Um espaço de discussão sobre Filosofia, Psicanálise, Arte, Política, Crítica cultural e Atualidades.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Da concretude do prazer

Quem convive comigo durante algum tempo acaba percebendo rapidamente a importância um tanto surpreendente que dou ao prazer de uma comida saborosa. Costumo dizer que quando experimento algo realmente muito gostoso no almoço, por exemplo, meu humor se altera pelo resto do dia. Por vezes dou a impressão de que estou sob um impacto afetivo desproporcional àquilo que uma simples comida, ou um doce, ou um café poderiam fornecer. Creio que pareço exagerar e, assim, corro o risco de ser visto como alguém que quer chamar a atenção, ou tem uma atitude afetada, passional. Por isso, muitas vezes suavizo a demonstração de que um determinado sabor é especialmente sublime para mim. Esse relato, por sua vez, pode soar por demais personalista, em contraste com o tom mais "objetivo" dos textos do blog, mas isso se justifica pela própria temática dessa postagem.
Gostaria, aqui, de refletir um pouco sobre a significação do prazer sensível, do contato corporal com o mundo, especialmente na contemporaneidade, dando continuidade ao que falei em outros textos nesse blog: Uma vida abstrata e O lugar o prazer no cotidiano.
Uma das características dos modos de vida hegemônicos nas sociedades européias e das Américas que se tornaram mais visíveis ao longo do desdobramento do capitalismo é a idéia de meio-termo, de sobriedade, de certa mediania, tal como podemos ver já em Aristóteles. Para este filósofo, tanto o excesso quanto a falta caracterizam uma atitude inadequada, viciosa, afastando-se da virtude, situada em meio-termo entre esses dois extremos. Seu exemplo preferido é o da coragem, que demonstra uma justa medida entre o medo do perigo e a confiança em si mesmo, pois quem teme demais uma adversidade é medroso, ao passo de quem não tem receio algum do perigo é um temerário, arriscando-se de forma desmesurada, inconseqüente.
Theodor Adorno ligava essa idéia a seu conceito de frieza burguesa, que caracteriza a postura típica do indivíduo submetido às exigências de uma sociedade concorrencial, em que a sobriedade nas ações, o controle e domesticação dos afetos, o cálculo adequado da expressão de nossos estados subjetivos etc., contam favoravelmente na tarefa de se adequar às leis que regulam o mercado de trabalho e de geração de riqueza em geral.
Concomitante a este processo de conformação dos excessos ao modelo calculado de adaptação bem-sucedida aos mecanismos de atuação social, temos um empobrecimento do modo como nos relacionamos de forma mais imediata, direta, com os objetos que nos prometem alguma satisfação, prazer e contentamento. Essa crescente racionalização nos processos de intercâmbio social e de leitura de mundo torna cada vez mais difícil perceber a intensidade de vínculos sensíveis mais concretos com as coisas. Estas parecem submergir tendencialmente seu sentido ao nosso senso de utilidade, de modo a serem percebidas apenas como meio, instrumento, para alcançar uma outra coisa. O valor que elas poderiam ter em si mesmas, consumido no instante em que nos relacionamos com elas, tende a se tornar irrelevante.
Por outro lado, assistimos a uma acentuada transposição do âmbito concreto para o de uma elaboração discursiva e imagética na insistência publicitária em experimentar novas sensações, sabores e experiências. A concretude da experiência dá lugar a uma espécie de experimentalismo, de cultivo da imagem de si mesmo como escapando à monotonia das sensações cotidianas. Como nos diz Jean Baudrillard, a realidade como tal fica aprisionada em sua duplicação em imagens e signos, fazendo com que nos distanciemos dela. O prazer sensível é evocado com toda a força na campanha publicitária, mas, de forma surpreendente, é substituído pela satisfação de realizar o que a imagem promete.
Vemos esse mesmo processo de falsificação do real no modo como os turistas tendem a se apropriar da natureza como meio de esquecimento do stress do cotidiano das grandes cidades, ou seja, como relaxamento e processo de revigorização, deixando de lado a dimensão qualitativa de percepção das coisas em sua concretude. Além disso, muito da beleza natural se submete à ânsia de documentação fotográfica com fins de compartilhamento social das experiências.
Enfim, muito se poderia dizer de estratégias de negação, desvio, esquecimento e dissimulação dessa dimensão corporal do nosso contato com a realidade. Difícil é, entretanto, falar de forma direta dela, em virtude do fato de que seu sentido consiste precisamente no instante em que é percebida e na singularidade do contato do corpo com os objetos e pessoas. Resta tão-somente o convite a que prestemos atenção e nos exercitemos em perceber o quanto o universo sensório, perceptivo, é, não apenas fonte de um prazer cuja magnitude tendemos a não avaliar com a devida acuidade, quanto um índice de que não inserimos completamente nossas trocas com a realidade em relações abstratas de fins/meios e de elaboração discursiva e imagética.

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sábado, 12 de novembro de 2011

