Um espaço de discussão sobre Filosofia, Psicanálise, Arte, Política, Crítica cultural e Atualidades.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Pseudo-reflexões

Definir liberdade é uma tarefa especialmente difícil, em virtude do fato de que temos uma quantidade infinita de elementos a considerar, como fatores subjetivos, aspectos sociais, condicionamentos de várias ordens, como o biológico e a dinâmica psíquica etc. Sempre que abordamos o problema sob uma perspectiva, há sempre alguém disposto a abordar a questão sob outro ponto de vista. Uma ideia de senso comum bastante usual focaliza quase sempre aspectos externos à motivação para agir, de modo que ser livre significaria não ter obstáculos a nosso desejo, à nossa determinação de fazer alguma coisa. A liberdade consistiria na negação, na ausência, de constrições, limites, para a realização dos desejos. A partir de uma concepção psicanalítica, podemos dizer que pode haver falta de liberdade no próprio âmbito de nossa determinação, de nossa vontade para agir de certa maneira. Não pretendo agora discutir toda a gama de aspectos teóricos envolvidos nessa questão, mas sim fazer apenas uma aplicação dessa idéia em um campo de nossa vida cotidiana.
Todos nós sempre temos várias tarefas a cumprir ao longo do dia, da semana, do mês e por aí vai. Desde a mais trivial de de restrita a um telefonema para alguém, até a realização de uma obra que demanda um investimento de vários meses, é preciso determinação para investir tempo e energia para cumprir tudo o que é requerido de nós. Algo que me deixa especialmente intrigado, por outro lado, é o quanto adiamos desnecessariamente a realização de tarefas muitas vezes simples, que não demandam muito esforço. É interessante notar que a cada nova realização de uma tarefa interpõe-se a reflexão, ou a reconsideração de se tal tarefa deve ou não ser feita em determinado momento. Na verdade “reflexão” não é uma boa palavra para esse hábito de colocar em questão se devo ou não fazer alguma coisa, se é melhor adiar, esperar outro momento, fazer apenas uma parte etc. Creio que seja mais uma espécie de “ruminação”, em que duas ou mais vozes dialogam nesse teatro interior. Costumo dizer que até mesmo perante a tarefa mais simples realizamos uma espécie de mini-reunião de condomínio para deliberar se vamos agir ou não. Naturalmente, as ações baseadas em reflexão tendem a ser mais consistentes, uma vez que a decisão é fundamentada pelo raciocínio, pela consideração de vários fatores em jogo em cada momento. O grande problema dessa ruminação perante as tarefas reside no fato de que ela apenas coloca em dúvida uma determinação que deveria ser tomada como muito mais bem estabelecida. Eu creio que essas micro-reflexões apenas são formas de ceder a impulsos, sentimentos e desejos que, em vez de exprimirem nossa liberdade perante a realidade, demonstram que nós, na verdade, somos frágeis em relação ao complexo de elementos motivacionais, desiderativos, emocionais, que, somados, nos levam à ação.
É sempre difícil estabelecer princípios gerais de ação, uma vez que cada pessoa tem uma concepção de mundo, um conjunto próprio de valores etc., de modo que se pode facilmente incorrer numa espécie de violência em relação ao modo de vida alheio. Por outro lado, penso que esses princípios podem ter perfeita validade, na medida em que cada um faça uma espécie de leitura própria, de tradução para a sua própria perspectiva de mundo. Nesse sentido, eu costumo dizer que vale muito mais a pena refletir de forma bastante clara e objetiva acerca do que se deve fazer, do que é bom, proveitoso etc., e, com base no que se decide, passa-se a não mais parar e questionar se uma determinada ação deve ou não ser feita. Eu costumo dizer: “Simplesmente faça; não questione se é bom ou não fazer”. Tenho a nítida impressão de que, uma vez se decidindo que realizar uma determinada tarefa, como por exemplo a de fazer exercício físico diariamente, é importante, necessário, bom, saudável etc., não vale a pena gastar energia emocional, mental e psíquica colocando essa decisão em jogo em cada momento em que se deve fazer alguma coisa.
