Os
conceitos de esquerda e direita política encontram diversos fatores que tornam
seu delineamento bastante difícil. Além da evidente pluralidade de elementos
constituintes de toda a dinâmica de orquestração social, econômica, cultural,
religiosa etc., as divergências e contradições nos interesses em jogo sempre
exigem readequações contínuas nos direcionamentos políticos dos grupos que se
sucedem no poder. O exemplo mais claro disso, nas últimas décadas, é o modo com
que partidos historicamente associados a movimentos sociais, como de operários,
trabalhadores sem terra, grupos raciais oprimidos etc., foram obrigados a
realizar ações que aproximam sua linha de atuação a setores tipicamente de
direita, como banqueiros, o grande empresariado e o capital internacional. É
interessante notar que, diante de tais tendências, não apenas se questiona a
coerência ideológica de certos partidos, mas a própria legitimidade de se
pretender definir o que é ser de esquerda e de direita.
Trata-se
de um debate bastante complexo, e que pode ser abordado sobre o um viés mais
estritamente concernido às ciências sociais, ou mais abstrato e filosófico.
Quero hoje apontar apenas um dos fatores ligados à tarefa de definição da
esquerda política, visando contribuir ao debate através da colocação de um
princípio geral de equacionamento do que pode ser usado para tal definição.
Eu
diria que um pilar forte do que define a esquerda é a tarefa de contrariar
linhas iniciais de manutenção de relações de poder excludentes e sua consequente
acumulação de renda, geração de setores sociais marginalizados, desconsideração
de direitos fundamentais de cidadania, de reconhecimento social, público e
cultural etc. Nesse cenário, quero ressaltar a necessidade do foco se dirigir
não apenas a políticas pontuais de distribuição de renda ou de asseguramento de
certos direitos, mas sim de ações orquestradas de modo a romper uma lógica ligada
a todos esses mecanismos de acumulação de poder em suas diversas faces. Isso me
parece extremamente importante, em virtude da necessidade de se
distinguirem políticas tipicamente populistas, que querem remediar situações
precárias no contexto do capitalismo, e as de esquerda
em sentido mais próprio, cuja linha de ação queira intervir de forma mais
substantiva na inércia com que as formas de relações de poder se
perpetuam, reproduzindo-se com uma força realmente difícil de ser rompida.
Ocorre
que, em virtude dessa necessidade de negar o estado de coisas atual, a
esquerda sempre poderá ser vista como perigosamente reativa, em vez de progressista,
uma vez que estratégias de defesa perante a realidade de concentração de renda
e poder — que se sedimentou ao longo de séculos e mesmo milênios — podem facilmente
soar como “artificiais”. A esquerda pode ser sempre estigmatizada como
concernida a ações afirmativas, tal como o politicamente correto em suas faces
mais inadequadas, que tentaria negar uma suposta “verdade” incrustada no
modo como os seres humanos “são”.
Embora
toda estrutura social de poder seja construída, fruto da vontade in- e
consciente dos seres humanos, por outro lado sua pretensa naturalização,
sua transformação em “segunda natureza”, faz com que qualquer tentativa
orquestrada de contrariar tal linha inercial possa parecer “barroca”, “artificial”,
“reativa”. Não que haja um suposto núcleo essencialmente “de direita”,
incrustrado nas relações sociais, mas sim a consideração de que a esquerda “sempre”
se definirá pela contrariedade de um fluxo histórico em que se
sedimentam relações de poder caoticamente reguladas, para além — ou aquém — da
racionalidade representativa de qualquer utopia de humanização das relações
intersubjetivas, seja em escala familiar ou planetária.
Devido
ao fato de ser definida por tal processo de correção da dinâmica
inercial das relações de poder, a esquerda está essencialmente marcada pela dimensão
política num sentido mais próprio. Entendo isso no sentido de que ela
demanda sempre uma organização política suficientemente orquestrada e
racionalmente dirigida para articular os elementos, fatores e atores
envolvidos no espaço público de decisões e de reivindicações. Não é de forma
alguma acidental e contingente que o espectro político de direita, em sua
vertente liberal, sempre privilegie a desregulamentação dos mercados e sempre
apregoe, de uma forma ou de outra, um estado mínimo. Na sua vertente
autoritária, como no caso do golpe de 64 no Brasil e outros na América latina
em geral, embora o poder maciço do Estado tenha sido implantado com toda a
virulência, na verdade, o que temos é apenas a manifestação, no outro extremo,
também da negação da política, no sentido já clássico de que se atinge um
limite para além do qual não há mais política em sentido minimamente aceitável,
fazendo convergir em curto-circuito a deliberação descendente (“de cima para
baixo”) e sua realização compulsória, forçada e violenta.
Diante
disso, eu diria que é importante que os movimentos políticos de esquerda
articulem seu ideário de atuação concreta em sintonia com um discurso
suficientemente bem estruturado, de modo a demonstrar o quanto seu desejo de
intervenção na realidade não apenas justifica mas demanda instituições
robustas, de modo a interferir em e contrariar uma lógica nefasta de empobrecimento
das relações humanas em suas inúmeras fáceis. É necessário demonstrar o quanto
ações baseadas nos princípios de racionalização de determinados mecanismos
econômicos, educacionais e outros não configuram (necessariamente) uma espécie
de “violência” em relação àquilo que os seres humanos são em sua suposta
espontaneidade, mas pelo contrário, trata-se de uma proposta pedagógica em
sentido bastante amplo, de modo a se formarem valores e formas de
conscientização do espaço em comum que caminhem no sentido de reconhecimento do
direito de todos a uma vida digna.
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