De ilusões e de fantasias

Durante quatro anos lecionei introdução à filosofia para cursos de graduação, como jornalismo, comércio exterior, direito e outros. Na medida em que procurava explicar aos alunos a justificativa dessa disciplina na grade curricular de seu curso (não havia o curso de filosofia naquela faculdade), eu dizia, entre várias outras coisas, que um dos sentidos da atividade filosófica, de nosso esforço de ler e produzir textos filosoficamente relevantes, consistia em tomar consciência do quanto nosso olhar para as diversas faces da realidade está sob o efeito de ilusões de várias ordens. Seja através da fabricação de ideais de beleza incessantemente veiculados pelos meios de comunicação de massa, seja pela educação que privilegia o exercício e o cultivo de habilidades intelectuais em detrimento de uma formação mais ampla como cidadão, incluindo reflexões críticas acerca de nossos prazeres com a arte, com a sexualidade e com nosso engajamento nas causas sociais, seja também pelo fanatismo religioso que leva multidões de pessoas a desconsiderar a validade das dúvidas e crenças alheias, tudo isso e várias outras coisas, como a crença na superioridade de uma raça em relação à outra, dizia eu, são exemplos de formas culturalmente sedimentadas ao longo da história que nos levam a ter uma concepção da realidade que joga com a nossa percepção, nossos desejos e sentimentos, de modo a não termos o suficiente apoio, dentro daquilo que é fornecido por essas visões de mundo, para questioná-las. Levando em conta a etimologia da palavra “iludir”, que remete ao lúdico, ao fato de que, na medida em que somos iludidos, temos nosso olhar inserido em uma série de movimentos, princípios e regras cuja lógica desconhecemos. Nesse sentido, uma ilusão de ótica, tal como a que acontece quando vemos uma colher quebrada ao ser colocada em diagonal em um copo com água, mostra que nossa visão não consegue sair das leis de refração da luz, sendo sistematicamente enganada quanto àquilo que sabemos ser a realidade, a saber, que a colher não se quebra quando está posta na água.
É preciso considerar, entretanto que o conceito de ilusão é altamente relativo, em virtude do fato de que algo pode ser considerado ilusório na perspectiva de alguém, mas não o ser de outro ponto de vista. Além disso, existem ilusões inofensivas e até mesmo divertidas, como essa da refração da luz e a realizada profissionalmente pelos mágicos, quando empregam jogos de espelho, fios invisíveis e outras coisas, mas também ilusões que podem levar uma pessoa a investir muito de sua vida em projetos que não trarão um retorno que justifica tudo o que foi empenhado em sua construção, ou aquelas que alimentam o narcisismo das pessoas ao figurar a inferioridade de quem é diferente sob algum aspecto, como sua preferência sexual, condição econômica etc.
Apesar dessa relatividade do conceito de ilusão, sempre mantive a idéia de que a filosofia se dedica a desfazer ilusões em nossa relação com a realidade. Para não levar a discussão para o âmbito da problemática do relativismo desse conceito, eu gostava de dizer que uma das ilusões que a filosofia combate de forma programática é a da própria idéia de que podemos ter um conhecimento 100% verdadeiro, isento de questionamentos. Nesse sentido, eu procurava demonstrar que o conceito de que a realidade é construída socialmente, que ela é fruto de uma história do modo como as sociedades concebem o real a partir de seus conceitos, princípios, modelos e imagens, é algo necessário para romper a ilusão de que o mundo possui uma verdade única, existente para além dessa dinâmica de apropriação do real na história.
Ao longo dos vários semestres em que apresentei essa perspectiva no início das disciplinas, uma colocação aparecia em sala de aula com alguma frequência. Depois de ouvirem longamente essa crítica em relação às ilusões criadas no âmbito social, algumas alunas e alunos colocavam a seguinte observação crítica: “Mas professor! Você não acha que uma vida sem ilusões não é algo sem graça? Você não acha que as pessoas precisam de ilusão para viver a sua vida com alguma alegria? Será que uma vida totalmente sem ilusão ainda é suficientemente motivadora?!”
Seguindo a velha e boa estratégia de mostrar inicialmente a concordância com uma crítica, de modo a convidar à continuidade da discussão, eu respondia que, de fato, um modo de vida limitado às perspectivas de uma atitude absolutamente realista, que se limita a um trânsito sempre guiado apenas por um posicionamento sóbrio e equilibrado em relação ao que a vida tem de verdadeiro e importante é por demais árido, seco, inóspito. A questão reside, entretanto, em considerar o que pode ser considerado uma boa fonte de motivações para nossa existência no sentido pretendido pelas alunas e pelos alunos. Eu digo que não é propriamente a ilusão, mas sim as fantasias que cumprem este papel de forma saudável, progressista e construtiva. Embora possamos dizer que toda ilusão socialmente construída seja uma forma de fantasia, nem toda fantasia é uma ilusão, quando vivida de forma crítica, deliberada, sem que paguemos o preço de termos nossa percepção sistematicamente enganada, conduzida e manipulada, seja pelo nosso próprio raciocínio, seja por agências de instituições sociais, seja pelo nosso próprio desejo!
Exemplos de fantasias que não caiam no âmbito ilusório são difíceis de fornecer, precisamente pelo fato de que elas dependem do modo como cada pessoa se posiciona em relação a elas. Um exemplo simples de fantasia pode ser o de um jogo, em não apenas a brincadeira infantil, em que a criança finge representar certo papel, mas também o do adulto, que se coloca em um âmbito destacado da realidade em que vigoram leis, regras e recompensas arbitrárias, fictícias. Mas, como disse, tal atividade pode ser considerada ilusória quando deixa de ser apenas uma fonte de prazer que vale por si mesmo, circunscrito ao momento de diversão e de descarga de tensões emocionais durante e em função do próprio jogo, para se constituir em um objeto de uma paixão avassaladora, próximo de um fanatismo, tal como vemos na violência das torcidas organizadas no futebol, ou no vício com os jogos de azar, de um cassino, por exemplo. Como é também ilusória a fantasia que começa a substituir a realidade, de modo a valer como uma fuga, sendo índice de uma incapacidade de dialogar de forma consistente com o real.
Concordo plenamente com a idéia de que o âmbito da imaginação e de suas produções fantasísticas são algo extremamente relevante, tanto no cotidiano, com suas ironias, piadas e toques de senso de humor em geral, passando pelas fantasias sexuais, até os grandes ideais que colocamos para nós, mesmo que não se concretizem em projetos de vida específicos. Entretanto, penso que esse âmbito é tanto mais bem aproveitado, quanto melhor refletimos sobre seus limites, sua validade e mesmo sua necessidade. É uma ilusão pensar que podemos viver sem fantasias, como também o é pensar que conseguimos suportar o peso de uma verdade tão radical que fosse isenta de todo e qualquer grau de ilusão. Em vários momentos, relativos a diversos objetos ao longo da vida é impossível nos livrarmos de véus que encubram algumas verdades que não conseguimos suportar. Pensar que somos suficientemente fortes para extirpar todas as fontes de ilusão é por si uma ilusão, que a filosofia pretende desfazer também.