Penso que muito do peso das tarefas do cotidiano, talvez quase 90% dele, provém muito mais da necessidade de lutarmos contra o complexo emocional que gravita ao redor de cada realização de tarefa, do que do esforço de realizá-las. O trabalho de refletir acerca da pertinência ou não de fazer alguma coisa, segundo penso, deve ser totalmente concentrado, ou pelo menos ao máximo, em um momento específico de deliberação para todos os outros dias que virão pela frente. Nesse momento, trata-se propriamente de uma atividade reflexiva, digna do nome, em que se ponderam objetivamente fatores, circunstâncias favoráveis e desfavoráveis. No dia-a-dia, mergulhados nesse torvelinho de elementos emocionais que se sucedem ao longo do tempo, o que ocorre é mais signo de uma “racionalização” de um desejo neurótico de adiar, postergar, procrastinar. Sem a interposição desse processo ruminativo, a produtividade diária tende a ser não apenas mais leve, mas também muito mais prazerosa e eficaz. — Por outro lado, creio que seja desnecessário dizer que existe sempre espaço para que essa decisão tomada inicialmente seja retomada, revista à luz de novas ocorrências, de uma nova situação que demanda uma reconsideração. Não estou dizendo que se deva ser obstinado em seguir uma determinação prévia, mas eu insisto em que 99% dos casos de reconsideração, na realidade, são vazios, não têm razão de ser, consistindo apenas em um pretexto para desviar em relação a uma determinação já mais do que bem estabelecida.
Resumindo, eu diria que a “obediência” ao que já consideramos realmente mais importante na “vida miúda” de cada dia significa, no desdobramento temporal de nossa existência, sermos mais senhores/as de nós mesmos/as do que a “atenção”, a “escuta” às nossas inclinações, desejos e sentimentos circunstanciais, presentes em cada ocasião.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Contradições indigestas

O âmbito estético, seja das obras de arte, da cultura de massa ou de produções ambíguas frente a essas duas categorias, sempre se mostrou propício a polarização entre extremos. Desde a situação trágica de Édipo, que na obra de Sófocles era o rei adorado por seu povo e se torna o mais abjeto dos criminosos, até a música serial contemporânea, cujo aspecto radical de contingência, puro acaso, na verdade se deve a uma articulação formal estrita, vemos que muito do interesse do jogo imagético e imaginário com essas obras se alimenta dos nós e tensões que gravitam ao redor de paradoxos, contradições, choques, certezas rompidas a todo instante, expectativas ao mesmo tempo criadas e negadas etc. Fazer com que tais polos não se coloquem de forma maniqueísta, não sejam alinhavados por um fio de sentido que dilua todas as contradições em uma perspectiva às vezes moralista, patriótica, ou de justaposição de bons contra maus — tudo isso é uma tarefa a ser cumprida na construção de uma obra estética de valor. Theodor Adorno disse que na contraposição entre o caráter expressivo e o formal as grandes obras foram aquelas que não propuseram uma espécie de meio termo entre tais polos, mas procuraram ressaltar a tensão que sempre surge entre eles. A partir dessa perspectiva, creio que possamos interpretar dois filmes que concorreram ao Oscar de 2008, sendo que um deles foi o grande premiado: Onde os fracos não têm vez e Sangue negro, sendo que enfocarei mais o primeiro.
Razão, vida e prosperidade versus loucura, morte e ruína: ambos os filmes giram ao redor da tensão oriunda dessa polaridade. Nos dois casos vemos uma narrativa que alinhava uma percepção de sentido ligada a alguma espécie de progressividade, ao mesmo tempo em que se conecta com formas de degeneração, de perda, de atrofia e morte, sendo que em Sangue negro os dois planos são colocados em doses mais ou menos equilibradas (no sentido de ocuparem porções semelhantes no conjunto da narrativa), enquanto que no filme dos irmãos Coen prevalece nitidamente o segundo aspecto, sendo o primeiro relegado a pontos discursivos espalhados ao longo da narrativa, principalmente nas falas do xerife Ed Tom Bell (Tommy Lee Jones). O que gera mais interesse para análise, entretanto, não é apenas a presença desses dois pólos, mas o fato de que, nas duas obras, negar a razão equivale a negar a vida, de tal sorte que a ruína e a morte violenta estão associadas com a explicitação da loucura, tornando patente o quanto a demência se contrapõe radicalmente ao que a vida tem de progressivo.
Comparando os dois filmes, Sangue negro me parece menos interessante devido ao modo como a contraposição entre os dois pólos é realizada a partir de uma narrativa linear, em que assistimos a uma mudança clara, partindo de um contexto de ações socialmente progressivas, não apenas em termos empresariais, mas também coletivos (na medida em que o protagonista é levado a agregar membros de uma comunidade em seu empreendimento), encaminhando-se para um redemoinho egocêntrico corrosivo. Os espaços abertos e ensolarados do início cedem cada vez mais lugar aos ambientes fechados, sombrios e intimistas, reforçando a percepção do quanto o caráter luminoso da racionalidade é incompatível com o que há de sombrio e contraditório na individualidade. Podemos valorizar a coragem do diretor em não querer articular soluções que suavizem esse embate, mas ele por assim dizer perde muitos pontos pelo fato de isolar esses dois planos, tornando-os claramente discerníveis. Na medida em que cada um se contra-põe ao outro em um conjunto de ações qualificáveis explicitamente, acaba não havendo um maior interesse estético numa espécie de junção não digerível de opostos que se digladiem pelo mesmo espaço.
