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sábado, 16 de fevereiro de 2013

Sublime catástrofe

Duzentas e oitenta e duas pessoas. Todas devidamente assentadas, após pagarem para ouvir um recital de piano. O seu recital. Você deverá tocar, de memória, uma peça em três movimentos que somam cerca de 36 minutos de execução. São centenas, milhares de notas. São dezenas, centenas de agrupamentos melódicos, fraseados, encadeamento de acordes, tendo o peso de uma entidade de direito próprio, cuja inspiração e expiração conformam o hálito da música, insuflando vida a todos os átomos de notas que habitam os orbitais de seus pentagramas. Proporcional à dificuldade de mediar a complexidade da partitura e o que será ser ouvido e sentido pela plateia, tem-se a possibilidade do nervosismo, da tensão de cumprir todo o leque de expectativas: não apresentar uma interpretação totalmente literal, mas também não por demais emotiva ou idiossincrática; não se prender aos cânones interpretativos da época em que a música foi feita, mas também não torná-la simplesmente “atual”; não atentar com exclusividade aos eventos pontuais da música, mas também não priorizar uma visão de sobrevoo, global — e várias outras dicotomias que colocam “na parede” quem se põe entre o banco e o instrumento.

Para enfrentar esta tarefa sabidamente difícil para nossa estrutura pulsional/emotiva, procuraremos algum truque, artimanha ou drible, como por exemplo o de pensar que se a peça fosse executada para cada um dos espectadores em separado, a carga emocional visivelmente diminuiria, e não deveria ser diferente pelo fato de que estão todos juntos, ou, de forma mais elementar, simplesmente procurar esquecer, ignorar, a plateia, fazendo um esforço de concentração e foco absolutos na relação com o instrumento e a música. (Desnecessário dizer que nem todas as pessoas precisarão de tais subterfúgios, mas meu interesse se volta precisamente para quem precisa — que é o caso até mesmo de músicos experientes.) Embora não todas, mas certamente a maioria daquelas estratégias possui em comum o fato de tentar negar astuciosa- e convincentemente a realidade contida no peso da expectativa do olhar de centenas de pessoas, dentre as quais fatalmente haverá algumas com conhecimento técnico suficiente para perceber os menores deslizes e imprecisões. Importa saber, investigar e, mais propriamente, instigar a evidência do que é propriamente o espetáculo: o que se espera ver como impactante, incomum, novo, diferente, que não apenas satisfaça a expectativa, mas a ultrapasse, tornando aquele momento efetivamente único?

Todo o instrumentista sabe que deve colocar-se não apenas no lugar de quem toca o instrumento, mas também de quem ouve, ou seja, deve ser espectador de sua própria prática musical. É preciso um distanciamento em relação ao puro fazer, assumindo o ponto de vista de quem julga, aprecia, critica. Em uma oscilação bem sucedida entre esses dois papéis, corrige-se uma perspectiva pela outra, em que cada uma possui seu grau e forma de objetividade e também de subjetividade na relação com a música. Não é difícil perceber que a presença de um grande número de espectadores reais faz deslocar de forma vertiginosa o centro gravitacional dessa dialética, fazendo com que um dos polos assuma um peso e uma força de atração forte em demasia.

Quando se acompanham as exibições dos melhores ginastas nas olimpíadas, em que a excelência das apresentações está bastante acima da média, fica muito evidente que as diferenças decisivas se darão, em larga medida, não pela qualidade da apresentação, mas sim pelos erros. As notas já são tão expressivamente altas, próximas de 10, que as variações de décimos ou centésimos dependem de um olho clínico para captar sutilezas na performance, de tal modo que a diferença fundamental é dada por um erro evidente, grosseiro, que marca para baixo, exclui, enquanto os 3 ou 6 primeiros lugares irão se diferenciar minimamente um do outro. A menos que haja uma performance bastante inovadora, arrojada e perfeita, e considerando o profissionalismo abundantemente repetidos nas apresentações, o mais sonoro “Oh!!” ficará por conta de uma queda repentina, de uma falha brusca e decisiva, de um passo em falso na trave etc., momento em que o impacto na audiência tanto maior será quanto mais o atleta possuía chances reais de vencer a competição.