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quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Lula e o SUS, ou: Os (des)caminhos da virtude política

Conta-se que em uma guerra, particularmente em uma revolução, como a francesa, de 1789, quem não toma partido por um dos lados é tratado com maior ódio do que o próprio inimigo. Independente de isso ser verdade ou não para todas as situações de conflito polarizado, a idéia exprime uma ética da necessidade de mostrar seu pertencimento ao mundo conflituoso dos seres humanos, e não apenas das coisas. Em uma situação em que alternativas cruciais são colocadas para o espaço humano, a indiferença parece merecer maior punição do que o engajamento na causa contrária à nossa.
Nos últimos dias vivemos no Brasil uma situação em que, muito longe do caráter agudo de uma guerra civil ou revolução, vemos um diálogo inflamado entre pessoas recomendando ironicamente que o presidente Lula trate seu tumor na laringe pelo Serviço Único de Saúde, e outras defendendo ardorosamente a dignidade do ex-presidente, apelando para seu histórico político de um metalúrgico que chegou à presidência e que fez um governo que beneficiou milhões de brasileiros das classes sócio-econômicas menos favorecidas, como também chamando a atenção para as qualidades do próprio SUS.
A pergunta que eu gostaria de analisar a seguinte: qual a melhor maneira de ler esse movimento de “agressão simbólica” à figura de Lula?
Quero dividir essa problemática em três planos, nos quais a reação a essa campanha agressiva pode ser dividida até agora, segundo sua motivação principal (embora, claro, eles se misturem): a) ético, b) simbólico e c) cognitivo (nesse último caso, de veracidade, adequação à realidade factual do SUS).

a) A primeira e mais evidente característica do impacto que essa campanha teve em quem discorda dela é a de indignação. Mesmo quem fez e faz críticas ao governo Lula tomou-a como desrespeito a um ser humano que sofre, como índice de um destempero emocional, como uma violência típica de grandes massas enfurecidas, que deságuam seu ódio pelo sistema em uma única pessoa.
Não faltam exemplos dessa recepção em postagens nas redes sociais, blogs e colunas de jornal, como a de Gilberto Dimenstein, em que o autor diz ter sentido “um misto de vergonha e enjoo ao receber centenas de comentários de leitores para a minha coluna sobre o câncer de Lula”, os quais ele qualifica, em grande parte, como “...o esgoto do ressentimento e da ignorância”. Fernando Henrique Cardoso, por sua vez, considerou tal movimento como fruto de recalque, de desequilíbrio psíquico. Hélio Gaspari iniciou sua coluna da edição de 02/11/11 de forma bastante crítica: “As pessoas que estão reclamando porque Lula não foi tratar seu câncer no SUS dividem-se em dois grupos: um foi atrás da piada fácil, e ruim; o outro, movido a ódio, quer que ele se ferre”.
O primeiro aspecto a considerar é a da realidade sócio-cultural desse protesto. Ele é acéfalo, ou seja, sem um direcionamento dado por algum autor ou grupo específico; manifesta-se de forma pulverizada por diversos canais na Internet; não possui o menor compromisso de coesão; agrupa diversos tipos de postura, desde a mais raivosa manifestação de hostilidade, até considerações mais sensatas, que acentuam sua dimensão simbólica, retirando de cena a literalidade com que é lido, a saber, como um ataque pessoal ao “doente Lula”. Diante de uma heterogeneidade tão grande, qualquer qualificação “em bloco”, como essas três que citei, parece-me francamente inadequada. Por outro lado, eu não me proponho o exato oposto disso, isto é, uma análise descritiva dos diversos tipos de manifestação. Eu também faço uma leitura geral, mas que leva em conta a existência dessas multiplicidades, na medida em que as insiro em uma abordagem de um princípio concebido teoricamente.
Tomado em sua manifestação mais direta e também emblemática, como uma frase estampada nas redes sociais: “Eu acho que o Lula deveria se tratar no SUS”, tal protesto é inegavelmente antiético, imoral. Sem levar em conta ainda a questão da adequação factual — de se o SUS “merece” uma qualificação tão pejorativa —, eu digo, entretanto, que não se pode considerar essa dimensão ética desvinculada do significado político. Tal como diversos escritos de filosofia política exprimem, não existe recobrimento total entre esses dois planos, o que significa que o valor político de uma ação não pode ser deduzido de seu valor moral. Sem querer aprofundar nessa questão — ligada à difícil problemática de se os fins, nobres politicamente, justificam os meios, reprováveis em termos éticos —, parece claro que essa relação entre meios e fins deve ser sempre analisada caso a caso, pois em alguns deles as ações são justificadas, e em outros, não.
Diante de injustiças historicamente consolidadas, como é o caso do gritante desequilíbrio na distribuição das propriedades rurais, em que o poderio econômico e político de grandes latifundiários incrementa e perpetua uma realidade de exclusão social e econômica gravíssima, as manifestações do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra pode ser entendido como uma tentativa desesperada por ter uma voz nesse cenário. Não se trata, em última instância, de “ter razão” no valor moral conferido em cada ato de invasão de terra, nem mesmo de coerência política em termos de certo complexo de ações, mas sim da necessidade de impactar a opinião pública, mesmo que seja de forma a gerar uma opinião contrária, de modo a produzir alguma espécie de movimento nas consciências das classes médias urbanas. Seu valor político, nessa perspectiva, deve ser considerado em termos macro, a médio e longo prazo, como uma espécie “choque moral” para quem jamais pensou sobre o quão sofrida é a situação do desequilíbrio agrário.
Nesse sentido, é bastante instrutiva a colocação inicial de outra coluna de Gilberto Dimenstein, posterior às que citamos, em que ele começa dizendo: “As bobagens raivosas contra Lula, pedindo que ele se trate no SUS, conseguem até provocar um debate sério: involuntariamente ajudaram a trazer atenção a quem trata um tumor na rede pública”. As palavras “até” e “involuntariamente” mostram de forma clara a intenção do autor de desconectar o impacto político do protesto — como fomento de uma discussão sobre um problema gravíssimo — do que perfaz o sentido das formas concretas com que ele se manifesta. É como se tais manifestações pudessem ainda ser avaliadas como infantis e irracionais, tendo tão-somente uma espécie de “efeito colateral” bom. O que eu digo é que as próprias características de destempero, desequilíbrio e incorreção moral já são embebidas daquilo que aponta para o seu sentido político: mover o pensamento político, tocar a emotividade, mesmo que de forma torta, oblíqua, enviesada.
Essas considerações, entretanto, não abordam a especificidade do conteúdo desses protestos. Para fazê-lo, quero tratá-los no âmbito em que são exercidos, a saber, de uma mobilização no plano simbólico.