No filme dos irmãos Coen não há um discernimento tão claro acerca do que qualifica a positividade do racional, na medida em que a insanidade dialoga com uma percepção do que cada vez mais parece residir somente no passado. O horizonte se afigura ensombrecido por um pessimismo quanto à démarche da humanidade, que retira espaço de velhos valores. É isso que se explicita no título original do filme (No country for old men, cuja tradução literal poderia ser Não há espaço para velhos), inspirado em um poema de Yeats. Ao se substituir “velhos” por “fracos”, como o que é expulso pela voracidade corrosiva da violência, o diálogo entre uma racionalidade moral tomada como arcaica e o senso do humano que se produz a cada dia é substituído pelo embate atual entre os que têm e não têm força, o que retira muito do caráter reflexivo da obra.
Três personagens encarnam momentos na construção daquele diálogo: o xerife, cujas idéias e idade avançada remetem explicitamente à moralidade que se esvai, o psicopata assassino Anton Chigurh (Javier Barden), que só não é o exato oposto do primeiro pelo fato de ser referido como possuindo alguma espécie de princípios — por mais disparatados que sejam —, e por fim o veterano da guerra do Vietnã, Llewelyn Moss (Josh Brolin), que faz uma mescla dos outros dois, ao aliar a insana obstinação em conservar os 2 milhões de dólares que encontrou a uma apatia que ressoa o ceticismo e a isenção do xerife ao lidar com todos os acontecimentos que o intrigavam e que ele tinha de resolver. A sabedoria cética e resignada do chefe de polícia teve várias figuras como sua contra-parte: pessoas humildes, ingênuas e simplórias, anuladas e/ou anuláveis tal como um papel de bala que se amassa e que fraqueja ao se contorcer para recobrar a forma original, ou como um animal dócil para ser abatido com um tiro no crânio. Todo o filme gira em torno da despersonalização, tendo vários momentos como metáforas de anulação do humano, como na associação imagética entre a trilha de sangue de um veado atingido por Moss e a dele mesmo e de Chigurh quando trocam tiros, e no assassinato de um dos habitantes, realizado como no abate de bois. Vários personagens demonstram pouca densidade psicológica, em termos de envolvimento motivacional digno do nome. Uma caricatura disso é o modo como Moss se aferrou impassível a um dinheiro que cada vez mais ficava claro que o levaria à morte, e também a resignação irônica da sogra do protagonista ao lidar com o desfecho inevitável que seu câncer lhe traria. Diante desse quadro, é perfeitamente assimilável a frieza cadavérica de um psicopata cuja astúcia homicida é um arremedo da razão impotente para se conectar à, e produzir, vida. Na gratuidade com que os objetos de desejo circulam nos trajetos de cada personagem e no entre-curso das vidas alheias, o valor de cada coisa se assemelha ao que pode figurar uma moeda, cuja representatividade é tão rasa quanto as marcas de seu relevo, e que no filme ajudou a explicitar a impossibilidade do livre arbítrio para quem desconhece quaisquer valores.
Apesar de apresentar aqueles pólos que mencionei no início de forma mais entrelaçada do que em Sangue negro, os fios que tecem a trama ao redor do xerife, de Moss e do psicopata podem ser descosidos de modo a que possamos formar um quadro metafórico bastante assimilável àquela primeira obra. Cada um dos elementos daquelas polaridades: vida e morte, violência e razão, valor e ruína, se chocam nos filmes de tal forma que o progressista e o patológico se excluem mutuamente, e o avanço do segundo necessariamente representa a restrição do primeiro. A vida aí se depara com a morte apenas como seu limite intransponível e como sua negação radical; a razão é violenta somente quando se esvaziou de toda vida; e valores se associam internamente à ruína somente sob a forma de suas próprias caricaturas, como na obstinação financista e apática dos dois personagens principais de cada filme, e na entrega cínica à causa religiosa do jovem pastor em Sangue negro. Em ambas as obras, não há espaço para ambigüidades que seriam por demais indigestas, associando cada elemento daqueles pares em um mesmo plano qualificável como a via em que se experimenta o gozo de ser humano, com toda a impetuosidade das contradições que movem a realidade a ser construída.


terça-feira, 2 de agosto de 2011

A face inaudita do trabalho

Filósofos e sociólogos de inspiração marxista costumam ter uma visão bastante negativa do trabalho. Pautando-se na crítica contundente de Marx ao sistema de exploração capitalista da mão-de-obra, o trabalho é visto como fonte de alienação, de expropriação das forças vitais, de perda de dignidade e uma série de outros aspectos francamente negativos. A idéia, também presente em Marx, de que o trabalho é um modo privilegiado de o ser humano produzir a si mesmo ao produzir os meios de sua subsistência transformando a natureza, é deixada para segundo, terceiro ou quarto planos, cedendo lugar à consideração puramente centrada nas condições médias do trabalho do operário.