Para além das infinitas diferenças nos complexos afetivos individuais, que singularizam a resposta a essa circunstância de cobrança de uma performance perfeita, ou pelo menos bem realizada, está em jogo uma espécie de curto-circuito na produção de uma verdadeira excepcionalidade, de algo que afirme de forma cabal e tangível a radicalidade do espetáculo, satisfazendo a expectativa ao romper uma de suas faces e afirmar a outra. A dimensão voyerista do espectador é inserida intimamente na apresentação, trazendo consigo toda sua demanda pornográfica de um desastre espetacular iminente, que confirma, em seu caráter de exceção, de falha admirável, a substância humana que é consumida nas execuções “quase perfeitas”. O fracasso expõe as vísceras do que se apresenta sublimado na face cristalina que, de tão polida, diferencia-se em frações de milímetros. Nesse sentido, o nervosismo nessas situações típicas de enfrentamento do olhar das multidões é menos índice de recusa de errar do que a produção subjetiva antecipada de uma diferença radical entre o comum e o espetáculo, ao romper de forma emocionalmente explosiva uma outra diferença, a saber, entre quem faz e quem aprecia/julga/critica. O olhar extasiado do espectador não cobra apenas a perfeição, mas também provas contundentes de que ela tem valor, que tanto mais é evidenciado, quanto mais a falha, o erro e o desastre colossal entram em cena. O palco onde ambos os protagonistas (a perfeição e a falha retumbante) irão atuar em conjunto é a autoconsciência do artista (ou de quem mais assumir um papel análogo), e um de seus ruídos mais ensurdecedores será propriamente a tensão emocional do nervosismo.

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sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

O sexual como desvio


Alguns discursos despertam mais interesse em função dos argumentos, bases e pressupostos conceituais em que se apoiam — bem como também dos interesses e aspectos ideológicos que carregam —, do que propriamente em virtude do conteúdo de suas afirmações, ou seja, do que pretendem defender explicitamente. Este me parece o caso do que disse o pastor Silas Malafaia em uma entrevista concedida a Marília Gabriela no dia 3 de fevereiro de 2013 (acessível nesse link), que recebeu diversos comentários e posicionamentos críticos, dentre os quais o de um doutorando em genética, Eli Vieira (cujo vídeo pode ser visto nesse link). Meu objetivo é propor outra resposta a Malafaia, levando em conta alguns dos argumentos apresentados por Vieira, mas seguindo uma perspectiva psicanalítica.

A parte da entrevista que nos interessa é o segundo bloco, em que o assunto é o posicionamento de Malafaia sobre a homossexualidade. Trata-se de um discurso claramente marcado pela intolerância, pelo desejo de exclusão do que é diferente em relação a formas de vida hegemônicas, pela recusa deliberada de amparar a quem é historicamente submetido a violências simbólicas e físicas. Nesse sentido, coaduna-se com diversos outros provenientes de setores reacionários da cultura. Cada um deles, entretanto, recorre a diferentes apoios para se sustentar, que variam ao longo do tempo, renovando-se em virtude da mentalidade das diversas épocas, de forma que é interessante atentarmos para as mutações de tais estratégias de estruturação do discurso. Elas ajudam a entender o modo com que estes posicionamentos buscam apoio na sociedade.

A primeira questão a se tratar é: por que um líder religioso evangélico recorre tão enfaticamente a uma suposta confirmação genética de que “ninguém nasce gay”? Por que é tão importante para ele que a homossexualidade seja tomada apenas como fruto de uma escolha? — Ao propor-se que não existe nenhuma ordem biológica prévia que induza à opção homossexual, segue-se a conclusão de que cada um será responsabilizado integralmente por ela. Além disso, tem-se todo o espaço desejado por ele para as possíveis práticas de conversão, sejam elas religiosas ou de psicoterapia, sem que com isto se incorra no perigo de ser criticado por contrariar algo “de natureza”. Por outro lado, este mesmo passo argumentativo tem interesse, em virtude de que a opção heterossexual não é dita como sendo de natureza, mas sim a condição biológica de ser homem e de ser mulher. Assim, teríamos, em princípio, um espaço para dizer que todas as opções sexuais seriam fruto da relação dos seres humanos, tomados em seu substrato biológico, com todo o conjunto dos elementos culturais de nossa formação como indivíduos. Essa consequência, todavia, não cabe no discurso de Malafaia, pois ele deduz o comportamento homossexual como um desvio em relação àquilo que a condição biológica de ser o homem ou ser mulher já nos leva a conceber: como ligada aos desígnios divinos de constituição da família e da geração de filhos. Da ordenação genética que resulta na condição física de ser mulher ou ser homem é deduzida uma suposta naturalidade da opção heterossexual, que espelharia uma finalidade sagrada.