b) Em que pese o nítido oportunismo que algumas pessoas manifestam nesse momento para descarregar todo seu ódio contra um político historicamente situado à esquerda no espectro político (e até mesmo contra toda a classe política em geral), parece-me claro que nos momentos de maior lucidez fica clara a dimensão irônica do protesto. Nesse sentido, exprimiria, não um ataque pessoal a alguém que sofre de uma doença terrível, mas sim um descontentamento social, generalizado, com que a situação da saúde pública é tratada. Assim, não se trata de pensar que faria sentido alguém que tem muitos recursos financeiros — seja ele quem for — entrar na fila de atendimento de um posto de saúde pública para demonstrar alguma espécie de coerência política máxima — mesmo porque isso somente acrescentaria mais uma pessoa a ser tratada, tirando a vez de alguém muito necessitado. Embora eu creia haver certa quantidade de pessoas que, de dentro dessas manifestações, não se apercebam dessa dimensão estritamente irônica, não literal, do protesto, penso ser ele legível com alguma facilidade, desde que se tenha alguma sobriedade para falar sobre esse assunto.
Deste modo, tais manifestações operam um deslocamento simbólico e irônico, tomando a figura de Lula como emblemática daquilo que se quer combater. A pergunta é: por que especificamente Lula, e por que especificamente com essa forma de agressividade?
Boa parte do capital político de Lula vem, não de propostas políticas concebidas de forma original e implementadas segundo uma lógica própria (o que não significa dizer que elas não tenham existido), mas sim do poder de seu discurso, do modo como foi capaz de seduzir a sua audiência, desde os metalúrgicos do ABC paulista até os eleitores do Brasil inteiro em sua eleição à presidência (o que também não significa afirmar que isso se deu como mera retórica). Porém, no seio do brilho da oratória, tal como ele mesmo assumiu depois de eleito presidente pela primeira vez, o PT falou muita bravata nas críticas aos governos anteriores, ou seja, usou de argumentos retóricos sem consistência, sem fundamento na realidade política.
Pode-se contabilizar como uma delas o que ele disse quando era candidato à eleição presidencial de 1998: “Eu não sei se o Fernando Henrique ou algum governador confiaria na saúde pública para se tratar”. Muito tempo depois, tal como relata Hélio Gaspari na coluna que referimos acima, em 2006, disse que “o Brasil não está longe de atingir a perfeição no tratamento de saúde” e “em 2010, Lula inaugurou uma Unidade de Pronto Atendimento do SUS no Recife dizendo que ‘ela está tão bem localizada, tão bem estruturada, que dá até vontade de ficar doente para ser atendido’. Horas depois, teve uma crise de hipertensão e internou-se num hospital privado”.
Por outro lado, não lhe falta demonstração de senso de realidade, pois em 2009 disse ter vivido os dois lados da situação do tratamento de saúde: o das longas filas de espera dos hospitais públicos e o do tratamento VIP como presidente da república. Nesse mesmo discurso, ao dizer que até mesmo nos EUA havia um problema sério de saúde pública com o qual Barack Obama se debatia, disse que esse sistema de atendimento universalizado brasileiro poderia ser usado como modelo por aquele país.
Nesse âmbito da articulação do discurso, em que se mesclam frases de efeito, apelos à realidade em seu aspecto mais doloroso, imagens ao mesmo tempo verídicas e por vezes enganosas quanto a seu significado etc., a corrupção tem um peso bastante acentuado, uma vez que, no imaginário popular, vigora a ideia de que “muito dinheiro que tinha que ir para a saúde e a educação acaba enriquecendo políticos corruptos”. Pode-se ler com facilidade em várias matérias jornalísticas afirmações no sentido de que o governo da presidente Dilma é menos conivente com a corrupção do que o de Lula. Independente de isso ser verdade ou não, para mim pesa bastante o fato de que um filho de Lula, Fábio Luís Lula da Silva, dono de uma empresa de informática, Gamecorp, recebeu comprovadamente milhões de reais como investimento em seu empreendimento por parte da empresa de telecomunicação Oi/Telemar. Depois de várias semanas em silêncio sobre o caso, Lula respondeu com mais uma de suas metáforas ligadas ao futebol, dizendo que esse investimento milionário conseguido por seu filho vem de seu talento, como se ele fosse um Ronaldo em sua área de atuação (embora sua formação acadêmica não tenha nada a ver com informática). Extrema coincidência ou não, algum tempo depois uma das leis relativas ao âmbito empresarial das telecomunicações teve um de seus itens deliberadamente alterado para viabilizar os planos da Oi/Telemar em adquirir uma outra companhia, a Brasil Telecom.
Esse episódio me parece suficientemente carregado simbolicamente, devido ao fato de que não atinge apenas um “companheiro de partido”, mas alguém dentro do próprio seio familiar. Considerando que o problema da saúde tem um forte vínculo com este núcleo, haja vista a imagem do médico de família, como também o drama de um filho para tratar seus pais idosos, e às vezes simultaneamente de seus filhos pequenos, temos aí algo explosivamente forte em termos de ressonância no imaginário de milhões de pessoas.

c) Por fim, temos a questão do teor de verdade dessas manifestações que usam o SUS como exemplo de descaso, de ineficiência e de má administração. Temos relatos comoventes, como o de Nina Crintz, que testemunha aspectos altamente significativos e louváveis nesse sistema de saúde que tem um programa deveras modelar de distribuição de medicamentos caros e extremamente necessários para o tratamento de doenças gravíssimas. Nesse quesito, temos o reluzente caso da assistência aos portadores do vírus HIV, em que o Brasil tornou-se uma referência mundial.
De fato, a familiaridade com esses aspectos do SUS joga por terra uma análise simplista, homogênea, do sistema como um todo como sendo fraco, ruim, inoperante. Por outro lado, creio que o que está em jogo é a outra parte da atuação desse sistema, expresso em um dos discursos do próprio Lula que citamos acima, que são as longas filas de espera para atendimento médico, diagnóstico clínico e intervenções cirúrgicas. Todo mundo sabe muito bem que até mesmo em alguns planos de saúde mais baratos esse quesito pode deixar muita despejar. Eu próprio adquiri um deles, e depois de pagar duas mensalidades, liguei para a central de marcação de consultas e requisitei um exame com um dermatologista, sem especificar nomes. A resposta que obtive é que a data disponível mais próxima era para depois de dois meses e meio. A primeira coisa que fiz foi cancelar esse plano e comprar um outro, de que já havia usufruído quando trabalhei em uma empresa, e cujo atendimento nunca havia sido deficiente nesse aspecto.
Mais uma vez focando na dimensão familiar, é muito evidente que pais com filhos pequenos, cuja propensão a doenças é grande, como também é o caso de idosos, podem chegar a uma situação desesperadora se somente podem contar com o atendimento no SUS. Para além da necessidade de invocar o realismo político de uma avaliação justa do quanto o governo Lula melhorou ou não essa face do serviço público de saúde, o fato é que a população enxerga, vive e sofre com, a situação tal como ela existe de fato. Voltando ao primeiro item de nossa argumentação, igualmente para além da correção moral desses protestos — que também são criticados por serem feitos apenas “atrás de computador”, com o mero compartilhamento de uma imagem ou postagem de frases soltas —, temos uma forma errática, confusa e atabalhoada de colocar um problema crucial na pauta do dia. Em relação ao segundo aspecto, digo que o mesmo movimento de densidade simbólica que elegeu Lula tornou-o alvo da insatisfação com a saúde pública. De forma análoga a como se diz no futebol: “jogar com o coração na ponta da chuteira”, pode-se dizer que milhões de brasileiros votaram em Lula com o coração na ponta do dedo, e agora algo desse investimento afetivo parece nutrir muito de ambas as partes nesse embate político.
No que tange ao protesto, essa emotividade é um dos lados de seu teor irracional, de ruptura dos padrões de correção moral e política. Usando uma expressão afim ao pensamento de Theodor Adorno, eu diria que tal irracionalidade é um reflexo distorcido da irracionalidade do próprio sistema econômico, social e político. Sua impotência e efemeridade, todavia, provavelmente serão proporcionais ao infantilismo que seus críticos apontam com veemência. — Para saber disso, entretanto, precisamos de um pouco mais de História, a qual, entretanto, não anda de mãos dadas com a Razão. Assim, retomando o contexto bélico do início do texto: "War doesn't show you who is right; only who is left". 