Recentemente li uma publicação de um diálogo entre Theodor Adorno e Max Horkheimer cujo assunto era exatamente o trabalho. É impressionante como esse conceito é tomado de forma bastante abstrata, geral, desconsiderando os infinitos graus de satisfação que as pessoas podem obter com sua atividade remunerada. Tem-se a impressão que só cabe nesse conceito aquilo que se aproxima da escravidão, como é o caso dos trabalhadores chineses que passam jornadas extenuantes de trabalho, em condições bastante precárias, com pouquíssimos direitos trabalhistas e com remuneração aviltante. Fazendo eco a algumas formulações de Marcuse, Adorno chega a dizer explicitamente que o sentido do trabalho consistiria em sua supressão, em sua diminuição a um tempo mínimo. 
Ora, é mais do que evidente que não se pode transpor para o conceito abstrato de trabalho todas as mazelas das condições reais a que muitas ou a maioria das pessoas estão sujeitas. Tal como é evidente que no mundo todo há bilhões de pessoas que se sentem forçadas a realizar uma atividade, há outro tanto que gosta do que faz, sente-se bem ao cumprir suas tarefas, produzir valores de diversas ordens. No primeiro caso, muitos que se sentem infelizes em sua atividade o são em virtude das condições materiais de seu emprego, e não devido ao que fazem para cumprir suas tarefas. Tomemos como exemplo a classe dos professores. Todas as pessoas que passaram pela escola sabem muito bem que se não todos, pelo menos uma grande parte dos docentes tem prazer com sua atividade, com sua tarefa de transmissão de conhecimento, de fomentar o interesse científico e teórico os alunos, de dialogar com o que cada aluno tem a trazer, de se superar em sua capacidade de produção de conhecimento etc.
Conversando com uma professora sobre esse diálogo entre Adorno e Horkheimer, eu insisti no fato de que nem todo o trabalho é penoso, sofrido, e dei como exemplo o meu trabalho e o dela, que mostram claramente que temos enorme prazer em realizá-lo, como também o do próprio Adorno, e a resposta que recebi foi a de que Adorno não considerava sua atividade como trabalho. Ora, é exatamente o que eu já pensava que os teóricos marxistas fazem quando analisam o conceito geral de trabalho, a saber: retiram dele tudo o que, em inumeráveis casos, ele tem de progressista, interessante, realizador, culturalmente significativo, individualmente recompensador etc. No fim das contas, depois de subtrair tudo o que é válido, resta ao conceito somente aquilo que o transforma em algo próximo da escravidão, e aí, realmente, nada sobra para contar a história.
Em termos de significado pessoal — que é a perspectiva que eu mais gosto de investigar —, é interessante prestar atenção a algo que se diz de muitas pessoas que se aposentam e, não encontrando outra atividade que demande um investimento próximo ao que havia antes, passam a ter uma vida emocionalmente pobre, bastante esvaziada. Ao falar sobre isso, qualquer teórico marxista se apressaria a dizer que tais pessoas se acostumaram a suas algemas, passando a desejá-las ardentemente depois de perdê-las, ou seja, foram condicionadas a desejar para si esse ritual de degradação como pessoas. — Não nego que isso aconteça e seja um fator que influencia em inumeráveis casos, mas eu creio que a percepção de si como tendo seus esforços dirigidos a produzir um valor, a contribuir para a coletividade, em outros termos, a sentir-se útil, é algo que não pode ser simplesmente anulado em favor da redução do sujeito a um mero ser que se adaptou forçosamente a uma condição e passou a desejá-la patologicamente.