Uma vez que o apoio argumentativo do pastor envolveu a ciência da genética, o doutorando Eli Vieira responde, fundamentalmente, com dois princípios: 1) resultados de pesquisas científicas demonstram que haveria, sim, bases genéticas para a opção homossexual; 2) isso, por outro lado, não autoriza o inatismo que Malafaia parece advogar, em virtude de que hoje já teríamos um consenso de que a opção hétero ou homossexual “e suas variações” seriam decorrentes de uma base genética e a interação com o meio social.

Em relação ao primeiro princípio, a argumentação baseia-se no fato aparentemente decisivo de que, em média, estudos mostram que gêmeos monozigóticos (que possuem alta semelhança em sua estrutura genética) têm a mesma predileção homossexual em 47% dos casos, enquanto nos gêmeos dizigóticos (menos semelhantes geneticamente) a taxa é de apenas 13%. Diante disso, conclui-se que existem bases genéticas para a preferência sexual. (Não vou levar em consideração outros argumentos, como a da semelhança de determinadas regiões cerebrais entre homens homossexuais e mulheres heterossexuais, e muito menos a sensibilidade maior de homossexuais em relação a certo odor masculino, pois eles me parecem por demais questionáveis.) Ao contrário do que diz o autor, eu não creio que a conclusão seja “simples assim”. Que certa quantidade de estudos aponte uma diferença de 34%, em média, da semelhança de preferência sexual entre os dois tipos de gêmeos já é, em si, um resultado parcial, historicamente delimitado, circunscrito aos países em que elas foram realizadas. Em outros contextos históricos, como a idade média ou sociedades com regimes de tolerância sexual muito distintos, em que a poligamia, por exemplo, fosse algo totalmente disseminado e vários outros fatores, podemos supor que esses resultados poderiam ser bastante diferentes. Considerando, entretanto, apenas estes dados disponíveis, concluir que essa diferença de 34% comprove que existe base genética para a preferência sexual é uma interpretação perfeitamente possível, mas não a única.

Uma vez que a predileção sexual a ser tomada como dado da pesquisa já será fruto da interação com o meio social (nem que seja apenas no âmbito da família), isso já significa que ela já não demonstra apenas o fator genético como sua configuração, com o que o próprio Eli Vieira concorda e até o enfatiza, considerando — de forma bastante pertinente — a relevante diferença entre a identidade de gênero e preferência sexual. Um desses fatores de complexidade da interação social é o fato de que os processos cognitivos e de constituição da identidade subjetiva iniciais são fortemente marcados pelo impulso mimético, de imitação e identificação com e pelo outro. Tal como até mesmo Aristóteles já reconhecia, os seres humanos aprendem inicialmente a através da imitação, e Jean Piaget demonstrou o quanto a capacidade mimética é de fundamental importância para a formação cognitiva, lúdica e simbólica (veja-se A formação do símbolo na criança). Estudos psicanalíticas recentes, como o trabalho de Paulo Carvalho Ribeiro (veja-se O problema da identificação em Freud), indicam o quanto a identidade sexual é marcada essencialmente pelos processos de identificação masculina e feminina no núcleo familiar. Nesse sentido, uma pergunta a se fazer em relação àquele resultado das pesquisas seria: o quanto a semelhança de configuração genética afetaria de forma decisiva a influência deste fator mimético na relação de identificação entre os gêmeos? Em outras palavras: como se pode saber se a proximidade genética influencia diretamente a opção sexual ou se ela o faz fundamentalmente através da mediação desse fator de relação imitativa, mimética, com o irmão gêmeo? Essa questão poderia ser respondida de modo algo satisfatório se os estudos levassem em conta, de forma significativa, gêmeos monozigóticos educados por famílias diferentes (separados após o nascimento), de tal forma que esses fatores de identificação mimética recíproca não entrassem em jogo. Se, mesmo sem tal interferência, aquele percentual se mostrasse elevado, então teríamos mais um motivo para dar-lhe crédito, embora ainda assim poderíamos questionar sua validade final, definitiva, não apenas segundo um princípio de filosofia da ciência de que nenhuma teoria científica está comprovada de uma vez por todas (veja-se, por exemplo, Thomas Kuhn, A estrutura das revoluções científicas), mas principalmente devido à complexidade radical nos fatores que convergem para o comportamento humano, complexidade com a qual o próprio geneticista concorda.

