esse uso progressista se efetue, todavia, penso que deva sempre se dirigir a um aspecto ou fato determinado, específico, e não a generalizações, que mais fazem perder de vista o que se pretende criticar do que fomentar uma atitude efetivamente combativa.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; min-height: 15.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Para terminar, nada mais a propósito do que o célebre texto de Bertolt Brecht:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;blockquote class="tr_bq" style="text-align: justify;"&gt;“O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais.”&lt;/blockquote&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; min-height: 15.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: #0b5394; font-size: small;"&gt;Se você gostou dessa postagem,&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: #0b5394; font-size: small;"&gt;compartilhe em seu mural no Facebook.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;a href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=2257787801295386827&amp;amp;postID=2385194084487454691&amp;amp;from=pencil" name="fb_share" share_url="http://verlainefreitas.blogspot.com/2012/02/critica-do-humor-politico.html" type="button_count"&gt;Compartilhar&lt;/a&gt; &lt;br /&gt;&lt;script src="http://static.ak.fbcdn.net/connect.php/js/FB.Share" type="text/javascript"&gt;&lt;/script&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2257787801295386827-2385194084487454691?l=verlainefreitas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/feeds/2385194084487454691/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/2012/02/critica-do-humor-politico.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2257787801295386827/posts/default/2385194084487454691'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2257787801295386827/posts/default/2385194084487454691'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/2012/02/critica-do-humor-politico.html' title='Crítica do humor político'/><author><name>Verlaine Freitas</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10829879484126407328</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-G8tX_Am1rhU/TuaO2ql9tFI/AAAAAAAAAFo/R439dUrIlOA/s220/DSCN1829%2Bb.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/-VOYbnJLmPpU/TyyS_JzGZwI/AAAAAAAAAJQ/BOiJQvUkThg/s72-c/Sue+poli%CC%81tico.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2257787801295386827.post-3806027970933921874</id><published>2012-01-28T00:01:00.001-02:00</published><updated>2012-01-28T00:07:01.744-02:00</updated><title type='text'>A ideologia do combate às drogas</title><content type='html'>&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-kztP1Hp5vz0/TyNWyhPor7I/AAAAAAAAAJI/n_3YUBXpMhc/s1600/Drogas.jpg" imageanchor="1" style="clear: right; float: right; margin-bottom: 1em; margin-left: 1em;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: inherit; font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;img border="0" height="187" src="http://1.bp.blogspot.com/-kztP1Hp5vz0/TyNWyhPor7I/AAAAAAAAAJI/n_3YUBXpMhc/s320/Drogas.jpg" width="320" /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: inherit; font-size: small;"&gt;A insistência com que várias instâncias governamentais praticam a repressão policial em relação aos dependentes de drogas ilícitas exige uma reflexão para além de considerar tal estratégia como um equívoco. Embora diversas autoridades sempre anunciem programas de tratamento psicológico e de assistência social, ações de intervenção violenta em determinados redutos, como a que ocorreu em 03/01/2012 na área de São Paulo conhecida como cracolândia, segundo me parece, são indícios claros de uma concepção macro de política, fundada em determinados princípios mais profundos, relativos a como a dinâmica social é vista ideologicamente por forças políticas conservadoras e à direita no espectro político.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: inherit; font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: inherit; font-size: small;"&gt;É preciso reconhecer, em primeiro lugar, que a dependência de drogas pesadas como cocaína, crack e heroína é bastante difícil de equacionar, já no âmbito individual, e mais ainda como problema de saúde pública. A influência recíproca entre os usuários, na medida em que se socializam ao redor da droga, dificulta sobremaneira a abordagem pelas vias pacíficas (assistência psicológica, hospitalar e social). Mesmo que um tratamento tenha eficácia em relação a um ou alguns indivíduos, sempre haverá espaço para que os demais usuários forcem a permanência de todos neste círculo, que se nutre da partilha das substâncias e de todo o estado de espírito dela decorrente. — Essas e outras dificuldades, entretanto, não justificam em hipótese alguma, segundo penso, o uso da violência e da repressão policial. Elas apenas indicam a necessidade de investir mais recursos humanos e de infra-estrutura hospitalar e de assistência psicológica. Se isto não é feito, não creio que seja apenas mais uma questão de estabelecer prioridades na repartição do orçamento público, mas, como disse, por uma motivação ideológica mais específica.&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; min-height: 15.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: inherit; font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: inherit; font-size: small;"&gt;Ao analisar as relações entre capital e trabalho, Marx cunhou uma expressão que ficou famosa: “Exército industrial de reserva”, que se refere a uma determinada quantidade de trabalhadores que devem, devido à própria dinâmica capitalista, permanecer desempregados, de modo a exercer uma pressão &lt;i&gt;para baixo &lt;/i&gt;sobre os salários, mantendo-os em níveis mais aceitáveis para o empregadores. Variando de acordo com as necessidades de equilíbrio em cada circunstância, a taxa de desemprego não seria apenas uma &lt;i&gt;disfunção &lt;/i&gt;inerente ao sistema, mas sim algo essencial a ele, cumprindo a função de “escudo” perante a consciência reivindicativa por parte da massa de trabalhadores.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: inherit; font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: inherit; font-size: small;"&gt;Penso que as estratégias de violência policial em relação aos usuários de drogas se nutrem de um princípio análogo a este. Trata-se de uma forma de &lt;i&gt;marcar uma heterogeneidade &lt;/i&gt;de um grupo, de uma facção, de uma comunidade, perante a maioria “civilizada” da sociedade. Parece-me evidente demais que a repressão policial não apenas não ajuda a resolver o problema, como acirra mais ainda a tensão perante todos os usuários. Só que também me parece claro que isto é evidente para as próprias autoridades, de modo que elas, na verdade, se servem de tal estratégia para manter focos de diferença substantiva perante um núcleo privilegiado da sociedade. A absorção mediada e refletida dos usuários de drogas, construída laboriosamente através de estratégias de assistência social e psicológica, contém um princípio ameaçador às forças conservadoras e de direita política, a saber, a consideração da necessidade de absorver diferenças no âmbito nuclear da sociedade. Tal como a política externa do governo de George W. Bush mostrou com clareza recentemente, o cultivo de inimigos é (ainda) essencial para a manutenção da legitimidade interna de condutas políticas segregacionistas e que tendem à acumulação de riqueza. Tais inimigos, entretanto, não precisam ser vistos apenas fora do país ou da sociedade, mas também como enclaves e nódoas internas.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: inherit; font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: inherit; font-size: small;"&gt;Não se trata de dizer, portanto, que &lt;i&gt;falte vontade política &lt;/i&gt;para reforçar as estratégias de integração dos usuários de drogas, mas sim que &lt;i&gt;persiste uma determinação ideológica &lt;/i&gt;de demarcar focos de contradição ao núcleo identitária da sociedade. Trata-se de uma política essencialmente conservadora, devido ao fato de negar, por uma questão de princípio, as mutações organicamente geridas pela sociedade em seu processo de assimilação reflexiva daquele que vive de forma diferente, e gosta de viver assim. A mobilização ostensiva do aparato de repressão violenta mantém a problemática daquele que é diferente na superfície de um espetáculo para uma classe média que se acostuma a saborear os benefícios de toda forma de estabilidade política e econômica. Marcar de forma violenta o quanto pode ser violenta a presença de quem é diferente é uma estratégia para &lt;i&gt;retardar ao máximo &lt;/i&gt;o processo de aprofundamento reflexivo acerca das heterogeneidades que constituem uma identidade múltipla da sociedade, que compreende a si mesma contrariando diversas formas de unificação, seja ela de gênero, de poder econômico, político, religioso etc.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: inherit; font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: inherit; font-size: small;"&gt;É preciso considerar os dois lados da moeda em termos de representatividade de linhas de força presentes no âmbito social que se refletem nas decisões tomadas no topo das políticas. Essa estratégia de repressão violenta corresponde aos anseios e imagens idealizadas presentes em grande parte das classes médias e altas, de modo que essa prática apenas vem confirmar aquilo que certa inércia social já demanda ao ordenamento político institucionalizado. Deste modo, essas práticas se coadunam com certa mentalidade, ao mesmo tempo em que a reforçam a partir de sua encenação espetacularizada.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: inherit; font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: inherit; font-size: small;"&gt;Especificamente em relação às drogas, manter o problema social do consumo como um “caso de polícia” é uma tática para dificultar o debate sobre sua descriminalização. É evidente que quanto mais usuários puderem contar com formas socialmente boas de estabilidade emocional e, assim, de convívio, mais “perigosa” é a perspectiva de que não se justifica manter a proibição do comércio de drogas hoje ilícitas.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; min-height: 15.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: inherit; font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: #0b5394; font-family: inherit; font-size: small;"&gt;Se você gostou dessa postagem,&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: #0b5394; font-family: inherit; font-size: small;"&gt;compartilhe em seu mural no Facebook.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: inherit;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;a href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=2257787801295386827&amp;amp;postID=3806027970933921874&amp;amp;from=pencil" name="fb_share" share_url="http://verlainefreitas.blogspot.com/2012/01/ideologia-do-combate-as-drogas.html" type="button_count"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: inherit;"&gt;Compartilhar&lt;/span&gt;&lt;/a&gt; &lt;br /&gt;&lt;script src="http://static.ak.fbcdn.net/connect.php/js/FB.Share" type="text/javascript"&gt;&lt;/script&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2257787801295386827-3806027970933921874?l=verlainefreitas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/feeds/3806027970933921874/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/2012/01/ideologia-do-combate-as-drogas.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2257787801295386827/posts/default/3806027970933921874'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2257787801295386827/posts/default/3806027970933921874'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/2012/01/ideologia-do-combate-as-drogas.html' title='A ideologia do combate às drogas'/><author><name>Verlaine Freitas</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10829879484126407328</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-G8tX_Am1rhU/TuaO2ql9tFI/AAAAAAAAAFo/R439dUrIlOA/s220/DSCN1829%2Bb.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-kztP1Hp5vz0/TyNWyhPor7I/AAAAAAAAAJI/n_3YUBXpMhc/s72-c/Drogas.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2257787801295386827.post-5824035757195989221</id><published>2012-01-21T02:42:00.006-02:00</published><updated>2012-01-21T15:42:46.691-02:00</updated><title type='text'>BBB: si-mesmo como espetáculo</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: inherit;"&gt;Os reality-shows tornaram-se um fenômeno de cultura de massa em vários países, e no Brasil não foi diferente. O fato de que a audiência deste programa cresce a cada dia convida a uma reflexão sobre seu significado cultural.&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: inherit;"&gt;Nos anos 40 do século passado, Adorno e Horkheimer disseram que o que a cultura de massa vende é, no final das contas, o cotidiano cinzento, engrandecido pelo brilho dos meios técnicos. Por mais que tais obras mostrem voos de fantasia e exercícios da imaginação, seu sentido cultural mais próprio é o de oferecer às pessoas a satisfação da vida que já sempre levam. Buscando uma identificação, seja com a realidade vivida no dia-a-dia, seja com os sonhos e ideais de vários tipos, a cultura de massa glorifica a percepção narcísica que cada um tem de si mesmo. — Transcorridos pouco mais de 50 anos, a invenção desses shows-de-realidade aparece como uma confirmação impressionante dessa análise, realizada quando a indústria cultural ainda se estruturava, sem o poder de manipulação das imagens, sons e poder de difusão como nos dias de hoje.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: inherit;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: inherit;"&gt;(Há que se notar, que, através da expressão “oferta cultural”, que uso várias vezes aqui, pretendo dizer de um sentido geral do que é vendido por esse tipo de produto de entretenimento. Tal não significa dizer que toda e qualquer pessoa que o consuma o faça apenas ou eminentemente em função dessa “lógica”. Com base em um princípio geral de interpretação de produtos culturais, creio que não seja possível haver uma teoria suficientemente potente capaz de explicar e de abarcar as infinitas possibilidades de recepção de qualquer item cultural que seja. Cada pessoa tem uma dinâmica psíquica, uma disposição mental própria, um conjunto de valores sui generis etc., de modo que somente uma análise centrada em cada pessoa pode dizer de sua própria recepção a um bem cultural. Análise cultural não tem a validade de um diagnóstico clínico, mas, segundo penso, pode ser suficientemente válida para dizer de linhas de força que transitam pelo tecido social, às quais dificilmente alguém, em princípio, poderia se dizer totalmente imune.)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: inherit;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/-mTf1HQVcncQ/TxpFc3IDLuI/AAAAAAAAAI4/AsavuM1ujcI/s1600/espelho1.jpg" imageanchor="1" style="clear: right; float: right; margin-bottom: 1em; margin-left: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="290" src="http://2.bp.blogspot.com/-mTf1HQVcncQ/TxpFc3IDLuI/AAAAAAAAAI4/AsavuM1ujcI/s320/espelho1.jpg" width="320" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: inherit;"&gt;Já se disse várias vezes que os reality-shows possuem como uma de suas características peculiares a ausência de narrativa, de uma linha de ficção. Se as novelas já procuravam fazer um retrato estilizado dos conflitos, alegrias, sonhos e frustrações da classe média urbana, o Big Brother se apresenta como a oferta das infinitas vicissitudes da vida sem esta capa, este véu da ficção. Por mais que os críticos desse tipo de programa digam da artificialidade do comportamento das pessoas que se esforçam por ganhar o prêmio máximo, como também do trabalho de edição das imagens e da criação de uma linha de eventos que fornece uma coerência de uma narrativa artificial, parece pesar mais para os consumidores a percepção de que, sob a pressão do confinamento a longo prazo, as pessoas acabam revelando aquilo que elas mesmas são, de uma forma mais franca, verdadeira.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: inherit;"&gt;Creio que seja isso mesmo que o programa ofereça como satisfação cultural: um modo de digerir, através de uma atitude voyerista, a inquietude de não se saber quem se é. Vende-se um gozo pornográfico de bisbilhotar a intimidade virulenta e arredia que escapa pelos dedos, sob a pressão do olhar de milhões de pessoas.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: inherit;"&gt;Já se disse que toda a atitude do consumo, e por extensão da cultura de massa em geral, é a de erotização do cotidiano, com o apelo sensual/sexual de toda mercadoria, seja ela um bem físico, como uma calça, seja uma música ou um filme. O reality-show estimula, de forma escancarada e assumida a polaridade do exibicionismo e do voyeurismo, que são muito facilmente intercambiáveis devido à quantidade infinita de momentos em que o espectador se identifica com o que ocorre na tela.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: inherit;"&gt;Embora a idéia de Adorno de que se venda o cotidiano cinzento realmente me pareça válida, eu a modificaria no sentido de que o Big Brother vende todas as cores emocionais, de comportamento e de desejo que a individualidade auto-centrada dos nossos dias acostumou-se a cultivar, seja de forma concreta, seja como uma mera imagem do que se deseja ser. Há algum tempo o diretor do programa havia dito que no Big Brother deveria haver o máximo de ódio e o máximo de amor. De fato, é necessário saturar a percepção de emotividade contraditória que as pessoas gostam de saborear em si mesmas e, ao mesmo tempo, escarnecer de sua mesquinhez ao vê-la projetada naquele que vive sob a pressão de realizar seu desejo exibicionista. Que a cada edição sejam introduzidos novos personagens, com posturas e tipos psicológicos bem diferenciados, e que atitudes, antes tomadas como tabus, como o beijo homossexual, sejam admitidas e ao mesmo tempo censuradas / condenadas, tudo isso é parte dessa oferta cultural de trazer ao palco todas as vicissitudes pelas quais passam as opções por uma individualidade qualquer.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: inherit;"&gt;Tal como a relação sexual adquire um ingrediente que pode torná-la mais saborosa, a saber, com um espelho que reflita toda a cena, essa multiplicidade cromática do cotidiano ganha um sabor todo especial pela mediação dessa presença universalizante da televisão. Trata-se de um enorme espelho que tem sua potência erotizante multiplicada pela quantidade de pessoas que se sabe serem também espectadores como nós. Diante disso, não me causa nenhuma uma surpresa a já prosaica situação de pessoas que, em uma festa real em seus apartamentos, param o que estão fazendo a fim de assistir a uma festa do Big Brother. De fato, a encenação espetacularizada da festa do outro já contém algo da transcendência da ficção, pelo fato de receber essa injeção cavalar da dignidade de ser um objeto de observação por milhões de pessoas. Essa lascívia de se transportar para o gozo do outro, sorvê-lo através da segurança do distanciamento dado pela tela, ao mesmo tempo em que se tripudia do quanto as pessoas estão próximas de falir, de perder, e assim sair do jogo, por não suportarem a pressão dos milhões de olhos que se dirigem para eles — isso é um tempero que realmente confere um sabor espetacular para algo que, na realidade, é apenas uma imagem. Poder manipular o gozo e a falência iminente do outro, eis aí um dos princípios desse prazer narcisista de consumir o reflexo universal dos elementos particulares e mesquinhos do próprio cotidiano.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: inherit;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: #0b5394; font-family: inherit;"&gt;Se você gostou dessa postagem,&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: #0b5394; font-family: inherit;"&gt;compartilhe em seu mural no Facebook.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: inherit;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;a href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=2257787801295386827&amp;amp;postID=5824035757195989221&amp;amp;from=pencil" name="fb_share" share_url="http://verlainefreitas.blogspot.com/2012/01/bbb-si-mesmo-como-espetaculo.html" type="button_count"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: inherit;"&gt;Compartilhar&lt;/span&gt;&lt;/a&gt; &lt;br /&gt;&lt;script src="http://static.ak.fbcdn.net/connect.php/js/FB.Share" type="text/javascript"&gt;&lt;/script&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2257787801295386827-5824035757195989221?l=verlainefreitas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/feeds/5824035757195989221/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/2012/01/bbb-si-mesmo-como-espetaculo.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2257787801295386827/posts/default/5824035757195989221'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2257787801295386827/posts/default/5824035757195989221'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/2012/01/bbb-si-mesmo-como-espetaculo.html' title='BBB: si-mesmo como espetáculo'/><author><name>Verlaine Freitas</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10829879484126407328</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-G8tX_Am1rhU/TuaO2ql9tFI/AAAAAAAAAFo/R439dUrIlOA/s220/DSCN1829%2Bb.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/-mTf1HQVcncQ/TxpFc3IDLuI/AAAAAAAAAI4/AsavuM1ujcI/s72-c/espelho1.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2257787801295386827.post-8665009607995963954</id><published>2012-01-14T00:04:00.001-02:00</published><updated>2012-01-14T00:05:51.188-02:00</updated><title type='text'>A permanência do inefável</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-xu8EzCk4vSg/TxDiKRQgAaI/AAAAAAAAAIw/deAt3QiTNuQ/s1600/A_foto_de_guimaraes_rosa_02.jpg" imageanchor="1" style="clear: right; float: right; margin-bottom: 1em; margin-left: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="187" src="http://1.bp.blogspot.com/-xu8EzCk4vSg/TxDiKRQgAaI/AAAAAAAAAIw/deAt3QiTNuQ/s200/A_foto_de_guimaraes_rosa_02.jpg" width="200" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Hoje quero comentar um conto de Guimarães Rosa, “A terceira margem do rio”, presente no volume &lt;i&gt;Primeiras estórias&lt;/i&gt; (caso você não o tenha lido ainda, &lt;a href="http://verlainefreitas.blogspot.com/p/terceira-margem-do-rio.html" target="_blank"&gt;CLIQUE AQUI&lt;/a&gt;). Este livro contém diversas narrativas que tematizam o exótico, o sobrenatural, o inusitado, o insólito. Aquele conto aborda explicitamente o estranhamento radical do desvario, girando ao redor da inquietação provocada pela insistência com que a insanidade se afirma. Já o título aponta para algo que não existe, mas que nos constrange a conferir-lhe uma densidade através da pregnância, ênfase, com que uma alteridade muito próxima se afasta e se aproxima de forma perturbadora: “Aquilo que não havia, acontecia”.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O começo da narrativa contém uma indecisão que auxilia a leitura de todo o texto. Não fica claro se o pai mandara fazer a canoa já com intenção de se isolar no rio, ou se essa atitude foi desencadeada pela fala de sua esposa: “Cê vai, ocê fique, você nunca volte!”. Como o narrador-filho explicita, sua mãe é a que sempre teve autoridade em casa, e essa ordem sobre o marido foi a última, derradeira, cumprida até o mais extremo. No fim do conto reaparece essa questão, quando o narrador especula que quem fez a canoa já teria sabido da motivação do pai. Assim, oscilamos entre uma decisão que já parecia tomada e uma subjugação extrema, visceral.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O pai saiu do meio dos vivos para continuar habitando entre eles como um morto-vivo, um fantasma, uma incógnita, cujo arbítrio a cada tempo parecia mais difícil de entender, pelo extremo de sua insistência. Trata-se de uma atitude &lt;i&gt;sublime&lt;/i&gt;, em função da profundidade da anulação de si. Tal aniquilamento, entretanto, somente teve seu peso em função do fato de não coincidir com a simples morte, mas sim com a afirmação continuada do sofrimento indizível — inefável. O narrador, repetidas vezes, diz se impressionar com o fato de o pai suportar uma condição tão miserável, sujeita a doenças, fome, desconforto, imundície, frio, noites mal dormidas etc.: “o severo que era, de não se entender, de maneira nenhuma, como ele aguentava”. A coragem e a força infinitas de afirmar indefinidamente a miséria continuada da anulação de si: essa contradição indizível é o núcleo de toda a narrativa.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O enigma do arbítrio permanece sob diversas formas ao longo das páginas. Em que pesem as primeiras formas de mudar a situação, tal como a presença dos soldados, do padre e dos homens do jornal com sua lancha, o que prevaleceu é a resignação perante a facticidade inamovível da decisão do pai: “a gente teve de se acostumar com aquilo. Às penas, que, com aquilo, a gente mesmo nunca se acostumou, em si, na verdade”. Não seria difícil conceber uma atitude mais determinada de, por assim dizer, resgatar o homem, com vários barcos rastreando o rio à sua procura, mas a opção foi a de deixar que ele mesmo decidisse seu destino: “Então, pois, nossa mãe e os aparentados nossos, assentaram: que o mantimento que tivesse, ocultado na canoa, se gastava; e, ele, ou desembarcava e viajava s’embora, para jamais, o que ao menos se condizia mais correto, ou se arrependia, por uma vez, para casa”. O problema consiste no fato de ele ter escolhido uma terceira via, e todos, por sua vez, escolheram tão-somente tentar digerir por sua própria conta o absurdo indigesto que isso representava: “não, de nosso pai não se podia ter esquecimento; e, se, por um pouco, a gente fazia que esquecia, era só para se despertar de novo, de repente, com a memória, no passo de outros sobressaltos”. O filho o alimentou durante todos os longos anos, e se pode dizer que, assim, alimentava a própria situação, dando-lhe os meios para permanecer como tal. O respeito absoluto ao direito de escolha, por outro lado, soa também como uma indiferença radical, pois: como se tolerou a permanência indefinida de uma situação de extrema penúria?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Tal como a canoa com aquele homem era um corpo estranho, mas afeito ao silêncio demorado do rio, a determinação obstinada do personagem pode ser vista como própria e bizarra para a vida de alguém que “não figurava mais estúrdio [extravagante] nem mais triste do que os outros... Só quieto”. Uma vida cuja planura se reflete na quietude larga do rio, e sulcada de forma sangüínea pela cisão imposta por seu arbítrio. Tal como se qualifica como arbitrário aquele que age sem critério, ao sabor da pura vontade e deliberação próprias — o que denota algo sem legitimidade, inadmissível —, a atitude do personagem foi de uma arbitrariedade paradoxal, que coloca em xeque a própria validade de seu arbítrio, uma vez que sua decisão tornava sua vida exangue.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Pouco depois do meio do conto explicita-se um elemento que de alguma forma já se afigurava desde o início, e que decidirá o desfecho da narrativa: uma relação tensa e ambígua de identificação do narrador-filho com o pai. A começar com a consciência culpada de comer uma comida gostosa e imaginar o sofrimento do pai, temos também a indicação da semelhança física, que, entretanto, é imediatamente colocada em xeque pela realidade atual da degeneração do pai, que “agora virara cabeludo, barbudo, de unhas grandes, mal e magro, ficado preto de sol e dos pêlos e, com o aspecto de bicho”. A ambigüidade é logo em seguida reforçada com uma questão interessante: “Nem queria saber de nós; não tinha afeto?”. Isso é significativo, em função do fato de que se trata de uma cobrança a uma pessoa que parece desprezar o afeto da família, e, ao mesmo tempo — o que é mais instigante ainda —, voltar-se &amp;nbsp; unicamente para si mesmo. O narrador questiona que, se se tratasse de um desafeto, seria mais natural que ele simplesmente fosse para longe. O que parecia realmente inassimilável na atitude do pai era o quanto ela marcava de forma categórica um não-lugar, simetricamente alheio ao afeto e o desafeto, como uma espécie de terceira margem para o fluxo dos sentimentos. Essa insistência no &lt;i&gt;não-humano&lt;/i&gt; acaba sendo sentida pelo filho como mais &lt;i&gt;desumana&lt;/i&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Depois da passagem decisiva em que vemos a recusa do pai em conhecer a neta (o que pode ser tomado simbolicamente como uma recusa enfática da vida), o complexo identificatório é mais uma vez afirmado quando o narrador insiste em permanecer na casa, ao contrário dos outros membros da família, que resolvem afirmar e procurar novos meios de vida. Ele diz nunca poder querer se casar, pois, afinal de contas, “Nosso pai carecia de mim... sem dar razão de seu feito”. Mesmo já caminhando para a maturidade, simbolizada pelos primeiros cabelos brancos, o narrador-filho ainda insistia em afirmar, ao mesmo tempo, a legitimidade do desejo do pai e sua arbitrariedade, seu não-sentido. É precisamente por essa obstinação na ambigüidade identificatória que podemos explicar a pergunta que ele coloca: “de que era que eu tinha tanta, tanta culpa?”. A resposta seria: do fascínio que a negação sublime de si mesmo causava nele. Uma espécie de atração irresistível por um redemoinho que tragava o sentimento com uma força proporcional ao horror que ela causava. Quando, por fim, a derradeira frase é dita: “Pai, o senhor está velho, já fez o seu tanto... Agora, o senhor vem, não carece mais... O senhor vem, e eu, agora mesmo, quando que seja, a ambas vontades, eu tomo o seu lugar, do senhor na canoa!...”, temos a passagem capital da fantasia à realidade. Ora, tanto maior o grau de realidade, tanto maior o horror perante o absurdo daquele fascínio por ocupar o vazio que o pai marcara incessantemente.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Essa tensão radical em torno da ambigüidade identificatória tem seu lance derradeiro quando o narrador questiona: “Sou homem, depois desse falimento? Sou o que não foi, o que vai ficar calado”. Não se aplicariam essas duas frases ao próprio pai? Não teria ele também falido, calando-se na profundidade abissal de sua desrazão? Depois de se apontar para o abandono da família, da sanidade mental, de toda comunicação, do afeto e até da forma física propriamente humana, seria de se pensar que sim, mas a melhor resposta, na verdade, é &lt;i&gt;não&lt;/i&gt;. Não há uma falência propriamente dita para o pai, uma vez que ele ousou concretizar a sublimidade contraditória da anulação de si, afirmando-a de forma enfática e persistente, ao passo que tal contradição no filho permaneceu frouxa, dado o distanciamento entre fantasia e realidade. O falimento, do filho, se caracteriza por uma extrema veleidade, uma vontade hesitante, que oscilou entre a fantasia culpada e a fuga covarde. O silêncio do pai era como que o eco sempiterno de uma sublimidade incompreensível; o do filho, o testemunho da fragilidade radical perante o abismo, que nos atrai na proporção com que ameaça nos aniquilar.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: #0b5394;"&gt;Se você gostou dessa postagem,&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: #0b5394;"&gt;compartilhe em seu mural no Facebook.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;a href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=2257787801295386827&amp;amp;postID=8665009607995963954&amp;amp;from=pencil" name="fb_share" share_url="http://verlainefreitas.blogspot.com/2012/01/permanencia-do-inefavel.html" type="button_count"&gt;Compartilhar&lt;/a&gt; &lt;br /&gt;&lt;script src="http://static.ak.fbcdn.net/connect.php/js/FB.Share" type="text/javascript"&gt;&lt;/script&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2257787801295386827-8665009607995963954?l=verlainefreitas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/feeds/8665009607995963954/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/2012/01/permanencia-do-inefavel.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2257787801295386827/posts/default/8665009607995963954'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2257787801295386827/posts/default/8665009607995963954'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/2012/01/permanencia-do-inefavel.html' title='A permanência do inefável'/><author><name>Verlaine Freitas</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10829879484126407328</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-G8tX_Am1rhU/TuaO2ql9tFI/AAAAAAAAAFo/R439dUrIlOA/s220/DSCN1829%2Bb.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-xu8EzCk4vSg/TxDiKRQgAaI/AAAAAAAAAIw/deAt3QiTNuQ/s72-c/A_foto_de_guimaraes_rosa_02.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2257787801295386827.post-5067168193763463694</id><published>2012-01-06T20:25:00.000-02:00</published><updated>2012-01-06T20:25:45.443-02:00</updated><title type='text'>O idealista e o pragmático</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Existe uma diferenciação em termos de postura diante do mundo que já parece clara pela própria designação; trata-se da diferença entre o idealista, o realista e o pragmático. O primeiro seria aquele que avalia a realidade e nela vive em função de ideais, sonhos e desejos bastante diferentes do que a realidade oferece mais concretamente. Nesse sentido, ele se distancia do âmbito da experiência, desconsiderando as vicissitudes de nossa relação com as coisas, com as pessoas e nossa própria realidade interior. O realista, como própria designação já indica, teria, supostamente, uma avaliação sensata de como as coisas efetivamente funcionam, sem, em contraste com o primeiro, sobrestimar os valores, critérios e perspectivas que usa para olhar a realidade. O pragmático, continuando na mesma linha de aproximação com a realidade, seria aquele que procura resultados e meios de alcançar benefícios, desconsiderando de forma enfática toda expectativa fundada em projeções de fantasias que não possam ter uma confirmação mais segura por parte dos fatos. (“Pragmático”, aqui, não se refere à doutrina filosófica do pragmatismo; a significação que temos em mente é próxima de uma das que são fornecidas pelo dicionário, no caso o Houaiss: seria aquele “que sacrifica princípios ideológicos para a consecução de objetivos a curto prazo (diz-se de indivíduo, partido político, política etc.))&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Embora seja sempre difícil aplicar essas categorias valorativas nos diversos contextos, pois em muitos casos parece não haver nenhum critério seguro o suficiente para qualificar uma atitude como idealista ou realista, creio que essa tripla diferenciação seja útil para entender, pelo menos em termos de princípio geral, modos de relacionamento com a realidade. Não quero aqui propor uma conceituação nova de cada uma dessas três qualificações, mas sim falar de uma determinada relação entre elas, usando as definições que indiquei.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Quem entra em uma nova realidade, seja por ingressar em uma profissão diferente, casar-se, ter filhos, participar de uma organização política pela primeira vez etc., sempre é levado a relacionar a experiência dessa nova forma de viver com suas expectativas. Nesse momento de confronto, é sempre interessante perceber o quanto os idealistas tendem facilmente a se tornar pragmáticos (embora nem sempre, claro). A medida da desilusão será proporcional ao quanto se dará importância ao fato de se conseguir lidar com as coisas de forma eficaz, sem se sentir magoado, ferido e, claro, decepcionado. Quanto maiores as exigências, as idealizações, perante uma forma de vida que ainda não se conhece, mais o contraste com ela parece ser motivo suficiente para dizer que “o que conta mesmo é o que eu posso tirar de proveito da realidade”.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Se isso é verdade — e eu creio que seja, pelo menos como uma tendência que me parece forte —, então pode ser aplicado em diversos contextos, não apenas em relação a mudanças específicas de realidade, seja profissional ou de estado civil, mas em termos de educação dos filhos. Na medida em que estes são preparados para a ingressar na sociedade, é sempre muito importante ponderar os planos dos valores que se querem, e aquilo que efetivamente se pode esperar tanto deles quanto do que percebemos em nosso contato com as pessoas ao longo de toda vida. Uma ética idealista, assim, pode facilmente gerar pessoas bastante voltadas para resultados imediatos das ações, para evitar sistematicamente fontes de desilusão, engano e desapontamento. Por outro lado, também me parece claro que uma ética por demais pragmática é, de certa forma, pedagogicamente muito pobre, pelo fato de estreitar as vias que levam a valores mais significativos para a consecução de um processo formativo mais forte, consistente.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Um outro lado da questão, menos evidente do que tudo isso até agora, é o de que essa atitude pragmática, que resulta de um idealismo frustrado, convive perfeitamente com estratégias e modos de perceber a realidade ainda bastante idealistas. Quando isso ocorre, costuma aparecer sob a forma de determinados ícones, paradigmas de excelência, de consumação de determinadas qualidades, que, devido precisamente a essa pureza com que encarnam determinados valores, não se misturam ao restante da vida. Assim, de acordo com o que cada um esperava de determinada forma de vida, pode-se eleger uma pessoa, uma entidade espiritual, uma simples imagem, um determinado tipo de vida etc., que apresente, de forma bastante dócil aos desejos, a realização deles.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Os exemplos são muitos, e cada um pode perfeitamente ser assunto de um texto inteiro aqui neste blog. Um que me parece especialmente claro é dado por uma expressão que já se tornou conhecida: “Quanto mais conheço as pessoas, mais amo os animais”. É evidente que nem toda pessoa que devota amor ao seu animal de estimação o faz segundo essa perspectiva. Na verdade, não apenas o respeito, mas o carinho com os bichos é significativo moralmente (assunto, aliás, para outra postagem). Cabe aqui apenas comentar especificamente o que tal frase afirma, pois ela indica com alguma clareza que, nesse caso, o amor para com os animais é reforçado pelas decepções ou desilusões sucessivas com as pessoas.