De meu ponto de vista, se podemos falar do trabalho de forma tão abstrata e genérica como vários autores marxistas pretendem, eu diria que ele envolve o investimento humano em produzir diversos tipos de valores, desde o mais imediatamente braçal, como varrer as ruas, até os mais elevados culturalmente, como a própria criação de teorias filosóficas sofisticadas. Não creio que seja uma tarefa filosófica deduzir o valor e significado de satisfação com o trabalho a partir das condições concretas em que as atividades são realizadas. Penso que é uma tarefa propriamente política a de alterar tais condições, de modo a que o prazer com a produção continuada e progressista de valores na construção da cultura seja percebido de forma bem mais clara, democrática e, assim, suficientemente humana.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Entre o presente e o futuro

Um dos pontos de apoio mais interessantes da psicanálise é a idéia de que existe uma mobilidade muito grande entre os objetos de desejo e os afetos que se ligam a eles. No âmbito propriamente patológico, como no caso das fobias, vemos que um medo pânico se conecta de forma bastante rígida e desesperadora a objetos que são muito pouco perigosos ou até mesmo inofensivos. De acordo com a teoria de Freud, os afetos podem se deslocar de um objeto para o outro, como também se concentrar (condensar) em um objeto só, sendo provenientes de dois ou mais. Mesmo no âmbito do que não nos parece claramente patológico, vemos o quanto pode haver de tristeza em relação a situações que muitas vezes a própria pessoa não considera tão significativas, como também haver muito orgulho e engrandecimento relativo algo que, na verdade, contribui muito pouco para a própria vida e desenvolvimento pessoal. Como as possibilidades dessas trocas são infinitas, vários aspectos podem ser objeto de análise específica, percebendo-se em cada caso como esse deslocamento dos afetos ocorre. Hoje, quero falar de algo que sempre me surpreendeu, tanto por possuir uma lógica um tanto estranha, quanto também pela frequência com que a vejo existir.
 Segundo uma perspectiva que parece bastante razoável, é de se supor que as pessoas tivessem sua atenção essencialmente dirigida para o quanto já conseguiram realizar, adquirir e melhorar. Uma vez que cada um desses elementos é um motivo concreto para se ter prazer, sendo uma fonte de satisfação já disponível, a busca de novas realizações, aquisições e aperfeiçoamentos deveria ser vista como apenas uma forma de acréscimo em relação ao que já existe. Entretanto, de um modo bastante curioso, percebe-se que o objeto que ainda não se tem, a realização que ainda não foi consumada, a melhoria que ainda está por se fazer são mais estimulantes, atraentes e sedutores. Em vez da concretude do objeto já existente, vemos um investimento afetivo na abstração do que ainda não existe.
É muito claro que esse deslocamento se conforma perfeitamente à nossa sociedade capitalista contemporânea, e está intimamente associada ao movimento infinito do consumo. Embora seja um assunto que me interessa particularmente, não quero aqui discutir o problema da relação de causalidade e prioridade entre a dimensão psíquica individual e a social (“o que é causa de quê”). Interessa-me considerar essa disposição afetiva tal como ela ocorre atualmente, tomada como a resultante final de complexos e princípios subjetivos moldados por uma dinâmica cultural historicamente sedimentada.
Em termos de motivação, de disposição subjetiva, uma diferença que me parece essencial entre o objeto já conseguido e o ainda não alcançado é a relativa ao preenchimento e incompletude. Estar satisfeito significa, entre várias outras coisas, ter uma determinada demanda preenchida por alguma forma de relacionamento com objetos de desejo, sejam reais ou imaginários. Quando comparada ao estado subjetivo de busca, de esforço, de expectativa perante alguma coisa, a condição de preenchimento se mostra essencialmente estática, enquanto a outra se define precisamente pela dinâmica, pelo movimento. Se a satisfação se liga essencialmente ao prazer, a incompletude se liga ao desejo. Se considerarmos a enorme força que o narcisismo possui como mola propulsora de nossa relação com o mundo, então acabamos por concluir que o desejo é mais “gostoso” do que o prazer, ou seja, a percepção de si mesmo como essencialmente mobilizado em todas as suas forças subjetivas para alcançar um novo objeto é mais significativa do que a satisfação com um objeto externo a nós, cuja existência factual parece nos colocar em dependência em relação algo que nós mesmos não somos. Nesse sentido, a atitude de expectativa, de ansiedade para um novo objeto, o esforço por alcançar novas etapas etc., é um dos inumeráveis exemplos do quanto o prazer consigo mesmo, auto-centrado, narcisista, tem uma força que dificilmente se pode exagerar. O caso de quem compra bilhetes de loteria cujos prêmios são da ordem de milhões de reais, mas cuja chance de acerto é desprezível, parece-me exemplificar esse princípio de forma bastante clara. Considerando a objetividade estatística de acerto, o sentido próprio da loteria é o de se comprar o prazer de se imaginar milionário; compra-se a excitação causada por essa fantasia.
É inegável que o desejo de sempre progredir, de alcançar novos objetos de desejo, de ter melhores condições de vida, é um princípio essencial do progresso da humanidade, tanto considerada em seu conjunto, quanto em cada um de seus representantes. O grande problema é esse deslocamento patológico do real para o que é meramente projetado, de modo que o prazer concreto com o presente fica diminuído perante uma excitabilidade que facilmente se transforma em fonte de angústia e sofrimento. Assim, um outro índice de progresso consiste na capacidade de saber apreciar melhor aquilo que já somos, já temos e já realizamos.