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quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Sobre a condição feminina

Eu gosto de mulher que gosta de ser mulher. Essa frase se justifica, não pelo fato de especificar mulheres que sejam heterossexuais, isto é, que gostem de se relacionar com homens; dirige-se àquelas que demonstram um gosto especial, algo como uma alegria por sua condição feminina. Segundo penso, esta assunção prazerosa de sua própria condição como mulher mostra-se especialmente problemática nas sociedades contemporâneas.
Podemos dizer que, de acordo com certos princípios que norteiam a constituição das mentalidades relativas aos gêneros, a cultura ocidental é marcada, em diversos graus e de diversas formas, por uma excessiva masculinização, não apenas no sentido político, econômico e societário de privilégio conferido os homens em termos de acesso a melhores salários, cargos em empresas e em instituições governamentais etc. Trata-se, de forma mais geral e também profunda, de toda uma gama de valores que privilegiam atitudes, posturas, modos de ser e de auto-concepção muito tipicamente masculinos, entre cujas conseqüências está a de depreciar, muitas vezes de forma sarcástica, o gosto e o gozo de se entregar à demanda do outro.
Theodor Adorno disse que o amor consiste em demonstrar fraqueza sem estimular a violência. Naturalmente, não se trata de dizer que o amor seja apenas isso, mas que contenha essa dimensão como um de seus aspectos essenciais. O que está em jogo é um princípio feminino — a ser vivenciado tanto por homens quanto por mulheres — de oferecer-se ao outro como objeto de desejo, de modo que se tenha esse prazer bastante especial de perceber no outro este gozo de apropriação de nós mesmos. Ora, é por demais evidente que as sociedades ocidentais há muito privilegiam uma concepção de si fundada numa afirmação reiterada de nosso próprio ser, de nosso papel na sociedade, tipicamente concorrencial. O centramento narcísico expresso pela necessidade de se auto-afirmar com a devida força perante todas as possibilidades de fracasso, aliado à situação real de privilégio para os homens nas diversas estruturas hierárquicas, contribui de forma decisiva a uma exacerbação do gosto pela condição masculina.
Quantas vezes não se ouviu alguma mulher dizer a seguinte frase: “Na próxima encarnação quero nascer homem, pois aí é tudo mais fácil” (claro que isso não significa acreditar em reencarnação, pois se trata apenas de uma figura de linguagem). A justificativa para essa ideia não se dirige apenas à condição de privilégio social e econômico, mas toca também questões mais imediatas, como a lida com as alterações hormonais da menstruação, o perigo de uma gravidez indesejada, a desvantagem devido à diferença de compleição física, ou seja, de forças, que torna a mulher mais vulnerável à violência típica das cidades, como assaltos, intimidações, sem contar, evidentemente, o perigo dos atentados sexuais etc.
Seria um radical despropósito negar que é realmente difícil para a mulher conciliar todas essas exigências de uma postura masculinizada perante o real à dimensão feminina própria de sua sexualidade e do âmbito afetivo que gravita ao seu redor. Aliando-se essa mentalidade preponderante (que valoriza a auto-afirmação) ao risco sempre presente de uma violência injustificada por parte do outro, na esteira do que citamos de Adorno, é mais do que compreensível uma especial dificuldade de harmonizar esses dois pólos da existência: a intimidade, cujo prazer se liga propriamente à ruptura e transgressão de leis, princípios e valores racionalmente concebidos, e o âmbito social, em que a positividade das exigências de sucesso e de felicidade fomentam de forma decisiva a satisfação consigo mesma pelo fato de se impor perante o outro.
Parece-me relevante, no que concerne à dimensão propriamente sexual da condição feminina, o quanto esta é tomada, no universo das trocas simbólicas na linguagem, como um índice de diminuição, ridicularização, de fraqueza, de vergonha. Há várias expressões bastante pejorativas que conectam o posicionamento sexual tipicamente feminino com situações desvantajosas, humilhantes etc. Esse aspecto essencial da sexualidade feminina de ceder, de entregar-se ao outro é tomado em vários casos como uma metáfora para o esmorecimento perante situações que demandam uma postura firme. No típico enfrentamento de torcidas de time de futebol, o xingamento mais freqüente é o de negação da masculinidade (ao passo que, curiosamente, a loucura se associa a algo propriamente vantajoso, como índice de uma agressividade transbordante, violenta em sua disposição transgressiva etc.). Mesmo correndo o risco de ser tomado como moralista, vejo com surpresa o quanto pessoas com senso crítico, que refletem seriamente sobre problemas sociais, dispõem-se a usar essa conotação pejorativa da condição feminina como moeda de troca nesse âmbito do enfrentamento lúdico. Sei perfeitamente que tudo não passa de brincadeira, de um espaço de irreverências, ironias etc., mas creio que haja um peso simbólico significativo ao se usar o feminino como índice de demérito, de contrapeso para as derrotas no âmbito esportivo.
Toda essa circunstância de dificuldade, entretanto, não é simplesmente insuperável. Na medida em que um homem se relaciona com várias mulheres ao longo de sua vida, ele percebe com nitidez diferenças às vezes gritantes no modo como cada uma delas demonstra uma satisfação com sua condição feminina, essa alegria de se ver como objeto de um desejo especialmente forte, invasivo, robusto, consistente. É exatamente devido a isso que valorizo o quanto foi possível a uma mulher manter de forma saudável e viva este núcleo de sua sexualidade e afetividade feminina, apesar de tudo aquilo que, no âmbito da objetividade social, o contraria.
O outro lado da moeda (sendo que ainda há outro), é o de um destempero no sentido oposto, a saber, de “esquecimento” do quanto o papel feminino no relacionamento, desde a situação de maior intimidade sexual até os momentos mais sóbrios no dia-a-dia, demandam uma mescla com princípios e formas masculinas de atitudes, pensamentos e afetos. Em virtude, entre várias coisas, desse desejo de demarcar claramente o espaço da feminilidade, esta tende a negar de forma um tanto obsessiva a presença da sobriedade masculina, o que pode resultar em uma perda de sua força de sedução. Esse problema, entretanto, é por demais complexo, merecendo uma investigação à parte.
Outra questão que merece ser mencionada é uma possível resposta das mulheres em relação ao comportamento masculino, no sentido de se dizer que elas também apreciam o homem que consegue conciliar a dimensão feminina da afetividade com a sua condição masculina. Uma relação afetiva em que este exclui toda a atitude de entrega ao desejo da mulher, situando-se de forma por demais enrijecida em sua atitude masculinizada nas diversas faces do relacionamento, tende a ser estéril, árida. De fato, essa tarefa de conciliação dos princípios masculino e feminino não é uma exclusividade das mulheres. Muito da condição neurótica consiste precisamente numa incapacidade de se situar em relação a esses dois princípios, que, de um ponto de vista psicanalítico, constituem a subjetividade humana em geral, independente do gênero e da posição e preferência sexuais. Essa problemática, entretanto, também extrapola os limites desse texto, devendo ficar para novas postagens.