O grande problema com tais pesquisas, entretanto, está menos na sua dimensão conclusiva do que no modo como a opção sexual é “contabilizada”. De um ponto de vista psicanalítico, o comportamento sexual é apenas uma das faces da sexualidade, a mais “visível”, e que, exatamente por isso, está mais sujeita a constrangimentos sociais objetivos. Quando Freud concebe a estruturação subjetiva a partir da sexualidade, vemos que a atração ou repulsa por um sexo ou por outro ou pelos dois é resultado, consequência, de uma série de fatores ligados às fantasias in- e conscientes, aos complexos imaginários de identificação com a mãe e com o pai, todos eles decorrentes de formas altamente individualizadas de assimilação dos efeitos psíquicos das estimulações corporais na primeira infância. O comportamento sexual, e mesmo o próprio prazer ou desprazer com o contato com outra pessoa, é apenas a ponta do iceberg, que se sustenta sobre uma grande massa de elementos altamente instáveis, móveis, contraditórios, flutuantes, efêmeros, que se alternam ao longo do tempo etc.

Se assim é, então podemos falar de diversas vertentes, versões, da sexualidade (mesmo no registro de uma única opção de “comportamento sexual”), em virtude do fato de que, tal como os estudos clínicos da psicanálise demonstram, existem inumeráveis formas de configuração de fantasias sexuais que giram ao redor da prática concreta. Uma mulher heterossexual pode nutrir várias fantasias homossexuais e/ou bissexuais, assumindo (na imaginação) tanto o papel masculino quanto feminino, ou os dois alternadamente, como também pode vir a praticar sexo seguindo cada uma dessas fantasias, ou simplesmente não gostar de praticar, mas apenas de vivenciar na imaginação etc. Parece-me bastante difícil um estudo de influência genética incidir, por exemplo, nas diferenças fantasísticas que estão na base da predileção de um homossexual masculino em assumir apenas a posição passiva, em contraste com um outro que se coloca apenas na posição ativa, como também contrastando com quem é bissexual, tomando apenas uma posição passiva na relação com homens, mas se relacionando ativamente com as mulheres. Cabe ainda falar de diversas formas de auto-erotismo, de estimulação masturbatória com o próprio corpo, que não envolvem necessariamente uma imagem consciente de outra pessoa. — Poderíamos gastar um longo espaço aqui mostrando a enorme variabilidade destes complexos fantasísticos, que se tornam mais difíceis de manusear quando vemos que para cada fantasia conscientemente vivida, descortina-se a influência de várias outras, inconscientes, marcadas essencialmente por seu teor contraditório, múltiplo e de desvio em relação ao que cada um consegue admitir para si.

Todas essas vertentes e versões da sexualidade podem ser — e normalmente o são em algum grau — subversões à ordem estabelecida, ou seja, podem romper parâmetros de normalidade. Ocorre que elas não precisam se mostrar como rupturas drásticas para não serem apenas subversões, mas sim perversões, pois seguem caminhos muito próprios, densos, conflitivos, desviantes. Todas eles são guiados por um princípio de gozo, de um prazer incompreensível em seus fundamentos, de tal forma que a opção homossexual seria, sim, um desvio — e aqui, de forma um tanto surpreendente, concordamos com Malafaia: só que se trata apenas de uma forma de desvio, pois, considerando a multiplicidade fantasística indefinida das outras vivências sexuais, todas as outras também são. O desejo heterossexual, por mais estranho que pareça, também é um desvio, na medida em que é nutrida por fatores subjetivos íntimos não determinados pela reprodução. Junto com Freud, dizemos que nos seres humanos a reprodução é sexuada, mas a sexualidade não é reprodutiva, tendo seu princípio motor a busca de prazer através das mais variadas e conflitivas formas de elaboração fantasística do objeto de desejo. — Haveria que se considerar, ainda, a delicada questão do quanto esse caráter desviante da sexualidade significa sua mutabilidade infinita, de modo que fizesse sentido dizer de uma reorientação sexual em sentido pleno. Em vez de considerar a possível influência genética na opção sexual como seu núcleo, ao redor do qual o comportamento girará, prefiro considerar os extratos inconscientes mais profundos das fantasias, a que se sobrepõem outros, de modo que a superfície do complexo fantasístico sexual deverá fornecer a base para a necessária autocompreensão em relação a nossas motivações mais profundas, as quais apresentam uma fixidez e força análogas às de natureza, biológicas. A predileção sexual seria, assim, fruto de escolhas, "opções", mas não conscientes em seu fundamento.