quarta-feira, 20 de julho de 2011

Esse velho objeto de desejo

"Hoje em dia eu já sei o que quero. Não fico experimentando mil e uma coisas, nem entro em situações em que não sei onde vou chegar". Essa é uma fala bastante freqüente, vinda, é claro, de pessoas quase sempre com mais de trinta anos. Não se deve cobrar dela, parece-me claro, o princípio psicanalítico de descoberta das raízes inconscientes mais profundas do desejo. Esse tipo de cobrança aplica exigências teóricas e clínicas em um âmbito que não deve ser avaliado segundo tais critérios. Entretanto, mesmo tomada em seu plano de validade — a saber: o da auto-reflexão a partir da experiência de vida, iluminada pelas diversas formas de conhecimento obtidas ao longo do tempo —, creio que ela esconda, dissimule, algo que deve ser criticado, sob o véu de algo que parece válido.
 Kant dizia que, ao se ensinar um conceito abstrato, o uso de exemplos é útil para guiar a nossa capacidade de interpretação da realidade, de emprego das noções gerais em casos concretos. Por outro lado, esse é um procedimento a ser usado com cautela, pois nenhum exemplo é capaz de fazer justiça às infinitas possibilidades de aplicação de um conceito universal. Usados em excesso, os exemplos tendem a afunilar a percepção do que está implicado nos conceitos. — Creio que algo dessa idéia pode ser aplicado à percepção de já saber o que se quer.
A experiência é realmente uma fonte indispensável para o conhecimento de si e da realidade. Não se aprende apenas a partir do que se ouve de outras pessoas e se lê nos livros. O grande problema está em que cada experiência é algo único, concreto, específico, e é necessária uma boa capacidade de fazer generalizações para que não se construam preconceitos a partir delas. É inegável que décadas de experiência de vida produzem amadurecimento, mas, junto com essa maturidade, temos um enrijecimento do desejo e da percepção de mundo. É fácil interpretar para si mesmo, de forma narcisista, como índice de maturidade, aquilo que, na realidade, se mostra como recusa das diferenças, do gosto pelo novo, do prazer de novas descobertas, da assimilação de possibilidades contrárias ao que já estamos acostumados, da ruptura de hábitos calcificados etc. Nesse sentido, o amadurecimento pode facilmente ser apenas uma tradução narcisista do que se mostra como uma atitude de defesa perante a infinidade de modos de ser e de experimentar a vida. A segurança com o tradicional tende a suplantar em muito o gosto pelo novo, diferente, inusitado. Quanto mais aprendemos com experiência, parece que desaprendemos a gostar de ver nas coisas o que poderia nos fazer mudar, inverter, redirecionar nosso gosto e nossa visão. A travessia pelos fatos, coisas e pessoas deveria ser análoga à do colecionador, que a cada objeto que encontra, se sente impulsionado a buscar outro diferente, e não ao do assoreamento de um rio, em que vão se depositando camadas e camadas de minério, fazendo com que flua cada vez menos água. A experiência passada acaba nos ensinando a nos defender, prevenir e precaver contra o que a experiência futura pode vir a negar.
 Parece-me bastante instrutiva a comparação com o aprendizado de línguas estrangeiras. É muito claro que as crianças têm muito mais facilidade nisso do que os adultos. Naturalmente, muito já se falou sobre processos cognitivos em vários âmbitos e correntes de psicologia e neurociência, mas, de um ponto de vista por assim dizer filosófico, eu diria que essa facilidade de absorção de um novo idioma pelas crianças é um índice de uma maleabilidade assimilativa que vai se perdendo. Junto com o aumento da capacidade de aprender e da melhora do raciocínio, fundado no exercício com todo o arsenal de conceitos e idéias, temos o influxo desiderativo, ou seja, de desejo, na direção de podar a absorção de novos elementos que estão na base de toda a experiência, que é o caso das palavras. Assim, quando ouço alguém dizer que já sabe o que quer, eu a pergunto, em pensamento: "Que tal aprender outras linguagens, para ouvir o que vários outros objetos de desejo têm a nos dizer?".



domingo, 10 de julho de 2011

Um caso de falácia

A Verdade não anda com uma estrela de prata brilhante acima da cabeça pelas ruas, de modo que seja fácil reconhecê-la. Dito de forma não-irônica, o que é verdadeiro ou válido sempre será reconhecido como tal através das formas de argumentação, de sustentação de nossas idéias. Naturalmente, a importância dessa mediação dos argumentos cresce na proporção da complexidade e das várias possibilidades de encarar um determinado objeto. Há que se considerar, também, a forte dose de retórica envolvida nos diálogos. Isso significa, entre outras coisas, a necessidade de levar em conta o impacto afetivo dos argumentos.