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quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Da diferença entre fragilidade e sensibilidade


Sentimentos são facilmente confundidos. Eles expressam necessidades de dar vazão a nossos desejos, em que nos percebemos como respondendo a nossas fantasias, valores, ideais etc., diante das infinitas possibilidades que a realidade nos oferece para satisfazer, de alguma forma e em alguma medida, nossas vontades. Dentre as diversas formas de confusões no modo como qualificar os sentimentos, gostaria de comentar uma delas, que me parece especialmente interessante. Trata-se da diferença entre ser sensível e ser frágil. Não é nenhuma novidade apontar para essa diferença, de modo que quero apenas aqui dizer como percebo alguns de seus aspectos.

Em ambos os casos, temos o ser afetado por outra coisa, a suscetibilidade a impressões, sentimentos, forças, provenientes de algo externo à própria consciência. Assim, entende-se o quanto a sensibilidade pode se mesclar à condição de se abater com algo, uma vez que em ambos os casos percebe-se essa vivência em si mesmo de um efeito do contato com as outras coisas, pessoas etc. Por outro lado, compreende-se também por que pode ser tão difícil demonstrar ou assumir sensibilidade, uma vez que isso pode ser tomado como índice de fragilidade, tanto por si mesmo, quando pelos outros.

As diferenças entre esses dois aspectos, entretanto, são muito mais relevantes do que essa primeira aproximação. Ser sensível significa, entre outros aspectos no âmbito emocional, uma capacidade de discernimento de diferenças qualitativas, de conferir o devido valor ao modo como as coisas se distinguem em nuances que poderiam, à primeira vista, passar como insignificantes. Não se trata apenas de uma habilidade da ordem cognitiva de captar variações no âmbito auditivo, visual, tátil etc., mas sim de um processo ativo de estima do quanto as diferenças entre as coisas são suficientemente significativas para que lhe prestemos atenção, para que tenhamos envolvimento emocional com elas. Nesse sentido, ser sensível envolve um investimento afetivo nessas gradações.

A fragilidade, no caso propriamente a emocional, caminha no sentido de ser passível de afetação por algum movimento subjetivo, de tal forma que podemos sofrer gravemente o impacto na relação com algo, sem que, nesse momento, sejamos capazes de perceber ativamente nuances de diferenças qualitativas nas coisas. Na verdade, podemos dizer que a fragilidade envolve uma espécie de dessensibilização, de incapacidade de interagir de modo a fazer uma leitura refinada, nuançada, daquilo com que nos relacionamos. Um exemplo claro de como isso acontece, embora não no registro propriamente emocional, é o caso da hiperestesia, que é a condição dos órgãos dos sentidos quando deixam de suavizar os impulsos sensíveis ocasionados pela luz, pelo som, pelo cheiro, de modo a que qualquer aumento mínimo de uma sensação já ocasiona dor, irritação e outras complicações no âmbito neurológico. Nesse momento, vemos que o excesso da capacidade de ser afetado por alguma coisa diminui nosso envolvimento ativo de atenção para as diferenças.

É interessante notar, ainda, que mostrar-se frágil, a própria condição de abater-se com alguma coisa, pode substituir a sensibilidade. Em vez do esforço de atenção, de investimento afetivo naquilo que é objeto de empenho por si mesmo, temos essa descarga emocional na auto-percepção de que se é suficientemente aberto a ponto de abater-se com a força de uma determinada realidade. Em outras palavras, a fragilidade pode simular a sensibilidade, substituindo a dimensão reflexiva e de atenção qualitativa pelo impacto subjetivo em sua dimensão quantitativa.

Assim, é necessário um grau suficiente de força, estabilidade e a atenção, para haver sensibilidade. Esta é propriamente uma capacidade, enquanto ser frágil indica mais uma condição, cuja característica fundamental, nesse aspecto, é de uma passividade essencial em relação às coisas. “De pouco adianta” afetar-se profundamente com alguma coisa, se não há sobriedade suficiente para se aperceber do quanto a realidade contém elementos, muitas vezes, que não são suficientes para gerar esse abalo emocional. Radicalizando um pouco isso que estou dizendo, a fragilidade acaba por dar-nos o prazer da dispensa de investirmos nossa atenção nas infinitas sutilezas, diferenças e nuances da realidade que nos cerca, cujo efeito em nós, em alguns casos, pode ser tudo, menos de um sofrimento, e mais uma ocasião para tomar a realidade como objeto de reflexão e motivo para uma atitude.

Esse último aspecto é significativo, uma vez que a fragilidade aponta para certa paralisia, inatividade ou renúncia ao real, pois, por assim dizer, “resolve” no âmbito emocional, interno, questões no vínculo com a realidade. A sensibilidade, ao contrário, na medida em que se alia a uma condição estável emocionalmente, indica a capacidade de enriquecer nossa percepção, fazendo com que tenhamos mais pontos de apoio para a nossa reação perante o que nos cerca.


quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Por que refletir?