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Das diversas faces dessa realidade — que é bastante complexa, impossível de ser abordada de forma minimamente abrangente aqui nesse espaço —, a que está mais próxima de nossa problemática é a de que os animais não contradizem internamente nossos desejos, nosso afeto em relação a eles. Sempre que o fazem, isso é tributado a fatores biológicos, de natureza, de constituição genética, de diferenças de comportamento entre as raças etc. Em todos os outros momentos, tem-se uma relação afetiva em que o animal absorve e retribui de forma não contraditória nossa demanda em relação a ele, dado que é, em medidas variáveis (de acordo com o animal: gato, cachorro, pássaros), sempre solícito. Tem-se, assim, um equacionamento que se auto-reforça: toda ressonância positiva de nossa demanda a confirma, ao passo que nenhuma negação a enfraquece. Desse modo, a afetuosidade dos animais não apenas não nos decepciona, quanto já se sabe, de antemão, que não irá fazê-lo.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Assim, seguindo especificamente o que a frase diz, podemos dizer que alguém, sucessivamente decepcionado com as relações sociais, pode facilmente deixar de nutrir expectativas para com as pessoas — evitando desilusões —, passando a ter, nesse caso, um comportamento próximo ao que definimos como pragmático. O outro lado da moeda é que a afetividade com os animais é vivida de forma idealizada, purificada das tensões provenientes do quanto uma outra subjetividade pode negar, questionar, duvidar de, nosso afeto.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;De acordo com minha argumentação, fica claro que considero tanto a atitude idealista quanto a pragmática formas “equivocadas” de se relacionar com a realidade, pois lhes falta um elemento fundamental: a capacidade de dialogar, de forma viva e incessantemente renovada, com as inúmeras faces da realidade, de modo a não inundá-la com nossos ideiais, fantasias e demandas, como também não esvaziar nosso desejo de usufruir e gozar do real devido à aridez com que este se apresenta aos olhos de quem constrói uma miragem com seus valores e expectativas.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: #0b5394;"&gt;Se você gostou dessa postagem,&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: #0b5394;"&gt;compartilhe em seu mural no Facebook.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;a href="" name="fb_share" share_url="http://verlainefreitas.blogspot.com/2012/01/o-idealista-e-o-pragmatico.html" type="button_count"&gt;Compartilhar&lt;/a&gt; &lt;br /&gt;&lt;script src="http://static.ak.fbcdn.net/connect.php/js/FB.Share" type="text/javascript"&gt;&lt;/script&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2257787801295386827-5067168193763463694?l=verlainefreitas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/feeds/5067168193763463694/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/2012/01/o-idealista-e-o-pragmatico.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2257787801295386827/posts/default/5067168193763463694'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2257787801295386827/posts/default/5067168193763463694'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/2012/01/o-idealista-e-o-pragmatico.html' title='O idealista e o pragmático'/><author><name>Verlaine Freitas</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10829879484126407328</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-G8tX_Am1rhU/TuaO2ql9tFI/AAAAAAAAAFo/R439dUrIlOA/s220/DSCN1829%2Bb.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2257787801295386827.post-5474997034102391227</id><published>2011-12-31T13:38:00.004-02:00</published><updated>2011-12-31T18:34:55.878-02:00</updated><title type='text'>Arte e pornografia</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: inherit; font-size: small;"&gt;Quando se trata de questões afeitas ao universo dos valores culturais, perguntar por aquilo que “é” alguma coisa torna-se sempre complicado. Se descrevemos um objeto físico ou químico, pelo menos no âmbito macro, sem considerarmos questões relativas à estrutura atômica da matéria, parece que não temos muita dificuldade, pois não é difícil dizer se um animal é um gato, ou se um vegetal é uma rosa. Temos, nesses casos, critérios objetivos para diferenciar as coisas. Mas se questionarmos a diferença entre cultura popular e cultura de massa, por exemplo, as dificuldades já são enormes. Quem arrisca alguma diferenciação, sempre será confrontado com o questionamento acerca dos vários produtos que podem &lt;i&gt;mesclar &lt;/i&gt;características dos dois âmbitos, de modo a colocar em xeque a validade da divisão, das fronteiras, dos limites, cuja indefinição gera precisamente a ideia de que se trata de um delineamento arbitrário, como que imposto pela vontade de alguém.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: inherit; font-size: small;"&gt;Hoje quero falar da relação entre arte e pornografia, dois conceitos que sofrem claramente desse problema de indefinição de campos, de modo que muitos teóricos dizem que não há como estipular com suficiente clareza até onde vai o artístico e onde começa o pornográfico. Apesar da extrema dificuldade, donos de galeria de arte, editores de revistas, de jornais e de meios de comunicação em geral, como a televisão e sites na internet costumam seguir uma definição de pornografia que já se tornou clássica: é tudo aquilo que tem a intenção, ou se mostra capaz, de excitar, que é apelativo, que contém certa lascívia, induzindo a uma estimulação sexual. Em contraste com isso, a arte erótica, mesmo servindo-se de imagens, sons e narrativas sexuais, não procuraria essa excitação e estimulação do apetite sexual, sendo algo neutro ou neutralizado nesse aspecto.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: inherit; font-size: small;"&gt;Embora essa divisão seja útil para qualificar diversos produtos nos dois âmbitos, creio que ela seja insuficiente de um ponto de vista filosófico/estético/psicanalítico. Ela tem sua utilidade no que concerne a determinados procedimentos de censura, aceitação ou exclusão em determinados veículos, como sites jornalísticos, programas televisivos etc. Pretendo mostrar como uma visão mais abrangente dos princípios de constituição das imagens sexualizadas nos permite uma avaliação mais nuançada e, portanto, enriquecida. (Naturalmente, existem outras definições de pornografia, que pretendo discutir em outra ocasião.)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; min-height: 15.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://www.verlaine.pro.br/rubens-nude.htm" target="_blank"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;img border="0" height="201" src="http://2.bp.blogspot.com/-BNkbXNHH9rc/Tv8qk8EFt2I/AAAAAAAAAHM/Bbup5_J1kzA/s320/rubens-nude-min.jpg" width="320" /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;(&lt;a href="http://www.verlaine.pro.br/rubens-nude.htm" target="_blank"&gt;Clique aqui para ver as fotos ampliadas&lt;/a&gt;.)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: inherit; font-size: small;"&gt;A da esquerda é uma pintura de Peter Paul Rubens, e representa o rapto das filhas de Leucipo, e a outra, uma foto que encontrei na internet, da qual desconheço tanto o autor, quanto a modelo. Ambas as figuras são claramente eróticas. O quadro de Rubens é bastante vívido, possui o manuseio de cores típico do artista, que antecipa a ênfase cromática de Delacroix, colocando toda a composição em formato global dinâmico, pois a composição é baseada em um rombóide (veja a figura abaixo), que confere certa instabilidade ao quadro como todo, apesar de, ao final, tudo permanecer em equilíbrio.&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: inherit; font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; min-height: 15.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-C7emVXrlD7c/Tv9x3RmckMI/AAAAAAAAAHk/XbWEwS92YnE/s1600/rubens-rapto-esq.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://1.bp.blogspot.com/-C7emVXrlD7c/Tv9x3RmckMI/AAAAAAAAAHk/XbWEwS92YnE/s1600/rubens-rapto-esq.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: inherit; font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: inherit; font-size: small;"&gt;O tema, por si só, já inclui uma alta dose de erotismo, pois o rapto é o seqüestro para fins sexuais. As duas mulheres estão nuas, e os dois homens são mostrados com toda sua eloqüência no ato violento. Como costuma acontecer em quadros de composição complexa, com vários elementos, e que ainda se submetem a alguma narrativa, alguns detalhes são reveladores da tônica geral da obra. O casal do centro está numa relação muito insinuantemente sexual, acentuada pelo olhar do rapaz, pelo modo como segura o pano que sustenta a garota, bem como pela cor avermelhada do tecido. Acho especialmente interessante ver os gestos das duas mãos da garota, pois sua mão esquerda se dirige para o céu como que em pedido de socorro, ao passo que a direita repousa delicadamente no braço musculoso do rapaz, o que contrasta não apenas com sua atitude de súplica, bem como com toda a turbulência da cena. (Seria inadequado supor que é um momento em que o espectador é “induzido” a imaginar que a moça faz gestos delicados com os dedos no braço do rapaz? Ou isso já é exagero de minha parte?) Que a figura do rapaz ressoe a do cavalo à nossa esquerda não me parece apenas uma exigência de composição, mas sim mais um elemento que afirma a lascívia (perversão?) de toda a cena. Que a figura angelical infantil à esquerda seja um cupido, não está claro, mas creio que seja a intenção, e que ele deixe soltas as rédeas do cavalo não me parece também acidental.&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: inherit; font-size: small;"&gt;Todas essas características são suficientes para dizer que se trata de uma obra pornográfica? Nesse momento, o princípio de adequação histórica poderia ser levantado, no sentido de exigir que nos coloquemos no lugar das pessoas que apreciaram esse quadro na época em que foi realizado, século XVII, em pleno período barroco, na França. Essa problemática, entretanto, nos leva a questões específicas, que são complexas demais para serem tratadas aqui. Fazendo certa abstração deste aspecto, eu digo que, apesar de todos os elementos que confluem na direção do erotismo da obra, ela não é propriamente pornográfica.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: inherit; font-size: small;"&gt;A foto da direita, por sua vez, não contém nenhuma narrativa, retratando uma garota que está parada. Apesar da ênfase da luz, do contraste entre claro e escuro, não há cor, é uma foto em preto-e-branco. O único elemento mais narrativo é o modo como a garota segura o colar, sugerindo que ela esteja roçando as contas do colar nos seios. Estes, obviamente, são o foco de atenção. Toda a incidência da luz em diagonal para baixo ocorre para ressaltar a sensualidade e o volume dessa parte do corpo. O contraste do tamanho entre as contas do colar, dos mamilos e dos seios é importante para ressaltar a sensualidade e fomentar a imaginação do espectador. Embora o rosto da modelo não apareça, o pouco que vemos dele sugere um ar um lânguido.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: inherit; font-size: small;"&gt;Apesar da economia de meios, da ausência de narrativa e da simplicidade cromática, essa foto é propriamente pornográfica. Resta saber o que nos permite fazer essa diferenciação entre as imagens.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: inherit; font-size: small;"&gt;Meu argumento baseia-se na relação entre as partes e o todo. A pergunta central é se os elementos que compõem a obra estão a serviço de uma totalidade cujo sentido ultrapassa o âmbito propriamente sexual, ou se a composição como um todo, mesmo que tenha pouca conexão com a sexualidade em sentido estrito, está a serviço, está na mesma lógica do desejo sexual. Por mais que os ingredientes de um filme, um romance ou uma imagem possam ter, por si mesmos, um apelo sexual, o sentido geral da obra pode não estar a serviço desse significado particular. No outro caso, mesmo que as indicações sexuais não sejam explícitas, elas podem se agrupar em uma totalidade imagética que seja suficientemente dócil à conexão das fantasias sexuais por parte do espectador.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: inherit; font-size: small;"&gt;Gostaria de ilustrar essa idéia com uma outra diferenciação no âmbito estético, entre arte abstrata e figurativa. Considere as duas imagens abaixo.&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; min-height: 15.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://www.verlaine.pro.br/picasso-rausch.htm" target="_blank"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;img border="0" height="228" src="http://2.bp.blogspot.com/-X8f455v2Iz8/Tv8q_MBkkiI/AAAAAAAAAHY/A6JvtaWZxGY/s320/picasso-rausch.jpg" width="320" /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;(&lt;a href="http://www.verlaine.pro.br/picasso-rausch.htm" target="_blank"&gt;Clique aqui para ampliar as fotos.&lt;/a&gt;)&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: inherit; font-size: small;"&gt;A da esquerda é uma pintura de Pablo Picasso, mostrando duas pessoas. A da direita é uma composição em serigrafia feita por Robert Rauschenberg.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: inherit; font-size: small;"&gt;O quadro de Picasso, por mais que contenha distorções da figura humana, ainda é uma pintura figurativa, pois o sentido geral da composição é de dizer, falar, de forma estilizada e mediada por um princípio de leitura visual, de uma realidade correspondente no mundo. O quadro de Rauschenberg, no sentido oposto, usa diversos elementos figurativos para fazer uma montagem, de forma que o sentido geral do composição é o de um quadro abstrato. No caso de Picasso, todas as linhas, planos e figuras geométricas ainda estão a serviço de uma composição que visa retratar, mesmo que de forma altamente distorcida, uma porção da realidade, ao passo que no quadro de Rauschenberg, as partes da realidade que são figuradas estão a serviço de uma composição cujo sentido faz cada uma delas valer como linhas, planos e figuras. Assim, o que conta em nossa consideração acerca da obra não é propriamente o que vemos em cada uma de suas partes, mas sim o sentido que a obra como um todo ganha a partir da articulação de todos os seus elementos.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: inherit; font-size: small;"&gt;Voltando às duas imagens anteriores, dizemos que, de forma análoga, todos os elementos sensuais no quadro de Rubens estão a serviço de uma totalidade compositiva que é, em certo sentido, “livre”, situada em um plano diferente, do desejo sexual do espectador. Nosso prazer teria seu sentido próprio por tomar como objeto a mestria, a habilidade, a força com que todos esses elementos sexuais (e todos os propriamente plásticos, como cor, linha, perspectiva etc.) ainda se mantêm coesos em uma composição dinâmica que ainda é suficientemente estável. No caso da foto, toda a economia de elementos cenográficos, por assim dizer, na verdade caminha no sentido de reforçar esta conexão da figura com as fantasias sexuais, com a imaginação pornográfica (para usar uma expressão de Susan Sontag), do espectador. No quadro de Rubens, a sexualidade está a serviço da composição da obra, e na fotografia, a composição está a serviço da sexualidade.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: inherit; font-size: small;"&gt;Uma aplicação extrema dessa idéia é dizer que mesmo que uma obra contenha elementos que excitam sexualmente de forma deliberada, pode ter seu impacto estético geral, seu sentido composicional, não pornográfico. O caso mais evidente que posso apontar é o filme &lt;i&gt;Diabo no corpo&lt;/i&gt;, de Marco Bellocchio, que contém uma longa cena, com a câmera bastante próxima, em que uma mulher faz sexo oral em um rapaz. A excitação que o espectador pode experimentar não me parece realmente fora da intenção do autor, mas, ao mesmo tempo, isso não constitui o significado estético de todo o filme. Se essa avaliação é correta, então aquela definição inicial de pornografia como o que provoca excitação não seria válida, pois o sentido geral da obra pode ser de tal maneira constituído que a excitação sexual concreta seja um de seus os elementos, embora não o determine como tal.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Verdana; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: inherit; font-size: small;"&gt;O outro lado da questão, que também é sempre levantado nessas questões de crítica cultural, é: e se alguém, em vez de prestar atenção ao sentido geral da obra, focaliza um de seus elementos de modo a, por assim dizer, obter todo o prazer com essa dimensão imediata de cada parte? Passará a obra a ser pornográfica para ele ou ela? Não tenho dúvidas que a resposta é &lt;i&gt;sim&lt;/i&gt;. A consideração do movimento rumo à totalidade da obra exige certa disposição por parte dos espectadores, que podem no mais das vezes se contentar com aspectos isolados dela. Friedrich Schiller já dizia claramente que quando alguém não é capaz de (e nós diríamos: não deseja) prestar atenção à totalidade da obra, quererá falar dela a partir de algum elemento isolado. Ao considerarmos as obras eróticas como uma proposta, uma oferta de satisfação, precisamos estar atentos a esta dialética entre o que cada parte diz por si mesmo e aquilo que a obra como um todo tem a nos oferecer. — Cada um se sirva do que mais lhe aprouver&lt;span class="Apple-style-span" style="white-space: pre;"&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif; white-space: pre;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: #0b5394;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif; white-space: pre;"&gt;Se você gostou dessa postagem,&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: #0b5394;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif; white-space: pre;"&gt;compartilhe em seu mural no Facebook.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif; white-space: pre;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=2257787801295386827&amp;amp;postID=5474997034102391227&amp;amp;from=pencil" name="fb_share" share_url="http://verlainefreitas.blogspot.com/2011/12/arte-e-pornografia.html" type="button_count"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Compartilhar&lt;/span&gt;&lt;/a&gt; &lt;/div&gt;&lt;script src="http://static.ak.fbcdn.net/connect.php/js/FB.Share" type="text/javascript"&gt;&lt;/script&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2257787801295386827-5474997034102391227?l=verlainefreitas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/feeds/5474997034102391227/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/2011/12/arte-e-pornografia.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2257787801295386827/posts/default/5474997034102391227'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2257787801295386827/posts/default/5474997034102391227'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/2011/12/arte-e-pornografia.html' title='Arte e pornografia'/><author><name>Verlaine Freitas</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10829879484126407328</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-G8tX_Am1rhU/TuaO2ql9tFI/AAAAAAAAAFo/R439dUrIlOA/s220/DSCN1829%2Bb.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/-BNkbXNHH9rc/Tv8qk8EFt2I/AAAAAAAAAHM/Bbup5_J1kzA/s72-c/rubens-nude-min.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2257787801295386827.post-2720598599841063384</id><published>2011-12-24T12:45:00.012-02:00</published><updated>2011-12-24T20:54:27.156-02:00</updated><title type='text'>Justiça e vingança</title><content type='html'>&lt;div style="font: 12.0px Arial; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: small;"&gt;                    &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="mso-layout-grid-align: none; text-autospace: none;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: small;"&gt;Em 2007, o Brasil ficou chocado com a morte bárbara do menino João Hélio Fernandes, que foi arrastado por quilômetros, preso do lado de fora de um carro. Diante de um crime como este, cuja crueldade é estarrecedora, houve diversas reações, seja no sentido de questionar o limite da maioridade penal, reduzindo-a para 16 anos, como também de implantação da pena de morte, além da incapacidade do Estado de prover um sistema judiciário eficaz. Dentre as diversas manifestações, chamou a atenção o texto escrito por Renato Janine Ribeiro no jornal &lt;i&gt;Folha de São Paulo&lt;/i&gt;, em 18 de fevereiro, intitulado “Razão e sensibilidade”. Bastante polêmico, o artigo suscitou diversos ataques, mas também manifestações de apoio.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: small;"&gt;  &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="mso-layout-grid-align: none; text-autospace: none;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: small;"&gt;Exprimindo o teor conflituoso entre suas emoções e sua razão, Ribeiro não suavizou o desejo de vingança que nutriu diante desse crime. Devido à sua eloqüência, cito uma passagem central:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;blockquote class="tr_bq"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: small;"&gt;Se não defendo a pena de morte contra os assassinos, é apenas porque acho que é pouco. Não paro de pensar que deveriam ter uma morte hedionda, como a que infligiram ao pobre menino. Imagino suplícios medievais, aqueles cuja arte consistia em prolongar ao máximo o sofrimento, em retardar a morte. Todo o discurso que conheço, e que em larga medida sustento, sobre o Estado não dever se igualar ao criminoso, não dever matar pessoas, não dever impor sentenças cruéis nem tortura — tudo isso entra em xeque, para mim, diante do dado bruto que é o assassinato impiedoso.&lt;/span&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="mso-layout-grid-align: none; text-autospace: none;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: small;"&gt;É bastante significativo, para o debate acerca da justiça, da moralidade e da democracia em geral que um professor de filosofia, que já ocupou um importante cargo de avaliação na CAPES, venha a público exprimir de forma tão direta sentimentos e conflitos de consciência desse modo. Não quero, aqui, comentar a pertinência dessa atitude, mas sim esse princípio mais geral do desejo de vingança em contraposição à prerrogativa estatal de punição dos crimes. Isso entra em foco toda vez que a dimensão jurídica se mostra por demais fraca perante a magnitude do que deve ser punido, seja por precariedade da própria lei, seja pelas diversas dificuldades de sua implementação, como incompetência e corrupção das polícias, morosidade e disfunções do processo jurídico, e precariedade do sistema prisional. No caso de João Hélio, isso se mostrou especialmente inquietante devido ao fato de que seu assassino não possuía maioridade penal, e somente ficaria internado compulsoriamente por três anos. Outro exemplo é o do assassinato de 75 pessoas, entre elas várias crianças, praticado por Anders Behring Breivik, em Oslo, Noruega, em 22 de julho de 2011. De acordo com as leis norueguesas, a punição máxima para o assassino é de 21 anos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="mso-layout-grid-align: none; text-autospace: none;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: small;"&gt;Em momentos como esses, a ação reparativa se mostra, aos olhos de muitas pessoas, por demais insuficiente, precária, de modo que se demande uma ação que, por assim dizer, pratique uma justiça em termos proporcionais ao crime.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="mso-layout-grid-align: none; text-autospace: none;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: small;"&gt;Há algum tempo, eu trabalhava em uma cidade do interior de Minas, e chegou ao meu conhecimento um assassinato deveras impressionante, do qual fiquei sabendo precisamente devido a meu emprego na época. Alguém, que conhecia muito bem o caso, contou-me a história toda, anterior ao fato que aconteceu na manhã daquele dia. Há cerca de 10 anos, uma jovem de 14 anos havia sido estuprada e assassinada. O criminoso foi pego e julgado. Logo após o juiz ler a sentença condenatória, a mãe da menina levantou-se e falou para todos ouvirem em bom som, dirigindo-se ao réu: “Quando você sair da prisão, eu lhe matarei”. Decorrido pouco mais de uma década, alguns dias depois de sair da cadeia, o homem foi metralhado quando subia em um caminhão para seu primeiro dia como empregado de uma mineradora.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="mso-layout-grid-align: none; text-autospace: none;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: small;"&gt;Diante da inépcia complacente da instituição jurídica, com todas as deficiências de uma organização construída e aperfeiçoada lentamente, a vingança se apresenta como única alternativa inapelavelmente eficaz. Sem pretender decidir acerca da validade moral de ações como desse caso que narrei, quero analisar alguns aspectos de um sentido cultural da vingança, contrapondo-o ao do trabalho de mediação através da instituição do estado de direito.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="mso-layout-grid-align: none; text-autospace: none;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="mso-layout-grid-align: none; text-autospace: none;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: small;"&gt;A vingança pode ser interpretada para além da satisfação emocional imediata, ou seja, situando-a em um plano cultural, em que recebe uma expressão e formas de sedimentação legitimadora coletiva. Nesse âmbito, fala-se da lei do sangue, expressa pela de Talião: “Olho por olho, dente por dente, primogênito por primogênito”, em que cada crime deve ser pago com igual sofrimento gerado por ele. É especialmente significativo perceber o quanto as ações vingativas são, elas mesmas, sentidas como ultrajantes, requerendo também novos atos reparativos. Tem-se um ciclo indefinidamente repetido de vinganças, em que não apenas um crime é anulado, mas o próprio movimento de sua anulação dá ensejo a uma nova reparação, e assim por diante. Essa circularidade viciosa serviu como tema do bom filme de Walter Salles, &lt;i&gt;Abril despedaçado&lt;/i&gt;, em que duas famílias praticam atos de vingança mortíferos sucessivamente, levando ao desespero de uma carnificina que se perpetua por gerações e gerações.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="mso-layout-grid-align: none; text-autospace: none;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: small;"&gt;Estamos no registro típico de uma &lt;i&gt;concepção mitológica do real&lt;/i&gt;. — Naturalmente, há inúmeras diferenças entre os mitos construídos pelas civilizações ao longo da história, seja nas Américas, na África, na Ásia etc. Apesar das diferenças, muitas características são suficientemente homogêneas, de modo a que sua semelhança seja maior do que a variação. Todos eles, por exemplo, separam a esfera do sagrado e do profano, explicam todas as coisas a partir da referência a uma origem arcaica, anterior ao tempo da vida atual, vivenciam diversas forças naturais como se fossem divinas etc. Em relação ao tópico que tratamos, vemos que essa forma de concepção de mundo se afirma pela manutenção de um significado profundo, que subjaz a todo ser e acontecer e que faz com que todas as arestas, desequilíbrios e perturbações de uma &lt;i&gt;ordem cósmica preestabelecida&lt;/i&gt;, ancorada na origem longínqua e sagrada de tudo, sejam anuladas dramaticamente por contrapesos tão impactantes quanto aquilo a que se opõem. É somente porque a dor de quem sofreu o crime é simétrica, análoga, à que o criminoso irá sentir, que a ordenação cósmica será mantida. Trata-se de um &lt;i&gt;plano inercial de associação &lt;/i&gt;entre cada mérito e demérito, de modo a que o redemoinho, a volúpia e o mistério profundo da existência continuem a gravitar indefinidamente ao redor do mesmo eixo que confere unidade, não apenas a cada ser, mas à coletividade e ao cosmos ordenado pelas potência sagradas.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="mso-layout-grid-align: none; text-autospace: none;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: small;"&gt;Importa salientar o quanto está em jogo a contraposição entre dois fatos, ambos dolorosos, sofridos, que devem se anular. A &lt;i&gt;simetria&lt;/i&gt;, nessa lógica, é especialmente significativa, pois a &lt;i&gt;anulação simbólica &lt;/i&gt;do crime somente é vivida como restaurando uma ordenação de sentido, caso se perceba uma relação &lt;i&gt;especular &lt;/i&gt;entre os fatos (como se refletidos em espelho), de modo a fazer com que o plano dado pela superfície que os separa se mantenha em sua estabilidade, embora nutrida pela força com que os dois fatos, crime e punição, exercem seu poder de atração dilacerante. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="mso-layout-grid-align: none; text-autospace: none;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: small;"&gt;Os diversos relatos antropológicos dos mitos mostram que eles possuem uma concepção bastante &lt;i&gt;dramática &lt;/i&gt;do real, como nos diz Ernst Cassirer. Em vez de se descreverem todas as coisas em termos de propriedade objetivas, tudo tende a ser inserido num &lt;i&gt;complexo de forças&lt;/i&gt;,&lt;i&gt; &lt;/i&gt;que ao mesmo tempo refletem os sentimentos humanos, como também servem de parâmetro para estes serem compreendidos. A força de um trovão é tomada como uma analogia para a raiva, que por sua vez é projetada no próprio movimento natural, de modo que o deus do trovão é venerado por demonstrar sua fúria, seu poder assustador a todas as criaturas. Nesse sentido, a relação entre crime e castigo não é uma simetria tomada apenas como subtração e adição, como se houvesse um menos e um mais em relação a uma “quantidade” de justiça preexistente, mas sim o restabelecimento de um equilíbrio através de duas forças que pesam, sulcam, provocam uma espécie de &lt;i&gt;cisão na carne da vida em sua dimensão sagrada&lt;/i&gt;.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="mso-layout-grid-align: none; text-autospace: none;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: small;"&gt;Lendo psicanaliticamente esse &lt;i&gt;círculo &lt;/i&gt;da vingança mítica, podemos perceber o quanto sua compulsividade é nutrida pelo descompasso, contradição e transbordamento dos afetos que circulam ao redor das representações inconscientes, fundamento dos vínculos de amor e ódio trazidos à tona pelo embate entre dignidade e desonra, sublimidade da vida e infortúnio da morte etc. Sob a égide da precariedade de metabolização de tais contradições, os equacionamentos analógicos entre os fatos vividos, em que imperam as relações de simetria, compensação e semelhança, tendem sempre a reforçar um determinado &lt;i&gt;plano&lt;/i&gt;, uma &lt;i&gt;linha&lt;/i&gt;, um &lt;i&gt;eixo&lt;/i&gt;, de conexão entre representações (= fantasias, imagens, ideias), cuja força gravitacional, a bem dizer, é tanto maior quanto mais incompreensível.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="mso-layout-grid-align: none; text-autospace: none;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: small;"&gt;Em franco contraste com essa ponderação reparativa entre pesos e medidas iguais para crime e punição, a justiça no direito moderno, embora sempre tenha em vista a proporcionalidade entre o delito e sua pena, quebra essa simetria. A restrição de liberdade, seja pelo aprisionamento carcerário, seja pela prisão domiciliar, bem como a imposição de multas e/ou serviços comunitários etc., são índice claro do quanto todas as ações reparativas devem ser mediadas por um princípio de racionalidade que &lt;i&gt;desloque &lt;/i&gt;a conexão emocional, volitiva, entre o crime e sua punição. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="mso-layout-grid-align: none; text-autospace: none;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: small;"&gt;Entre termos gerais, o que há é a necessidade de negar, não propriamente o fato acontecido, mas sim uma determinada lógica de sua concepção. É preciso deslocar reflexivamente todo o complexo afetivo que gravita em torno da moralidade e sua ruptura que resultaram no crime. As várias etapas do processo penal teriam como seu sentido esse olhar crítico sobre todo o âmbito motivacional, desde seus ingredientes subjetivos mais íntimos até o contexto político mais amplo, cuja abrangência é levada em conta de forma diferente em virtude das especificidades de cada caso.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="mso-layout-grid-align: none; text-autospace: none;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: small;"&gt;O que o importa aqui é ressaltar o quanto não se trata mais de &lt;i&gt;anular simbolicamente um fato com outro&lt;/i&gt;, mas sim de metabolizar, digerir, assimilar reflexivamente um &lt;i&gt;plano de racionalidade &lt;/i&gt;que resultou numa determinada ação. Para ilustrar isso, tomo uma situação bastante prosaica, trivial, como um exemplo micro disso que é um princípio de toda a uma instituição social. Trata-se daquela circunstância em que alguém argumenta de forma bastante conturbada, até mesmo raivosa e violenta, esbravejando e elevando o tom de voz, e a outra pessoa, após ouvir todo esse discurso inflamado, responde de forma tranqüila, calma, ponderando objetivamente de forma o mais sensata possível o que é objeto de debate. É interessante notar, nesse aspecto, que com essa postura se revela para o outro o quanto ele estava de tal forma submerso no complexo emocional que gravita ao redor de seu objeto, que sua perspectiva, na verdade, tendia a obscurecer a visão para os instrumentos da &lt;i&gt;superação &lt;/i&gt;do problema em jogo. Em vez de um torvelinho emocional que faz equivaler a força dos argumentos, em termos de impacto subjetivo, à força das emoções ligadas à dignidade e valor pessoal, o que é preciso fazer, nessa dimensão de diálogo objetivo perante a realidade dos valores, é a defesa do princípio de construção de mediações reflexivas suficientemente autoconscientes, de modo a que tenhamos novas perspectivas sobre a racionalidade que nos leva a nossas concepções de valor.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="mso-layout-grid-align: none; text-autospace: none;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: small;"&gt;Desse ponto de vista, a perspectiva bíblica presente na parábola de Cristo de somente atirar uma pedra quem nunca pecou se mostra ainda herdeira daquela simetria de pesos e medidas mítica. Tomando o ato de atirar a pedra como uma metáfora para o julgar em geral, pode-se dizer que todos nós devemos fazê-lo, sim, mas não a partir da ligação especular, concreta, entre nossos atos passados e sentimentos presentes e o objeto de nosso juízo. Não se trata dessa conexão de simetria entre a &lt;i&gt;pessoa &lt;/i&gt;de quem julga e a &lt;i&gt;pessoa &lt;/i&gt;de quem é julgado, mas sim de avaliar criticamente a propriedade das ações a partir de um &lt;i&gt;princípio &lt;/i&gt;cuja validade deve ser reconhecida mesmo por quem julga em relação a si mesmo. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="mso-layout-grid-align: none; text-autospace: none;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: small;"&gt;Obviamente, que haja por demais hipocrisia, de modo a que os juízos de condenação sejam referidos ao outro e não a si mesmo, isso não invalida o princípio da necessidade de colocar em planos distintos a &lt;i&gt;vivência pessoal &lt;/i&gt;relativa aos fatos e as formas de sua metabolização por &lt;i&gt;planos de racionalidade&lt;/i&gt;. Nesse sentido, mesmo que se perdoe a alguém um crime, devido ao fato de que sua circunstância emocional dificultava enormemente a sobriedade ao agir, isso não deve se originar da história de vida de quem perdoa, mas sim pela ligação do fato ao princípio geral da fragilidade emotiva humana (= mesmo que eu próprio nunca teria me deixado levar pela emotividade de modo a praticar certa ação, posso compreender que o outro tenha sido). O que está em jogo, então, é a defesa das sucessivas reformas de objetivação de nossa reflexividade perante não apenas o que as outras pessoas fazem, mas também o que nós mesmos realizamos e nos sentimos propensos a fazer.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="mso-layout-grid-align: none; text-autospace: none;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: small;"&gt;Toda essa reflexão, entretanto, situa-se no plano abstrato do &lt;i&gt;fundamento por princípio &lt;/i&gt;da justiça institucionalizada em contraste com o ciclo mítico da vingança. Ela deixa em aberto a questão dramática da correção, pela vingança, da insuficiência da lei e da estrutura judiciária. De fato, é por demais evidente que vivemos (e sempre viveremos) em um mundo repleto de lacunas, falhas e contradições, mas a clareza que temos em relação aos princípios que fundamentam as diversas concepções de mundo é proporcional à nossa capacidade de delinear, desde o plano micro, individual, até o âmbito social e político, formas de simbolização reflexiva que aumentem e enriqueçam nossa liberdade de construção da realidade cultural humana.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="mso-layout-grid-align: none; text-autospace: none;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: small;"&gt;&lt;span style="color: #0b5394;"&gt;Se você gostou dessa postagem,&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: small;"&gt;&lt;span style="color: #0b5394;"&gt;compartilhe em seu mural no Facebook.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;a href="" name="fb_share" share_url="http://verlainefreitas.blogspot.com/2011/12/justica-e-vinganca.html" type="button_count"&gt;Compartilhar&lt;/a&gt; &lt;br /&gt;&lt;script src="http://static.ak.fbcdn.net/connect.php/js/FB.Share" type="text/javascript"&gt;&lt;/script&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2257787801295386827-2720598599841063384?l=verlainefreitas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/feeds/2720598599841063384/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/2011/12/justica-e-vinganca.