A partir de tais considerações, dizemos que o inimigo mais próprio de discursos afins ao do pastor Silas Malafaia não é, tão especificamente quanto aparece em sua superfície, a homossexualidade, mas sim o caráter subversivo e pervertido do sexual, que constitui, segundo a teoria psicanalítica, a base (inconsciente) de todas as motivações conscientes em relação ao mundo. O homossexual representa aos olhos deste discurso e mentalidade conservadores o “perigo” da evidência consumada de uma força subjetiva que é definida por romper definições, podendo ser combatido “à luz do dia” em nome de um desejo de constranger ao máximo as vias de derivação e subversão das normas, padrões e valores socialmente estabelecidos.

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sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Abstração naturalista

Desde o gesto seminal de Marcel Duchamp ao enviar um mictório como “obra de arte” para uma exposição, tornou-se evidente que o impacto na percepção do público, tanto especializado quanto leigo, constitui uma parte integrante da própria obra, que não se restringe apenas às suas características físicas, temporais ou imaginárias suscitadas em sua leitura, audição ou encenação. A forma estética, claro está, excede em muito a forma plástica, musical, cinematográfica, poética etc., abrangendo como elementos seus de direito próprio as reações de toda ordem que a peça proporciona. Joseph Beuys chamou de “plástica social” esta tendência da arte contemporânea de não apenas mobilizar certas formas de receptividade, quanto também de fazer com que um determinado artefato ou um simples gesto transgressor somente seja passível de compreensão como esteticamente relevante pelo fato de fazer orbitar ao seu redor tais reações. Eduardo Kac assumiu explicitamente tal perspectiva ao dizer que suas obras, como Alba Green, consistem não apenas na intervenção tecnofílica em determinado âmbito, biológico ou não, mas também na própria reação do público.

Neste processo de ampliação e de agregação de elementos alheios ao âmbito específico do artístico como fazendo parte de sua dimensão estética, tornou-se igualmente incontestável que a esfera da grande arte — aquela que se caracteriza pela perseguição resoluta de sua coerência interna, de sua linguagem ousada, hermética e de difícil compreensão — não se define apenas pelo seu próprio movimento, mas também pelo modo com que nega, recusa e se afasta da, cultura de massa. Embora seja questionável o quanto o impulso da pop art é definido como uma crítica irônica aos elementos iconográficos da indústria cultural, ou se se trata de uma apropriação em certa medida harmônica, o fato é que a arte e cultura de massa formam, como diz Adorno, dois lados de uma totalidade que se cinde, divide, em dois polos, cuja diferença deve ser necessariamente levada em conta. (Devido à delimitação de espaço, deixaremos de lado as questões relativas a toda esfera da cultura popular, que, embora se aproxime dos dois polos em alguma medida, pode ser definida com razoável clareza como uma realidade cultural específica)

Por mais que se recuse uma diferenciação drástica, qualitativa, entre cultura de massa e arte, é inegável que existem diferenças de grau com que músicas, livros e filmes atendem a um apelo comercial, de satisfação de necessidades culturais imediatas por parte do público. Mesmo em um âmbito bem característico de indústria cultural, como do rock’n’roll, seus partidários não hesitam em diferenciar músicas mais e menos “comerciais”. Devido àquele movimento de definição do artístico através da inter-relação de diversos aspectos, dentro os quais está de forma paradigmática a polarização entre cultura de massa e arte séria ou autônoma — para usar as designações de Adorno —, creio que algumas obras contemporâneas têm sua recepção marcada essencialmente pelo modo com que negam satisfações, prazeres e sensações de toda ordem associadas ao imediatismo da cultura de massa — e não fundamentalmente pelo modo com que colocam, instituem, um complexo estético de direito próprio.