Quem dá aula de Filosofia para outros cursos quase sempre se depara com o questionamento sobre a pertinência de uma reflexão abstrata, ou até mesmo de toda a postura reflexiva que não seja ligada ao aprendizado de como fazer, agir profissionalmente, operar com alguma teoria sobre a realidade etc. Se a resposta se dirige à importância da reflexão para a vida pessoal, e não apenas relativa ao trabalho, de modo a mostrar que sua importância é tão grande que vai além de uma prática específica, a réplica por parte dos alunos muitas vezes se apóia na ideia de que, como se diz popularmente, “Pensar no passado é sofrer duas vezes”, ou seja, a reflexão nos enreda mais ainda em nossos dissabores internos, sem que com ela tenhamos certeza de algo melhor. Outra objeção se baseia na recusa de pontos de vista doutrinários, que procuram estabelecer modos de vida supostamente saudáveis, que trariam maior satisfação, conteúdo e valor em geral para a vida. Hoje quero comentar a primeira dessas objeções.
Por mais óbvio que seja, é preciso ter em mente que o pensamento é fruto do desejo. Ele não apenas é um instrumento para apanhar o real a partir de bons pontos de vista, de modo a entender melhor a sua verdade. Ele reflete as escolhas que fazemos para realizar tais abordagens. Tal como as teorias de fundamentação do conhecimento contemporâneas demonstram já há algum tempo, não faz muito sentido querer um fundamento, uma base, um alicerce seguro e absoluto para teorias, sejam elas científicas em sentido estrito, como na física e na química, ou nas teorias sociais e filosóficas. Em função disso, parece cada vez mais claro que, por mais que o pensamento teórico tenha de se fundamentar o melhor possível, rapidamente se chega, em um debate, a um ponto em que a divergência é resolvida simplesmente com a idéia de que cada um escolhe seu próprio ponto de vista, em virtude de seu desejo de pensar assim.
Se em um âmbito aparentemente tão objetivo como o das teorias mais avançadas nos deparamos com essa dimensão afetiva do pensamento, na medida em que este é movido por um desejo, por uma escolha não fundamentada rigorosamente, tanto mais isso vale para o modo como cada um pensa sobre sua própria vida, decide sobre o que fazer e toma partido por idéias em geral sobre a realidade. Na medida em que nos voltamos para nossas próprias questões, problemas de posicionamento em relação a tudo o que nos cerca, incluindo nossa disposição afetiva, o pensamento acaba servindo de palco para que as idéias exprimam as próprias emoções e vicissitudes do desejo, em vez de ajudarem a encontrar uma perspectiva suficientemente boa para melhorar o que pensamos.
Nesse sentido, que pensar no passado seja uma segunda fonte de sofrimento, por se dirigir em relação àquilo que nos incomoda e que deveria ser melhorado, não causa nenhuma estranheza. Esse tipo de reflexão acaba sendo, realmente, apenas mais uma circunstância para colocar em jogo os mesmos componentes que geraram as situações que devem ser repensadas. Sem alguma forma de perspectiva externa às vicissitudes do próprio desejo, o pensamento acabará sempre atraído pelo redemoinho das emoções, cuja força de atração parece fazer com que andemos sempre em círculo ao redor deles.
Diante de uma circunstância específica, como um problema a ser resolvido, uma questão afetiva mais complexa, uma preocupação que se arrasta durante um tempo excessivo etc., algumas vezes usei uma estratégia bem simples e que já sugeri a algumas pessoas, que consiste em escrever o mais claramente possível sobre a circunstância. Em vez de simplesmente pensar, por assim dizer remoer as idéias, é bom sedimentar todo esse caldo de imagens em uma exposição que ganhe uma objetividade proporcional à fixidez da escrita. É muito interessante notar que, mesmo situações que geravam muita apreensão por vezes não rendem mais do que umas poucas linhas quando tudo é escrito, colocado de forma mais objetiva. É como se o “problema” em si mesmo fosse bastante reduzido e específico, mas com um potencial de reverberação afetiva de tal ordem que nos move e arrasta por horas ou dias de pensamento. O compromisso com a escrita ganha o espaço anteriormente cedido à complacência com que repetimos infindavelmente idéias que apenas exprimem nossos desejos e refletem nossas emoções, em vez de propriamente colocá-las sob um novo prisma, capaz de fazer com que enxerguemos novas cores para elas.
Nesse sentido, a proposta de teorias como as filosóficas — na medida em que se preocupam com questões relacionadas à crítica cultural, à subjetividade e às questões de valor — e as psicanalíticas é a de fornecer pontos de apoio suficientemente consistentes de modo a fazer com que não precisemos simplesmente fechar os olhos ao que nos incomoda internamente (dirigindo o olhar única e exclusivamente para aquilo que precisa ser feito de forma objetiva), mas também não nos percamos nessas infinitas associações de idéias que não nos levam a ver muito além do que o nosso próprio ego é capaz de enxergar.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

A voz da experiência na sala de aula


Aprender com experiência não é fácil. Há muitos fatores que dificultam bastante a ação subjetiva de agregar os fatos como algo que contribua para uma melhor concepção da realidade, de modo a fazer progredir nossa perspectiva das coisas em geral, seja de nós mesmos, seja das outras pessoas ou dos objetos e circunstâncias no mundo. Penso que muitas vezes, em vez de um aprendizado na acepção própria do termo, temos mais uma adaptação às circunstâncias que são vividas repetidamente. Em outros momentos, o preconceito é o impedimento mais claro para o progresso do conhecimento através da experiência. Ele produz um julgamento antecipado em relação às coisas de modo a fazer com que tudo que está de acordo com ele é somado como uma confirmação sua, ao passo que qualquer fato contrário pode ser simplesmente desconsiderado, tomado como uma mera exceção, como algo pouco significativo, como uma anomalia etc. Caracterizo essa perspectiva como sendo de uma percepção seletiva viciada, em que selecionamos aquilo que está de acordo com uma disposição subjetiva prévia, de tal forma que o resultado final apenas tende a confirmar o que pensávamos antes.
Essa atitude pode ser entendida a partir da própria etimologia (origem histórica) da palavra experiência, que é formada prefixo ex, que significa para fora, externo, exterior, e o radical peri, que se liga a limite, como em perímetro, ou aquilo que circunscreve alguma coisa, tendo a ver também com a idéia de poro, ou seja, de passagem para o exterior. Tomando essa derivação histórica, experiência é definida como essa transitividade em relação àquilo que extrapola nossos limites já estabelecidos. É como se nós saíssemos de nós mesmos de modo a tomar contato com algo que nos é estranho, diferente, outro, de modo a retornar para o nosso mundo interno de forma diferente. No caso do preconceito, nossas idéias, princípios e valores se tornam bastante impermeáveis, sem poros, sem vias de trânsito entre nós e a realidade externa à nossa consciência, mas com uma surpreendente faculdade, capacidade, de “fagocitaro que é estranho. Como se sabe, fagocitose é uma ação de defesa do organismo realizada pelos glóbulos brancos do sangue, que absorvem corpos estranhos ao organismo de modo a neutralizá-los. No caso do nosso sistema imunológico, isso é de crucial importância, mas nesse âmbito da experiência, em que o estranho deve ser assimilado em sua dimensão de alteridade, de um ser-outro em relação a nós, temos a idéia de que se trata de uma espécie de defesa patológica em relação àquilo que, na verdade, deveríamos nos apropriar de modo a enriquecer o âmbito de nossa concepção de mundo já estabelecida.