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2257787801295386827/posts/default/2720598599841063384'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2257787801295386827/posts/default/2720598599841063384'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/2011/12/justica-e-vinganca.html' title='Justiça e vingança'/><author><name>Verlaine Freitas</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10829879484126407328</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-G8tX_Am1rhU/TuaO2ql9tFI/AAAAAAAAAFo/R439dUrIlOA/s220/DSCN1829%2Bb.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2257787801295386827.post-2817066149903080321</id><published>2011-12-17T11:47:00.005-02:00</published><updated>2011-12-22T00:16:51.068-02:00</updated><title type='text'>A intimidade sádica do cotidiano</title><content type='html'>&lt;div style="font: 12.0px Arial; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: small;"&gt;Causa uma profunda indignação assistir a um vídeo postado na Internet em que uma garota espanca covardemente em seu apartamento um cachorro da raça yorkshire. Clique na imagem abaixo, caso queira ver as cenas.&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Arial; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; min-height: 14.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif; letter-spacing: 0px;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Arial; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;object class="BLOGGER-youtube-video" classid="clsid:D27CDB6E-AE6D-11cf-96B8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0" data-thumbnail-src="http://0.gvt0.com/vi/dAajVtMjN6g/0.jpg" height="266" width="320"&gt;&lt;param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/dAajVtMjN6g&amp;fs=1&amp;source=uds" /&gt;&lt;param name="bgcolor" value="#FFFFFF" /&gt;&lt;embed width="320" height="266"  src="http://www.youtube.com/v/dAajVtMjN6g&amp;fs=1&amp;source=uds" type="application/x-shockwave-flash"&gt;&lt;/embed&gt;&lt;/object&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: small;"&gt;A violência injustificada, o desrespeito, a agressão à integridade do outro, a imposição do sofrimento e a crueldade sempre acompanharam a história da humanidade, mas, na medida em que assistimos à trajetória de propagação de valores centrados ao redor da idéia de respeito às diferenças, ao direito à vida e à dignidade, cenas como essas causam profunda consternação. Nesse caso, é especialmente tocante a insistência de um sadismo exercido de forma fria, continuada, contra uma criatura indefesa, acuada de forma torpe e radicalmente injustificada. Além disso, o fato de a agressão ter sido praticada na presença de uma criança de poucos anos acentua mais ainda a percepção de que a autora, de forma altamente incompreensível, toma suas atitudes como algo “normal”, provavelmente até praticadas em outras circunstâncias, às quais seu filho ou filha já estaria acostumado/a.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Arial; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: small;"&gt;Que tenha havido horrores absurdos praticados contra os judeus na época do nazismo, que milhares de pessoas tenham sido torturadas até a morte nos porões das ditaduras latino-americanas e que guerras fratricidas resultem em mutilações hediondas entre os adversários é algo que causou e sempre causará a impressão de que o processo civilizatório é bastante frágil, sujeito a surtos de barbárie inacreditáveis. Todos esses casos colocam em jogo o conceito de mal radical, da maldade sem limite, que parece afrontar todo senso mínimo de uma moralidade civilizada. Tendo em vista a complexidade do tema, não posso aqui abordá-lo de forma abrangente. Quero me limitar a algumas características específicas da atitude mostrada no vídeo acima. – Além disso, vou deixar para outro momento a discussão da pertinência moral de se ter feito a gravação do vídeo, em vez de tentar evitar que a agressão continuasse.&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Arial; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; min-height: 14.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif; letter-spacing: 0px;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Arial; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: small;"&gt;Na medida em que o “típico” habitante de classe média das regiões urbanas se defronta com a negatividade da vida em suas diversas formas: guerras, tráfico de drogas, terremotos, tsunames, acidentes, desastres ecológicos etc., uma questão pertinente para a análise é o quanto tais eventos podem ou não ser circunscritos como uma realidade longínqua, “que nunca vai acontecer comigo”. A transformação de alguma negatividade em espetáculo é bastante favorecida pela segurança do distanciamento perante ela. Acidentes de carro, por exemplo, são instrutivos a esse respeito, em virtude do fato de que, mesmo ocorrendo em locais distantes, são suficientemente incômodos devido ao fato de cada um se poder imaginar em uma situação dessa. Outro aspecto importante é o quanto uma forma de violência, por exemplo, já faz parte de uma espécie de “contrato” socialmente vivido por partes em conflito ao longo do tempo, como nas regiões em que o tráfico de drogas é marcado pela rivalidade brutal entre facções criminosas.&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Arial; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: small;"&gt;A cena do vídeo acima contém uma crueldade que está próxima demais da realidade cotidiana para ser tomada “apenas” como um espetáculo de violência em relação ao qual se pode pensar como distante. Não se liga a um problema político-social de ordem macro, que envolvesse, por exemplo, condições de pobreza, falta de instrução, costumes e modos de socialidade arcaicos ou oriundos de tradições muito distintas etc. Em todos esses casos existe uma espécie de fundo cultural/civilizatório que, embora aos nossos olhos não legitime, não justifique, pelo menos confere um grau de &lt;i&gt;compreensibilidade &lt;/i&gt;à violência, de modo que possamos situá-la em um projeto &lt;i&gt;político-social &lt;/i&gt;de construção de níveis de convivência suficientemente pautadas pelo respeito à dignidade, ao direito e a integridade do outro. Por mais que nos cause horror saber que mulheres em alguns países do oriente médio são punidas com o apedrejamento até a morte devido ao fato de que, ao serem estupradas, tenham praticado sexo fora de seu casamento, isso é sempre passível de relativização em termos de &lt;i&gt;uma escolha de valores em termos da sociedade como um todo&lt;/i&gt;, dado que tais leis vigoram há séculos, talvez milênios. Por mais que seja indigna, abjeta e medonha a racionalidade moral que compele a essa crueldade, ela se insere em uma &lt;i&gt;inércia de constituição societária &lt;/i&gt;que faz com que cada condenação, especificamente, seja esvaziada, em alguma medida, de uma &lt;i&gt;culpabilidade pessoal&lt;/i&gt;, centrada nos princípios ocidentais do livre-arbítrio.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Arial; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: small;"&gt;Considerando que, segundo as primeiras informações, a autora desses atos é formada em enfermagem, fica sem lugar a costumeira inserção das atitudes violentas em um contexto de pobreza e desinformação, como modo de explicá-las. Some-se a isto o fato de que criar um cão é fruto de uma escolha pessoal, sem o constrangimento social de uma família já formada. Não somente se pode optar por ter um animal de estimação, como também é possível procurar alguém que queira adotá-lo, caso não se queira mais conviver com ele.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Arial; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: small;"&gt;Em suma: quanto mais se examina essa atitude mostrada no vídeo, mais chegamos perto de considerá-la &lt;i&gt;radicalmente gratuita&lt;/i&gt;. Seu sadismo parece brotar como que “em estado puro”, sem nenhuma forma de diluição ou ancoragem em princípios culturais e formas de vida e costumes em que a violência por assim dizer se institucionalizou.&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Arial; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: small;"&gt;“Gratuidade”, entretanto, é fraco para caracterizar o sadismo dessa cena.&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Arial; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: small;"&gt;Já se disse que o dono é um verdadeiro deus para seu cachorro. Isso pode ser visto em ambas as direções: tanto pelo fato de que a pessoa é uma provedora de tudo aquilo que o animal precisa – alimento, companhia, abrigo, espaço para viver etc. –, quanto este último, particularmente em algumas raças, como poodle e yorkshire, demanda afetividade de forma pujante quase o tempo todo. Provimento infinito por um lado e demanda afetiva igualmente interminável por outro: esse é o contexto em que um sadismo covarde é exercido repetida e demoradamente. Em vez de uma violência gratuita, o que se tem é, na verdade, uma traição a um contrato deliberado e íntimo de uma afetividade vivenciada através de uma convivência não apenas livremente instituída, como também conservada. Ela não apenas é desprovida de uma ancoragem em um contexto social em que a violência é um ingrediente de sua ordenação moral, quanto institui, no espaço do arbítrio do cotidiano, um movimento de negação radical da afirmação da cultura como único meio de superação da barbárie.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font: 12.0px Arial; margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="letter-spacing: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif; font-size: small;"&gt;A relação com quem é visivelmente mais fraco que nós deixa transparecer muito do que subjaz à nossa relação com quem é tão ou mais forte. Não me parece por acaso que a palavra “covardia” designa ao mesmo tempo a atitude de agridir quem não pode se defender, quanto a de ter medo de enfrentar quem tem mais força. Nesse sentido, o desrespeito em relação às crianças e aos animais, bem como à mulher por parte do homem, é um testemunho de tensões emocionais/psíquicas mal resolvidas, em desequilíbrio, mas que encontram formas dissimuladas de estabilidade nesse enfrentamento recíproco em várias formas de socialidade.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family: Verdana, sans-serif; letter-spacing: 0px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: #0b5394; font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Se você gostou dessa postagem,&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: #0b5394; font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;compartilhe em seu mural no Facebook.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;a href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=2257787801295386827&amp;amp;postID=2817066149903080321&amp;amp;from=pencil" name="fb_share" share_url="http://verlainefreitas.blogspot.com/2011/12/intimidade-sadica-do-cotidiano.html" type="button_count"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana, sans-serif;"&gt;Recomendar&lt;/span&gt;&lt;/a&gt; &lt;br /&gt;&lt;script src="http://static.ak.fbcdn.net/connect.php/js/FB.Share" type="text/javascript"&gt;&lt;/script&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2257787801295386827-2817066149903080321?l=verlainefreitas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/feeds/2817066149903080321/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/2011/12/intimidade-sadica-do-cotidiano.html#comment-form' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2257787801295386827/posts/default/2817066149903080321'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2257787801295386827/posts/default/2817066149903080321'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/2011/12/intimidade-sadica-do-cotidiano.html' title='A intimidade sádica do cotidiano'/><author><name>Verlaine Freitas</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10829879484126407328</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-G8tX_Am1rhU/TuaO2ql9tFI/AAAAAAAAAFo/R439dUrIlOA/s220/DSCN1829%2Bb.jpg'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2257787801295386827.post-683522388484276206</id><published>2011-12-10T17:51:00.011-02:00</published><updated>2011-12-22T00:18:40.746-02:00</updated><title type='text'>Dialética da masculinidade</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;As várias manifestações a favor da diversidade sexual, com a presença de milhares e até milhões de pessoas nas paradas do orgulho LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros), indicam não apenas a necessidade de respeito àqueles que têm opções sexuais diferentes da relação heterossexual, como também a exigência de conceber tais atitudes como uma forma de sexualidade por si mesma, e não apenas como desvios, aberrações e divergências em relação à ligação entre homem e mulher. Por outro lado, já do ponto de vista das primeiras formulações freudianas acerca da sexualidade humana, esta foi considerada como essencialmente pervertida, em virtude do fato de que é praticada tendo em vista a obtenção do prazer, e não segundo uma orientação instintiva ligada à reprodução. De forma concisa: no ser humano, a reprodução é sexuada, mas a sexualidade não é reprodutiva. Considerando o papel que a multiplicidade de fantasias cumpre na obtenção de prazer, conclui-se que mesmo a relação heterossexual é movida por princípios e formas de estruturação in- e conscientemente pervertidas.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Por outro lado, os princípios masculino e feminino, tal como percebo a partir dos desdobramentos da leitura de Jean Laplanche da obra de Freud, são pólos estruturantes de toda opção sexual, mesmo daquelas que parecem distantes do equacionamento homem-mulher, como é o caso de uma opção homossexual feminina em que não haja um papel nítido de masculinidade por parte de nenhuma das parceiras. Pretendo desenvolver essa idéia em outras postagens, dada sua complexidade. Quero hoje falar da masculinidade tal como ela se consubstancia na posição heterossexual do homem. Creio que, ao falar dessa posição específica, abordo ao mesmo tempo elementos mais gerais da masculinidade que perpassam todas as formas de subjetivação, fundadas em ímpetos sexuais inconscientes. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Para o homem, gostar de mulher e gostar de transar com mulher são coisas que não necessariamente se recobrem. No primeiro caso, está em jogo um modo de prazer com a feminilidade que envolve certa forma de participação no universo feminino, que não é imediatamente homogênea à perspectiva tipicamente masculina tal como as sociedades ocidentais cultivam. Trata-se de formas de identificação mediadas pela consciência da diferença, que demandam elaboração subjetiva de modo a constituir uma identidade pessoal fundada na mobilidade do sexual. Esta última, por outro lado, é percebida facilmente como escapando a determinadas estratégias mais solidificadas de compreensão de si. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Em contraste com isso, gostar de sexo com mulher é algo que pode conviver com misoginia (ódio, aversão, à mulher), em diferentes graus e formas. O prazer na prática sexual, em sua face mais visível, transparente a um processo de reflexividade elementar, pode ser obtido (sem que aqui questionemos o quanto sua satisfação é consistente) ao perseguir a linha da descarga de tensão, do alívio gerado pelo quanto a pressão proveniente do desejo, com suas diversas formas de estímulo, é reduzida, aplacada. Nesse momento, a ligação íntima com o objeto de desejo pode ser esvaziada, fazendo com que um grau considerável de misoginia fique submerso, e portanto irreconhecível, na urgência transbordante de satisfação. Uma vez que a pressão do desejo é diminuída, então a dimensão qualitativa de seu objeto pode se fazer ouvir de forma clara.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Embora as leituras filosóficas, econômicas e sociológicas do ser humano a partir do conceito de necessidade sejam altamente problemáticas, se a tomamos como um aspecto superficial do desejo em termos de demanda por sua satisfação, então podemos entender o argumento do parágrafo anterior a partir da clássica relação entre necessidade e liberdade. Segundo esse princípio, quanto maior a necessidade, menor a liberdade. Isso recebe diversas aplicações, como no Direito, em que um crime cometido sob a urgência da obtenção de alimento terá sua punição bastante reduzida ou até anulada, como vemos na figura jurídica do furto famélico, praticado em condições de fome e privação radicais. No âmbito do prazer, quanto maior é a necessidade, menos “liberdade” se tem para apreciar o que o objeto nos oferece como uma forma de satisfação própria, sui generis, peculiar à sua determinação qualitativa. Todos sabem que quanto maior é a fome, menos se percebe o quanto determinado alimento é realmente saboroso.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Voltando ao prazer sexual, essa relação entre necessidade e liberdade para com a especificidade do objeto pode ser vista em diversas formas de piadas, anedotas e ironias, em que o homem sente um forte desejo de “se livrar” da mulher após o orgasmo. A partir do que falamos acima, é mais do que evidente que esse sentimento de verdadeira repulsa em alguns casos só não se manifestava em virtude da pressão do desejo. É preciso investigar em que consiste esta ambigüidade do desejo masculino pela mulher. — Como é um assunto por demais complexo, é evidente que somente poderemos falar de alguns de seus aspectos. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A posição masculina não apenas se define por oposição à feminina, como também tem muito de seu sentido em produzir a realidade da própria condição feminina. A penetração sexual contém uma carga simbólica de ruptura, de anulação da inteireza da superfície do corpo do outro, de tal modo a colocar em jogo a questão da violência como constituinte fundamental da sexualidade. Desde a percepção do quanto o próprio desejo é violento, posto que arrebata e constrange a níveis de insatisfação por vezes difíceis de manter em equilíbrio, até a prática de violência física contra a mulher no estupro, temos diversas formas em que a transgressão de limites, de interdições e de planos de diferenças é compreendida a partir de uma força que sobrepuja e tende a negar alguma alteridade (note-se que “violência” deriva de vis, força). Considerando a cena em que o homem e mulher são ingredientes necessários para a constituição do sentido da totalidade fantasística da ação, dizemos que o ser-feminino é um modo de transgressão nuclear, íntimo, para a identidade masculina, que virtualmente se auto-anula no modo como afirma sua polaridade feminina como existente pelo fato de ser produzida por um ato de violência simbólica.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A virilidade masculina consistente é uma conquista, produto do modo como o homem goza com a posição feminina distanciado dela, mas ao mesmo tempo se definindo por sua participação nesse mesmo universo. Nas transposições entre identidade e diferença que isso requer, impera a tensão entre o parcial, o fragmento, o localizado, e o total, abrangente, completo. Não é por participar da constelação desiderativa do universo feminino, que se deva assimilar um complexo de determinação pessoal mais abrangente. É preciso deixar que a mescla do que é outro, feminino, em relação à identidade masculina, se faça sem que isso comprometa a própria identidade como fundada na negação da diferença.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Parece-me que é isso que está em jogo em uma frase altamente paradoxal de Freud: “O homem deve superar o respeito pela mulher”. Interpreto essa afirmação no sentido de que é necessário saber negar a face de integridade pessoal feminina em um movimento de articulação de fantasias em que imperam elementos de violência simbólica significativos. Trata-se de um distanciamento perante um complexo de identificação com a totalidade da pessoa da mulher, sem, entretanto, que isso comprometa o sentido de toda a interação sexual, fundado em modos de compartilhamento de um mesmo espaço fantasístico. Essa distância é fundamental para que o processo de integração identificatória seja realizado a contento. O gozo da distância para com a mulher é condição imprescindível ao sucesso em deixá-la fazer-se em sua diferença.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Não é difícil ver que delineamos aqui uma exigência de equilíbrio entre identidade e diferença, aproximação e distanciamento, afirmação e negação. É preciso ver, entretanto, que se trata de um equilíbrio altamente instável. De acordo com a Física, um equilíbrio é estável quando sua ruptura coloca em jogo forças que tendem a restabelecê-lo, como é o caso de uma pedra amarrada em um barbante que está em repouso na parte mais baixa, pois quando ela é deslocada, a gravidade tende a trazê-la de volta para o estado de repouso. Outro é o caso de um esfera pequena situada no topo de uma esfera maior, pois embora aquela esteja em equilíbrio, qualquer movimento faz com que a gravidade a impulsione cada vez mais distante de sua posição inicial. Para restaurar o equilíbrio, nesse caso, é necessário exercer uma força contrária, que não apenas pode aproximar do estado inicial, como também fazer com que ele seja ultrapassado e caminhe no sentido oposto. Assim, de forma análoga, o equilíbrio entre as posições masculina e feminina no complexo geral do desejo é marcado por uma instabilidade dinâmica, em virtude do fato de mobilizar investimentos afetivos que, ao se esforçarem por um equilíbrio, podem facilmente produzir um desequilíbrio no sentido oposto.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Naturalmente, não é viável estabelecer critérios universais de equilíbrio, uma vez que isso depende não apenas de uma dinâmica de constituição histórico-social das identidade masculina e feminina, quanto também das opções individuais no modo como cada pessoa absorve e rejeita tais parâmetros. Importa, como sempre é o caso nos processos de subjetivação, refletir criticamente acerca do modo como cada um de nós pode encontrar seu próprio ponto de equilíbrio, impulsionados por forças, fantasias e princípios que dificilmente, ou nunca, teremos total transparência.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: #0b5394;"&gt;Se você gostou dessa postagem,&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: #0b5394;"&gt;compartilhe em seu mural no Facebook.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;a name="fb_share" share_url="http://verlainefreitas.blogspot.com/2011/12/dialetica-da-masculinidade.html" type="button_count"&gt;Recomendar&lt;/a&gt; &lt;br /&gt;&lt;script src="http://static.ak.fbcdn.net/connect.php/js/FB.Share" type="text/javascript"&gt;&lt;/script&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2257787801295386827-683522388484276206?l=verlainefreitas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/feeds/683522388484276206/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/2011/12/dialetica-da-masculinidade.html#comment-form' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2257787801295386827/posts/default/683522388484276206'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2257787801295386827/posts/default/683522388484276206'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/2011/12/dialetica-da-masculinidade.html' title='Dialética da masculinidade'/><author><name>Verlaine Freitas</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10829879484126407328</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-G8tX_Am1rhU/TuaO2ql9tFI/AAAAAAAAAFo/R439dUrIlOA/s220/DSCN1829%2Bb.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2257787801295386827.post-4573907253297133184</id><published>2011-12-03T16:51:00.009-02:00</published><updated>2011-12-22T00:19:47.233-02:00</updated><title type='text'>Limites de afeto, limites de ação</title><content type='html'>Uma questão que me parece especialmente relevante quando se fala da educação familiar é a da &lt;i&gt;interação afetiva &lt;/i&gt;entre pais e filhos. Naturalmente, não é necessária nenhuma instrução teórica específica para que as mães e os pais compreendam que o carinho, o amor, o companheirismo, a presença de espírito, o apoio emocional etc., são componentes fundamentais para que as crianças assimilem os valores que se consideram adequados. Entretanto, alguns aspectos nessa interação podem passar desapercebidos, de modo que é importante fazer uma reflexão específica sobre eles. Tenho em mente aqui a situação em que a mãe ou o pai consideram necessário o castigo corporal, a surra, seja com as mãos, com o cinto ou algum outro instrumento.&lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Essa temática entrou em foco depois que países como a Suécia, e agora também o Brasil, tomaram iniciativas de proibir legalmente o uso de castigos corporais e de tratamento humilhante às crianças e adolescentes. Em nosso país, trata-se de um projeto de lei complementar ao Estatuto da Criança e do Adolescente que deve ser votado ainda em 2011 no senado; ficou conhecido como a “Lei da palmada”.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Gostaria de analisar tanto a questão da punição corporal como meio educativo, quanto também o problema de ela ser alvo de uma iniciativa jurídica, de regulamentação no plano legal.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Duas questões me parecem surgir de forma clara diante dessa iniciativa governamental: seria ela uma forma de &lt;i&gt;ingerência &lt;/i&gt;do Estado no âmbito da vida familiar? — Não resta dúvida de que os filhos não são uma propriedade dos pais, de modo que lesões físicas, principalmente quando deixam seqüelas, devem ser realmente punidas com rigor da lei, mas — e essa é a segunda questão — não haveria uma enorme diferença entre uma surra dada com o propósito de mostrar claramente que algo não deveria ter sido feito e uma violência corporal que causa danos físicos? A letra da lei deixa claro que ela se refere não apenas aos danos corporais, mas a qualquer castigo que cause dor — bem como outros tipos de punição que envolvam algum situação humilhante, vexatória, para a criança e o adolescente.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;No que concerne à primeira questão, creio que está em jogo o &lt;i&gt;efeito indutor &lt;/i&gt;da lei no sentido de promover um &lt;i&gt;movimento de exteriorização &lt;/i&gt;da reflexividade relativa ao conjunto de valores da esfera íntima, interna, familiar. Muitos pais, como também mães, sentem-se verdadeiros senhores feudais em relação a seus filhos, promovendo uma separação absurda entre o âmbito dos valores da sociedade em termos macro e essa esfera da vida que muitos filósofos leram — e leem — a partir da natureza, baseando-se mais na relação de reprodução, nascimento e manutenção da vida, do que nos valores que norteiam as atitudes recíprocas entre cada um dos membros dessa pequena comunidade. Vigora, nesses casos, uma hierarquia de tal magnitude que retira de circulação a necessidade de lida &lt;i&gt;democrática &lt;/i&gt;com as demandas por parte dos filhos e das filhas, o que me parece dever estar presente mesmo nos casos em que alguma punição deva ser imposta. O mérito da lei, nesse sentido, é o de &lt;i&gt;problematizar &lt;/i&gt;a segurança que os pais e as mães demonstram em vários momentos devido precisamente à discrepância de maturidade perante as crianças. Trata-se de &lt;i&gt;inocular&lt;/i&gt;,&lt;i&gt; &lt;/i&gt;neste âmbito de relações pautadas por diferenças hierárquicas óbvias, princípios reflexivos fundados no &lt;i&gt;esforço de legitimação &lt;/i&gt;perante o outro. Em poucas palavras, é como se a dimensão familiar devesse se tornar &lt;i&gt;mais política&lt;/i&gt;, menos sujeita aos curtos-circuitos próprios de situações em que imperam planos de autoridade nitidamente distintos, como é o caso das organizações militares e religiosas.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Um contra-argumento em relação a isso é o de que esse efeito indutor de uma reflexividade mais democrática no âmbito familiar está sendo proposto de forma por demais &lt;i&gt;forçada&lt;/i&gt;, através de um dispositivo jurídico, que pode soar facilmente como uma estratégia de &lt;i&gt;tutelagem &lt;/i&gt;da família pelo Estado. Parece claro a muitas pessoas que o objetivo da lei é evitar formas graves de violência corporal ao proibir até mesmo suas práticas mais corriqueiras e “suaves”. É como se se proibissem todas as formas de castigo corporal para evitar aquelas que seriam visivelmente prejudiciais para o desenvolvimento das crianças. Nesse sentido, o Estado iria anular um dispositivo de manifestação da autoridade paterna e materna em virtude da incapacidade de &lt;i&gt;alguns &lt;/i&gt;pais e mães de medirem com propriedade o uso de castigos corporais.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;O espírito da lei me parece ser propriamente o de inibir o apoio da autoridade paterna e materna no constrangimento corporal em relação aos filhos e filhas. Fica claro que se quer induzir a busca de mecanismos outros que não este enfrentamento físico ou que envolvam violência psicológica, como humilhação e constrangimentos morais vexatórios. Creio que, de fato, a punição corporal deve ser realmente desfavorecida, e o mecanismo da lei, com toda sua imprecisão e generalidade, ainda se mostra útil como um modo de incitar o debate no âmbito social, político, societário. A intimidade familiar não deve ser de forma alguma um espaço em que a racionalidade social perca tanta força que a superioridade física dos adultos seja usada como manifestação de sua autoridade, por mais que ela esteja fundada na diferença de amadurecimento das concepções de mundo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Falei acima de curtos-circuitos, ou seja, de falta de mediação no exercício da autoridade. É disso que se trata neste processo pedagógico de conceber o quanto a cidadania em termos macro exige como que uma prestação de contas do modo como determinado poder é exercido. Mas isso não deve ser tomado apenas no registro político, societário, mas em termos de complexo emocional/afetivo que vigora no relacionamento entre adultos e crianças na família, e isso nos leva ao âmbito das considerações de como psicanalítico.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;É evidente que este assunto é extremamente complexo, abordado por diversas correntes psicológicas e psicanalíticas por vários aspectos e pontos de vista. Quero aqui apenas falar de dois tipos de &lt;i&gt;demandas &lt;/i&gt;nem sempre percebidas com a devida clareza, uma por parte dos pais e outra por parte das crianças.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Costuma-se dizer que não é bom se relacionar com alguém que demonstra muita carência afetiva. Apesar da enorme dificuldade de definir o que seja “muito”, bem como a própria idéia de “carência afetiva”, isso me parece válido, na medida em que essa disposição tende a fazer com que o outro se torne apenas um meio para uma satisfação por assim dizer egocêntrica, retirando de cena a maleabilidade, a liberdade, a fluidez, no trânsito entre as identidades e diferenças entre duas pessoas. No que concerne à relação afetiva no âmbito familiar, é evidente que a demanda afetiva dos pais e das mães em relação aos filhos é algo legítimo, mas sempre me chamam a atenção manifestações de carinho, afago e afeto de alguns pais e mães que mostram com especial clareza que se tem algo &lt;i&gt;transbordante &lt;/i&gt;em relação ao universo afetivo das crianças. Vejo muitas vezes crianças serem abraçadas com uma vivacidade que não corresponde propriamente à demanda delas. Nesse momento, vejo uma forma de curto-circuito, na medida em que a diferença de maturidade faz com que o pai e a mãe como que tomem o filho como um objeto de desejo sem levar em conta uma mediação que, no âmbito adulto, normalmente existiria (ou estaria em jogo, de alguma forma): “Ele/ela também me quer?”.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;O outro lado da moeda é o universo infantil em sua ligação com as estratégias punitivas como elemento do processo educativo. Através da perspectiva psicanalítica, costuma-se dizer que as crianças estão bem próximas de empenhos afetivos altamente &lt;i&gt;ambíguos &lt;/i&gt;em relação à realidade, seja ela o do próprio universo corporal interior, bem como o complexo familiar. Creio que a dimensão polissêmica, ambivalente, propriamente contraditória dos investimentos afetivos infantis não é bem considerada pelos pais quando as ações dos filhos são avaliadas no âmbito do complexo moral que constitui propriamente o que está em jogo quando se tem em mente as relações entre certo e errado. É muito claro para os pais que frequentemente as crianças demandam um tipo de punição em virtude de sua necessidade de “chamar a atenção”, de atrair para si o olhar de todos, de modo a se situar como centro dos investimentos afetivos em determinado momento. Outra forma de avaliar esse tipo de comportamento consiste em tomá-lo como provocação, no sentido de que a criança quereria testar os limites da autoridade dos pais e das mães, como que se colocando em posição de enfrentamento. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Outra perspectiva, muito difícil de ser defendida de forma minimamente suficiente fora dos quadros da reflexão psicanalítica, é o quanto a circunstância de sofrer o castigo físico é algo excitante, estimulante, de forma que poderíamos dizer que a criança demanda a punição como uma forma de obtenção de prazer, em outras palavras, como uma &lt;i&gt;atitude masoquista&lt;/i&gt;. Não se trata de dizer que toda atitude em que um erro é reiteradamente praticado consista em posicionamento masoquista de demanda por punição, mas, por outro lado, isso deveria ser tomado como um ingrediente sempre possível de desempenhar um papel cuja importância dificilmente é vislumbrável pelos pais e mães nas circunstâncias cotidianas de lida com as atitudes dos filhos. Estas parecem não ter uma &lt;i&gt;racionalidade &lt;/i&gt;minimamente decifrável, a não ser, obviamente, através da idéia de que a criança, devido à sua imaturidade, precisa propriamente de demonstrações mais incisivas, fortes, de limites estipulados que forma coerente, sensata, racional.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;A contraparte dessa demanda afetiva infantil em relação aos processos de punição é algo bastante classicamente percebido, não só neste complexo familiar, mas em todos momentos em que haja disparidade de forças, que é o fato de muito da pressão social a que os pais e mães estão submetidos ser duplicada, escoada, na forma de agressividade em relação aos filhos. Apesar de essa circunstância ser explicitada em larga medida em diversos contextos, como filmes, romances e literatura jornalística, quer me parecer que na lida diária com os processos de enfrentamento das crianças em relação aos limites da lei familiar ela não é suficientemente visível.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Esse complexo de coisas que gravitam ao redor da relação de demandas tanto por parte dos pais e mães, quanto por parte das crianças, demonstra que a trajetória formativa destas institui um modo de convivência altamente permeável a excessos, transbordamentos e de transposição de limites, de tal forma que a racionalidade própria da construção de mediações entre os indivíduos a partir da reflexividade que visa conectar indivíduos diferentes através do vínculo de suas identidades, semelhanças, diferenças e contradições, é sistematicamente colonizado, contaminado e corroído pelos processos afetivos, cuja carga, intensidade e forma tendem a pôr em xeque a legitimidade dos processos punitivos que envolvam violência corporal. O que digo é que quanto mais a punição se aproxima desse extremo na disparidade de forças em jogo na educação, mais isso significa que os processos de mediação construtiva entre pais e filhos cede lugar às vias de associação afetiva, emocional, cuja ambigüidade contraria o esforço pedagógico de fomentar o prazer da auto-reflexão em que o indivíduo se toma como fruto de um processo de instauração de um ideal formativo. Embora seja um tema altamente complexo, e que merece um texto à parte, eu digo que essa colonização da tarefa educativa pela ambigüidade emocional e psíquica tende a fazer com que o âmbito de valoração moral continue refém da indecidibilidade própria aos excessos dos investimentos afetivos infantis. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Embora a colocação jurídica, legal, de um impedimento de punições corporais se mostre um excesso do Estado em relação ao núcleo íntimo da família, parece-me que este excesso se justifica como meio de correção de um outro excesso, cuja peculiaridade é o de se perceber como perigosamente alheio, em alguma medida, aos processos de reflexividade construtiva na instalação de mediações entre os indivíduos. De meu ponto de vista, se essa lei for instaurada, parece-me que o tempo confirmará o quanto o efeito indutor da racionalidade do plano jurídico é minimamente forte para deslocar de forma progressista a auto-concepção do trânsito afetivo do âmbito familiar.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: #0b5394;"&gt;Se você gostou dessa postagem,&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: #0b5394;"&gt;compartilhe em seu mural no Facebook.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;a href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=2257787801295386827&amp;amp;postID=683522388484276206&amp;amp;from=pencil" name="fb_share" share_url="http://verlainefreitas.blogspot.com/2011/12/limites-de-afeto.html" type="button_count"&gt;Recomendar&lt;/a&gt; &lt;br /&gt;&lt;script src="http://static.ak.fbcdn.net/connect.php/js/FB.Share" type="text/javascript"&gt;&lt;/script&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2257787801295386827-4573907253297133184?l=verlainefreitas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/feeds/4573907253297133184/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/2011/12/limites-de-afeto.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2257787801295386827/posts/default/4573907253297133184'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2257787801295386827/posts/default/4573907253297133184'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/2011/12/limites-de-afeto.html' title='Limites de afeto, limites de ação'/><author><name>Verlaine Freitas</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10829879484126407328</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-G8tX_Am1rhU/TuaO2ql9tFI/AAAAAAAAAFo/R439dUrIlOA/s220/DSCN1829%2Bb.