Quero aqui comentar uma estratégia de argumentação que já usaram várias vezes comigo, desde uma conversa trivial, como em um bar, até bancas de defesa de dissertações e teses de doutorado. Tenho certeza que você também já deve ter sido alvo dessa forma de persuasão, e até mesmo pode ter usado-a sem se dar conta disso.
 Vejamos dois exemplos que eu realmente vivi.
Estava em uma reunião de condomínio no meu prédio, e o assunto em pauta era a segurança do edifício, e analisávamos a proposta de colocar cerca elétrica, câmeras de segurança em vários pontos de acesso, gravação desse material em vídeo, contratação de porteiro 24h etc. Eu disse que era favorável a fazer esse investimento, pois me parecia que a relação custo-benefício o justificava. Um morador respondeu que não adiantava encher o prédio de mecanismos de segurança, pois os assaltantes, quando querem realmente, assaltam até mesmo os cofres super seguros de agências do Banco Central, chegando ao paroxismo de assaltar uma delegacia de polícia, tomando como reféns e agredindo delegados e detetives.
 Outro caso: eu estava como membro da banca de dissertação de mestrado, e fiz a observação de que achava que o texto, embora bem escrito e argumentado, não levantava nenhum tipo de questão, nenhum problema teórico, por mais simples que fosse. Tratava-se de uma competente apresentação das idéias de um grande filósofo, mas que falhava no processo de dialogar mais livremente com ele. Outro membro da banca discordou de mim, dizendo que na dissertação de mestrado não há exigência ou demanda por originalidade, que o desejo de criticar a obra de um grande autor na maior parte das vezes faz com que o mestrando perca a segurança do que está falando, e, por fim, que muitas pessoas tentam problematizar o assunto comparando dois ou três autores e perdem o foco da pesquisa.
 O que há de comum nessas duas respostas?
 O esquema é bem simples: José afirma que X é algo que deve ser feito, ao passo que Pedro responde que Y (que é três vezes maior do que X) é algo inviável, absurdo, equivocado etc. Em vez de atacar o que foi proposto na dimensão em que foi falado, muitas vezes se usa como objeto de crítica sua forma por assim dizer caricatural, exagerada. Muitas vezes é difícil perceber essa estratégia, porque a intenção que está por trás dela frequentemente aparenta ser bastante razoável, pretendendo mostrar que a base do argumento inicial seria falha porque, se seguido de uma determinada maneira, conduz a um equívoco, a um absurdo.
 No primeiro caso, a minha réplica foi de que a proposta de segurança no condomínio não era o de transformar o edifício em um abrigo para uma guerra nuclear. Embora não exista sistema de segurança absolutamente perfeito, há graus infinitamente variáveis de vulnerabilidade, desde o mais frágil sistema, até prisões de segurança máxima. Quanto mais protegido é um objeto, mais o pretenso assaltante terá que possuir meios, técnica e instrumentos sofisticados, bem como uma grande determinação para realizar o crime, pois o risco de fracasso, obviamente aumenta.
 No segundo caso, eu argumentei que o grau de distanciamento crítico perante um autor clássico pode ir desde um simples questionamento, tal como: “O que será que essa idéia presente no primeiro item do livro significa quando a comparamos com outra formulação no terceiro capítulo?”, até uma apropriação tão original, que já não é nem mais considerada um comentário, mas sim uma concepção própria. Eu concordo que muitas vezes, na ânsia de produzir um texto interessante teoricamente, os pós-graduandos arriscam interpretações sem a necessária vinculação com o objeto de estudo. Concordo também que a originalidade não é uma demanda razoável para uma dissertação de mestrado, e, ainda, que enriquecer o texto com múltiplas referências a autores clássicos tende, na maioria das vezes, mais a prejudicar do que a favorecer a tarefa. – Só que não foi nada disso que eu propus inicialmente, pois indiquei a necessidade de um grau mínimo de problematização na leitura, de levantamento de uma hipótese interpretativa.
 Para fazer frente a essa estratégia de argumentação, que claramente é uma falácia, é preciso estar atento àquilo que realmente propomos inicialmente: no âmbito, na forma e no grau que pretendemos, de modo a que não sejamos refutados em algo que, propriamente, não afirmamos.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Uma questão de escolha

Certa vez, em um programa de televisão que entrevistava psicólogos e psicanalistas, uma telespectadora participou através de e-mail, dizendo que estava casada há dez anos, e que, embora ainda fosse jovem e tivesse forte desejo sexual, sua relação com o marido há algum tempo havia deixado de ser "entre homem e mulher", passando a ser muito mais uma relação de amizade. Eu não me lembro da resposta do psicólogo, mas a analista respondeu: “É uma opção”, e explicou dizendo que pode ser uma escolha essa convivência em que o desejo sexual propriamente dito dá lugar ao compartilhamento de diversos modos de vida, interesses, deveres, vida social etc. Continuou dizendo que nenhuma forma de vida deve ser pensada como predeterminada, mas sim como fruto de nossas próprias opções.