Ao longo de 13 anos como professor universitário, pude notar, desde os primeiros semestres em que lecionei para alunos de uma faculdade particular em Belo Horizonte, que a experiência didático-pedagógica pode ter uma voz bastante fraca para o professor. É muito claro que sempre se aprende muito em relação aos conteúdos e habilidades que são trazidos aos/às alunos/as, pois a exigência de traduzir o que se sabe para favorecer a compreensão de outrem sempre leva a uma nova formulação dos conceitos, principalmente diante de questões levantadas na sala de aula. Quero me referir, entretanto, à experiência em termos de práticas didático-pedagógicas, de relacionamento com os/as alunos/as e das propostas e princípios que norteiam a atitude como facilitador/a do aprendizado. Nesse plano, creio que o professor, no início de sua carreira, tende a aprender, por si mesmo, a adequar a carga de conteúdos ao tempo disponível, levando em conta as capacidades e limitações de aprendizado dos alunos. Passado um certo tempo de adaptação -- que nem sempre é índice de algo bem sucedido --, creio que sempre se corre o risco de um estagnação deveras prejudicial, em que a experiência em sala de aula pode se tornar bem pouco significativa. Vejamos por quê.
O primeiro fator, mais evidente, é a recusa do/a aluno/a em fazer críticas devido ao medo de retaliação, ou de simplesmente ofender o/a professor/a, o que tende a inibir sistematicamente a expressão de questionamentos sobre o trabalho docente. A depender do tipo de instituição em que se trabalha, podem se passar vários e vários anos sem que nenhum/a aluno/a tenha a suficiente coragem/disposição para exprimir uma crítica que tenha sido pensada por vários/as outros/as.
Quando o questionamento sobre a mensagem didática é trazido à tona, a posição hierárquica típica da relação professor/a-aluno/a tende a induzir a interpretação da crítica como situada no mesmo plano da disparidade de grau de conhecimento, que está em jogo no esforço de ensino-aprendizagem. Uma vez que os/as alunos/as estão em uma posição de busca por um saber que o/a professor/a já possui, e considerando as exigências institucionais de aprovação, é muito fácil para quem conduz o processo de aprendizado ceder à tentação de desqualificar uma crítica com a idéia de que se trata de um deslocamento indevido de seu objeto. Em vez de questionar sua própria falta de determinação para o aprendizado, o/a aluno/a tenderia a criticar a proposta de ensino. Eu não nego que isso ocorra de fato, e até freqüentemente. O grande problema me parece residir numa tendência a sempre e somente pensar que se trata desse tipo de estratégia defensiva por parte dos/as alunos/as. Um de seus complicadores é o fato de que muitas vezes o/a aluno/a não possui o suficiente discernimento e meio de expressão adequado para traduzir, em uma formulação adequada, sua percepção de que algo está ruim. Muitas vezes só lhe é possível dizer “Essa aula é chata”. Diante de um posicionamento como esse, é muito fácil ao/à educador/a pensar que se trata apenas de uma indisposição por parte de quem “já não gosta de estudar”. O raciocínio é simples: “Se o problema foi expresso em termos emocionais, seu fundamento também o é”.
Eu creio que, mesmo diante de uma crítica infundada, inadequada como avaliação objetiva do processo de ensino, é necessário o/a docente se perguntar: “Em que medida meu trabalho contribuiu para que essa percepção equivocada surgisse”. Não que todos os problemas que surjam em uma sala de aula tenham como origem a especificidade da proposta didático-pedagógica, mas sim que se deve aproveitar estes momentos como indicadores de algo que se poderia fazer para melhorar a proposta educativa ou contornar/minimizar problemas e deficiências oriundas de fatores extraclasse.
Outro fator que dificulta bastante aprender com experiência didática é o fato de um resultado muito ruim em termos de aprendizado por parte de uma turma, digamos, de 50 alunos, não significar, necessariamente, um problema com o material didático, nem com o trabalho de exposição do conteúdo.  Já se sabe claramente que cada turma tem uma unidade própria, constitui uma espécie de personalidade coletiva, de modo que, embora tenha havido, por exemplo, 40 resultados muito decepcionantes em uma classe, em um cenário maior, de 3, 4, 5 ou mais turmas, pode-se averiguar melhor a validade dessa proposta didático-pedagógica. Minha própria experiência me mostra claramente que, em relação ao mesmo conteúdo programático e forma de exposição, turmas podem ter resultados muito distintos, mesmo sendo do mesmo curso e do mesmo período da grade curricular.
Por fim, mas não menos importante, está a própria auto-imagem do/a professor/a, que se percebe como aquele/a que detém saberes e habilidades que qualificam sua própria atividade como tal. O questionamento acerca da validade de sua proposta didático-pedagógica tende facilmente a ser traduzida como uma relativização de seu lugar de quem possui o conhecimento e tem como tarefa transmiti-lo.
Diante disso tudo, eu digo que para o/a professor/a realmente aprender com a experiência, ele/a precisa ser bastante ativo/a em relação a ela, ou seja, não apenas dar ouvidos às críticas que aparecem e interpretar de forma progressista as formulações inadequadas delas, mas perguntar acerca da adequação de seu trabalho, procurar saber como é sua recepção, mostrando-se disposto/a a acolher as críticas, de modo a programaticamente suspender todo o processo de inibição que normalmente já se instaura nesse ambiente de sala de aula.



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