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2257787801295386827.post-7168180344092366253</id><published>2011-11-26T18:32:00.003-02:00</published><updated>2011-12-22T00:20:26.252-02:00</updated><title type='text'>Cultura e perversão</title><content type='html'>&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Quero hoje comentar uma reportagem de um canal de televisão, da qual se fez um vídeo que mostra duas partes da matéria, em que um rapaz é entrevistado por uma repórter enquanto bebia cerveja em um bar. Caso não tenha visto, clique na imagem abaixo.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;object class="BLOGGER-youtube-video" classid="clsid:D27CDB6E-AE6D-11cf-96B8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0" data-thumbnail-src="http://2.gvt0.com/vi/WjBjC7JPKzI/0.jpg" height="266" width="320"&gt;&lt;param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/WjBjC7JPKzI&amp;fs=1&amp;source=uds" /&gt;&lt;param name="bgcolor" value="#FFFFFF" /&gt;&lt;embed width="320" height="266"  src="http://www.youtube.com/v/WjBjC7JPKzI&amp;fs=1&amp;source=uds" type="application/x-shockwave-flash"&gt;&lt;/embed&gt;&lt;/object&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;A atitude deste rapaz pode ser analisada em diversos aspectos, considerando planos diferentes em termos de sua significação, dos quais me parecem mais evidentes o âmbito &lt;i&gt;jurídico&lt;/i&gt;, relacionado à pertinência da lei contra algum teor alcoólico no sangue em motoristas, bem como a capacidade do Estado em fazê-la operante e eficaz; o âmbito &lt;i&gt;moral&lt;/i&gt;, que por sua vez se divide na consideração sobre a coragem e a frieza de assumir o que se faz e pensa, e sobre o desprezo pelo valor da vida do outro; e o plano &lt;i&gt;psicanalítico&lt;/i&gt;, em que se questionam os fundamentos psíquicos, inconscientes, de tal atitude. Quero aqui tratar apenas desses dois últimos aspectos, pois a questão da pertinência da lei é um assunto que demanda considerações específicas, que pretendo abordar em outra oportunidade.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;“Não existem fenômenos morais, mas sim interpretação moral de fenômenos”, disse Nietzsche. De fato, o teor moral das ações se fundamenta nos planos que usamos para valorizar positiva- ou negativamente as escolhas que subjazem a cada atitude. Considero a moralidade essencialmente ligada a um &lt;i&gt;processo construtivo &lt;/i&gt;da cultura, de tal forma que a recaída na barbárie, na violência e no desrespeito ao outro não somente é sua sombra inalienável, como também se nutre da mesma energia desiderativa (= de desejo). Somente existem valores consagrados como sublimes, nobres e progressistas devido ao fato de que a eles se contrapõem fantasias, desejos e impulsos radicalmente contrários, não apenas relegados a um passado distante, que se supõe superado nas sociedades ocidentais ditas democráticas, mas sim existentes em cada momento da construção social. Na medida em que a rede de valores éticos que une os diversos planos de interação social sempre envolve a pessoa do outro, com seu desejo, sua integridade física, emocional, de posses etc., diversos tipos de demanda podem ser colocados para que a convivência seja não apenas possível, mas minimamente satisfatória. O grande problema reside no modo como estamos dispostos a negociar o que tomamos como um dever do outro perante nós e o que consideramos sua realidade emocional, que compele à escolha de determinados valores em relação aos quais, creio eu, devemos não ter uma avaliação moral por demais &lt;i&gt;apressada&lt;/i&gt;.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Embora eu discorde de vários fundamentos das colocações nietzscheanas acerca da moral, considero bastante significativa sua crítica a uma &lt;i&gt;leitura moral da realidade&lt;/i&gt;. Em relação especificamente ao que estamos tratando aqui, tomo essa ideia como nos capacitando a pensar que, no plano propriamente moral, as pessoas têm o direito de serem más, ao mesmo tempo em que nos damos também ao direito de querer saber dessas suas escolhas. Há vários tipos de comprometimento possível entre os indivíduos, que não se resumem em hipótese alguma apenas ao compartilhamento de determinado tipo de valor, como o de atenção à vida, respeito ao sentimento do outro etc. Nesse sentido, a atitude do rapaz no vídeo se conforma, em certa medida, a uma expectativa social de franqueza, de assunção de determinados valores. Ele deu às pessoas que não compartilham de seus critérios de moralidade a oportunidade de rejeitá-lo com mais conhecimento de causa do que normalmente se pode fazê-lo. Obviamente, pode-se pensar a sua contraparte, no sentido de que ele faz propaganda de si como &lt;i&gt;bad boy&lt;/i&gt;, como aquele que seduz pelo mau caráter, mas é precisamente este jogo de sedução e a possibilidade de rejeição que está em jogo no processo de constituição da cultura como fundado nas &lt;i&gt;escolhas &lt;/i&gt;dos seres humanos. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;O que é realmente “precioso” em nossa espécie não é o fato de sermos bons, mas sim de, em cada momento, nos vermos engajados no processo de construirmos não só a nós mesmos, mas também o horizonte mais amplo da família, da comunidade, da cidade, do país e do planeta, como fruto de nossas escolhas. O &lt;i&gt;gozo com o mal &lt;/i&gt;não é simplesmente um tumor canceroso da civilização que deva ser extirpado de modo a assegurar a saúde da humanidade. Tal como disse Freud em mais de uma oportunidade, as mais sublimes realizações da cultura e seus feitos mais abjetos, vis e repugnantes provêm do &lt;i&gt;mesmo núcleo &lt;/i&gt;da subjetividade humana.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Na literatura sociológica contemporânea, usa-se bastante o conceito de &lt;i&gt;papéis sociais&lt;/i&gt;. Theodor Adorno interpreta de forma crítica e, do meu ponto de vista, pejorativa essa idéia, de modo a dizer que, em uma sociedade egocêntrica e capitalista como a da Europa e das Américas, papel social significa que as pessoas nunca são elas mesmas, que devem sempre se adequar a um determinado padrão de comportamento imposto socialmente. Penso que os papéis sociais que desempenhamos são expressão de que, afinal, não nos situamos, por nós mesmos, em um plano de representação que garanta nossa identidade. Assim, a pergunta que lançamos aos outros: “Quem é você? O que você quer?”, ou, dito de forma popular: “Qual é a sua?”, estabelece um compromisso em que damos ao outro o direito de coexistir em um determinado plano de agrupamento social, mesmo que seus valores sejam radicalmente distintos dos nossos. Que haja pessoas, como este rapaz, que desprezam a vida do outro, é algo que sempre existirá em nosso meio. Um dos grandes problemas em relação a isso consiste no fato de que normalmente não sabemos quem adere esse tipo de opção em diversos contextos, pois não o faz com esse grau de transparência.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Ilustro essa perspectiva com um caso. Estava eu sentado em uma lanchonete, quando comecei a prestar atenção à conversa de quatro garotas que estavam em uma mesa próxima à minha. Falavam sobre relacionamentos afetivos, e em certo momento uma delas defendeu o rapaz com quem estava se encontrando, dizendo que ele não escondia que suas intenções eram tão-somente de cunho sexual, que não dissimulava uma intenção afetiva ou de compromisso para além desses encontros. A fala dela continuou no sentido de que ele não enganava ninguém que se relacionava com ele, de modo que quem estivesse disposta a esse tipo de relacionamento, que o procurasse, que ficasse com ele, ou, caso contrário, não insistisse, ou ainda, se tivesse o propósito de conquistar seu afeto, corresse o risco por conta própria.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Não estou querendo dizer que se deva olhar com uma neutralidade objetiva a manifestação de sarcasmo, cinismo e desprezo perante a vida do outro, tal como no vídeo, mas sim que seria realmente muito bom se soubéssemos com mais transparência qual é o nível de civilização que alcançamos, de progresso em termos de construção cultural que nos distancia da barbárie. Além disso, manifestações extremas costumam ser bastante úteis para pôr a nu os diversos níveis de hipocrisia que temos em relação a algumas de nossas atitudes, que se pautam em certa medida por princípios bastante semelhantes.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Mas não nos deixemos enganar. A observação periférica que fiz acima de que a fala desse rapaz poderia incluir a propaganda de si mesmo como &lt;i&gt;bad boy &lt;/i&gt;me parece importante como análise do significado de toda sua atitude. Podemos percorrer a seguinte linha: sinceridade, franqueza, falta de vergonha, cinismo, frieza, sarcasmo, perversão, perversidade. Como ingredientes para cada um desses aspectos, que me parecem presentes em alguma medida ao longo de todo vídeo, temos doses de ironia e narcisismo, com a relativa produção do olhar do outro e de afirmação da própria imagem perante si mesmo. Apesar da dissimulação irônica e de produção da imagem de &lt;i&gt;bad boy&lt;/i&gt;, é evidente o conteúdo de perversão, no sentido psicanalítico de regressão a formas de desejo em relação ao outro que parecem desconsiderar, afrontar e deslegitimar leis e valores sociais.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;O conceito de perversão é muito complexo, envolvendo diversos temas e hipóteses teóricas que não temos minimamente condição de abordar em profundidade nesse pequemo espaço. Gostaria apenas de falar de um de seus aspectos que sempre me chamaram a atenção quando me deparo com alguns comentários sobre perversões, particularmente quando envolvem ações más. (Há que se considerar que &lt;i&gt;perversão &lt;/i&gt;não deve ser confundida com &lt;i&gt;perversidade&lt;/i&gt;, uma vez que, por exemplo, comportamentos masoquistas de auto-flagelo também configuram formas de perversão.) Tenho em mente a idéia bastante usual de que este rapaz (como o perverso em geral) não se coloca no lugar do outro, que ele desconsidera totalmente a possibilidade de ele mesmo ou um membro de sua família ser alvo de um acidente ocasionado por um motorista embriagado. É como se o outro fosse totalmente anulado por uma posição absolutamente egoísta. — Da perspectiva psicanalítica que adoto, isto é um equívoco.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;A frieza com que o valor da vida alheia é reduzido tão-somente à necessidade de pagamento de uma fiança apenas dissimula um plano de dramaticidade mais profundo, em que o desejo e a posição do outro estão implicados neste palco, nesta cena, em que diversas pessoas, personagens e espectadores convergem segundo uma lógica movida por um desejo inconsciente. A indiferença e o sangue-frio são apenas a superfície, como que o resultado de um processo conflitivo, em que se tenta digerir, metabolizar, o quanto a posição de aviltamento do outro é vivida como ingrediente necessário para a expressão desse desejo pervertido. Quanto maior a frieza, digo eu, mais ela pode ser tomada como índice de precariedade no modo como processos de identificação com a posição do outro estão nuclearmente situados na motivação da atitude perversa.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Em um &lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=oo4RE0R0a1s&amp;amp;feature=related" target="_blank"&gt;outro vídeo&lt;/a&gt;, que mostra a segunda parte da matéria jornalística em mais detalhes, vemos que esse mesmo rapaz amarrou-se, junto com um colega, ao teto de um carro usando fita crepe. Está claro que esta situação não configura uma exposição acentuada a um perigo de morte, mas ela é bastante interessante como um indicativo do quanto a proximidade com o perigo é estimulante para este rapaz. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Minha intenção não é a de dizer que “o que o perverso quer”, ao desprezar a vida do outro, é ter sua vida desprezada, como se o desejo de morte do outro significasse o desejo de sua própria morte. O que digo é que essa posição de morte, de ser agredido, ser violentado, do outro é um &lt;i&gt;ingrediente necessariamente implicado na lógica do desejo perverso&lt;/i&gt;. Colocações como essa: “O que ele quer é...”, não podem ser respondidas nesse regime de uma &lt;i&gt;frase com um objeto direto&lt;/i&gt;. O que se deseja está sempre mesclado ao não-desejar, de modo que o “o que” envolve formas e meios de negação, tal como desvios, dissimulação, inversões etc., de forma que &lt;i&gt;o que &lt;/i&gt;deveria dar lugar ao &lt;i&gt;como &lt;/i&gt;do desejo. Só que esse &lt;i&gt;como &lt;/i&gt;somente é passível de leitura através da escuta psicanalítica na relação entre analisando e analista, de modo a se descortinar uma lógica &lt;i&gt;individual&lt;/i&gt;, singular, de tessitura das linhas de força que fazem convergir tanto o desejo quanto suas infinitas formas de negação.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;No plano teórico, geral, o que podemos dizer é que a idéia de que o ser humano é um ser social significa mais do que o fato de que ele se forma na relação com o outro; indica o quanto as raízes mais profundas de &lt;i&gt;todos os &lt;/i&gt;&lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;nossos&lt;/i&gt; desejos contêm o desejo e a posição do outro como um de seus ingredientes, cuja heterogeneidade e densidade impedem sua dissolução em um âmbito puramente egoísta. Toda a encenação possível de momentos em que realiza um desejo sempre precisará do caráter estrangeiro do desejo e da posição do outro, de tal modo a culminar no paroxismo de que o que enceno como realização do meu desejo tem seu sentido como &lt;i&gt;realização do desejo do outro&lt;/i&gt;, que passo a tomar como se fosse o meu. É nessa cumplicidade entre um egoísmo cego em relação à dependência perante o desejo e a posição do outro, que se pode tomar a frieza, às vezes cadavérica, na lida com a vida alheia como a &lt;i&gt;face visível &lt;/i&gt;da incapacidade de se reconhecer no e como outro em nosso desejo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: #0b5394;"&gt;Se você gostou dessa postagem,&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: #0b5394;"&gt;compartilhe em seu mural no Facebook.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;a href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=2257787801295386827&amp;amp;postID=683522388484276206&amp;amp;from=pencil" name="fb_share" share_url="http://verlainefreitas.blogspot.com/2011/11/cultura-e-perversao.html" type="button_count"&gt;Recomendar&lt;/a&gt; &lt;br /&gt;&lt;script src="http://static.ak.fbcdn.net/connect.php/js/FB.Share" type="text/javascript"&gt;&lt;/script&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2257787801295386827-7168180344092366253?l=verlainefreitas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/feeds/7168180344092366253/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/2011/11/cultura-e-perversao.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2257787801295386827/posts/default/7168180344092366253'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2257787801295386827/posts/default/7168180344092366253'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/2011/11/cultura-e-perversao.html' title='Cultura e perversão'/><author><name>Verlaine Freitas</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10829879484126407328</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-G8tX_Am1rhU/TuaO2ql9tFI/AAAAAAAAAFo/R439dUrIlOA/s220/DSCN1829%2Bb.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2257787801295386827.post-1367060496369959908</id><published>2011-11-18T21:56:00.006-02:00</published><updated>2011-12-22T00:21:13.444-02:00</updated><title type='text'>Da concretude do prazer</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Quem convive comigo durante algum tempo acaba percebendo rapidamente a importância um tanto surpreendente que dou ao prazer de uma comida saborosa. Costumo dizer que quando experimento algo realmente muito gostoso no almoço, por exemplo, meu humor se altera pelo resto do dia. Por vezes dou a impressão de que estou sob um impacto afetivo desproporcional àquilo que uma simples comida, ou um doce, ou um café poderiam fornecer. Creio que pareço exagerar e, assim, corro o risco de ser visto como alguém que quer chamar a atenção, ou tem uma atitude afetada, passional. Por isso, muitas vezes suavizo a demonstração de que um determinado sabor é especialmente sublime para mim.&amp;nbsp;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arial; font-size: 12px;"&gt;— &lt;/span&gt;Esse relato, por sua vez, pode soar por demais personalista, em contraste com o tom mais "objetivo" dos textos do blog, mas isso se justifica pela própria temática dessa postagem.&lt;br /&gt;Gostaria, aqui, de refletir um pouco sobre a significação do prazer sensível, do contato corporal com o mundo, especialmente na contemporaneidade, dando continuidade ao que falei em outros textos nesse blog: &lt;a href="http://verlainefreitas.blogspot.com/2011/06/uma-vida-abstrata.html" target="_blank"&gt;Uma vida abstrata&lt;/a&gt; e &lt;a href="http://verlainefreitas.blogspot.com/2011/09/o-lugar-do-prazer-no-cotidiano.html" target="_blank"&gt;O lugar o prazer no cotidiano&lt;/a&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Uma das características dos modos de vida hegemônicos nas sociedades européias e das Américas que se tornaram mais visíveis ao longo do desdobramento do capitalismo é a idéia de meio-termo, de sobriedade, de certa mediania, tal como podemos ver já em Aristóteles. Para este filósofo, tanto o excesso quanto a falta caracterizam uma atitude inadequada, viciosa, afastando-se da virtude, situada em meio-termo entre esses dois extremos. Seu exemplo preferido é o da coragem, que demonstra uma justa medida entre o medo do perigo e a confiança em si mesmo, pois quem teme demais uma adversidade é medroso, ao passo de quem não tem receio algum do perigo é um temerário, arriscando-se de forma desmesurada, inconseqüente.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Theodor Adorno ligava essa idéia a seu conceito de &lt;i&gt;frieza burguesa&lt;/i&gt;, que caracteriza a postura típica do indivíduo submetido às exigências de uma sociedade concorrencial, em que a sobriedade nas ações, o controle e domesticação dos afetos, o cálculo adequado da expressão de nossos estados subjetivos etc., contam favoravelmente na tarefa de se adequar às leis que regulam o mercado de trabalho e de geração de riqueza em geral.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Concomitante a este processo de conformação dos excessos ao modelo calculado de adaptação bem-sucedida aos mecanismos de atuação social, temos um empobrecimento do modo como nos relacionamos de forma mais imediata, direta, com os objetos que nos prometem alguma satisfação, prazer e contentamento. Essa crescente racionalização nos processos de intercâmbio social e de leitura de mundo torna cada vez mais difícil perceber a intensidade de vínculos sensíveis mais concretos com as coisas. Estas parecem submergir tendencialmente seu sentido ao nosso senso de utilidade, de modo a serem percebidas apenas como meio, instrumento, para alcançar uma outra coisa. O valor que elas poderiam ter em si mesmas, consumido no instante em que nos relacionamos com elas, tende a se tornar irrelevante.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Por outro lado, assistimos a uma acentuada transposição do âmbito concreto para o de uma elaboração discursiva e imagética na insistência publicitária em experimentar novas sensações, sabores e experiências. A concretude da experiência dá lugar a uma espécie de experimentalismo, de cultivo da imagem de si mesmo como escapando à monotonia das sensações cotidianas. Como nos diz Jean Baudrillard, a realidade como tal fica aprisionada em sua duplicação em imagens e signos, fazendo com que nos distanciemos dela. O prazer sensível é evocado com toda a força na campanha publicitária, mas, de forma surpreendente, é substituído pela satisfação de realizar o que a imagem promete.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Vemos esse mesmo processo de falsificação do real no modo como os turistas tendem a se apropriar da natureza como meio de esquecimento do stress do cotidiano das grandes cidades, ou seja, como relaxamento e processo de revigorização, deixando de lado a dimensão qualitativa de percepção das coisas em sua concretude. Além disso, muito da beleza natural se submete à ânsia de documentação fotográfica com fins de compartilhamento social das experiências.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Enfim, muito se poderia dizer de estratégias de negação, desvio, esquecimento e dissimulação dessa dimensão corporal do nosso contato com a realidade. Difícil é, entretanto, falar de forma direta dela, em virtude do fato de que seu sentido consiste precisamente no instante em que é percebida e na singularidade do contato do corpo com os objetos e pessoas. Resta tão-somente o convite a que prestemos atenção e nos exercitemos em perceber o quanto o universo sensório, perceptivo, é, não apenas fonte de um prazer cuja magnitude tendemos a não avaliar com a devida acuidade, quanto um índice de que não inserimos completamente nossas trocas com a realidade em relações abstratas de fins/meios e de elaboração discursiva e imagética.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: #0b5394;"&gt;Se você gostou dessa postagem,&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: #0b5394;"&gt;compartilhe em seu mural no Facebook.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;a href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=2257787801295386827&amp;amp;postID=683522388484276206&amp;amp;from=pencil" name="fb_share" share_url="http://verlainefreitas.blogspot.com/2011/11/da-concretude-do-prazer.html" type="button_count"&gt;Recomendar&lt;/a&gt; &lt;br /&gt;&lt;script src="http://static.ak.fbcdn.net/connect.php/js/FB.Share" type="text/javascript"&gt;&lt;/script&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2257787801295386827-1367060496369959908?l=verlainefreitas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/feeds/1367060496369959908/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/2011/11/da-concretude-do-prazer.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2257787801295386827/posts/default/1367060496369959908'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2257787801295386827/posts/default/1367060496369959908'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/2011/11/da-concretude-do-prazer.html' title='Da concretude do prazer'/><author><name>Verlaine Freitas</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10829879484126407328</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-G8tX_Am1rhU/TuaO2ql9tFI/AAAAAAAAAFo/R439dUrIlOA/s220/DSCN1829%2Bb.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2257787801295386827.post-7746418237540318089</id><published>2011-11-12T11:23:00.007-02:00</published><updated>2011-12-22T00:22:09.737-02:00</updated><title type='text'>De ilusões e de fantasias</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Durante quatro anos lecionei introdução à filosofia para cursos de graduação, como jornalismo, comércio exterior, direito e outros. Na medida em que procurava explicar aos alunos a justificativa dessa disciplina na grade curricular de seu curso (não havia o curso de filosofia naquela faculdade), eu dizia, entre várias outras coisas, que um dos sentidos da atividade filosófica, de nosso esforço de ler e produzir textos filosoficamente relevantes, consistia em tomar consciência do quanto nosso olhar para as diversas faces da realidade está sob o efeito de &lt;i&gt;ilusões&lt;/i&gt; de várias ordens. Seja através da fabricação de ideais de beleza incessantemente veiculados pelos meios de comunicação de massa, seja pela educação que privilegia o exercício e o cultivo de habilidades intelectuais em detrimento de uma formação mais ampla como cidadão, incluindo reflexões críticas acerca de nossos prazeres com a arte, com a sexualidade e com nosso engajamento nas causas sociais, seja também pelo fanatismo religioso que leva multidões de pessoas a desconsiderar a validade das dúvidas e crenças alheias, tudo isso e várias outras coisas, como a crença na superioridade de uma raça em relação à outra, dizia eu, são exemplos de formas culturalmente sedimentadas ao longo da história que nos levam a ter uma concepção da realidade que &lt;i&gt;joga &lt;/i&gt;com a nossa percepção, nossos desejos e sentimentos, de modo a não termos o suficiente apoio, dentro daquilo que é fornecido por essas visões de mundo, para questioná-las. Levando em conta a etimologia da palavra “iludir”, que remete ao lúdico, ao fato de que, na medida em que somos iludidos, temos nosso olhar inserido em uma série de movimentos, princípios e regras cuja lógica desconhecemos. Nesse sentido, uma ilusão de ótica, tal como a que acontece quando vemos uma colher quebrada ao ser colocada em diagonal em um copo com água, mostra que nossa visão não consegue sair das leis de refração da luz, sendo sistematicamente enganada quanto àquilo que sabemos ser a realidade, a saber, que a colher não se quebra quando está posta na água.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;É preciso considerar, entretanto que o conceito de ilusão é altamente relativo, em virtude do fato de que algo pode ser considerado ilusório na perspectiva de alguém, mas não o ser de outro ponto de vista. Além disso, existem ilusões inofensivas e até mesmo divertidas, como essa da refração da luz e a realizada profissionalmente pelos mágicos, quando empregam jogos de espelho, fios invisíveis e outras coisas, mas também ilusões que podem levar uma pessoa a investir muito de sua vida em projetos que não trarão um retorno que justifica tudo o que foi empenhado em sua construção, ou aquelas que alimentam o narcisismo das pessoas ao figurar a inferioridade de quem é diferente sob algum aspecto, como sua preferência sexual, condição econômica etc.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Apesar dessa relatividade do conceito de ilusão, sempre mantive a idéia de que a filosofia se dedica a desfazer ilusões em nossa relação com a realidade. Para não levar a discussão para o âmbito da problemática do relativismo desse conceito, eu gostava de dizer que uma das ilusões que a filosofia combate de forma programática é a da própria idéia de que podemos ter um conhecimento 100% verdadeiro, isento de questionamentos. Nesse sentido, eu procurava demonstrar que o conceito de que a realidade é construída socialmente, que ela é fruto de uma história do modo como as sociedades concebem o real a partir de seus conceitos, princípios, modelos e imagens, é algo necessário para romper a &lt;i&gt;ilusão &lt;/i&gt;de que o mundo possui uma verdade única, existente para além dessa dinâmica de apropriação do real na história.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Ao longo dos vários semestres em que apresentei essa perspectiva no início das disciplinas, uma colocação aparecia em sala de aula com alguma frequência. Depois de ouvirem longamente essa crítica em relação às ilusões criadas no âmbito social, algumas alunas e alunos colocavam a seguinte observação crítica: “Mas professor! Você não acha que uma vida sem ilusões não é algo sem graça? Você não acha que as pessoas precisam de ilusão para viver a sua vida com alguma alegria? Será que uma vida totalmente sem ilusão ainda é suficientemente motivadora?!”&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Seguindo a velha e boa estratégia de mostrar inicialmente a concordância com uma crítica, de modo a convidar à continuidade da discussão, eu respondia que, de fato, um modo de vida limitado às perspectivas de uma atitude absolutamente realista, que se limita a um trânsito sempre guiado apenas por um posicionamento sóbrio e equilibrado em relação ao que a vida tem de verdadeiro e importante é por demais árido, seco, inóspito. A questão reside, entretanto, em considerar o que pode ser considerado uma boa fonte de motivações para nossa existência no sentido pretendido pelas alunas e pelos alunos. Eu digo que não é propriamente a ilusão, mas sim &lt;i&gt;as fantasias &lt;/i&gt;que cumprem este papel de forma saudável, progressista e construtiva. Embora possamos dizer que toda ilusão socialmente construída seja uma forma de fantasia, nem toda fantasia é uma ilusão, quando vivida de forma crítica, deliberada, sem que paguemos o preço de termos nossa percepção sistematicamente enganada, conduzida e manipulada, seja pelo nosso próprio raciocínio, seja por agências de instituições sociais, seja pelo &lt;i&gt;nosso próprio desejo&lt;/i&gt;!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Exemplos de fantasias que não caiam no âmbito ilusório são difíceis de fornecer, precisamente pelo fato de que elas dependem do modo como cada pessoa se posiciona em relação a elas. Um exemplo simples de fantasia pode ser o de um jogo, em não apenas a brincadeira infantil, em que a criança finge representar certo papel, mas também o do adulto, que se coloca em um âmbito destacado da realidade em que vigoram leis, regras e recompensas arbitrárias, fictícias. Mas, como disse, tal atividade pode ser considerada ilusória quando deixa de ser apenas uma fonte de prazer que vale por si mesmo, circunscrito ao momento de diversão e de descarga de tensões emocionais durante e em função do próprio jogo, para se constituir em um objeto de uma paixão avassaladora, próximo de um fanatismo, tal como vemos na violência das torcidas organizadas no futebol, ou no vício com os jogos de azar, de um cassino, por exemplo. Como é também ilusória a fantasia que começa a &lt;i&gt;substituir &lt;/i&gt;a realidade, de modo a valer como uma fuga, sendo índice de uma incapacidade de dialogar de forma consistente com o real.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Concordo plenamente com a idéia de que o âmbito da imaginação e de suas produções fantasísticas são algo extremamente relevante, tanto no cotidiano, com suas ironias, piadas e toques de senso de humor em geral, passando pelas fantasias sexuais, até os grandes ideais que colocamos para nós, mesmo que não se concretizem em projetos de vida específicos. Entretanto, penso que esse âmbito é tanto mais bem aproveitado, quanto melhor refletimos sobre seus limites, sua validade e mesmo sua necessidade. É uma ilusão pensar que podemos viver sem fantasias, como também o é pensar que conseguimos suportar o peso de uma verdade tão radical que fosse isenta de todo e qualquer grau de ilusão. Em vários momentos, relativos a diversos objetos ao longo da vida é impossível nos livrarmos de véus que encubram algumas verdades que não conseguimos suportar. Pensar que somos suficientemente fortes para extirpar todas as fontes de ilusão é por si uma ilusão, que a filosofia pretende desfazer também.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: #0b5394;"&gt;Se você gostou dessa postagem,&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: #0b5394;"&gt;compartilhe em seu mural no Facebook.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;a href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=2257787801295386827&amp;amp;postID=683522388484276206&amp;amp;from=pencil" name="fb_share" share_url="http://verlainefreitas.blogspot.com/2011/11/de-ilusoes-e-de-fantasias.html" type="button_count"&gt;Recomendar&lt;/a&gt; &lt;br /&gt;&lt;script src="http://static.ak.fbcdn.net/connect.php/js/FB.Share" type="text/javascript"&gt;&lt;/script&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2257787801295386827-7746418237540318089?l=verlainefreitas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/feeds/7746418237540318089/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/2011/11/de-ilusoes-e-de-fantasias.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2257787801295386827/posts/default/7746418237540318089'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2257787801295386827/posts/default/7746418237540318089'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/2011/11/de-ilusoes-e-de-fantasias.html' title='De ilusões e de fantasias'/><author><name>Verlaine Freitas</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10829879484126407328</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-G8tX_Am1rhU/TuaO2ql9tFI/AAAAAAAAAFo/R439dUrIlOA/s220/DSCN1829%2Bb.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2257787801295386827.post-7874761496478423518</id><published>2011-11-02T15:36:00.009-02:00</published><updated>2011-12-22T00:24:39.734-02:00</updated><title type='text'>Lula e o SUS, ou: Os (des)caminhos da virtude política</title><content type='html'>&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;Conta-se que em uma guerra, particularmente em uma revolução, como a francesa, de 1789, quem não toma partido por um dos lados é tratado com maior ódio do que o próprio inimigo. Independente de isso ser verdade ou não para todas as situações de conflito polarizado, a idéia exprime uma ética da necessidade de mostrar seu pertencimento ao mundo conflituoso dos seres humanos, e não apenas das coisas. Em uma situação em que alternativas cruciais são colocadas para o espaço humano, a &lt;i&gt;indiferença &lt;/i&gt;parece merecer maior punição do que o engajamento na causa contrária à nossa.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;Nos últimos dias vivemos no Brasil uma situação em que, muito longe do caráter agudo de uma guerra civil ou revolução, vemos um diálogo inflamado entre pessoas recomendando ironicamente que o presidente Lula trate seu tumor na laringe pelo Serviço Único de Saúde, e outras defendendo ardorosamente a dignidade do ex-presidente, apelando para seu histórico político de um metalúrgico que chegou à presidência e que fez um governo que beneficiou milhões de brasileiros das classes sócio-econômicas menos favorecidas, como também chamando a atenção para as qualidades do próprio SUS.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;A pergunta que eu gostaria de analisar a seguinte: qual a melhor maneira de ler esse movimento de “agressão simbólica” à figura de Lula?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;Quero dividir essa problemática em &lt;i&gt;três planos&lt;/i&gt;, nos quais &lt;i&gt;a reação &lt;/i&gt;a essa campanha agressiva pode ser dividida até agora, segundo sua motivação principal (embora, claro, eles se misturem): a) ético, b) simbólico e c) cognitivo (nesse último caso, de veracidade, adequação à realidade factual do SUS).&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;a) A primeira e mais evidente característica do impacto que essa campanha teve em quem discorda dela é a de &lt;i&gt;indignação&lt;/i&gt;. Mesmo quem fez e faz críticas ao governo Lula tomou-a como &lt;i&gt;desrespeito &lt;/i&gt;a um ser humano que sofre, como índice de um destempero emocional, como uma violência típica de grandes massas enfurecidas, que deságuam seu ódio pelo sistema em uma única pessoa. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;Não faltam exemplos dessa recepção em postagens nas redes sociais, blogs e colunas de jornal, como a de Gilberto Dimenstein, em que o autor diz ter sentido “um misto de vergonha e enjoo ao receber centenas de comentários de leitores para a minha coluna sobre o câncer de Lula”, os quais ele qualifica, em grande parte, como “...o esgoto do ressentimento e da ignorância”. Fernando Henrique Cardoso, por sua vez, considerou tal movimento como fruto de recalque, de desequilíbrio psíquico. Hélio Gaspari iniciou sua coluna da edição de 02/11/11 de forma bastante crítica: “As pessoas que estão reclamando porque Lula não foi tratar seu câncer no SUS dividem-se em dois grupos: um foi atrás da piada fácil, e ruim; o outro, movido a ódio, quer que ele se ferre”.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;O primeiro aspecto a considerar é a da realidade sócio-cultural desse protesto. Ele é acéfalo, ou seja, sem um direcionamento dado por algum autor ou grupo específico; manifesta-se de forma pulverizada por diversos canais na Internet; não possui o menor compromisso de coesão; agrupa diversos tipos de postura, desde a mais raivosa manifestação de hostilidade, até considerações mais sensatas, que acentuam sua dimensão simbólica, retirando de cena a literalidade com que é lido, a saber, como um ataque pessoal ao “doente Lula”. Diante de uma heterogeneidade tão grande, qualquer qualificação “em bloco”, como essas três que citei, parece-me francamente inadequada. Por outro lado, eu não me proponho o exato oposto disso, isto é, uma análise descritiva dos diversos tipos de manifestação. Eu também faço uma leitura geral, mas que leva em conta a existência dessas multiplicidades, na medida em que as insiro em uma abordagem de um &lt;i&gt;princípio &lt;/i&gt;concebido teoricamente.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;Tomado em sua manifestação mais direta e também emblemática, como uma frase estampada nas redes sociais: “Eu acho que o Lula deveria se tratar no SUS”, tal protesto é inegavelmente antiético, imoral. Sem levar em conta ainda a questão da adequação factual — de se o SUS “merece” uma qualificação tão pejorativa —, eu digo, entretanto, que não se pode considerar essa dimensão &lt;i&gt;ética &lt;/i&gt;desvinculada do significado &lt;i&gt;político&lt;/i&gt;. Tal como diversos escritos de filosofia política exprimem, não existe recobrimento total entre esses dois planos, o que significa que o valor político de uma ação não pode ser &lt;i&gt;deduzido &lt;/i&gt;de seu valor moral. Sem querer aprofundar nessa questão — ligada à difícil problemática de se os fins, nobres politicamente, justificam os meios, reprováveis em termos éticos —, parece claro que essa relação entre meios e fins deve ser sempre analisada caso a caso, pois em alguns deles as ações são justificadas, e em outros, não.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;Diante de injustiças historicamente consolidadas, como é o caso do gritante desequilíbrio na distribuição das propriedades rurais, em que o poderio econômico e político de grandes latifundiários incrementa e perpetua uma realidade de exclusão social e econômica gravíssima, as manifestações do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra pode ser entendido como uma tentativa desesperada por ter uma voz nesse cenário. Não se trata, em última instância, de “ter razão” no valor moral conferido em cada ato de invasão de terra, nem mesmo de coerência política em termos de certo complexo de ações, mas sim da necessidade de impactar a opinião pública, mesmo que seja de forma a gerar uma opinião contrária, de modo a produzir alguma espécie de movimento nas consciências das classes médias urbanas. Seu valor político, nessa perspectiva, deve ser considerado em termos &lt;i&gt;macro&lt;/i&gt;, a médio e longo prazo, como uma espécie “choque moral” para quem jamais pensou sobre o quão sofrida é a situação do desequilíbrio agrário.