Não pretendo aqui discutir a adequação dessa resposta ao caso particular em jogo. De qualquer forma, foi uma colocação genérica o bastante para não ser acusada de psicanálise selvagem, como dizia Freud, em que se pronuncia algum juízo sem a mediação do contato entre o analista e o analisando. Interessa-me, sobretudo, a idéia bastante valiosa da necessidade de pensarmos nossa existência como pautada essencialmente por nossas escolhas.
No âmbito do senso comum, e eu diria que em diversas correntes sociológicas e psicológicas, confere-se um peso muito grande aos condicionamentos materiais e culturais — e também biológicos — da existência individual, retirando de cena — ou diminuindo bastante — a importância da subjetividade e do desejo como fundamento de determinação do que somos e fazemos. Não se trata de negar o fato de que todo ser humano é formado a partir de uma série de elementos culturais, inserindo-se em um horizonte social que não pode simplesmente ser anulado. É evidente que as culturas oferecem aos indivíduos uma base para sua formação a partir da qual muita coisa será pensada, até mesmo as próprias críticas a elas. Entretanto, quero insistir na idéia de que a cultura produz uma formação, e não um adestramento. No caso dos animais, seu condicionamento dirigido por um ser humano não permite uma reapropriação crítica. No âmbito cultural, o processo formativo possibilita, em diversos graus de abertura, modos de tomada de consciência reflexiva sobre o que nos forma como sujeitos.
Apesar das infinitas conseqüências negativas do processo de individualização contemporânea no ocidente, com seu culto da personalidade, consumo em massa, etc., o senso de individualidade sedimentou-se a um ponto em que tornou possível uma inédita reflexão crítica sobre nossas escolhas. Eu creio que a psicanálise surge com uma consciência forte do papel primordial da subjetividade no processo de determinação do que o indivíduo é. Por mais que as condições materiais e culturais da existência sejam uma base inalienável, a radicalidade da crítica que a psicanálise propõe consiste em tentar se aperceber reflexivamente do quanto nós absorvemos intimamente o que nos forma, de modo a desejá-lo, a tomá-lo como fruto de nossa escolha. Nesse sentido, vejo como especialmente importante prestar atenção às ideias de que “as circunstâncias da vida” nos levaram a ser o que somos, a estar onde estamos etc. Muitas vezes ouço alguém dizer que, na circunstância atual de vida, não tem opções, e eu normalmente pergunto: o quanto foi fruto de escolhas suas chegar ao ponto em que você chegou, em que parece não haver alternativas? Ou ainda: em que medida ainda é uma opção permanecer nesse lugar e não trocá-lo por outro, em que haja um novo leque de possibilidades?
A radicalidade de um trabalho psicanalítico, dentre várias outras coisas, consistirá em se perguntar por motivos e fundamentos de escolhas que, embora existentes em nós mesmos, são inconscientes. Escolhemos — mas nos recusamos a assumir alguns sentidos inadmissíveis para nossa escolha. Por outro lado, é bastante interessante notar que pessoas que começam uma análise ou se interessam pela teoria psicanalítica podem ter uma atitude de retirar de si a responsabilidade por aquilo que desejam, dizendo, por exemplo, “Foi meu inconsciente que me levou agir assim”. É como se este inconsciente fosse algo totalmente diferente do que o indivíduo é como núcleo de suas escolhas. — É bem verdade que os desejos inconscientes assumem um caráter de estranheza, de algo que parece agir em nós à revelia de nós mesmos. Entretanto, um sentido precípuo da psicanálise consiste em perceber o quanto isso que nos move é parte de nós mesmos. Tanto a ideia de que não possuímos um inconsciente, ou seja, de que toda a vida psíquica consiste em elaborações conscientes do que o meio social nos proporciona, quanto a ideia de que o inconsciente é algo totalmente outro e diferente do que podemos pensar de nós mesmos — ambas as idéias se afastam da tentativa da psicanálise em captar este nó trágico da existência, em que devemos tentar nos assenhorar daquilo que é implantado em nós pela família, pela sociedade, pela religião, pela cultura em geral, e que começa — inevitavelmente — a fazer parte de nós como um corpo estranho interno, como dizia Freud. Na medida em que nos apercebemos do quanto escolhemos ser aquilo que a cultura propõe que nós sejamos e façamos, somente aí é que começamos a vislumbrar o quanto nosso mundo, tanto interno quanto externo, são fruto, em alguma medida, de nossas escolhas, e, nessa mesma medida, podem ser diferentes.

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