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;Nesse sentido, é bastante instrutiva a colocação inicial de outra coluna de Gilberto Dimenstein, posterior às que citamos, em que ele começa dizendo: “As bobagens raivosas contra Lula, pedindo que ele se trate no SUS, conseguem até provocar um debate sério: involuntariamente ajudaram a trazer atenção a quem trata um tumor na rede pública”. As palavras “até” e “involuntariamente” mostram de forma clara a intenção do autor de &lt;i&gt;desconectar &lt;/i&gt;o impacto político do protesto — como fomento de uma discussão sobre um problema gravíssimo — do que perfaz o sentido das formas concretas com que ele se manifesta. É como se tais manifestações pudessem ainda ser avaliadas como infantis e irracionais, tendo tão-somente uma espécie de “efeito colateral” bom. O que eu digo é que as próprias características de destempero, desequilíbrio e &lt;i&gt;incorreção moral &lt;/i&gt;já são embebidas daquilo que aponta para o seu sentido político: mover o pensamento político, tocar a emotividade, mesmo que de forma torta, oblíqua, enviesada.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;Essas considerações, entretanto, não abordam a especificidade do conteúdo desses protestos. Para fazê-lo, quero tratá-los no âmbito em que são exercidos, a saber, de uma mobilização no plano simbólico.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;b) Em que pese o nítido oportunismo que algumas pessoas manifestam nesse momento para descarregar todo seu ódio contra um político historicamente situado à esquerda no espectro político (e até mesmo contra toda a classe política em geral), parece-me claro que nos momentos de maior lucidez fica clara a dimensão &lt;i&gt;irônica &lt;/i&gt;do protesto. Nesse sentido, exprimiria, não um ataque pessoal a alguém que sofre de uma doença terrível, mas sim um descontentamento social, generalizado, com que a situação da saúde pública é tratada. Assim, não se trata de pensar que faria sentido alguém que tem muitos recursos financeiros — seja ele quem for — entrar na fila de atendimento de um posto de saúde pública para demonstrar alguma espécie de coerência política máxima — mesmo porque isso somente acrescentaria mais uma pessoa a ser tratada, tirando a vez de alguém muito necessitado. Embora eu creia haver certa quantidade de pessoas que, de dentro dessas manifestações, não se apercebam dessa dimensão estritamente irônica, não literal, do protesto, penso ser ele legível com alguma facilidade, desde que se tenha alguma sobriedade para falar sobre esse assunto. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;Deste modo, tais manifestações operam um &lt;i&gt;deslocamento simbólico&lt;/i&gt; &lt;i&gt;e irônico&lt;/i&gt;, tomando a figura de Lula como emblemática daquilo que se quer combater. A pergunta é: por que especificamente Lula, e por que especificamente com essa forma de agressividade?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;Boa parte do &lt;i&gt;capital político &lt;/i&gt;de Lula vem, não de propostas políticas concebidas de forma original e implementadas segundo uma lógica própria (o que não significa dizer que elas não tenham existido), mas sim do poder de seu discurso, do modo como foi capaz de seduzir a sua audiência, desde os metalúrgicos do ABC paulista até os eleitores do Brasil inteiro em sua eleição à presidência (o que também não significa afirmar que isso se deu como mera retórica). Porém, no seio do brilho da oratória, tal como ele mesmo assumiu depois de eleito presidente pela primeira vez, o PT falou muita &lt;i&gt;bravata &lt;/i&gt;nas críticas aos governos anteriores, ou seja, usou de argumentos retóricos sem consistência, sem fundamento na realidade política. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;Pode-se contabilizar como uma delas o que ele disse quando era candidato à eleição presidencial de 1998: “Eu não sei se o Fernando Henrique ou algum governador confiaria na saúde pública para se tratar”. Muito tempo depois, tal como relata Hélio Gaspari na coluna que referimos acima, em 2006, disse que “o Brasil não está longe de atingir a perfeição no tratamento de saúde” e “em 2010, Lula inaugurou uma Unidade de Pronto Atendimento do SUS no Recife dizendo que ‘ela está tão bem localizada, tão bem estruturada, que dá até vontade de ficar doente para ser atendido’. Horas depois, teve uma crise de hipertensão e internou-se num hospital privado”. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;Por outro lado, não lhe falta demonstração de senso de realidade, pois em 2009 disse ter vivido os dois lados da situação do tratamento de saúde: o das longas filas de espera dos hospitais públicos e o do tratamento VIP como presidente da república. Nesse mesmo discurso, ao dizer que até mesmo nos EUA havia um problema sério de saúde pública com o qual Barack Obama se debatia, disse que esse sistema de atendimento universalizado brasileiro poderia ser usado como modelo por aquele país.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;Nesse âmbito da articulação do discurso, em que se mesclam frases de efeito, apelos à realidade em seu aspecto mais doloroso, imagens ao mesmo tempo verídicas e por vezes enganosas quanto a seu significado etc., a &lt;i&gt;corrupção &lt;/i&gt;tem um peso bastante acentuado, uma vez que, no imaginário popular, vigora a ideia de que “muito dinheiro que tinha que ir para a saúde e a educação acaba enriquecendo políticos corruptos”. Pode-se ler com facilidade em várias matérias jornalísticas afirmações no sentido de que o governo da presidente Dilma é menos conivente com a corrupção do que o de Lula. Independente de isso ser verdade ou não, para mim pesa bastante o fato de que um filho de Lula, Fábio Luís Lula da Silva, dono de uma empresa de informática, Gamecorp, recebeu comprovadamente milhões de reais como investimento em seu empreendimento por parte da empresa de telecomunicação Oi/Telemar. Depois de várias semanas em silêncio sobre o caso, Lula respondeu com mais uma de suas metáforas ligadas ao futebol, dizendo que esse investimento milionário conseguido por seu filho vem de seu talento, como se ele fosse um Ronaldo em sua área de atuação (embora sua formação acadêmica não tenha nada a ver com informática). Extrema coincidência ou não, algum tempo depois uma das leis relativas ao âmbito empresarial das telecomunicações teve um de seus itens deliberadamente alterado para viabilizar os planos da Oi/Telemar em adquirir uma outra companhia, a Brasil Telecom.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;Esse episódio me parece suficientemente carregado simbolicamente, devido ao fato de que não atinge apenas um “companheiro de partido”, mas alguém dentro do próprio seio familiar. Considerando que o problema da saúde tem um forte vínculo com este núcleo, haja vista a imagem do médico de família, como também o drama de um filho para tratar seus pais idosos, e às vezes simultaneamente de seus filhos pequenos, temos aí algo explosivamente forte em termos de ressonância no imaginário de milhões de pessoas. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;c) Por fim, temos a questão do teor de verdade dessas manifestações que usam o SUS como exemplo de descaso, de ineficiência e de má administração. Temos relatos comoventes, como o de &lt;a href="http://purplesofa.wordpress.com/2011/11/01/eu_o_sus_e_tals/" target="_blank"&gt;Nina Crintz&lt;/a&gt;, que testemunha aspectos altamente significativos e louváveis nesse sistema de saúde que tem um programa deveras modelar de distribuição de medicamentos caros e extremamente necessários para o tratamento de doenças gravíssimas. Nesse quesito, temos o reluzente caso da assistência aos portadores do vírus HIV, em que o Brasil tornou-se uma referência mundial.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;De fato, a familiaridade com esses aspectos do SUS joga por terra uma análise simplista, homogênea, do sistema como um todo como sendo fraco, ruim, inoperante. Por outro lado, creio que o que está em jogo é a outra parte da atuação desse sistema, expresso em um dos discursos do próprio Lula que citamos acima, que são as longas filas de espera para atendimento médico, diagnóstico clínico e intervenções cirúrgicas. Todo mundo sabe muito bem que até mesmo em alguns planos de saúde mais baratos esse quesito pode deixar muita despejar. Eu próprio adquiri um deles, e depois de pagar duas mensalidades, liguei para a central de marcação de consultas e requisitei um exame com um dermatologista, sem especificar nomes. A resposta que obtive é que a data disponível mais próxima era para depois de dois meses e meio. A primeira coisa que fiz foi cancelar esse plano e comprar um outro, de que já havia usufruído quando trabalhei em uma empresa, e cujo atendimento nunca havia sido deficiente nesse aspecto.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;Mais uma vez focando na dimensão familiar, é muito evidente que pais com filhos pequenos, cuja propensão a doenças é grande, como também é o caso de idosos, podem chegar a uma situação desesperadora se somente podem contar com o atendimento no SUS. Para além da necessidade de invocar o realismo político de uma avaliação justa do quanto o governo Lula melhorou ou não essa face do serviço público de saúde, o fato é que a população enxerga, vive e sofre com, a situação tal como ela existe de fato. Voltando ao primeiro item de nossa argumentação, igualmente para além da &lt;i&gt;correção moral &lt;/i&gt;desses protestos — que também são criticados por serem feitos apenas “atrás de computador”, com o mero compartilhamento de uma imagem ou postagem de frases soltas —, temos uma forma errática, confusa e atabalhoada de colocar um &lt;i&gt;problema crucial &lt;/i&gt;na pauta do dia. Em relação ao segundo aspecto, digo que o mesmo movimento de &lt;i&gt;densidade simbólica &lt;/i&gt;que elegeu Lula tornou-o alvo da insatisfação com a saúde pública. De forma análoga a como se diz no futebol: “jogar com o coração na ponta da chuteira”, pode-se dizer que milhões de brasileiros votaram em Lula com o coração na ponta do dedo, e agora algo desse investimento afetivo parece nutrir muito de ambas as partes nesse embate político.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;No que tange ao protesto, essa emotividade é um dos lados de seu teor &lt;i&gt;irracional&lt;/i&gt;, de ruptura dos padrões de correção moral e política. Usando uma expressão afim ao pensamento de Theodor Adorno, eu diria que tal irracionalidade é um reflexo distorcido da irracionalidade do próprio sistema econômico, social e político. Sua impotência e efemeridade, todavia, provavelmente serão proporcionais ao infantilismo que seus críticos apontam com veemência.&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;— Para saber disso, entretanto, precisamos de um pouco mais de História, a qual, entretanto, não anda de mãos dadas com a Razão. Assim, retomando o contexto bélico do início do texto: "War doesn't show you who is right; only who is left".&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: #0b5394;"&gt;Se você gostou dessa postagem,&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: #0b5394;"&gt;compartilhe em seu mural no Facebook.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;a name="fb_share" share_url="http://verlainefreitas.blogspot.com/2011/11/lula-e-o-sus-ou-os-descaminhos-da.html" type="button_count"&gt;Recomendar&lt;/a&gt; &lt;br /&gt;&lt;script src="http://static.ak.fbcdn.net/connect.php/js/FB.Share" type="text/javascript"&gt;&lt;/script&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2257787801295386827-7874761496478423518?l=verlainefreitas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/feeds/7874761496478423518/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/2011/11/lula-e-o-sus-ou-os-descaminhos-da.html#comment-form' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2257787801295386827/posts/default/7874761496478423518'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2257787801295386827/posts/default/7874761496478423518'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/2011/11/lula-e-o-sus-ou-os-descaminhos-da.html' title='Lula e o SUS, ou: Os (des)caminhos da virtude política'/><author><name>Verlaine Freitas</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10829879484126407328</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-G8tX_Am1rhU/TuaO2ql9tFI/AAAAAAAAAFo/R439dUrIlOA/s220/DSCN1829%2Bb.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2257787801295386827.post-1264143039695018827</id><published>2011-10-26T14:45:00.010-02:00</published><updated>2011-12-22T00:26:11.628-02:00</updated><title type='text'>Sobre a condição feminina</title><content type='html'>&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Eu gosto de mulher que gosta de ser mulher. Essa frase se justifica, não pelo fato de especificar mulheres que sejam heterossexuais, isto é, que gostem de se relacionar com homens; dirige-se àquelas que demonstram um gosto especial, algo como uma &lt;i&gt;alegria &lt;/i&gt;por sua condição feminina. Segundo penso, esta assunção prazerosa de sua própria condição como mulher mostra-se especialmente problemática nas sociedades contemporâneas.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Podemos dizer que, de acordo com certos princípios que norteiam a constituição das mentalidades relativas aos gêneros, a cultura ocidental é marcada, em diversos graus e de diversas formas, por uma excessiva &lt;i&gt;masculinização&lt;/i&gt;, não apenas no sentido político, econômico e societário de privilégio conferido os homens em termos de acesso a melhores salários, cargos em empresas e em instituições governamentais etc. Trata-se, de forma mais geral e também profunda, de toda uma gama de valores que privilegiam atitudes, posturas, modos de ser e de auto-concepção muito tipicamente masculinos, entre cujas conseqüências está a de depreciar, muitas vezes de forma sarcástica, o gosto e o gozo de se entregar à demanda do outro.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Theodor Adorno disse que o amor consiste em demonstrar fraqueza sem estimular a violência. Naturalmente, não se trata de dizer que o amor seja apenas isso, mas que contenha essa dimensão como um de seus aspectos essenciais. O que está em jogo é um princípio feminino — a ser vivenciado tanto por homens quanto por mulheres — de oferecer-se ao outro como objeto de desejo, de modo que se tenha esse prazer bastante especial de perceber no outro este gozo de apropriação de nós mesmos. Ora, é por demais evidente que as sociedades ocidentais há muito privilegiam uma concepção de si fundada numa afirmação reiterada de nosso próprio ser, de nosso papel na sociedade, tipicamente concorrencial. O centramento narcísico expresso pela necessidade de se auto-afirmar com a devida força perante todas as possibilidades de fracasso, aliado à situação real de privilégio para os homens nas diversas estruturas hierárquicas, contribui de forma decisiva a uma exacerbação do gosto pela condição masculina.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Quantas vezes não se ouviu alguma mulher dizer a seguinte frase: “Na próxima encarnação quero nascer homem, pois aí é tudo mais fácil” (claro que isso não significa acreditar em reencarnação, pois se trata apenas de uma figura de linguagem). A justificativa para essa ideia não se dirige apenas à condição de privilégio social e econômico, mas toca também questões mais imediatas, como a lida com as alterações hormonais da menstruação, o perigo de uma gravidez indesejada, a desvantagem devido à diferença de compleição física, ou seja, de forças, que torna a mulher mais vulnerável à violência típica das cidades, como assaltos, intimidações, sem contar, evidentemente, o perigo dos atentados sexuais etc.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Seria um radical despropósito negar que é realmente difícil para a mulher conciliar todas essas exigências de uma postura masculinizada perante o real à dimensão feminina própria de sua sexualidade e do âmbito afetivo que gravita ao seu redor. Aliando-se essa mentalidade preponderante (que valoriza a auto-afirmação) ao risco sempre presente de uma violência injustificada por parte do outro, na esteira do que citamos de Adorno, é mais do que compreensível uma especial dificuldade de harmonizar esses dois pólos da existência: a intimidade, cujo prazer se liga propriamente à ruptura e transgressão de leis, princípios e valores racionalmente concebidos, e o âmbito social, em que a positividade das exigências de sucesso e de felicidade fomentam de forma decisiva a satisfação consigo mesma pelo fato de se impor perante o outro.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Parece-me relevante, no que concerne à dimensão propriamente sexual da condição feminina, o quanto esta é tomada, no universo das trocas simbólicas na linguagem, como um índice de diminuição, ridicularização, de fraqueza, de vergonha. Há várias expressões bastante pejorativas que conectam o posicionamento sexual tipicamente feminino com situações desvantajosas, humilhantes etc. Esse aspecto essencial da sexualidade feminina de ceder, de entregar-se ao outro é tomado em vários casos como uma metáfora para o esmorecimento perante situações que demandam uma postura firme. No típico enfrentamento de torcidas de time de futebol, o xingamento mais freqüente é o de negação da masculinidade (ao passo que, curiosamente, a loucura se associa a algo propriamente vantajoso, como índice de uma agressividade transbordante, violenta em sua disposição transgressiva etc.). Mesmo correndo o risco de ser tomado como moralista, vejo com surpresa o quanto pessoas com senso crítico, que refletem seriamente sobre problemas sociais, dispõem-se a usar essa conotação pejorativa da condição feminina como moeda de troca nesse âmbito do enfrentamento lúdico. Sei perfeitamente que tudo não passa de brincadeira, de um espaço de irreverências, ironias etc., mas creio que haja um peso simbólico significativo ao se usar o feminino como índice de demérito, de contrapeso para as derrotas no âmbito esportivo. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Toda essa circunstância de dificuldade, entretanto, não é simplesmente insuperável. Na medida em que um homem se relaciona com várias mulheres ao longo de sua vida, ele percebe com nitidez diferenças às vezes gritantes no modo como cada uma delas demonstra uma satisfação com sua condição feminina, essa alegria de se ver como objeto de um desejo especialmente forte, invasivo, robusto, consistente. É exatamente devido a isso que valorizo o quanto foi possível a uma mulher manter de forma saudável e viva este núcleo de sua sexualidade e afetividade feminina, apesar de tudo aquilo que, no âmbito da objetividade social, o contraria.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;O outro lado da moeda (sendo que ainda há outro), é o de um &lt;i&gt;destempero &lt;/i&gt;no sentido oposto, a saber, de “esquecimento” do quanto o papel feminino no relacionamento, desde a situação de maior intimidade sexual até os momentos mais sóbrios no dia-a-dia, demandam uma mescla com princípios e formas masculinas de atitudes, pensamentos e afetos. Em virtude, entre várias coisas, desse desejo de demarcar claramente o espaço da feminilidade, esta tende a negar de forma um tanto &lt;i&gt;obsessiva &lt;/i&gt;a presença da sobriedade masculina, o que pode resultar em uma perda de sua força de sedução. Esse problema, entretanto, é por demais complexo, merecendo uma investigação à parte.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Outra questão que merece ser mencionada é uma possível resposta das mulheres em relação ao comportamento masculino, no sentido de se dizer que elas também apreciam o homem que consegue conciliar a dimensão feminina da afetividade com a sua condição masculina. Uma relação afetiva em que este exclui toda a atitude de entrega ao desejo da mulher, situando-se de forma por demais enrijecida em sua atitude masculinizada nas diversas faces do relacionamento, tende a ser estéril, árida. De fato, essa tarefa de conciliação dos princípios masculino e feminino não é uma exclusividade das mulheres. Muito da condição neurótica consiste precisamente numa incapacidade de se situar em relação a esses dois princípios, que, de um ponto de vista psicanalítico, constituem a subjetividade humana em geral, independente do gênero e da posição e preferência sexuais. Essa problemática, entretanto, também extrapola os limites desse texto, devendo ficar para novas postagens.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: #0b5394;"&gt;Se você gostou dessa postagem,&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: #0b5394;"&gt;compartilhe em seu mural no Facebook.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;a name="fb_share" share_url="http://verlainefreitas.blogspot.com/2011/10/sobre-condicao-feminina.html" type="button_count"&gt;Recomendar&lt;/a&gt; &lt;br /&gt;&lt;script src="http://static.ak.fbcdn.net/connect.php/js/FB.Share" type="text/javascript"&gt;&lt;/script&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2257787801295386827-1264143039695018827?l=verlainefreitas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/feeds/1264143039695018827/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/2011/10/sobre-condicao-feminina.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2257787801295386827/posts/default/1264143039695018827'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2257787801295386827/posts/default/1264143039695018827'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/2011/10/sobre-condicao-feminina.html' title='Sobre a condição feminina'/><author><name>Verlaine Freitas</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10829879484126407328</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-G8tX_Am1rhU/TuaO2ql9tFI/AAAAAAAAAFo/R439dUrIlOA/s220/DSCN1829%2Bb.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2257787801295386827.post-701775639917406899</id><published>2011-10-19T16:01:00.004-02:00</published><updated>2011-11-02T23:56:34.012-02:00</updated><title type='text'>Da diferença entre fragilidade e sensibilidade</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Sentimentos são facilmente confundidos. Eles expressam necessidades de dar vazão a nossos desejos, em que nos percebemos como respondendo a nossas fantasias, valores, ideais etc., diante das infinitas possibilidades que a realidade nos oferece para satisfazer, de alguma forma e em alguma medida, nossas vontades. Dentre as diversas formas de confusões no modo como qualificar os sentimentos, gostaria de comentar uma delas, que me parece especialmente interessante. Trata-se da diferença entre ser sensível e ser frágil. Não é nenhuma novidade apontar para essa diferença, de modo que quero apenas aqui dizer como percebo alguns de seus aspectos.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Em ambos os casos, temos o ser afetado por outra coisa, a suscetibilidade a impressões, sentimentos, forças, provenientes de algo externo à própria consciência. Assim, entende-se o quanto a sensibilidade pode se mesclar à condição de se abater com algo, uma vez que em ambos os casos percebe-se essa vivência em si mesmo de um &lt;i&gt;efeito &lt;/i&gt;do contato com as outras coisas, pessoas etc. Por outro lado, compreende-se também por que pode ser tão difícil demonstrar ou assumir sensibilidade, uma vez que isso pode ser tomado como índice de fragilidade, tanto por si mesmo, quando pelos outros.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;As diferenças entre esses dois aspectos, entretanto, são muito mais relevantes do que essa primeira aproximação. Ser sensível significa, entre outros aspectos no âmbito emocional, uma capacidade de discernimento de diferenças qualitativas, de conferir o devido valor ao modo como as coisas se distinguem em nuances que poderiam, à primeira vista, passar como insignificantes. Não se trata apenas de uma habilidade da ordem cognitiva de captar variações no âmbito auditivo, visual, tátil etc., mas sim de um processo &lt;i&gt;ativo &lt;/i&gt;de estima do quanto as diferenças entre as coisas são suficientemente significativas para que lhe prestemos atenção, para que tenhamos envolvimento emocional com elas. Nesse sentido, ser sensível envolve um &lt;i&gt;investimento afetivo &lt;/i&gt;nessas gradações.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;A fragilidade, no caso propriamente a emocional, caminha no sentido de ser passível de afetação por algum movimento subjetivo, de tal forma que podemos sofrer gravemente o impacto na relação com o algo, &lt;i&gt;sem que&lt;/i&gt;, nesse momento, sejamos capazes de perceber ativamente nuances de diferenças qualitativas nas coisas. Na verdade, podemos dizer que a fragilidade envolve uma espécie de dessensibilização, de &lt;i&gt;incapacidade &lt;/i&gt;de interagir de modo a fazer uma leitura refinada, nuançada, daquilo com que nos relacionamos. Um exemplo claro de como isso acontece, embora não no registro propriamente emocional, é o caso da hiperestesia, que é a condição dos órgãos dos sentidos quando deixam de suavizar os impulsos sensíveis ocasionados pela luz, pelo som, pelo cheiro, de modo a que qualquer aumento mínimo de uma sensação já ocasiona dor, irritação e outras complicações no âmbito neurológico. Nesse momento, vemos que o &lt;i&gt;excesso &lt;/i&gt;da capacidade de ser afetado por alguma coisa &lt;i&gt;diminui &lt;/i&gt;nosso envolvimento ativo de atenção para as diferenças.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;É interessante notar, ainda, que mostrar-se frágil, a própria condição de abater-se com alguma coisa, pode &lt;i&gt;substituir &lt;/i&gt;a sensibilidade. Em vez do esforço de atenção, de investimento afetivo naquilo que é objeto de empenho por si mesmo, temos essa descarga emocional na auto-percepção de que se é suficientemente aberto a ponto de abater-se com a força de uma determinada realidade. Em outras palavras, a fragilidade pode &lt;i&gt;simular &lt;/i&gt;a sensibilidade, substituindo a dimensão reflexiva e de atenção qualitativa pelo impacto subjetivo em sua dimensão quantitativa. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Assim, é necessário um grau suficiente de força, estabilidade e a atenção, para haver sensibilidade. Esta é propriamente uma &lt;i&gt;capacidade&lt;/i&gt;, enquanto ser frágil indica mais uma &lt;i&gt;condição&lt;/i&gt;, cuja característica fundamental, nesse aspecto, é de uma &lt;i&gt;passividade &lt;/i&gt;essencial em relação às coisas. “De pouco adianta” afetar-se profundamente com alguma coisa, se não há sobriedade suficiente para se aperceber do quanto a realidade contém elementos, muitas vezes, que não são suficientes para gerar esse abalo emocional. Radicalizando um pouco isso que estou dizendo, a fragilidade acaba por dar-nos o &lt;i&gt;prazer &lt;/i&gt;da dispensa de investirmos nossa atenção nas infinitas sutilezas, diferenças e nuances da realidade que nos cerca, cujo efeito em nós, em alguns casos, pode ser tudo, menos de um sofrimento, e mais uma ocasião para tomar a realidade como objeto de reflexão e motivo para uma atitude.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Esse último aspecto é significativo, uma vez que a fragilidade aponta para cerca paralisia, inatividade ou &lt;i&gt;renúncia ao real&lt;/i&gt;, pois, por assim dizer, “resolve” no âmbito emocional, interno, questões no vínculo com a realidade. A sensibilidade, ao contrário, na medida em que se alia a uma condição estável emocionalmente, indica a capacidade de enriquecer nossa percepção, fazendo com que tenhamos mais pontos de apoio para a nossa reação perante o que nos cerca.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div id="fb-root"&gt;&lt;/div&gt;&lt;script&gt;(function(d, s, id) {  var js, fjs = d.getElementsByTagName(s)[0];  if (d.getElementById(id)) {return;}  js = d.createElement(s); js.id = id;  js.src = "//connect.facebook.net/pt_BR/all.js#xfbml=1";  fjs.parentNode.insertBefore(js, fjs);}(document, 'script', 'facebook-jssdk'));&lt;/script&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="fb-like" data-href="http://verlainefreitas.blogspot.com/2011/10/da-diferenca-entre-fragilidade-e.html" data-send="false" data-layout="button_count" data-width="450" data-show-faces="false"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2257787801295386827-701775639917406899?l=verlainefreitas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/feeds/701775639917406899/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/2011/10/da-diferenca-entre-fragilidade-e.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2257787801295386827/posts/default/701775639917406899'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2257787801295386827/posts/default/701775639917406899'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/2011/10/da-diferenca-entre-fragilidade-e.html' title='Da diferença entre fragilidade e sensibilidade'/><author><name>Verlaine Freitas</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10829879484126407328</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-G8tX_Am1rhU/TuaO2ql9tFI/AAAAAAAAAFo/R439dUrIlOA/s220/DSCN1829%2Bb.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2257787801295386827.post-7277595696563638218</id><published>2011-10-12T12:25:00.000-03:00</published><updated>2011-10-12T12:25:53.590-03:00</updated><title type='text'>Por que refletir?</title><content type='html'>&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt; 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Outra objeção se baseia na recusa de pontos de vista doutrinários, que procuram estabelecer modos de vida supostamente saudáveis, que trariam maior satisfação, conteúdo e valor em geral para a vida. Hoje quero comentar a primeira dessas objeções.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-fareast-language: EN-US;"&gt;Por mais óbvio que seja, é preciso ter em mente que o pensamento é fruto do desejo. Ele não apenas é um instrumento para apanhar o real a partir de bons pontos de vista, de modo a entender melhor a sua verdade. Ele reflete as escolhas que fazemos para realizar tais abordagens. Tal como as teorias de fundamentação do conhecimento contemporâneas demonstram já há algum tempo, não faz muito sentido querer um fundamento, uma base, um alicerce seguro e absoluto para teorias, sejam elas científicas em sentido estrito, como na física e na química, ou nas teorias sociais e filosóficas. Em função disso, parece cada vez mais claro que, por mais que o pensamento teórico tenha de se fundamentar o melhor possível, rapidamente se chega, em um debate, a um ponto em que a divergência é resolvida simplesmente com a idéia de que cada um &lt;i&gt;escolhe &lt;/i&gt;seu próprio ponto de vista, em virtude de &lt;i&gt;seu desejo de pensar assim&lt;/i&gt;.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-fareast-language: EN-US;"&gt;Se em um âmbito aparentemente tão objetivo como o das teorias mais avançadas nos deparamos com essa dimensão afetiva do pensamento, na medida em que este é movido por um desejo, por uma escolha não fundamentada rigorosamente, tanto mais isso vale para o modo como cada um pensa sobre sua própria vida, decide sobre o que fazer e toma partido por idéias em geral sobre a realidade. Na medida em que nos voltamos para nossas próprias questões, problemas de posicionamento em relação a tudo o que nos cerca, incluindo nossa disposição afetiva, o pensamento acaba servindo de palco para que as idéias exprimam as próprias emoções e vicissitudes do desejo, em vez de ajudarem a encontrar uma perspectiva suficientemente boa para melhorar o que pensamos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-fareast-language: EN-US;"&gt;Nesse sentido, que pensar no passado seja uma segunda fonte de sofrimento, por se dirigir em relação àquilo que nos incomoda e que deveria ser melhorado, não causa nenhuma estranheza. Esse tipo de reflexão acaba sendo, realmente, apenas mais uma circunstância para colocar em jogo os mesmos componentes que geraram as situações que devem ser repensadas. Sem alguma forma de perspectiva externa às vicissitudes do próprio desejo, o pensamento acabará sempre atraído pelo redemoinho das emoções, cuja força de atração parece fazer com que andemos sempre em círculo ao redor deles.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-fareast-language: EN-US;"&gt;Diante de uma circunstância específica, como um problema a ser resolvido, uma questão afetiva mais complexa, uma preocupação que se arrasta durante um tempo excessivo etc., algumas vezes usei uma estratégia bem simples e que já sugeri a algumas pessoas, que consiste em &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;escrever&lt;/i&gt; o mais claramente possível sobre a circunstância. Em vez de simplesmente pensar, por assim dizer remoer as idéias, é bom sedimentar todo esse caldo de imagens em uma exposição que ganhe uma objetividade proporcional à fixidez da escrita. É muito interessante notar que, mesmo situações que geravam muita apreensão por vezes não rendem mais do que umas poucas linhas quando tudo é escrito, colocado de forma mais objetiva. É como se o “problema” em si mesmo fosse bastante reduzido e específico, mas com um potencial de reverberação afetiva de tal ordem que nos move e arrasta por horas ou dias de pensamento. O compromisso com a escrita ganha o espaço anteriormente cedido à complacência com que repetimos infindavelmente idéias que apenas exprimem nossos desejos e refletem nossas emoções, em vez de propriamente colocá-las sob um novo prisma, capaz de fazer com que enxerguemos novas cores para elas.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-fareast-language: EN-US;"&gt;Nesse sentido, a proposta de teorias como as filosóficas — na medida em que se preocupam com questões relacionadas à crítica cultural, à subjetividade e às questões de valor — e as psicanalíticas é a de fornecer pontos de apoio suficientemente consistentes de modo a fazer com que não precisemos simplesmente fechar os olhos ao que nos incomoda internamente (dirigindo o olhar única e exclusivamente para aquilo que precisa ser feito de forma objetiva), mas também não nos percamos nessas infinitas associações de idéias que não nos levam a ver muito além do que o nosso próprio ego é capaz de enxergar.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;!--EndFragment--&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2257787801295386827-7277595696563638218?l=verlainefreitas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/feeds/7277595696563638218/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/2011/10/por-que-refletir.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2257787801295386827/posts/default/7277595696563638218'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2257787801295386827/posts/default/7277595696563638218'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/2011/10/por-que-refletir.html' title='Por que refletir?'/><author><name>Verlaine Freitas</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10829879484126407328</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-G8tX_Am1rhU/TuaO2ql9tFI/AAAAAAAAAFo/R439dUrIlOA/s220/DSCN1829%2Bb.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2257787801295386827.post-1910690271728842811</id><published>2011-10-05T13:51:00.003-03:00</published><updated>2011-12-12T09:50:11.092-02:00</updated><title type='text'>A voz da experiência na sala de aula</title><content type='html'>&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt; 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Há muitos fatores que dificultam bastante a ação subjetiva de agregar os fatos como algo que contribua para uma melhor concepção da realidade, de modo a fazer progredir nossa perspectiva das coisas em geral, seja de nós mesmos, seja das outras pessoas ou dos objetos e circunstâncias no mundo. Penso que muitas vezes, em vez de um aprendizado na acepção própria do termo, temos mais uma adaptação às circunstâncias que são vividas repetidamente. Em outros momentos, o &lt;i&gt;preconceito &lt;/i&gt;é o impedimento mais claro para o progresso do conhecimento através da experiência. Ele produz um julgamento antecipado em relação às coisas de modo a fazer com que tudo que está de acordo com ele é somado como uma confirmação sua, ao passo que qualquer fato contrário pode ser simplesmente desconsiderado, tomado como uma mera exceção, como algo pouco significativo, como uma anomalia etc. Caracterizo essa perspectiva como sendo de uma &lt;i&gt;percepção seletiva viciada&lt;/i&gt;, em que selecionamos aquilo que está de acordo com uma disposição subjetiva prévia, de tal forma que o resultado final apenas tende a confirmar o que pensávamos antes.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt;"&gt;Essa atitude pode ser entendida a partir da própria etimologia (origem histórica) da palavra experiência, que é formada prefixo &lt;i&gt;ex&lt;/i&gt;, que significa para fora, externo, exterior, e o radical &lt;i&gt;peri&lt;/i&gt;, que se liga a limite, como em &lt;i&gt;perí&lt;/i&gt;metro, ou aquilo que circunscreve alguma coisa, tendo a ver também com a idéia de poro, ou seja, de passagem para o exterior. Tomando essa derivação histórica, experiência é definida como essa transitividade em relação àquilo que extrapola nossos limites já estabelecidos. É como se nós saíssemos de nós mesmos de modo a tomar contato com algo que nos é estranho, diferente, outro, de modo a retornar para o nosso mundo interno de forma diferente. No caso do preconceito, nossas idéias, princípios e valores se tornam bastante &lt;i&gt;impermeáveis&lt;/i&gt;, sem poros, sem vias de trânsito entre nós e a realidade externa à nossa consciência, mas com uma surpreendente faculdade, capacidade, de “fagocitar&lt;i&gt;” &lt;/i&gt;o que é estranho. Como se sabe, fagocitose é uma ação de defesa do organismo realizada pelos glóbulos brancos do sangue, que absorvem corpos estranhos ao organismo de modo a neutralizá-los. No caso do nosso sistema imunológico, isso é de crucial importância, mas nesse âmbito da experiência, em que o estranho deve ser assimilado em sua dimensão de alteridade, de um ser-outro em relação a nós, temos a idéia de que se trata de uma espécie de defesa patológica em relação àquilo que, na verdade, deveríamos nos apropriar de modo a enriquecer o âmbito de nossa concepção de mundo já estabelecida.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt;"&gt;Ao longo de 13 anos como professor universitário, pude notar, desde os primeiros semestres em que lecionei para alunos de uma faculdade particular em Belo Horizonte, que a &lt;i&gt;experiência didático-pedagógica &lt;/i&gt;pode ter uma voz bastante fraca para o professor. É muito claro que sempre se aprende muito em relação aos &lt;i&gt;conteúdos e habilidades &lt;/i&gt;que são trazidos aos/às alunos/as, pois a exigência de traduzir o que se sabe para favorecer a compreensão de outrem sempre leva a uma nova formulação dos conceitos, principalmente diante de questões levantadas na sala de aula. Quero me referir, entretanto, à experiência em termos de práticas didático-pedagógicas, de relacionamento com os/as alunos/as e das propostas e princípios que norteiam a atitude como facilitador/a do aprendizado. Nesse plano, creio que o professor, no início de sua carreira, tende a aprender, por si mesmo, a adequar a carga de conteúdos ao tempo disponível, levando em conta as capacidades e limitações de aprendizado dos alunos. Passado um certo tempo de adaptação -- que nem sempre é índice de algo bem sucedido --, creio que sempre se corre o risco de um estagnação deveras prejudicial, em que a experiência em sala de aula pode se tornar bem pouco significativa. Vejamos por quê.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt;"&gt;O primeiro fator, mais evidente, é a recusa do/a aluno/a em fazer críticas devido ao medo de retaliação, ou de simplesmente ofender o/a professor/a, o que tende a inibir sistematicamente a expressão de questionamentos sobre o trabalho docente. A depender do tipo de instituição em que se trabalha, podem se passar vários e vários anos sem que nenhum/a aluno/a tenha a suficiente coragem/disposição para exprimir uma crítica que tenha sido pensada por vários/as outros/as.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt;"&gt;Quando o questionamento sobre a mensagem didática é trazido à tona, a posição hierárquica típica da relação professor/a-aluno/a tende a induzir a interpretação da crítica como situada no mesmo plano da disparidade de grau de conhecimento, que está em jogo no esforço de ensino-aprendizagem. Uma vez que os/as alunos/as estão em uma posição de busca por um saber que o/a professor/a já possui, e considerando as exigências institucionais de aprovação, é muito fácil para quem conduz o processo de aprendizado ceder à tentação de desqualificar uma crítica com a idéia de que se trata de um deslocamento indevido de seu objeto. Em vez de questionar sua própria falta de determinação para o aprendizado, o/a aluno/a tenderia a criticar a proposta de ensino. Eu não nego que isso ocorra de fato, e até freqüentemente. O grande problema me parece residir numa tendência a sempre e somente pensar que se trata desse tipo de &lt;i&gt;estratégia defensiva &lt;/i&gt;por parte dos/as alunos/as. Um de seus complicadores é o fato de que muitas vezes o/a aluno/a não possui o suficiente discernimento e meio de expressão adequado para traduzir, em uma formulação adequada, sua percepção de que algo está ruim. Muitas vezes só lhe é possível dizer “Essa aula é chata”. Diante de um posicionamento como esse, é muito fácil ao/à educador/a pensar que se trata apenas de uma indisposição por parte de quem “já não gosta de estudar”. O raciocínio é simples: “Se o problema foi expresso em termos emocionais, seu fundamento também o é”.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt;"&gt;Eu creio que, mesmo diante de uma crítica infundada, inadequada como avaliação &lt;i&gt;objetiva &lt;/i&gt;do processo de ensino, é necessário o/a docente se perguntar: “Em que medida meu trabalho contribuiu para que essa percepção equivocada surgisse”. Não que todos os problemas que surjam em uma sala de aula tenham como origem a especificidade da proposta didático-pedagógica, mas sim que se deve aproveitar estes momentos como indicadores de algo que se poderia fazer para melhorar a proposta educativa ou contornar/minimizar problemas e deficiências oriundas de fatores extraclasse.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt;"&gt;Outro fator que dificulta bastante aprender com experiência didática é o fato de um resultado muito ruim em termos de aprendizado por parte de uma turma, digamos, de 50 alunos, não significar, necessariamente, um problema com o material didático, nem com o trabalho de exposição do conteúdo.&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;Já se sabe claramente que cada turma tem uma unidade própria, constitui uma espécie de personalidade coletiva, de modo que, embora tenha havido, por exemplo, 40 resultados muito decepcionantes em uma classe, em um cenário maior, de 3, 4, 5 ou mais turmas, pode-se averiguar melhor a validade dessa proposta didático-pedagógica. Minha própria experiência me mostra claramente que, em relação ao mesmo conteúdo programático e forma de exposição, turmas podem ter resultados muito distintos, mesmo sendo do mesmo curso e do mesmo período da grade curricular.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt;"&gt;Por fim, mas não menos importante, está a própria auto-imagem do/a professor/a, que se percebe como aquele/a que detém saberes e habilidades que qualificam sua própria atividade como tal. O questionamento acerca da validade de sua proposta didático-pedagógica tende facilmente a ser traduzida como uma relativização de seu lugar de quem possui o conhecimento e tem como tarefa transmiti-lo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt;"&gt;Diante disso tudo, eu digo que para o/a professor/a realmente aprender com a experiência, ele/a precisa ser bastante &lt;i&gt;ativo/a &lt;/i&gt;em relação a ela, ou seja, não apenas dar ouvidos às críticas que aparecem e interpretar de forma progressista as formulações inadequadas delas, mas perguntar acerca da adequação de seu trabalho, procurar saber como é sua recepção, mostrando-se disposto/a a acolher as críticas, de modo a programaticamente suspender todo o processo de inibição que normalmente já se instaura nesse ambiente de sala de aula.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arial; font-size: 16px;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name="fb_share" type="button"    share_url="http://verlainefreitas.blogspot.com/2011/10/voz-da-experiencia-na-sala-de-aula.html"&gt;Compartilhar&lt;/a&gt; &lt;br /&gt;&lt;script src="http://static.ak.fbcdn.net/connect.php/js/FB.Share"         type="text/javascript"&gt;&lt;/script&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2257787801295386827-1910690271728842811?l=verlainefreitas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/feeds/1910690271728842811/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/2011/10/voz-da-experiencia-na-sala-de-aula.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2257787801295386827/posts/default/1910690271728842811'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2257787801295386827/posts/default/1910690271728842811'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/2011/10/voz-da-experiencia-na-sala-de-aula.html' title='A voz da experiência na sala de aula'/><author><name>Verlaine Freitas</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10829879484126407328</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-G8tX_Am1rhU/TuaO2ql9tFI/AAAAAAAAAFo/R439dUrIlOA/s220/DSCN1829%2Bb.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2257787801295386827.post-5843346643729494413</id><published>2011-10-01T01:17:00.000-03:00</published><updated>2011-10-01T01:17:41.019-03:00</updated><title type='text'>Ironias e curtos-circuitos da sedução.</title><content type='html'>&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt; 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Trata-se dos comerciais de roupas íntimas da marca Hope, protagonizados pela modelo Gisele Bündchen. No link abaixo você pode ver uma das peças da campanha publicitária:&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;object width="320" height="266" class="BLOGGER-youtube-video" classid="clsid:D27CDB6E-AE6D-11cf-96B8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0" data-thumbnail-src="http://2.gvt0.com/vi/IpNOfjVfREo/0.jpg"&gt;&lt;param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/IpNOfjVfREo&amp;fs=1&amp;source=uds" /&gt;&lt;param name="bgcolor" value="#FFFFFF" /&gt;&lt;embed width="320" height="266"  src="http://www.youtube.com/v/IpNOfjVfREo&amp;fs=1&amp;source=uds" type="application/x-shockwave-flash"&gt;&lt;/embed&gt;&lt;/object&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt;"&gt;Todo o debate surgiu, ao que me parece, não de discussões acerca da pertinência ou não dessas peças por parte da opinião pública, seja através de formadores de opinião, como colunistas de jornais, seja por comentários na Internet, mas sim em virtude da decisão da Secretaria de Políticas para Mulheres do governo federal de pedir ao Conar a suspensão de todos vídeos dessa campanha. O debate orientou-se, devido a isso, pela questão da legitimidade dessa censura, que pareceu aos olhos de muitos uma intolerância para com o âmbito imaginário e lúdico associado às relações de gênero, passando pelo teor propriamente sexual das mensagens trocadas nesse âmbito da intimidade dos casais.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt;"&gt;De saída, digo que sou contra suspender a veiculação desses comerciais, apesar de todas as críticas que farei. Ao mesmo tempo, porém, quero inserir essa problemática da interdição e suas críticas na análise do significado sócio-cultural da publicidade desse tipo. Quero me abster, por outro lado, de me referir à &lt;i&gt;coerência &lt;/i&gt;da atuação da Secretaria, que se mostra comprometida ao se considerar que, a partir dos princípios elencados para a propor a censura, o mesmo deveria ser feito em relação a outras peças publicitárias, tão ou mais criticáveis. — Por fim, em relação à pertinência da proposta da Secretaria, embora seu conteúdo me pareça equivocado, seu objeto é suficientemente relevante para que lhe prestemos atenção. A dimensão simbólica das relações de gênero é sumamente significativa, e um comercial que toca de forma direta nesse ponto, sendo visto várias vezes por milhões de pessoas, é um objeto de reflexão mais do que significativo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt;"&gt;Essas peças não apenas são irônicas, como “se esforçam” para serem reconhecidas como tal. O anúncio de que algo vai ser &lt;i&gt;ensinado&lt;/i&gt;, e ainda através de duas alternativas como questões de múltipla escolha, do tipo verdadeiro ou falso, já demonstra claramente que se trata de uma espécie de brincadeira, de um jogo, que se pode ou não aceitar jogar. A posição irônica, não-literal, é colocada de tal forma que já se sabe que a mensagem não deve ser tomada em seu valor de face, de modo que qualquer consideração que “descure” desse aspecto, já será tomada como “careta”, demonstrando uma seriedade pueril/senil, ou seja, débil, sem substância. “Maduro” é aquele que mostra que “captou” a intenção de se tratar de uma brincadeira, de algo “inofensivo”. Uma vez “garantido” que esse teor da mensagem foi captado, o/a consumidor/a pode ser capturado/a pelo prazer de se entregar a um complexo imagético/imaginário em que desejos se satisfazem e se dissimulam, com a chancela da suficiente sobriedade de que não se trata de algo literal. Parodiando Dostoievsky, eu diria: “se a realidade está morta, então tudo é permitido”. Freud dizia que o poeta nos &lt;i&gt;suborna &lt;/i&gt;com o prazer puramente formal, estético, para nos levar a prazeres mais profundos, ligados a desejos inconscientes censurados, e, &lt;i&gt;mutatis mutandis&lt;/i&gt;, eu diria: o ironista nos suborna com a desobrigação perante a sobriedade da vida para nos entregar ao prazer das “meras” imagens e sua ressonância com alguma mensagem impressa na mobilidade lúdica de seus significados. Compra-se, nesse aspecto, o prazer de se perceber como suficientemente amadurecido culturalmente para assumir a dimensão lúdica de um “ensino” que, na verdade, se traduzirá na apropriação desse complexo de significações no ato da compra. Temos uma apropriação metonímica (uma parte em função do todo) de uma percepção de si um tanto sublime, elevada, distanciada do modo “comezinho” do senso de realidade empobrecido pela rigidez dos valores ligados ao politicamente correto nas relações de gênero. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt;"&gt;A publicidade não vende apenas imagens legíveis em sua significação direta. Ela pode vender também uma espécie de meta-imagem, que inclua um gosto de se perceber como suficientemente crítico de modo a se distanciar da realidade. Nesse sentido, fica claro, palpável, o quanto muitíssimas peças publicitárias contêm uma dose substantiva de insanidade, de irracionalidade, que não precisa ser descoberta por uma análise perspicaz, fundada em alguma teoria. A visão de senso comum do consumidor médio já é mais do que suficiente para captar essa &lt;i&gt;postura olímpica&lt;/i&gt;, de distanciamento sublime perante o peso do que é verdadeiro/sério/real/sensato. Assim, a publicidade inocula em si mesma um anticorpo que a faz refratária às críticas conscientes, pois ela já assume como um de seus ingredientes aquilo que será usado contra ela, a saber, que se trata de algo absurdo. A publicidade não vende produtos, e sim o prazer de cada um se aperceber como prazerosamente imerso em um jogo de imagens cujas significações são manipuladas ao bel-prazer de quem participa deste plano lúdico/ficcional. A compra do produto será apenas uma das etapas nesse processo de apropriação de valores e de &lt;i&gt;estados subjetivos&lt;/i&gt;.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt;"&gt;Em função desse complexo de fatores, não só a proposta de censura, mas também sua ridicularização, já fazem parte, como ingredientes, dessa unidade imagética de significados que transitam entre a seriedade do politicamente correto das relações de gênero e o caráter excessivo e transbordante da sexualidade. Os gêneros dizem respeito a papéis sociais, familiares e culturais em sentido amplo a serem assumidos pelas pessoas sem vinculação estrita com suas opções sexuais. A mãe, por exemplo, no processo de formação psíquica da criança, pode tomar para si muito do papel atribuído normalmente ao pai, assumindo funções simbólicas como a de interdição, censura, punição etc., sem contarmos o fato claro e evidente de que muitas pessoas assumem opções sexuais bastante avessas àquilo que seu gênero poderia inspirar em um determinado código de valores. Desse modo, muito da crítica à tal propaganda passa pelo quanto a dimensão sexual, com sua potência sedutora, atraente e enganosa, contamina a sobriedade das relações entre gênero, mais legíveis a partir de um código público de formas de tratamento recíproco.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt;"&gt;Ao mesmo tempo em que se opera com o &lt;i&gt;distanciamento &lt;/i&gt;irônico, de forma igualmente escancarada produz-se um &lt;i&gt;curto-circuito &lt;/i&gt;entre o caráter indomável, contraditório e espinhoso da sexualidade e as faces econômicas, familiares e sociais dos gêneros. O que mais parece doer aos críticos dessa publicidade é a forma &lt;i&gt;acintosa &lt;/i&gt;com que uma dimensão da feminilidade é trazida ao primeiro plano da relação entre os gêneros. A irresistibilidade da mulher como objeto de desejo sexual é a moeda de troca tratada com tanta evidência quanto exclusividade. Desse modo, diversos dos fatores ligados à sensatez de uma argumentação racional, que supostamente deveriam nivelar os dois gêneros, são deixados de lado cinicamente. De forma análoga a como a compra do produto produz a participação metonímica no universo dos valores que transitam nas imagens (compra-se uma parte tendo em vista participar do todo), haveria uma ligação metonímica entre a atratividade do feminino, no plano sexual, para a mulher tomada como gênero.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt;"&gt;Esse trânsito entre o sexual e a totalidade da vida é algo que a psicanálise toma como elemento de suma importância. Em uma expressiva fase de sua teoria, Freud formulou a idéia de que os sintomas neuróticos seriam expressão de uma &lt;i&gt;colonização da vida consciente pela sexualidade inconsciente&lt;/i&gt;. Sem querer elucidar essa hipótese, que é bastante complexa, demandando várias páginas para sua sustentação minimamente persuasiva, gostaria de fazer um paralelo dessa expansão metonímica da feminilidade, sexualmente considerada, para o âmbito social dos gêneros, com uma idéia que ouvi certa vez em uma discussão sobre o feminismo. Em relação a uma notória feminista, foi dito que ela &lt;i&gt;radicalizou &lt;/i&gt;sua postura de modo a ter relações sexuais somente com mulheres. Embora eu tenha lido pouca coisa de autoras feministas, eu imagino que a maioria delas não concordaria que o homoerotismo feminino seja uma radicalização, ou seja, um aprofundamento, do ideário feminista. Ao mesmo tempo, porém, tomo como certo que uma parte delas (não arriscarei dizer se expressiva numericamente) pense assim — e é esta postura que me parece pertinente para analisar essa relação tensa entre sexual e o gênero.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt;"&gt;Mantendo a discussão em um plano de generalidade maior possível, para evitar uma psicanálise selvagem, que desconsidera a verdade do desejo individual, parece claro que a recusa da relação sexual com o homem por algumas feministas se ligaria precisamente a uma espécie de receio que algo bastante próprio à postura sexual feminina — a saber: o gozo da entrega, de dar-se, de submeter-se a uma invasão de si, ou seja, de seu próprio corpo, que ressoa de forma enfática uma violência &lt;i&gt;simbólica &lt;/i&gt;— contamine, incendeie, a vida não-sexual em suas diversas formas, minando &lt;i&gt;por dentro &lt;/i&gt;as possibilidades de equalizar os direitos da mulher com os do homem no âmbito do econômico, político, cultural etc.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt;"&gt;Deste modo, essa campanha publicitária usa uma licença tipicamente irônica para situar os consumidores em um plano de associação lúdica de limites tensos entre o plano da sexualidade e da socialidade. Ela “brinca com fogo” e, diante da crítica inerente à própria mensagem, não se retrai, jogando na mesa a carta que já havia usado desde o início do jogo, ou seja, de que se trata apenas de um jogo. Do “é assim mesmo que acontece” na assunção “madura” e maliciosa de quem conhece os segredos adocicados da sedução na intimidade do quarto, à ponderação politicamente correta da necessidade de manter todo esse jogo apenas na arena da permissividade dos nexos sexuais, temos o espaço suficientemente móvel e lubrificado para que cada um consuma, seja comprando o produto, seja apreciando a cenografia das artimanhas do desejo, o sabor de participar em uma transgressividade espinhosa e ao mesmo tempo estimulante em sua lascívia, ironicamente obscena.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;!--EndFragment--&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2257787801295386827-5843346643729494413?l=verlainefreitas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/feeds/5843346643729494413/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/2011/10/ironias-e-curtos-circuitos-da-seducao.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2257787801295386827/posts/default/5843346643729494413'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2257787801295386827/posts/default/5843346643729494413'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/2011/10/ironias-e-curtos-circuitos-da-seducao.html' title='Ironias e curtos-circuitos da sedução.'/><author><name>Verlaine Freitas</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10829879484126407328</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-G8tX_Am1rhU/TuaO2ql9tFI/AAAAAAAAAFo/R439dUrIlOA/s220/DSCN1829%2Bb.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2257787801295386827.post-9063666190080821819</id><published>2011-09-27T20:07:00.000-03:00</published><updated>2011-09-27T20:07:06.110-03:00</updated><title type='text'>Você tem mau gosto?</title><content type='html'>&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt; 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É evidente que, por mais que se tenha um gosto extremamente duvidoso para músicas, por exemplo, dificilmente se responderia que sim. Algumas vezes se diz que esse conceito, na verdade, nem sequer é válido, pois a variação com que se apreciam obras artísticas é tão grande, que teríamos de admitir que cada um é dono de sua própria escolha, de sua perspectiva em relação aos objetos. Desse modo, falar de mau gosto sempre seria índice de uma &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;censura dirigida para o outro&lt;/i&gt;, de modo a fazer uma apologia ao seu próprio modo de julgar.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="mso-bidi-font-family: &amp;quot;Calisto MT&amp;quot;; mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-fareast-language: EN-US;"&gt;É bem verdade que quem é favorável a esse conceito somente &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;parece&lt;/i&gt; aplicá-lo a outrem, e não a si mesmo. Mesmo alguém que goste de músicas com ritmos repetidos à exaustão, contendo palavrões sucessivamente colocados de forma escrachada, fazendo uso apelativo de imagens pornográficas abertamente apelativas e debochadas, mesmo assim, caso recorra ao conceito de mau gosto, sempre encontrará &lt;i&gt;outro &lt;/i&gt;tipo de música passível de ser criticado, mas não o que ele mesmo aprecia.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="mso-bidi-font-family: &amp;quot;Calisto MT&amp;quot;; mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-fareast-language: EN-US;"&gt;Creio, entretanto, que este conceito é, sim, aplicável à própria pessoa; só não o é de forma pública, e nem mesmo de forma tão consciente, assumida com toda a clareza. Perceber-se como tendo mau gosto não é uma contradição lógica, algo impensável. O juízo acerca da qualidade estética de uma música, para ficarmos nesse tipo de objeto de modo a facilitar a argumentação, não comporta apenas um &lt;i&gt;plano de prazer ou desprazer&lt;/i&gt;, apenas um nível de apreciação. Tal como interpreto a estética de Kant, isto já está presente em seu conceito de &lt;i&gt;comprazimento&lt;/i&gt;, como diferenciável do simples &lt;i&gt;prazer&lt;/i&gt;. O primeiro diria respeito ao sentimento, não ao ser percebido de forma imediata, mas sim em virtude de nosso juízo acerca do fundamento, da especificidade, do valor, do prazer que sentimos. Podemos ter um &lt;i&gt;juízo negativo sobre um prazer&lt;/i&gt;, ou seja, termos um desprazer com ele. Isso pode ser exemplificado de forma clara quando, em um velório, ouvimos alguma ironia ou brincadeira que, embora realmente engraçada, nos incomoda, pois o prazer imediato do que é cômico, do humor, é sentido de forma negativa em virtude de &lt;i&gt;um outro nível de julgamento&lt;/i&gt;, em que entra em jogo a propriedade das circunstâncias para se deixar levar por tal atmosfera lúdica. Outro exemplo é quando, em uma discussão séria sobre&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;problemas afetivos com alguém, essa pessoa nos faz alguma espécie de carícia ou carinho com a nítida intenção de nos “comprar”, quebrando a atmosfera de sobriedade. Embora o gesto, por si, seja agradável, em um outro plano ele se mostra desprazeroso, desconfortável, de modo que podemos dizer que não nos comprazemos em ter, ou em nos deixar levar por, este prazer, por este agrado.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="mso-bidi-font-family: &amp;quot;Calisto MT&amp;quot;; mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-fareast-language: EN-US;"&gt;Esses dois exemplos, embora sejam suficientemente claros para mostrar que possa haver um desprazer (um “descomprazimento”) com um prazer, não deixam claro como poderia ocorrer o inverso, um comprazimento com o desprazer. Não é difícil, entretanto, apontar uma quantidade até maior de casos desse tipo. O próprio conceito de &lt;i&gt;masoquismo&lt;/i&gt;, a que Freud se referia como enigmático, liga-se propriamente ao momento em que se compraz com a dor, o sofrimento, o desprazer. A dificuldade de falar sobre esse tipo de relação com a realidade, em que prazer e desprazer parecem residir no mesmo plano da experiência, nos levaria a uma complexidade teórica que não nos é possível tratar aqui. Podemos, entretanto, falar de um outro modo de equacionar o comprazimento no desprazer ao estabelecermos níveis distintos de experiência com o objeto. Um exemplo que me parece especialmente claro são os rituais de purificação religiosa tal como vemos em países orientais, como a Índia. Vários indivíduos se martirizam diversas vezes ao longo de suas vidas, de modo que quanto maior a dor, mais forte é a negação de toda fonte de desejos, volúpia e luxúria, que são vividas como ligadas à infelicidade. A dimensão essencialmente negativa da dor é traduzida em seu oposto, na positividade de uma ascensão a um plano de realidade purificado, sublime, elevado.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="mso-bidi-font-family: &amp;quot;Calisto MT&amp;quot;; mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-fareast-language: EN-US;"&gt;Voltando ao tema do mau gosto, eu diria que as pessoas que apreciam músicas de qualidade francamente ruim se comprazem com uma espécie de corrosão dos padrões culturalmente estabelecidos como de bom gosto; experimentam intimamente essa ruptura da suposta normalidade e gozam com essa transgressão, na medida em que a vivenciam em si mesmas. Por mais paradoxal que seja, eu diria que as pessoas gostam de algo que &lt;i&gt;elas mesmas não gostam&lt;/i&gt;. Não se trata apenas de um prazer de &lt;i&gt;agressão &lt;/i&gt;às normas do bom gosto, ou seja, como algo dirigido apenas ao outro, ao que é externo, pois é como se a pessoa investisse seu próprio ser como elemento de contrariedade do âmbito culturalmente assente em termos sociais.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="mso-bidi-font-family: &amp;quot;Calisto MT&amp;quot;; mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-fareast-language: EN-US;"&gt;Assim, quando se pergunta sobre uma música extremamente de mau gosto: “Como alguém pode gostar de uma porcaria dessas?”. Eu diria: o fato de ser ruim faz parte do que gera o prazer de ouvir tal música. É um dos ingredientes essenciais de um desejo de anular concreta- e intimamente um estado de coisas externo vivido como doentio em seu brilho adocicado e cada vez mais distante de um redemoinho absurdamente incompreendido de emoções, desejos e valores muito pouco “nobres”, negados hipocritamente pelo véu que a cultura tece sobre estratos mais sombrios de nossa realidade interior.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;!--EndFragment--&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2257787801295386827-9063666190080821819?l=verlainefreitas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/feeds/9063666190080821819/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/2011/09/voce-tem-mau-gosto.html#comment-form' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2257787801295386827/posts/default/9063666190080821819'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2257787801295386827/posts/default/9063666190080821819'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/2011/09/voce-tem-mau-gosto.html' title='Você tem mau gosto?'/><author><name>Verlaine Freitas</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10829879484126407328</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-G8tX_Am1rhU/TuaO2ql9tFI/AAAAAAAAAFo/R439dUrIlOA/s220/DSCN1829%2Bb.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2257787801295386827.post-9022121078195347938</id><published>2011-09-20T18:51:00.006-03:00</published><updated>2011-11-03T15:58:01.852-02:00</updated><title type='text'>O Euro em questão</title><content type='html'>&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Wingdings;"&gt;à&lt;/span&gt; Essa postagem é uma reformulação de outra anterior, que comparava a universalidade do Euro com a do Esperanto. Diante de vários comentários críticos ao que eu havia dito sobre esse idioma, e considerando que essa parte do texto era a menos relevante para meus argumentos em todo o texto, mas havia tomado para si uma enorme atenção, achei por bem retirá-la, substituindo-a por mais detalhes sobre o Euro.&lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="mso-layout-grid-align: none; text-autospace: none;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="mso-layout-grid-align: none; text-autospace: none;"&gt;Tal como tem sido noticiado nos meios de comunicação nas últimas semanas, a situação econômica na Europa, propriamente na zona do Euro, é bastante problemática. O risco de a Grécia não conseguir saldar os compromissos de sua dívida, apesar das maciças ajudas recebidas do Banco Central Europeu, coloca em risco toda a unidade do sistema. Já há algum tempo vemos a situação financeira de Portugal e Itália também se deteriorar, com a subida dos juros que agências financeiras estão cobrando para refinanciar a dívida desses países. Diversos analistas econômicos dizem que cada vez mais a Europa unificada, que não inclui o Reino Unido e a Suíça, está se colocando perante uma decisão crucial, extrema: ou uma unificação mais profunda, formando uma espécie de economia fiscal global, ou a fragmentação, com a renúncia à unidade implantada com a moeda única. Naturalmente, todos os esforços serão feitos, mesmo que resultem em grandes e bilionárias perdas, no sentido de manter a unidade monetária.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="mso-layout-grid-align: none; text-autospace: none;"&gt;Desde quando o Euro foi anunciado, pareceu-me bastante difícil de ser mantido. Os países que o adotaram são heterogêneos demais em suas dinâmicas sócio-econômicas, culturais, de costumes, de modo que, além das vicissitudes inerentes ao próprio sistema de intercâmbio financeiro, as disparidades culturais sempre me pareceram fortes mais do que o suficiente para mostrar o quanto o Euro &lt;i&gt;unifica de forma&lt;/i&gt; &lt;i&gt;artificial&lt;/i&gt;, no âmbito financeiro, universos culturais que deveriam se manter separados, sem esse vínculo, que me parece tentar fazê-los passar por um funil por demais estreito. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="mso-layout-grid-align: none; text-autospace: none;"&gt;É mais do que compreensível o desejo de aproximar as diversas culturas Européias. Em que pesem as diferenças de idiomas, a Europa sempre teve uma inclinação a se pensar como uma &lt;i&gt;unidade cultural em sentido amplo&lt;/i&gt;. Com a queda da União Socialista Soviética, que propiciava um contrapeso à hegemonia dos Estados Unidos na economia e na política mundiais, parece-me que a Europa começou a se colocar a tarefa de ocupar este papel. Chamou-me a atenção que um dos motivos que levaram a França a abdicar de sua histórica moeda em favor do Euro foi a necessidade de fazer frente à hegemonia do Dólar estadunidense. Fragmentadas, cada uma das moedas nacionais da Europa não seriam capazes disso. Esse argumento me parece francamente artificial, pois não afirma a necessidade de implantação do Euro a partir da construção de algo válido por si, mas sim como negação da realidade hegemônica do Dólar. Se somarmos isso à imposição de uma totalidade financeira sobre a disparidade cultural das diversas nações, vemos que o Euro, mais cedo ou mais tarde, iria mostrar-se como um gigante com pés e pernas de barro. Não tendo sido constituído em virtude de uma &lt;i&gt;lógica social mediada pelas diferenças&lt;/i&gt;, acabaria minado por isso mesmo que ignorou.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="mso-layout-grid-align: none; text-autospace: none;"&gt;O Euro significou uma unificação &lt;i&gt;intermediária&lt;/i&gt;, pois não retirou de cada país sua independência política, mas também não manteve instrumentos econômicos tradicionalmente usados pelas nações em momentos de dificuldade, como a possibilidade de desvalorizar sua própria moeda. Desse modo, diante de uma dificuldade extrema, uma moratória parcial da dívida ou o reescalonamento das obrigações contratuais de um país não mais pode ser feita sem arrastar consigo todo o mastodonte de uma organização plurinacional. Ficou-se, assim, no meio do caminho, em uma situação perigosamente intermediária, que não respeita toda a amplitude das diferenças entre os países, mas não os inseriu em uma totalidade federativa.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="mso-layout-grid-align: none; text-autospace: none;"&gt;Essa unificação monetária, de forma instrutiva, caminha na contra-mão dos movimentos separatistas, em que se vê o quanto várias sociedades preferem que a vida política, cultural e econômica se dê em um âmbito em que vigore mais homogeneidade do que diferenças. Por mais que este movimento de fragmentação seja censurável, como uma espécie de índice de imaturidade política de lidar com a diversidade étnica, de valores etc., ele demonstra, por outro lado, uma &lt;i&gt;verdade histórica&lt;/i&gt;, situada além de uma análise por assim dizer moral do que consideramos progressista nesse âmbito coletivo, macro. Por mais que a unificação do Euro tenha um propósito nobre e seja índice do quanto se deseja a maturidade suficiente para lidar com planos de diferença que envolvem milhões de pessoas, creio que sua dificuldade de sobrevivência indica uma falta de realismo em relação ao que efetivamente é vivido pelas nações européias. É de se especular o quanto essa empreitada poderia ter maiores chances de se manter de forma menos turbulenta se fosse tentada em condições políticas mais amadurecidas no futuro. Ao mesmo tempo, se o Euro vier a ser abandonado, isso fatalmente significará a inviabilidade de seu retorno por um tempo que abrangerá várias e várias gerações.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="mso-layout-grid-align: none; text-autospace: none;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div id="fb-root"&gt;&lt;/div&gt;&lt;script&gt;(function(d, s, id) {  var js, fjs = d.getElementsByTagName(s)[0];  if (d.getElementById(id)) {return;}  js = d.createElement(s); js.id = id;  js.src = "//connect.facebook.net/pt_BR/all.js#xfbml=1";  fjs.parentNode.insertBefore(js, fjs);}(document, 'script', 'facebook-jssdk'));&lt;/script&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="fb-like" data-href="http://verlainefreitas.blogspot.com/2011/09/o-euro-e-o-esperanto.html" data-layout="button_count" data-send="false" data-show-faces="false" data-width="450"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2257787801295386827-9022121078195347938?l=verlainefreitas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/feeds/9022121078195347938/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/2011/09/o-euro-e-o-esperanto.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2257787801295386827/posts/default/9022121078195347938'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2257787801295386827/posts/default/9022121078195347938'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/2011/09/o-euro-e-o-esperanto.html' title='O Euro em questão'/><author><name>Verlaine Freitas</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10829879484126407328</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-G8tX_Am1rhU/TuaO2ql9tFI/AAAAAAAAAFo/R439dUrIlOA/s220/DSCN1829%2Bb.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2257787801295386827.post-6067181803127270155</id><published>2011-09-14T11:49:00.001-03:00</published><updated>2011-09-14T12:12:42.038-03:00</updated><title type='text'>O lugar do prazer no cotidiano</title><content type='html'>&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;A vida cotidiana típica dos habitantes da grande metrópole me parece francamente nivelada de forma a se tornar tendencialmente insípida. Naturalmente, falo de um tipo idealizado, que se realiza em diversos graus e formas de aproximação em cada caso. Apesar dessa abstração, creio que seja válida a ideia de que a vida nas grandes cidades, e eu diria até mesmo em outras menores, é caracterizada pela ausência de algo realmente instigante e motivador, que seja fonte de prazer não apenas como &lt;i&gt;distração&lt;/i&gt;, amenidade usufruída como descanso, como passatempo etc. Se a atividade profissional não contém um elemento motivacional forte, se não agrega um interesse significativo, dificilmente outra coisa parece capaz de fazê-lo.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;É instrutivo notar que quando se pergunta para alguém que tipo de música ela ou ele gosta, a resposta que mais se ouve é: “Gosto de tudo um pouco; sou eclético”. Só que eu diria que “gostar de tudo um pouco” significa “gostar pouco de cada coisa”. Nenhuma música parece conter nada de especial capaz de fazer com que se destaque em relação a todas as outras — e assim com tudo o mais. Exceto por uma viagem a um lugar especial nas férias, todo o ano fica desprovido de alguma coisa que não apenas descanse, mas que nos toque emocionalmente de forma significativa.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;A sexualidade, que pode ser tomada como o lugar de um ápice de prazer, pode também sucumbir a isso que chamo de uma &lt;i&gt;pasteurização generalizada da vida&lt;/i&gt;, tornando-se também apenas um momento de descarga de tensões, e não de busca por um prazer &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;por si mesmo&lt;/i&gt;. Além disso, ela acaba funcionando como um único momento que destoa de tudo mais, de modo que entre o trabalho e a intimidade sexual, nada mais parece ocupar especialmente um lugar de interesse significativo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Há algum tempo, uma pesquisadora brasileira que ganhou uma bolsa de estudo no MIT por ter se destacado em seu trabalho em Física, deu uma entrevista, e quando questionada sobre qual conselho ela daria para as pessoas alcançarem um resultado tão expressivo, disse algo interessante, mas também estranho à primeira vista: “Tenha um hobby”. Ela não se demorou na explicação, mas, de meu ponto de vista, essa idéia está correta ao dizer que, para termos uma vida satisfatória em vários sentidos, e não apenas profissional, é realmente necessário que tomemos um interesse especial por coisas ao longo do tempo. É sumamente necessário prestar atenção àquilo que ocorre um cada dia da semana, pois são estes que perfazem, ao longo do tempo, a própria vida. Preocupar-se com grandes temas da economia mundial, refletir sobre conceitos grandiosos, como o amor e a ciência, a política etc. é inquestionavelmente importante, mas a lida com o fluxo do tempo nessa dimensão “menor” da vida de todo dia não pode ser menosprezada.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Tendo trabalhado em uma faculdade particular, fui chamado várias vezes a acompanhar a turma para ver palestras de empresários, políticos e personalidades de destaque em várias áreas. Foi fácil notar que o tema da &lt;i&gt;motivação &lt;/i&gt;aparecia com muita frequência. É claro que o objetivo mais evidente é o de que ela converge em uma maior produtividade do trabalho de cada um na empresa e, portanto, aumenta os lucros. Por outro lado, essa é uma questão mais abrangente, que toca o nosso próprio gosto por aquilo que somos e fazemos não apenas nesse registro profissional, uma vez que a vida em sua totalidade ganha tendencialmente a aparência de uma &lt;i&gt;continuidade algo como que mecânica&lt;/i&gt;. É como se nos transformássemos em uma espécie de funcionário de nossas próprias vidas, realizando diversas coisas que não parecem ter a nossa própria motivação e prazer como seu sentido mais próprio.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Tudo isso não significa fazer a apologia de uma perspectiva &lt;i&gt;hedonista&lt;/i&gt;, que considere o prazer acima de todas as coisas, mas sim a defesa da urgência de sempre pensá-lo como um ingrediente que precisa ter seu lugar garantido de forma programática, como um &lt;i&gt;fim em si mesmo&lt;/i&gt;, como tendo um &lt;i&gt;valor próprio&lt;/i&gt;. Isso, mais uma vez em relação à sexualidade, é especialmente importante, devido ao fato de que esta pode realmente acabar por se consumir como &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;um mero meio&lt;/i&gt; para continuar a praticar todas as atividades, ou seja, como uma necessidade que deve ser satisfeita para que não atrapalhe tudo o mais.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Que a vida seja pontuada de prazeres que reluzem devido ao seu brilho especial, permite que tracemos uma linha para nossa existência cujo conteúdo, ao olharmos retrospectivamente para a sequência de anos que vivemos, se aproxima de algo que realmente tem &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;razão de ser&lt;/i&gt;.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2257787801295386827-6067181803127270155?l=verlainefreitas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/feeds/6067181803127270155/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/2011/09/o-lugar-do-prazer-no-cotidiano.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2257787801295386827/posts/default/6067181803127270155'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2257787801295386827/posts/default/6067181803127270155'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/2011/09/o-lugar-do-prazer-no-cotidiano.html' title='O lugar do prazer no cotidiano'/><author><name>Verlaine Freitas</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10829879484126407328</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-G8tX_Am1rhU/TuaO2ql9tFI/AAAAAAAAAFo/R439dUrIlOA/s220/DSCN1829%2Bb.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2257787801295386827.post-2901495667387691188</id><published>2011-09-07T17:12:00.005-03:00</published><updated>2011-09-07T22:27:07.241-03:00</updated><title type='text'>A verdade subjetiva</title><content type='html'>&lt;div style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;Que algo seja dito como &lt;i&gt;subjetivo&lt;/i&gt;, principalmente quando falamos de formas mais elaboradas de conhecimento e de expressão de idéias, como na política, nas ciências e na filosofia, parece sempre índice de desvalorização, de menos significado nesse espaço público em que se discutem opiniões e concepções de mundo diferentes. Ser &lt;i&gt;objetivo&lt;/i&gt;, por outro lado, já traz a marca de algo que superou as idiossincrasias, os gostos e preferências individuais, de modo a ter as credenciais de válido, verdadeiro e significativo. A própria idéia de subjetividade, nas reflexões filosóficas contemporâneas, desde Nietzsche, que a considerava um preconceito filosófico, passando por toda sua desvalorização radical na ciência positivista, até as investigações atuais de neuro-ciência, que pretendem traduzir todo este âmbito em funções neuronais, vemos que tal categoria sofreu sucessivos ataques. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;Embora Freud não faça uso explícito dessa categoria, creio que toda a psicanálise é uma concepção do ser humano fundada em um conceito peculiar de subjetividade. Por mais que a psicanálise tenha que se constituir a partir de conceitos universais, que dizem respeito a toda forma de constituição psíquica (por exemplo: inconsciente, recalque, pulsão), é necessário traduzir este âmbito geral de modo a que o processo clínico nos capacite a perceber uma verdade &lt;i&gt;do próprio indivíduo&lt;/i&gt;. Mesmo que Freud insista na necessidade de cada um adaptar-se às exigências de vida em sociedade, isso, segundo penso, não deve querer significar uma conformação, uma aceitação “resignada” de princípios, regras e valores.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;Que a verdade, em qualquer âmbito que se estabeleça, desde uma constatação simples na experiência cotidiana, até uma formulação teórica sofisticada, seja dita &lt;i&gt;objetiva&lt;/i&gt;, não causa estranheza. Quando dizemos de uma &lt;i&gt;verdade subjetiva&lt;/i&gt;, isso soa bastante estranho, quase contraditório, na medida em que queremos falar do modo como as pessoas transitam na realidade e são chamadas a discutir suas posições neste espaço coletivo, mas creio haver vários momentos em que isso deva ser revisto criticamente.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;Vejamos dois exemplos de aplicação dessa idéia.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;Muitas vezes quando percebemos que uma pessoa está em uma situação ruim, mas cuja causa principal é sua ligação com um objeto, uma idéia ou doutrina, de tal modo que ela se mostra dependente, podendo chegar até certo grau de fanatismo, podemos facilmente ter o ímpeto de “corrigir” seu comportamento, retirá-la dessa condição, tentando apontar as incoerências, fraquezas e pontos falhos em sua atitude. Se assim agimos, temos a boa intenção de substituir essa realidade interna por uma verdade que consideramos objetivamente válida, pelo fato de que não estamos contaminados pelos sentimentos que a conduzem a pessoa a se comportar de certa maneira. Muitas vezes essa estratégia pode ter um resultado terapêutico válido, mas eu digo que é necessário muito cuidado, pois muitas vezes esse investimento afetivo intenso pode demonstrar a única solução viável para manter um equilíbrio emocional, de tal modo que a desilusão pode gerar uma condição de vazio cujo complexo emocional resulte mais difícil de ser digerido. Desse modo, o que digo é que nem sempre uma verdade objetiva deve ser usada para confrontar uma outra, cuja dinâmica, motivação e princípio de validade não admite uma troca sem um ônus que por vezes é muito pesado. Em outras palavras, nem sempre nos cabe o papel de “salvar” alguém de algo falso objetivamente, pois muitas vezes aquilo que o sustenta é precisamente o quanto ele depende de uma verdade que somente ele vivencia por que ela o é, mesmo que não tenha consciência disso.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;A outra aplicação é quando, em uma organização, empresa ou instituição com um número de médio a grande de pessoas, é necessário atribuir uma tarefa extra, que fuja, em alguma medida, às atribuições normalmente assumidas por cada um. Nesse momento, o critério objetivo é, como parece realmente sensato, ver quem está com menos atribuições, com menor carga de trabalho habitual, ou que possui menos atribuições extras, não só no momento presente, mas na história recente do desdobramento das funções. Penso que, por mais que este seja o primeiro critério a ser levado em conta, não é único e nem tem valor absoluto. É preciso levar em conta, também, a disposição subjetiva para assumir essa nova tarefa. Se alguém se recusa a assumi-la, e o faz de forma razoavelmente argumentada, não recusando simplesmente por mero capricho, parece-me mais do que razoável que se deva perguntar para os outros membros dessa organização ou instituição quem estaria disposto. Creio que a dimensão subjetiva do complexo afetivo ligado a um determinado trabalho, quando ela se mostra suficientemente clara, demonstra uma verdade que não deve ser simplesmente submergida nos critérios racionais de uma verdade coletiva. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;É evidente, por outro lado, que se essa recusa se repete, e por mais de uma vez, demonstrando ao longo do tempo &lt;i&gt;má vontade&lt;/i&gt; para colaborar, aí fica claro que mesmo nesse âmbito subjetivo não estamos diante de algo “verdadeiro”. Interessante é notar que se somos condescendentes com essa recusa sistemática, ocorre que várias tarefas acabam, como se diz popularmente, “sobrando” para alguém com uma especial docilidade para aceitar os encargos. Ao longo do tempo, vemos que algumas pessoas passam a ter uma dose de trabalho excessiva, devido precisamente a esse modo com que aceitam sistematicamente tarefas além do que é a média de todos. Por outro lado, é muito instrutivo notar que tanto um chefe que, naquele primeiro caso, não ouve de forma adequada essa verdade subjetiva de uma disposição específica para um determinado trabalho extra, quanto essa outra pessoa que sempre assume encargos de modo a ficar sobrecarregada, ambos têm uma atitude que segue o mesmo princípio: &lt;i&gt;anulação de uma verdade subjetiva em prol de uma objetiva&lt;/i&gt;. Em ambos os casos, o espaço da interioridade foi anulado devido a uma concepção “racional” de um bem público, objetivo. Que isso seja imposto de fora ou assumido pela própria pessoa, de meu ponto de vista, não altera substancialmente a qualificação de uma &lt;i&gt;violência &lt;/i&gt;exercida pelo âmbito objetivo sobre o subjetivo. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;Como, entretanto, o processo de ponderação de verificação dos pesos relativos entre esses dois planos é sempre variável devido às infinitas diferenças em cada circunstância, não há propriamente uma regra geral de como proceder. Toda essa reflexão é dirigida para resgatar, por assim dizer, algo que, nessa relação entre tais medidas, corre sempre o risco de ser depreciado, a saber, o espaço de uma verdade muitas vezes não valorizada por quem mais precisa dela: nós mesmos.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2257787801295386827-2901495667387691188?l=verlainefreitas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/feeds/2901495667387691188/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/2011/09/verdade-subjetiva.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2257787801295386827/posts/default/2901495667387691188'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2257787801295386827/posts/default/2901495667387691188'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/2011/09/verdade-subjetiva.html' title='A verdade subjetiva'/><author><name>Verlaine Freitas</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10829879484126407328</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-G8tX_Am1rhU/TuaO2ql9tFI/AAAAAAAAAFo/R439dUrIlOA/s220/DSCN1829%2Bb.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2257787801295386827.post-8515778072942616544</id><published>2011-08-30T19:03:00.000-03:00</published><updated>2011-08-30T19:03:06.343-03:00</updated><title type='text'>Ideais, desejos e imagens</title><content type='html'>  &lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="mso-bidi-font-family: &amp;quot;Calisto MT&amp;quot;; mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-fareast-language: EN-US;"&gt;Hegel dizia que a tarefa por excelência da filosofia é a &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;construção da liberdade&lt;/i&gt;, e isso me parece ainda atual, significativo como uma tarefa do pensamento teórico como um todo, particularmente filosófico e de ciências humanas. Considerando a peculiar situação contemporânea, que convive com um senso acentuado de egocentrismo, de culto da própria personalidade, mas ao mesmo tempo com diversos aspectos de moral e códigos de conduta por assim dizer tradicionais, a questão pelo que perfaz a liberdade do indivíduo torna-se especialmente complexa. Pretendo falar hoje de um modo peculiar de mescla entre motivos tradicionais e por assim dizer libertinos na concepção do que é ser livre no âmbito individual.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;  &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="mso-bidi-font-family: &amp;quot;Calisto MT&amp;quot;; mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-fareast-language: EN-US;"&gt;A partir de Diógenes Laércio, sabemos que para os estóicos somente o sábio é livre, pois somente ele age de acordo com o que a razão ensina sobre uma ordem cósmica. Podemos traduzir isso no sentido de que somente o emprego da razão nos leva a escolher aquilo que é bom, não apenas em função de uma perspectiva individual, facilmente iludida pelas aparências, mas sim por um valor &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;objetivo&lt;/i&gt;. Assim, a liberdade caminha no sentido oposto da &lt;i&gt;quantidade &lt;/i&gt;de opções, de alternativas e de possibilidades de escolha, associando-se a uma perspectiva de &lt;i&gt;qualidade &lt;/i&gt;da decisão. Noutras palavras, ser livre significaria escolher aquilo que é objetivamente valioso, bom, e não o fato de ter diante de si um leque virtualmente infinito de opções.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="mso-bidi-font-family: &amp;quot;Calisto MT&amp;quot;; mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-fareast-language: EN-US;"&gt;Dando um salto de séculos na história das idéias, vemos Kant dizer algo que caminha nesse sentido, quando afirma que somente a ação moral é livre, pois, segundo sua perspectiva, esta é movida apenas por um interesse exclusivamente racional, que ele chama de &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;puro&lt;/i&gt;, derivado do respeito pela lei que razão estabelece em nós. Em contraste com essa autonomia racional, temos as ações normalmente praticadas por um interesse ligado aos nossos prazeres, desejos, ambições e tudo o mais que podemos agrupar sob a idéia de &lt;i&gt;felicidade&lt;/i&gt;. Paradoxalmente, a obrigação moral seria o índice de liberdade, pois, na medida em que obrigamos a nós mesmos a agir conforme aquilo que a razão determina, livramo-nos daquilo que é, por assim dizer, &lt;i&gt;externo a nossa pura vontade como seres racionais&lt;/i&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="mso-bidi-font-family: &amp;quot;Calisto MT&amp;quot;; mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-fareast-language: EN-US;"&gt;Apesar das inúmeras diferenças entre essas duas concepções, há em comum o fato de que ser livre associa-se a uma escolha motivada por algo ligado intimamente a um valor, de modo que, mesmo que se restrinja drasticamente em termos quantitativos, a ação continua sendo livre de um ponto de vista qualitativo.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="mso-bidi-font-family: &amp;quot;Calisto MT&amp;quot;; mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-fareast-language: EN-US;"&gt;É inegável o quanto tais formulações contribuem no debate acerca da liberdade. Elas codificam um olhar dirigido para o real em termos de nossa capacidade de discernir os objetos em seus diversos significados para as ações. Podemos realmente concordar com o fato de que não é a mera quantidade de opções que determina o quanto esse é livre em cada caso. O grande problema está no ponto de apoio que se usa para definir o valor das ações. Ambas as perspectivas se coadunam perfeitamente com o espírito religioso, não apenas cristão, de depreciar as ações que têm um significado dispersivo, movido por princípios subjetivos alheios a modos de valorização objetivamente constituídos, partilhados socialmente.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="mso-bidi-font-family: &amp;quot;Calisto MT&amp;quot;; mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-fareast-language: EN-US;"&gt;A promiscuidade do bordel é um instrumento privilegiado de auto-legitimação da ascese, pureza espiritual, do convento. A libertinagem francamente assumida no primeiro funciona como uma espécie de vitrine para o que haveria de mais francamente inadequado na liberdade concebida como não apenas dispersão, mas como prazer de transgredir e/ou ignorar leis e princípios de ação. Em oposição direta a isso, a freira no convento pensa a si mesma como substancialmente livre. Ela não apenas se percebe como &lt;i&gt;negando &lt;/i&gt;o que a "prende", a saber, os desejos em todas as suas formas de prazeres e perversões, mas como &lt;i&gt;afirmando &lt;/i&gt;a si mesma como dirigida àquilo que é um bem supremo, acima de todas as outras coisas. Não é outro o caso, segundo me parece, das mulheres que aderem voluntariamente ao uso da burca e do niqab na religião islâmica. Sua extrema limitação é vivida como índice de algo que efetivamente as realiza como seres espirituais, dirigidas a um bem que as define como livres, mesmo que não possamos fazer uma transposição direta de um modo essencialmente ocidental de conceber a liberdade.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="mso-bidi-font-family: &amp;quot;Calisto MT&amp;quot;; mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-fareast-language: EN-US;"&gt;Esse complexo de coisas é extremamente significativo, pois mostra o quanto os valores não apenas funcionam como diretriz para as ações, mas podem, em certa medida, &lt;i&gt;substituí-las&lt;/i&gt;, pois cada vez menos coisas são “realmente boas”, “verdadeiramente dignas” etc. O centramento valorativo, ligado a padrões sociais e racionais que convergem em uma objetividade, possui uma força centrípeta, gravitacional, de tamanha magnitude, que coloca na sombra e tende virtualmente a eliminar todo o valor que provém da afirmação idiossincrática, singular, multifacetada, desviante e pervertida em nós mesmos. Esse é, ao que me parece, o princípio comum de todas as religiões, estabelecendo critérios de valorização de ações que tendem facilmente a uma limitação radical do agir, substituindo o prazer da concretude múltipla dos desejos por um plano abstrato de concepção de si e da realidade. (Naturalmente, a atitude religiosa não se resume a essa submissão dos prazeres a um ideal de elevação moral, e cada pessoa assimila a mensagem religiosa de acordo com sua própria índole, mas é inegável que tal ascese idealizante é um ponto central e quase sempre presente nos discursos religiosos.)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="mso-bidi-font-family: &amp;quot;Calisto MT&amp;quot;; mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-fareast-language: EN-US;"&gt;O outro lado da moeda é que a sociedade laica, na medida em que não se prende a padrões religiosos, assimilou em alguma medida a força e a legitimidade do que contraria esse plano de ideais coletivos. Nesse sentido, um certo grau de liberalidade começou a fazer parte do cotidiano do indivíduo das várias camadas sócio-econômicas, seja nas pequenas ou nas grandes cidades. Como, entretanto, os ideais valorativos são algo mais profundamente arraigado na cultura do que simplesmente um código escrito e sabido de valores, e também se apóiam em princípios de constituição do próprio eu essenciais para a própria dinâmica psíquica, vemos que a liberalidade pervertida dos prazeres acaba muitas vezes sendo vivida essencialmente no plano das imagens, dos signos e também da &lt;i&gt;mera performance&lt;/i&gt;. A perversão e a liberalidade são em grande medida &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;consumidas&lt;/i&gt; em imagens ou praticadas sem uma consciência mais aprofundada em termos reflexivos do que isso significa em termos motivacionais. Por mais paradoxal que seja, esse consumo &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;pornográfico&lt;/i&gt; e &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;performático&lt;/i&gt; da transgressão de valores tende a ser, ao seu modo, &lt;i&gt;também abstrato&lt;/i&gt;, desvinculado daquilo que Hegel — de novo ele — chamou de &lt;i&gt;concretude reflexiva&lt;/i&gt;. A transgressão pela transgressão acaba substituindo o vínculo subjetivo mais consistente com o objeto de desejo, que parece esconder-se por detrás de sua imagem e de sua consumação em um ato festejado como “conquista”.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="mso-bidi-font-family: &amp;quot;Calisto MT&amp;quot;; mso-bidi-font-size: 12.0pt; mso-fareast-language: EN-US;"&gt;Como uma pequena conclusão disso que esboçamos, podemos dizer que a liberdade não reside nem na abstração de um ideal que paira e pesa com todo o brilho de sua objetividade sobre a dispersão individual, nem na clareza sedutora da imagem e da mera performance supostamente libertina. — Mas em que residiria ela, então? — Bom, isso ficará para outras postagens.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2257787801295386827-8515778072942616544?l=verlainefreitas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/feeds/8515778072942616544/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/2011/08/ideais-desejos-e-imagens.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2257787801295386827/posts/default/8515778072942616544'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2257787801295386827/posts/default/8515778072942616544'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/2011/08/ideais-desejos-e-imagens.html' title='Ideais, desejos e imagens'/><author><name>Verlaine Freitas</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10829879484126407328</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-G8tX_Am1rhU/TuaO2ql9tFI/AAAAAAAAAFo/R439dUrIlOA/s220/DSCN1829%2Bb.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2257787801295386827.post-3269495574925582960</id><published>2011-08-23T19:26:00.001-03:00</published><updated>2011-08-24T12:44:44.371-03:00</updated><title type='text'>Entre fatos e valores</title><content type='html'>&lt;div style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;"&gt;Um dos pontos de apoio mais clássicos em estudos antropológicos, particularmente na Filosofia, é a distinção entre o ideal e o factual. Na busca pela especificidade do modo humano de viver, diz-se que somos a única espécie que vive o plano dos fatos através da mediação de um âmbito ideal, abstrato, apenas pensado, não necessariamente conectado diretamente ao que existe. A construção de novas formas de viver, baseadas em projetos que apontam para realidades que ainda não existem, bem como todo o âmbito da ficção, seja ela artística ou de um mero jogo, somente são possíveis por essa capacidade humana de conceber abstratamente o que pode ser pensado, mesmo que não possa ser vivido.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;"&gt;O registro antropológico, por outro lado, costuma se contentar em explicitar essa divisória entre o mundo humano e o não-humano, sem investigar criticamente algumas conseqüências dessa diferenciação entre o ideal e o real. Freud dizia que encontrava mais pessoas com distúrbios neuróticos na classe média do que em camadas sócio-econômicas menos favorecidas. Sua explicação para isso baseia-se exatamente na diferença do modo de vida daqueles que assimilam de forma mais estrita o âmbito dos ideais e dos valores, em contraste com quem, devido a uma condição de vida menos favorecida, não se mede com tanto afinco em relação a planos de conduta supostamente nobres, ou que se conectam a planos de realizações ambiciosos.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;"&gt;O ponto de apoio da argumentação freudiana não é propriamente o fato de que pessoas mais simples se contentam com menos coisas, “querem menos”, mas sim que elas tendem a viver sua sexualidade, naquilo que ela possui de menos assimilável pela parte mais idealizada da moral vigente em cada época, de forma tendencialmente menos conflitiva. Quanto maior a ênfase na abstração de planos elevados de valores, mais parece difícil convencer alguém da legitimidade, da razão de ser, da força que possuem as fantasias, os desejos desviantes em relação a normas sociais (ou seja, pervertidos), presentes em seu modo de se relacionar consigo mesmo e com as outras pessoas. A raiz mais profunda e, portanto, inconsciente, da sexualidade sempre conterá elementos que colocam em xeque a estabilidade alcançada a partir da rede de valores elevados da cultura, particularmente da que vivemos no ocidente europeu e das Américas. Em uma formulação especialmente feliz, a autora de vários ensaios interessantes, Susan Sontag, diz que sempre a &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;satisfação sexual&lt;/i&gt; irá contrariar, em alguma medida, a &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;satisfação pessoal&lt;/i&gt;, em função do fato de que a primeira experiência aponta para uma mobilidade de desejos e suas formas que desafiam acidamente o que tomamos como próprio de nós mesmos em função de nossos papéis sociais conscientes.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;"&gt;Nenhum teórico seriamente comprometido com seu trabalho em ciências humanas e na Filosofia irá negar a enorme importância que a &lt;i&gt;identidade pessoal &lt;/i&gt;tem para a estabilidade de cada um como indivíduo e para sua inserção no âmbito social. Uma das peculiaridades da Psicanálise reside em considerar que a identidade &lt;i&gt;sexual &lt;/i&gt;é o motor mais significativo para a problemática da concepção de si como indivíduo. As contradições, fissuras, inadequações, incapacidades de metabolização de desejos pervertidos — enfim, toda a negatividade no âmbito da sexualidade mais profundamente arraigada em nós, do ponto de vista psicanalítico, tende a transbordar e, como diz Jean Laplanche, “colonizar” outras áreas da existência, para além da prática sexual em sentido mais estrito. &lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;"&gt;Eu geralmente não gosto de fazer análise teórica, geral, de sintomas neuróticos, para evitar psicanálise selvagem, como disse Freud, em que arriscamos palpites em relação a conteúdos inconscientes, sem passar pela relação concreta entre analista e analisando. Entretanto, se mantivermos um plano bastante geral de análise, ou seja, sem especificar conteúdos motivacionais, creio que ela se justifica, pois um núcleo comum das fantasias inconscientes não anula a verdade individual. Nesse sentido, um exemplo de como a precariedade da resolução do núcleo inconsciente da sexualidade pode afetar âmbitos da vida que parecem não ter conexão com que ela é a ganância, o ímpeto descontrolado de ter cada vez mais, de produzir incessantemente além daquilo que já se tem. Não é difícil associar a posse, a apropriação, o senso de propriedade com o de domínio, de dominação, de poder. (É interessante notar que “os meus domínios” significa aquilo que possuo, o conjunto das minhas propriedades.) Também não é difícil ver o quanto essa atitude de dominação exprime uma concepção de masculinidade a que já estamos acostumados, associada à ideia de força, de exercício de poder. Na medida em que consideramos o masculino e o feminino como princípios de constituição psíquica de todo ser humano, partilhados tanto por homens quanto por mulheres, podemos dizer que o produtivismo capitalista e sua disposição subjetiva de aumento compulsivo de posses e a geração de valores podem ser tomados como índice de uma obsessividade com a dimensão masculina de nossa identidade pessoal.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;"&gt;Dentre as várias conclusões parciais que podemos tirar dessa pequena explanação, temos a de que é necessário um esforço de des-tradução daquilo que se solidifica como valores culturais supostamente elevados, de modo a termos um olhar para camadas e substratos psíquicos bastante difíceis de serem digeridos, mas que se mostram como cruciais para nosso objetivo de ter uma vida mais satisfatória, menos obsessiva, menos limitada e, portanto, mais livre.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;"&gt;— Na próxima semana, voltarei a falar dessa relação entre o real e o factual, enfocando o conceito de liberdade.&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2257787801295386827-3269495574925582960?l=verlainefreitas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/feeds/3269495574925582960/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/2011/08/entre-fatos-e-valores.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2257787801295386827/posts/default/3269495574925582960'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2257787801295386827/posts/default/3269495574925582960'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/2011/08/entre-fatos-e-valores.html' title='Entre fatos e valores'/><author><name>Verlaine Freitas</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10829879484126407328</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-G8tX_Am1rhU/TuaO2ql9tFI/AAAAAAAAAFo/R439dUrIlOA/s220/DSCN1829%2Bb.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2257787801295386827.post-4891866978693099790</id><published>2011-08-17T17:47:00.006-03:00</published><updated>2011-08-17T17:50:35.984-03:00</updated><title type='text'>Pseudo-reflexões</title><content type='html'>&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Definir liberdade é uma tarefa especialmente difícil, em virtude do fato de que temos uma quantidade infinita de elementos a considerar, como fatores subjetivos, aspectos sociais, condicionamentos de várias ordens, como o biológico e a dinâmica psíquica etc. Sempre que abordamos o problema sob uma perspectiva, há sempre alguém disposto a abordar a questão sob outro ponto de vista. Uma ideia de senso comum bastante usual focaliza quase sempre aspectos externos à motivação para agir, de modo que ser livre significaria não ter obstáculos a nosso desejo, à nossa determinação de fazer alguma coisa. A liberdade consistiria na negação, na ausência, de constrições, limites, para a realização dos desejos. A partir de uma concepção psicanalítica, podemos dizer que pode haver falta de liberdade no próprio âmbito de nossa determinação, de nossa vontade para agir de certa maneira. Não pretendo agora discutir toda a gama de aspectos teóricos envolvidos nessa questão, mas sim fazer apenas uma aplicação dessa idéia em um campo de nossa vida cotidiana.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Todos nós sempre temos várias tarefas a cumprir ao longo do dia, da semana, do mês e por aí vai. Desde a mais trivial de de restrita a um telefonema para alguém, até a realização de uma obra que demanda um investimento de vários meses, é preciso determinação para investir tempo e energia para cumprir tudo o que é requerido de nós. Algo que me deixa especialmente intrigado, por outro lado, é o quanto adiamos desnecessariamente a realização de tarefas muitas vezes simples, que não demandam muito esforço. É interessante notar que a cada nova realização de uma tarefa interpõe-se a reflexão, ou a reconsideração de se tal tarefa deve ou não ser feita em determinado momento. Na verdade “reflexão” não é uma boa palavra para esse hábito de colocar em questão se devo ou não fazer alguma coisa, se é melhor adiar, esperar outro momento, fazer apenas uma parte etc. Creio que seja mais uma espécie de “ruminação”, em que duas ou mais vozes dialogam nesse teatro interior. Costumo dizer que até mesmo perante a tarefa mais simples realizamos uma espécie de mini-reunião de condomínio para deliberar se vamos agir ou não. Naturalmente, as ações baseadas em reflexão tendem a ser mais consistentes, uma vez que a decisão é fundamentada pelo raciocínio, pela consideração de vários fatores em jogo em cada momento. O grande problema dessa ruminação perante as tarefas reside no fato de que ela apenas coloca em dúvida uma determinação que deveria ser tomada como muito mais bem estabelecida. Eu creio que essas micro-reflexões apenas são formas de ceder a impulsos, sentimentos e desejos que, em vez de exprimirem nossa liberdade perante a realidade, demonstram que nós, na verdade, somos &lt;i&gt;frágeis &lt;/i&gt;em relação ao complexo de elementos motivacionais, desiderativos, emocionais, que, somados, nos levam à ação.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;É sempre difícil estabelecer princípios gerais de ação, uma vez que cada pessoa tem uma concepção de mundo, um conjunto próprio de valores etc., de modo que se pode facilmente incorrer numa espécie de violência em relação ao modo de vida alheio. Por outro lado, penso que esses princípios podem ter perfeita validade, na medida em que cada um faça uma espécie de leitura própria, de tradução para a sua própria perspectiva de mundo. Nesse sentido, eu costumo dizer que vale muito mais a pena refletir de forma bastante clara e objetiva acerca do que se deve fazer, do que é bom, proveitoso etc., e, com base no que se decide, passa-se a não mais parar e questionar se uma determinada ação deve ou não ser feita. Eu costumo dizer: “Simplesmente faça; não questione se é bom ou não fazer”. Tenho a nítida impressão de que, uma vez se decidindo que realizar uma determinada tarefa, como por exemplo a de fazer exercício físico diariamente, é importante, necessário, bom, saudável etc., não vale a pena gastar energia emocional, mental e psíquica colocando essa decisão em jogo em cada momento em que se deve fazer alguma coisa. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Penso que muito do peso das tarefas do cotidiano, talvez quase 90% dele, provém muito mais da necessidade de lutarmos contra o complexo emocional que gravita ao redor de cada realização de tarefa, do que do esforço de realizá-las. O trabalho de refletir acerca da pertinência ou não de fazer alguma coisa, segundo penso, deve ser totalmente concentrado, ou pelo menos ao máximo, em um momento específico de deliberação para todos os outros dias que virão pela frente. Nesse momento, trata-se propriamente de uma atividade reflexiva, digna do nome, em que se ponderam objetivamente fatores, circunstâncias favoráveis e desfavoráveis. No dia-a-dia, mergulhados nesse torvelinho de elementos emocionais que se sucedem ao longo do tempo, o que ocorre é mais signo de uma “racionalização” de um desejo neurótico de adiar, postergar, procrastinar. Sem a interposição desse processo ruminativo, a produtividade diária tende a ser não apenas mais leve, mas também muito mais prazerosa e eficaz. — Por outro lado, creio que seja desnecessário dizer que existe sempre espaço para que essa decisão tomada inicialmente seja retomada, revista à luz de novas ocorrências, de uma nova situação que demanda uma reconsideração. Não estou dizendo que se deva ser obstinado em seguir uma determinação prévia, mas eu insisto em que 99% dos casos de reconsideração, na realidade, são vazios, não têm razão de ser, consistindo apenas em um pretexto para desviar em relação a uma determinação já mais do que bem estabelecida.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Resumindo, eu diria que a “obediência” ao que já consideramos &lt;i&gt;realmente&lt;/i&gt; mais importante na “vida miúda” de cada dia significa, no desdobramento temporal de nossa existência, sermos mais senhores/as de nós mesmos/as do que a “atenção”, a “escuta” às nossas inclinações, desejos e sentimentos circunstanciais, presentes em cada ocasião.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial; font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2257787801295386827-4891866978693099790?l=verlainefreitas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/feeds/4891866978693099790/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/2011/08/pseudo-reflexoes.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2257787801295386827/posts/default/4891866978693099790'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2257787801295386827/posts/default/4891866978693099790'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/2011/08/pseudo-reflexoes.html' title='Pseudo-reflexões'/><author><name>Verlaine Freitas</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10829879484126407328</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-G8tX_Am1rhU/TuaO2ql9tFI/AAAAAAAAAFo/R439dUrIlOA/s220/DSCN1829%2Bb.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2257787801295386827.post-8207793368094377506</id><published>2011-08-09T23:42:00.001-03:00</published><updated>2011-08-09T23:46:16.011-03:00</updated><title type='text'>Contradições indigestas</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt;  &lt;w:WordDocument&gt;   &lt;w:View&gt;Normal&lt;/w:View&gt;   &lt;w:Zoom&gt;0&lt;/w:Zoom&gt;   &lt;w:HyphenationZone&gt;21&lt;/w:HyphenationZone&gt;   &lt;w:PunctuationKerning/&gt;   &lt;w:ValidateAgainstSchemas/&gt;   &lt;w:SaveIfXMLInvalid&gt;false&lt;/w:SaveIfXMLInvalid&gt;   &lt;w:IgnoreMixedContent&gt;false&lt;/w:IgnoreMixedContent&gt;   &lt;w:AlwaysShowPlaceholderText&gt;false&lt;/w:AlwaysShowPlaceholderText&gt;   &lt;w:Compatibility&gt;    &lt;w:BreakWrappedTables/&gt;    &lt;w:SnapToGridInCell/&gt;    &lt;w:WrapTextWithPunct/&gt;    &lt;w:UseAsianBreakRules/&gt;    &lt;w:DontGrowAutofit/&gt;   &lt;/w:Compatibility&gt;   &lt;w:BrowserLevel&gt;MicrosoftInternetExplorer4&lt;/w:BrowserLevel&gt;  &lt;/w:WordDocument&gt; &lt;/xml&gt;&lt;![endif]--&gt;&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt;  &lt;w:LatentStyles DefLockedState="false" LatentStyleCount="156"&gt;  &lt;/w:LatentStyles&gt; &lt;/xml&gt;&lt;![endif]--&gt;&lt;!--[if gte mso 10]&gt; &lt;style&gt; /* Style Definitions */ table.MsoNormalTable	{mso-style-name:"Tabela normal";	mso-tstyle-rowband-size:0;	mso-tstyle-colband-size:0;	mso-style-noshow:yes;	mso-style-parent:"";	mso-padding-alt:0cm 5.4pt 0cm 5.4pt;	mso-para-margin:0cm;	mso-para-margin-bottom:.0001pt;	mso-pagination:widow-orphan;	font-size:10.0pt;	font-family:"Times New Roman";	mso-ansi-language:#0400;	mso-fareast-language:#0400;	mso-bidi-language:#0400;}&lt;/style&gt; &lt;![endif]--&gt;  &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;O âmbito estético, seja das obras de arte, da cultura de massa ou de produções ambíguas frente a essas duas categorias, sempre se mostrou propício a polarização entre extremos. Desde a situação trágica de Édipo, que na obra de Sófocles era o rei adorado por seu povo e se torna o mais abjeto dos criminosos, até a música serial contemporânea, cujo aspecto radical de contingência, puro acaso, na verdade se deve a uma articulação formal estrita, vemos que muito do interesse do jogo imagético e imaginário com essas obras se alimenta dos nós e tensões que gravitam ao redor de paradoxos, contradições, choques, certezas rompidas a todo instante, expectativas ao mesmo tempo criadas e negadas etc. Fazer com que tais polos não se coloquem de forma maniqueísta, não sejam alinhavados por um fio de sentido que dilua todas as contradições em uma perspectiva às vezes moralista, patriótica, ou de justaposição de bons contra maus — tudo isso é uma tarefa a ser cumprida na construção de uma obra estética de valor. Theodor Adorno disse que na contraposição entre o caráter expressivo e o formal as grandes obras foram aquelas que não propuseram uma espécie de meio termo entre tais polos, mas procuraram ressaltar a tensão que sempre surge entre eles. A partir dessa perspectiva, creio que possamos interpretar dois filmes que concorreram ao Oscar de 2008, sendo que um deles foi o grande premiado: &lt;i&gt;Onde os fracos não têm vez &lt;/i&gt;e &lt;i&gt;Sangue negro&lt;/i&gt;, sendo que enfocarei mais o primeiro.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;  &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Razão, vida e prosperidade &lt;i&gt;versus&lt;/i&gt; loucura, morte e ruína: ambos os filmes giram ao redor da tensão oriunda dessa polaridade. Nos dois casos vemos uma narrativa que alinhava uma percepção de sentido ligada a alguma espécie de progressividade, ao mesmo tempo em que se conecta com formas de degeneração, de perda, de atrofia e morte, sendo que em &lt;i&gt;Sangue negro &lt;/i&gt;os dois planos são colocados em doses mais ou menos equilibradas (no sentido de ocuparem porções semelhantes no conjunto da narrativa), enquanto que no filme dos irmãos Coen prevalece nitidamente o segundo aspecto, sendo o primeiro relegado a pontos discursivos espalhados ao longo da narrativa, principalmente nas falas do xerife Ed Tom Bell (Tommy Lee Jones). O que gera mais interesse para análise, entretanto, não é apenas a presença desses dois pólos, mas o fato de que, nas duas obras, negar a razão equivale a negar a vida, de tal sorte que a ruína e a morte violenta estão associadas com a explicitação da loucura, tornando patente o quanto a demência se contrapõe radicalmente ao que a vida tem de progressivo.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Comparando os dois filmes, &lt;i&gt;Sangue negro &lt;/i&gt;me parece menos interessante devido ao modo como a contraposição entre os dois pólos é realizada a partir de uma narrativa linear, em que assistimos a uma mudança clara, partindo de um contexto de ações socialmente progressivas, não apenas em termos empresariais, mas também coletivos (na medida em que o protagonista é levado a agregar membros de uma comunidade em seu empreendimento), encaminhando-se para um redemoinho egocêntrico corrosivo. Os espaços abertos e ensolarados do início cedem cada vez mais lugar aos ambientes fechados, sombrios e intimistas, reforçando a percepção do quanto o caráter luminoso da racionalidade é incompatível com o que há de sombrio e contraditório na individualidade. Podemos valorizar a coragem do diretor em não querer articular soluções que suavizem esse embate, mas ele por assim dizer perde muitos pontos pelo fato de isolar esses dois planos, tornando-os claramente discerníveis. Na medida em que cada um se contra-põe ao outro em um conjunto de ações qualificáveis explicitamente, acaba não havendo um maior interesse estético numa espécie de junção não digerível de opostos que se digladiem pelo mesmo espaço.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;No filme dos irmãos Coen não há um discernimento tão claro acerca do que qualifica a positividade do racional, na medida em que a insanidade dialoga com uma percepção do que cada vez mais parece residir somente no passado. O horizonte se afigura ensombrecido por um pessimismo quanto à &lt;i&gt;démarche&lt;/i&gt; da humanidade, que retira espaço de velhos valores. É isso que se explicita no título original do filme (&lt;i&gt;No country for old men&lt;/i&gt;, cuja tradução literal poderia ser &lt;i&gt;Não há espaço para velhos&lt;/i&gt;), inspirado em um poema de Yeats. Ao se substituir “velhos” por “fracos”, como o que é expulso pela voracidade corrosiva da violência, o diálogo entre uma racionalidade moral tomada como arcaica e o senso do humano que se produz a cada dia é substituído pelo embate atual entre os que têm e não têm força, o que retira muito do caráter reflexivo da obra.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Três personagens encarnam momentos na construção daquele diálogo: o xerife, cujas idéias e idade avançada remetem explicitamente à moralidade que se esvai, o psicopata assassino Anton Chigurh (Javier Barden), que só não é o exato oposto do primeiro pelo fato de ser referido como possuindo alguma espécie de princípios — por mais disparatados que sejam —, e por fim o veterano da guerra do Vietnã, Llewelyn Moss (Josh Brolin), que faz uma mescla dos outros dois, ao aliar a insana obstinação em conservar os 2 milhões de dólares que encontrou a uma apatia que ressoa o ceticismo e a isenção do xerife ao lidar com todos os acontecimentos que o intrigavam e que ele tinha de resolver. A sabedoria cética e resignada do chefe de polícia teve várias figuras como sua contra-parte: pessoas humildes, ingênuas e simplórias, anuladas e/ou anuláveis tal como um papel de bala que se amassa e que fraqueja ao se contorcer para recobrar a forma original, ou como um animal dócil para ser abatido com um tiro no crânio. Todo o filme gira em torno da despersonalização, tendo vários momentos como metáforas de anulação do humano, como na associação imagética entre a trilha de sangue de um veado atingido por Moss e a dele mesmo e de Chigurh quando trocam tiros, e no assassinato de um dos habitantes, realizado como no abate de bois. Vários personagens demonstram pouca densidade psicológica, em termos de envolvimento motivacional digno do nome. Uma caricatura disso é o modo como Moss se aferrou impassível a um dinheiro que cada vez mais ficava claro que o levaria à morte, e também a resignação irônica da sogra do protagonista ao lidar com o desfecho inevitável que seu câncer lhe traria. Diante desse quadro, é perfeitamente assimilável a frieza cadavérica de um psicopata cuja astúcia homicida é um arremedo da razão impotente para se conectar à, e produzir, vida. Na gratuidade com que os objetos de desejo circulam nos trajetos de cada personagem e no entre-curso das vidas alheias, o valor de cada coisa se assemelha ao que pode figurar uma moeda, cuja representatividade é tão rasa quanto as marcas de seu relevo, e que no filme ajudou a explicitar a impossibilidade do livre arbítrio para quem desconhece quaisquer valores.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Apesar de apresentar aqueles pólos que mencionei no início de forma mais entrelaçada do que em &lt;i&gt;Sangue negro&lt;/i&gt;, os fios que tecem a trama ao redor do xerife, de Moss e do psicopata podem ser descosidos de modo a que possamos formar um quadro metafórico bastante assimilável àquela primeira obra. Cada um dos elementos daquelas polaridades: vida e morte, violência e razão, valor e ruína, se chocam nos filmes de tal forma que o progressista e o patológico se excluem mutuamente, e o avanço do segundo necessariamente representa a restrição do primeiro. A vida aí se depara com a morte apenas como seu limite intransponível e como sua negação radical; a razão é violenta somente quando se esvaziou de toda vida; e valores se associam internamente à ruína somente sob a forma de suas próprias caricaturas, como na obstinação financista e apática dos dois personagens principais de cada filme, e na entrega cínica à causa religiosa do jovem pastor em &lt;i&gt;Sangue negro&lt;/i&gt;. Em ambas as obras, não há espaço para ambigüidades que seriam por demais indigestas, associando cada elemento daqueles pares em um mesmo plano qualificável como a via em que se experimenta o gozo de ser humano, com toda a impetuosidade das contradições que movem a realidade a ser construída. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2257787801295386827-8207793368094377506?l=verlainefreitas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/feeds/8207793368094377506/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/2011/08/contradicoes-indigestas.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2257787801295386827/posts/default/8207793368094377506'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2257787801295386827/posts/default/8207793368094377506'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/2011/08/contradicoes-indigestas.html' title='Contradições indigestas'/><author><name>Verlaine Freitas</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10829879484126407328</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-G8tX_Am1rhU/TuaO2ql9tFI/AAAAAAAAAFo/R439dUrIlOA/s220/DSCN1829%2Bb.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2257787801295386827.post-4522511720544502093</id><published>2011-08-02T22:02:00.006-03:00</published><updated>2011-08-02T23:02:31.952-03:00</updated><title type='text'>A face inaudita do trabalho</title><content type='html'>&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Filósofos e sociólogos de inspiração marxista costumam ter uma visão bastante negativa do trabalho. Pautando-se na crítica contundente de Marx ao sistema de exploração capitalista da mão-de-obra, o trabalho é visto como fonte de alienação, de expropriação das forças vitais, de perda de dignidade e uma série de outros aspectos francamente negativos. A idéia, também presente em Marx, de que o trabalho é um modo privilegiado de o ser humano produzir a si mesmo ao produzir os meios de sua subsistência transformando a natureza, é deixada para segundo, terceiro ou quarto planos, cedendo lugar à consideração puramente centrada nas condições médias do trabalho do operário.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Recentemente li uma publicação de um diálogo entre Theodor Adorno e Max Horkheimer cujo assunto era exatamente o trabalho. É impressionante como esse conceito é tomado de forma bastante abstrata, geral, desconsiderando os infinitos graus de satisfação que as pessoas podem obter com sua atividade remunerada. Tem-se a impressão que só cabe nesse conceito aquilo que se aproxima da escravidão, como é o caso dos trabalhadores chineses que passam jornadas extenuantes de trabalho, em condições bastante precárias, com pouquíssimos direitos trabalhistas e com remuneração aviltante. Fazendo eco a algumas formulações de Marcuse, Adorno chega a dizer explicitamente que o sentido do trabalho consistiria em sua supressão, em sua diminuição a um tempo mínimo.&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Ora, é mais do que evidente que não se pode transpor para o conceito abstrato de trabalho todas as mazelas das condições reais a que muitas ou a maioria das pessoas estão sujeitas. Tal como é evidente que no mundo todo há bilhões de pessoas que se sentem forçadas a realizar uma atividade, há outro tanto que gosta do que faz, sente-se bem ao cumprir suas tarefas, produzir valores de diversas ordens. No primeiro caso, muitos que se sentem infelizes em sua atividade o são em virtude das condições materiais de seu emprego, e não devido ao que fazem para cumprir suas tarefas. Tomemos como exemplo a classe dos professores. Todas as pessoas que passaram pela escola sabem muito bem que se não todos, pelo menos uma grande parte dos docentes tem prazer com sua atividade, com sua tarefa de transmissão de conhecimento, de fomentar o interesse científico e teórico os alunos, de dialogar com o que cada aluno tem a trazer, de se superar em sua capacidade de produção de conhecimento etc.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Conversando com uma professora sobre esse diálogo entre Adorno e Horkheimer, eu insisti no fato de que nem todo o trabalho é penoso, sofrido, e dei como exemplo o meu trabalho e o dela, que mostram claramente que temos enorme prazer em realizá-lo, como também &lt;i&gt;o do próprio Adorno&lt;/i&gt;, e a resposta que recebi foi a de que Adorno não considerava sua atividade como trabalho. Ora, é exatamente o que eu já pensava que os teóricos marxistas fazem quando analisam o conceito geral de trabalho, a saber: retiram dele tudo o que, em inumeráveis casos, ele tem de progressista, interessante, realizador, culturalmente significativo, individualmente recompensador etc. No fim das contas, depois de subtrair tudo o que é válido, resta ao conceito somente aquilo que o transforma em algo próximo da escravidão, e aí, realmente, nada sobra para contar a história.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;Em termos de significado pessoal — que é a perspectiva que eu mais gosto de investigar —, é interessante prestar atenção a algo que se diz de muitas pessoas que se aposentam e, não encontrando outra atividade que demande um investimento próximo ao que havia antes, passam a ter uma vida emocionalmente pobre, bastante esvaziada. Ao falar sobre isso, qualquer teórico marxista se apressaria a dizer que tais pessoas se acostumaram a suas algemas, passando a desejá-las ardentemente depois de perdê-las, ou seja, foram condicionadas a desejar para si esse ritual de degradação como pessoas. — Não nego que isso aconteça e seja um fator que influencia em inumeráveis casos, mas eu creio que a percepção de si como tendo seus esforços dirigidos a produzir um valor, a contribuir para a coletividade, em outros termos, a sentir-se útil, é algo que não pode ser simplesmente anulado em favor da redução do sujeito a um mero ser que se adaptou forçosamente a uma condição e passou a desejá-la patologicamente.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;De meu ponto de vista, se podemos falar do trabalho de forma tão abstrata e genérica como vários autores marxistas pretendem, eu diria que ele envolve o investimento humano em produzir diversos tipos de valores, desde o mais imediatamente braçal, como varrer as ruas, até os mais elevados culturalmente, como a própria criação de teorias filosóficas sofisticadas. Não creio que seja uma tarefa &lt;i&gt;filosófica &lt;/i&gt;deduzir o valor e significado de satisfação com o trabalho a partir das condições concretas em que as atividades são realizadas. Penso que é uma tarefa propriamente &lt;i&gt;política &lt;/i&gt;a de alterar tais condições, de modo a que o prazer com a produção continuada e progressista de valores na construção da cultura seja percebido de forma bem mais clara, democrática e, assim, suficientemente humana.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2257787801295386827-4522511720544502093?l=verlainefreitas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/feeds/4522511720544502093/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/2011/08/face-inaudita-do-trabalho.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2257787801295386827/posts/default/4522511720544502093'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2257787801295386827/posts/default/4522511720544502093'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/2011/08/face-inaudita-do-trabalho.html' title='A face inaudita do trabalho'/><author><name>Verlaine Freitas</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10829879484126407328</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-G8tX_Am1rhU/TuaO2ql9tFI/AAAAAAAAAFo/R439dUrIlOA/s220/DSCN1829%2Bb.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2257787801295386827.post-6816496533886290384</id><published>2011-07-27T11:45:00.000-03:00</published><updated>2011-07-27T11:45:23.954-03:00</updated><title type='text'>Entre o presente e o futuro</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt;  &lt;w:WordDocument&gt;   &lt;w:View&gt;Normal&lt;/w:View&gt;   &lt;w:Zoom&gt;0&lt;/w:Zoom&gt;   &lt;w:HyphenationZone&gt;21&lt;/w:HyphenationZone&gt;   &lt;w:PunctuationKerning/&gt;   &lt;w:ValidateAgainstSchemas/&gt;   &lt;w:SaveIfXMLInvalid&gt;false&lt;/w:SaveIfXMLInvalid&gt;   &lt;w:IgnoreMixedContent&gt;false&lt;/w:IgnoreMixedContent&gt;   &lt;w:AlwaysShowPlaceholderText&gt;false&lt;/w:AlwaysShowPlaceholderText&gt;   &lt;w:Compatibility&gt;    &lt;w:BreakWrappedTables/&gt;    &lt;w:SnapToGridInCell/&gt;    &lt;w:WrapTextWithPunct/&gt;    &lt;w:UseAsianBreakRules/&gt;    &lt;w:DontGrowAutofit/&gt;   &lt;/w:Compatibility&gt;   &lt;w:BrowserLevel&gt;MicrosoftInternetExplorer4&lt;/w:BrowserLevel&gt;  &lt;/w:WordDocument&gt; &lt;/xml&gt;&lt;![endif]--&gt;&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt;  &lt;w:LatentStyles DefLockedState="false" LatentStyleCount="156"&gt;  &lt;/w:LatentStyles&gt; &lt;/xml&gt;&lt;![endif]--&gt;&lt;!--[if gte mso 10]&gt; &lt;style&gt; /* Style Definitions */ table.MsoNormalTable {mso-style-name:"Tabela normal"; mso-tstyle-rowband-size:0; mso-tstyle-colband-size:0; mso-style-noshow:yes; mso-style-parent:""; mso-padding-alt:0cm 5.4pt 0cm 5.4pt; mso-para-margin:0cm; mso-para-margin-bottom:.0001pt; mso-pagination:widow-orphan; font-size:10.0pt; font-family:"Times New Roman"; mso-ansi-language:#0400; mso-fareast-language:#0400; mso-bidi-language:#0400;}&lt;/style&gt; &lt;![endif]--&gt;  &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial; mso-bidi-font-size: 12.0pt;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;  &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial; mso-bidi-font-size: 12.0pt;"&gt;Um dos pontos de apoio mais interessantes da psicanálise é a idéia de que existe uma mobilidade muito grande entre os objetos de desejo e os afetos que se ligam a eles. No âmbito propriamente patológico, como no caso das fobias, vemos que um medo pânico se conecta de forma bastante rígida e desesperadora a objetos que são muito pouco perigosos ou até mesmo inofensivos. De acordo com a teoria de Freud, os afetos podem se &lt;i&gt;deslocar &lt;/i&gt;de um objeto para o outro, como também se concentrar (condensar) em um objeto só, sendo provenientes de dois ou mais. Mesmo no âmbito do que não nos parece claramente patológico, vemos o quanto pode haver de tristeza em relação a situações que muitas vezes a própria pessoa não considera tão significativas, como também haver muito orgulho e engrandecimento relativo algo que, na verdade, contribui muito pouco para a própria vida e desenvolvimento pessoal. Como as possibilidades dessas trocas são infinitas, vários aspectos podem ser objeto de análise específica, percebendo-se em cada caso como esse deslocamento dos afetos ocorre. Hoje, quero falar de algo que sempre me surpreendeu, tanto por possuir uma lógica um tanto estranha, quanto também pela frequência com que a vejo existir.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial; mso-bidi-font-size: 12.0pt;"&gt;&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;Segundo uma perspectiva que parece bastante razoável, é de se supor que as pessoas tivessem sua atenção essencialmente dirigida para o quanto já conseguiram realizar, adquirir e melhorar. Uma vez que cada um desses elementos é um motivo concreto para se ter prazer, sendo uma fonte de satisfação já disponível, a busca de novas realizações, aquisições e aperfeiçoamentos deveria ser vista como apenas uma forma de &lt;i&gt;acréscimo &lt;/i&gt;em relação ao que já existe. Entretanto, de um modo bastante curioso, percebe-se que o objeto que ainda não se tem, a realização que ainda não foi consumada, a melhoria que ainda está por se fazer são mais estimulantes, atraentes e sedutores. Em vez da &lt;i&gt;concretude &lt;/i&gt;do objeto já existente, vemos um investimento afetivo na &lt;i&gt;abstração &lt;/i&gt;do que ainda não existe. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial; mso-bidi-font-size: 12.0pt;"&gt;É muito claro que esse deslocamento se conforma perfeitamente à nossa sociedade capitalista contemporânea, e está intimamente associada ao movimento infinito do consumo. Embora seja um assunto que me interessa particularmente, não quero aqui discutir o problema da relação de causalidade e prioridade entre a dimensão psíquica individual e a social (“o que é causa de quê”). Interessa-me considerar essa disposição afetiva tal como ela ocorre atualmente, tomada como a resultante final de complexos e princípios subjetivos moldados por uma dinâmica cultural historicamente sedimentada.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial; mso-bidi-font-size: 12.0pt;"&gt;&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&lt;/span&gt;Em termos de motivação, de disposição subjetiva, uma diferença que me parece essencial entre o objeto já conseguido e o ainda não alcançado é a relativa ao preenchimento e incompletude. Estar satisfeito significa, entre várias outras coisas, ter uma determinada demanda preenchida por alguma forma de relacionamento com objetos de desejo, sejam reais ou imaginários. Quando comparada ao estado subjetivo de busca, de esforço, de expectativa perante alguma coisa, a condição de preenchimento se mostra essencialmente &lt;i&gt;estática&lt;/i&gt;, enquanto a outra se define precisamente pela &lt;i&gt;dinâmica&lt;/i&gt;, pelo movimento. Se a satisfação se liga essencialmente ao prazer, a incompletude se liga ao desejo. Se considerarmos a enorme força que o narcisismo possui como mola propulsora de nossa relação com o mundo, então acabamos por concluir que &lt;i&gt;o desejo é mais “gostoso” do que o prazer&lt;/i&gt;, ou seja, a percepção de si mesmo como essencialmente mobilizado em todas as suas forças subjetivas para alcançar um novo objeto é mais significativa do que a satisfação com um objeto externo a nós, cuja existência factual parece nos colocar em dependência em relação algo que nós mesmos não somos. Nesse sentido, a atitude de expectativa, de ansiedade para um novo objeto, o esforço por alcançar novas etapas etc., é um dos inumeráveis exemplos do quanto o prazer consigo mesmo, auto-centrado, narcisista, tem uma força que dificilmente se pode exagerar. O caso de quem compra bilhetes de loteria cujos prêmios são da ordem de milhões de reais, mas cuja chance de acerto é desprezível, parece-me exemplificar esse princípio de forma bastante clara. Considerando a objetividade estatística de acerto, o sentido próprio da loteria é o de se comprar o prazer de se imaginar milionário; compra-se a excitação causada por essa fantasia.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;span style="font-family: Arial; font-size: 12.0pt; mso-ansi-language: PT-BR; mso-bidi-language: AR-SA; mso-fareast-font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; mso-fareast-language: PT-BR;"&gt;É inegável que o desejo de sempre progredir, de alcançar novos objetos de desejo, de ter melhores condições de vida, é um princípio essencial do progresso da humanidade, tanto considerada em seu conjunto, quanto em cada um de seus representantes. O grande problema é esse deslocamento patológico do real para o que é meramente projetado, de modo que o prazer concreto com o presente fica diminuído perante uma excitabilidade que facilmente se transforma em fonte de angústia e sofrimento. Assim, um outro índice de progresso consiste na capacidade de saber apreciar melhor aquilo que já somos, já temos e já realizamos.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2257787801295386827-6816496533886290384?l=verlainefreitas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/feeds/6816496533886290384/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/2011/07/entre-o-presente-e-o-futuro.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2257787801295386827/posts/default/6816496533886290384'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2257787801295386827/posts/default/6816496533886290384'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/2011/07/entre-o-presente-e-o-futuro.html' title='Entre o presente e o futuro'/><author><name>Verlaine Freitas</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10829879484126407328</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-G8tX_Am1rhU/TuaO2ql9tFI/AAAAAAAAAFo/R439dUrIlOA/s220/DSCN1829%2Bb.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2257787801295386827.post-2653497795696723236</id><published>2011-07-20T09:17:00.004-03:00</published><updated>2011-09-20T19:52:07.615-03:00</updated><title type='text'>Esse velho objeto de desejo</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;"Hoje em dia eu já sei o que quero. Não fico experimentando mil e uma coisas, nem entro em situações em que não sei onde vou chegar". Essa é uma fala bastante freqüente, vinda, é claro, de pessoas quase sempre com mais de trinta anos. Não se deve cobrar dela, parece-me claro, o princípio psicanalítico de descoberta das raízes inconscientes mais profundas do desejo. Esse tipo de cobrança aplica exigências teóricas e clínicas em um âmbito que não deve ser avaliado segundo tais critérios. Entretanto, mesmo tomada em seu plano de validade — a saber: o da auto-reflexão a partir da experiência de vida, iluminada pelas diversas formas de conhecimento obtidas ao longo do tempo —, creio que ela esconda, dissimule, algo que deve ser criticado, sob o véu de algo que parece válido.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;&amp;nbsp;Kant dizia que, ao se ensinar um conceito abstrato, o uso de exemplos é útil para guiar a nossa capacidade de interpretação da realidade, de emprego das noções gerais em casos concretos. Por outro lado, esse é um procedimento a ser usado com cautela, pois nenhum exemplo é capaz de fazer justiça às infinitas possibilidades de aplicação de um conceito universal. Usados em excesso, os exemplos tendem a afunilar a percepção do que está implicado nos conceitos. — Creio que algo dessa idéia pode ser aplicado à percepção de já saber o que se quer. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;A experiência é realmente uma fonte indispensável para o conhecimento de si e da realidade. Não se aprende apenas a partir do que se ouve de outras pessoas e se lê nos livros. O grande problema está em que cada experiência é algo único, concreto, específico, e é necessária uma boa capacidade de fazer generalizações para que não se construam preconceitos a partir delas. É inegável que décadas de experiência de vida produzem amadurecimento, mas, junto com essa maturidade, temos um &lt;i&gt;enrijecimento &lt;/i&gt;do desejo e da percepção de mundo. É fácil interpretar para si mesmo, de forma narcisista, como índice de maturidade, aquilo que, na realidade, se mostra como &lt;i&gt;recusa &lt;/i&gt;das diferenças, do gosto pelo novo, do prazer de novas descobertas, da assimilação de possibilidades contrárias ao que já estamos acostumados, da ruptura de hábitos calcificados etc. Nesse sentido, o amadurecimento pode facilmente ser apenas uma tradução narcisista do que se mostra como uma atitude de defesa perante a infinidade de modos de ser e de experimentar a vida. A segurança com o tradicional tende a suplantar em muito o gosto pelo novo, diferente, inusitado. Quanto mais &lt;i&gt;aprendemos &lt;/i&gt;com experiência, parece que &lt;i&gt;desaprendemos &lt;/i&gt;a gostar de ver nas coisas o que poderia nos fazer mudar, inverter, redirecionar nosso gosto e nossa visão. A travessia pelos fatos, coisas e pessoas deveria ser análoga à do colecionador, que a cada objeto que encontra, se sente impulsionado a buscar outro diferente, e não ao do assoreamento de um rio, em que vão se depositando camadas e camadas de minério, fazendo com que flua cada vez menos água. A experiência passada acaba nos ensinando a nos defender, prevenir e precaver contra o que a experiência futura pode vir a negar.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;&amp;nbsp;Parece-me bastante instrutiva a comparação com o aprendizado de línguas estrangeiras. É muito claro que as crianças têm muito mais facilidade nisso do que os adultos. Naturalmente, muito já se falou sobre processos cognitivos em vários âmbitos e correntes de psicologia e neurociência, mas, de um ponto de vista por assim dizer filosófico, eu diria que essa facilidade de absorção de um novo idioma pelas crianças é um índice de uma maleabilidade assimilativa que vai se perdendo. Junto com o aumento da capacidade de aprender e da melhora do raciocínio, fundado no exercício com todo o arsenal de conceitos e idéias, temos o influxo desiderativo, ou seja, de desejo, na direção de podar a absorção de novos elementos que estão na base de &lt;i&gt;toda &lt;/i&gt;a experiência, que é o caso das palavras. Assim, quando ouço alguém dizer que já sabe o que quer, eu a pergunto, em pensamento: "Que tal aprender outras linguagens, para ouvir o que vários outros objetos de desejo têm a nos dizer?".&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Arial; font-size: 12pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2257787801295386827-2653497795696723236?l=verlainefreitas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/feeds/2653497795696723236/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/2011/07/esse-velho-objeto-de-desejo.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2257787801295386827/posts/default/2653497795696723236'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2257787801295386827/posts/default/2653497795696723236'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/2011/07/esse-velho-objeto-de-desejo.html' title='Esse velho objeto de desejo'/><author><name>Verlaine Freitas</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10829879484126407328</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-G8tX_Am1rhU/TuaO2ql9tFI/AAAAAAAAAFo/R439dUrIlOA/s220/DSCN1829%2Bb.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2257787801295386827.post-2005760027492480579</id><published>2011-07-10T22:02:00.001-03:00</published><updated>2011-07-11T21:27:06.082-03:00</updated><title type='text'>Um caso de falácia</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A Verdade não anda com uma estrela de prata brilhante acima da cabeça pelas ruas, de modo que seja fácil reconhecê-la. Dito de forma não-irônica, o que é verdadeiro ou válido sempre será reconhecido como tal através das formas de argumentação, de sustentação de nossas idéias. Naturalmente, a importância dessa mediação dos argumentos cresce na proporção da complexidade e das várias possibilidades de encarar um determinado objeto. Há que se considerar, também, a forte dose de &lt;i&gt;retórica&lt;/i&gt; envolvida nos diálogos. Isso significa, entre outras coisas, a necessidade de levar em conta o impacto afetivo dos argumentos. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Quero aqui comentar uma &lt;i&gt;estratégia&lt;/i&gt; de argumentação que já usaram várias vezes comigo, desde uma conversa trivial, como em um bar, até bancas de defesa de dissertações e teses de doutorado. Tenho certeza que você também já deve ter sido alvo dessa forma de persuasão, e até mesmo pode ter usado-a sem se dar conta disso.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;Vejamos dois exemplos que eu realmente vivi. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Estava em uma reunião de condomínio no meu prédio, e o assunto em pauta era a segurança do edifício, e analisávamos a proposta de colocar cerca elétrica, câmeras de segurança em vários pontos de acesso, gravação desse material em vídeo, contratação de porteiro 24h etc. Eu disse que era favorável a fazer esse investimento, pois me parecia que a relação custo-benefício o justificava. Um morador respondeu que não adiantava encher o prédio de mecanismos de segurança, pois os assaltantes, quando querem realmente, assaltam até mesmo os cofres super seguros de agências do Banco Central, chegando ao paroxismo de assaltar uma delegacia de polícia, tomando como reféns e agredindo delegados e detetives.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;Outro caso: eu estava como membro da banca de dissertação de mestrado, e fiz a observação de que achava que o texto, embora bem escrito e argumentado, não levantava nenhum tipo de questão, nenhum problema teórico, por mais simples que fosse. Tratava-se de uma competente apresentação das idéias de um grande filósofo, mas que falhava no processo de dialogar mais livremente com ele. Outro membro da banca discordou de mim, dizendo que na dissertação de mestrado não há exigência ou demanda por originalidade, que o desejo de criticar a obra de um grande autor na maior parte das vezes faz com que o mestrando perca a segurança do que está falando, e, por fim, que muitas pessoas tentam problematizar o assunto comparando dois ou três autores e perdem o foco da pesquisa.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;O que há de comum nessas duas respostas?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;O esquema é bem simples: José afirma que X é algo que deve ser feito, ao passo que Pedro responde que Y (que é três vezes maior do que X) é algo inviável, absurdo, equivocado etc. Em vez de atacar o que foi proposto na dimensão em que foi falado, muitas vezes se usa como objeto de crítica sua forma por assim dizer caricatural, exagerada. Muitas vezes é difícil perceber essa estratégia, porque a intenção que está por trás dela frequentemente aparenta ser bastante razoável, pretendendo mostrar que a base do argumento inicial seria falha porque, se seguido de uma determinada maneira, conduz a um equívoco, a um absurdo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;No primeiro caso, a minha réplica foi de que a proposta de segurança no condomínio não era o de transformar o edifício em um abrigo para uma guerra nuclear. Embora não exista sistema de segurança absolutamente perfeito, há &lt;i&gt;graus&lt;/i&gt; infinitamente variáveis de vulnerabilidade, desde o mais frágil sistema, até prisões de segurança máxima. Quanto mais protegido é um objeto, mais o pretenso assaltante terá que possuir meios, técnica e instrumentos sofisticados, bem como uma grande &lt;i&gt;determinação&lt;/i&gt; para realizar o crime, pois o risco de fracasso, obviamente aumenta.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;No segundo caso, eu argumentei que o &lt;i&gt;grau&lt;/i&gt; de distanciamento crítico perante um autor clássico pode ir desde um simples questionamento, tal como: “O que será que essa idéia presente no primeiro item do livro significa quando a comparamos com outra formulação no terceiro capítulo?”, até uma apropriação tão original, que já não é nem mais considerada um comentário, mas sim uma concepção própria. Eu concordo que muitas vezes, na ânsia de produzir um texto interessante teoricamente, os pós-graduandos arriscam interpretações sem a necessária vinculação com o objeto de estudo. Concordo também que a originalidade não é uma demanda razoável para uma dissertação de mestrado, e, ainda, que enriquecer o texto com múltiplas referências a autores clássicos tende, na maioria das vezes, mais a prejudicar do que a favorecer a tarefa. – Só que não foi nada disso que eu propus inicialmente, pois indiquei a necessidade de &lt;i&gt;um grau mínimo &lt;/i&gt;de problematização na leitura, de levantamento de uma hipótese interpretativa.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;Para fazer frente a essa estratégia de argumentação, que claramente é uma falácia, é preciso estar atento àquilo que realmente propomos inicialmente: no âmbito, na forma e no grau que pretendemos, de modo a que não sejamos refutados em algo que, propriamente, não afirmamos.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2257787801295386827-2005760027492480579?l=verlainefreitas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/feeds/2005760027492480579/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/2011/07/um-caso-de-falacia.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2257787801295386827/posts/default/2005760027492480579'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2257787801295386827/posts/default/2005760027492480579'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://verlainefreitas.blogspot.com/2011/07/um-caso-de-falacia.html' title='Um caso de falácia'/><author><name>Verlaine Freitas</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10829879484126407328</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='30' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-G8tX_Am1rhU/TuaO2ql9tFI/AAAAAAAAAFo/R439dUrIlOA/s220/DSCN1829%2Bb.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2257787801295386827.post-3222327382992846719</id><published>2011-06-17T01:26:00.003-03:00</published><updated>2011-12-23T20:34:11.372-02:00</updated><title type='text'>Uma questão de escolha</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Certa vez, em um programa de televisão que entrevistava psicólogos e psicanalistas, uma telespectadora participou através de e-mail, dizendo que estava casada há dez anos, e que, embora ainda fosse jovem e tivesse forte desejo sexual, sua relação com o marido há algum tempo havia deixado de ser "entre homem e mulher", passando a ser muito mais uma relação de amizade. Eu não me lembro da resposta do psicólogo, mas a analista respondeu: “É uma opção”, e explicou dizendo que pode ser uma escolha essa convivência em que o desejo sexual propriamente dito dá lugar ao compartilhamento de diversos modos de vida, interesses, deveres, vida social etc. Continuou dizendo que nenhuma forma de vida deve ser pensada como predeterminada, mas sim como fruto de nossas próprias opções.&lt;br /&gt;Não pretendo aqui discutir a adequação dessa resposta ao caso particular em jogo. De qualquer forma, foi uma colocação genérica o bastante para não ser acusada de psicanálise selvagem, como dizia Freud, em que se pronuncia algum juízo sem a mediação do contato entre o analista e o analisando. Interessa-me, sobretudo, a idéia bastante valiosa da necessidade de pensarmos nossa existência como pautada essencialmente por nossas escolhas.&lt;br /&gt;No âmbito do senso comum, e eu diria que em diversas correntes sociológicas e psicológicas, confere-se um peso muito grande aos condicionamentos materiais e culturais — e também biológicos — da existência individual, retirando de cena — ou diminuindo bastante — a importância da subjetividade e do desejo como fundamento de determinação do que somos e fazemos. Não se trata de negar o fato de que todo ser humano é formado a partir de uma série de elementos culturais, inserindo-se em um horizonte social que não pode simplesmente ser anulado. É evidente que as culturas oferecem aos indivíduos uma base para sua formação a partir da qual muita coisa será pensada, até mesmo as próprias críticas a elas. Entretanto, quero insistir na idéia de que a cultura produz uma &lt;i&gt;formação&lt;