Creio que este seja o caso de dois filmes lançados em 2012: Amour, de Michael Haneke, e O som ao redor, de Kléber Mendonça Filho. — Ambos receberam vários prêmios muito significativos, dentre eles a palma de ouro do festival de Cannes para Amour, e o prêmio da crítica do festival de Gramado, para O som ao redor. Apesar de alguns aspectos negativos pontuais, todos os comentários que li sobre os dois filmes foram francamente favoráveis.

Tente encontrar algum texto sobre esses filmes que não contenha a palavra “retrato” ou o verbo “retratar”, bem como a palavra “realidade”. De fato, ambas as peças são essencialmente marcadas por um realismo naturalista radical. Cada uma, a seu modo, promete algo com conteúdo estético “impactante”, mas se retrai em relação a essa expectativa. O título “Amor”, no contexto cinematográfico, pode sugerir, se não sensualidade, volúpia e paixão, pelo menos ternura, afeto e enlevo afetivo/espiritual. Ao longo do filme, entretanto, essa expectativa se desfaz. Acompanhamos o esgotamento das forças vitais de uma professora de piano octogenária, acometida por um derrame, sendo cuidada e assistida por seu marido também idoso. Tudo no filme é escasso: não há luz, brilho ou cores vivas, mas também não penumbra, mofo ou escuridão; a trilha sonora incidental é extremamente reduzida, pontuada apenas por apresentações de música internas às cenas; não há propriamente uma narrativa, com um encadeamento ficcional, mas sim o acompanhamento de uma trajetória de vida de dois personagens em um determinado momento de suas vidas.

O som ao redor também é marcado por precariedades, a começar pela notória ausência de atores profissionais ou já conhecidos do público. Como o título já sugere, trata-se de acompanhar cenas e situações corriqueiras e cotidianas durante certo período de tempo, sem que nada sobressaia como alguma espécie de “riqueza” narrativa. O início do filme, análogo ao título do filme de Haneke, promete algo por assim dizer enfático como testemunho histórico-cultural, ao apresentar uma série de gravuras em preto e branco de personagens e lugares antigos. Em contraste com isso, logo se mostra uma cena absurdamente corriqueira de uma menina andando de patins sendo puxada por um garoto em uma bicicleta. De forma emblemática, o título mostra bem o que se dá no filme, no sentido de que o que interessa é o que gravita ao redor de uma linha central perseguida pela própria câmera. Importa, de fato, uma coleção de fatos menores ouvidos, vividos e presenciados por cada personagem. Explicitamente não há uma nucleação narrativa minimamente robusta de modo a sustentar o interesse que o filme tenha como obra de arte.

Ambas as obras parecem ter sua virtude pelo fato de negarem um vício, ou seja, terem a ousadia de não fornecer aos espectadores aquilo a que já estão acostumados no brilho grandiloquente dos filmes de Hollywood. Se nestes últimos presenciamos a inflação de elementos cenográficos, afetivos, de narratividade de cortar o fôlego, opulência cromática, musical etc., naqueles outros temos um movimento exatamente oposto: de abstração categórica do que ultrapasse quase uma radiografia do real, expressão utilizada pelo próprio diretor Mendonça Filho. Alguém que tenha convivido com uma pessoa idosa recém acometida por AVC, é quase impossível não formular mentalmente a frase “é assim mesmo que acontece” durante uma boa parte do filme de Haneke, como também é o caso de quem já participou de alguma reunião de condomínio, diante da respectiva cena no filme brasileiro. A palavra de ordem, seguida irrestritamente, do início ao fim em ambas as obras, é: não fazer concessões ao espectador. E por isso se entenda figurar qualquer coisa que transcenda o plano imanente de um realismo naturalista.

Se a cultura de massa é marcada pela hipertrofia de elementos cinematográficos, logo a emergência dos filmes em terceira dimensão é algo emblemático, gerando mais um elemento de cooptação vivencial do espectador. Em Amour, creio que se dê algo também simétrico a isto, pois a escassez de meios cenográficos e de narrativa faz com que o filme tenha seu sentido dado por algo não propriamente bidimencional, como é o caso da tela, mas sim unidimensional, a saber, o tempo. Em vez de acrescentar uma dimensão, o filme a retira. É representativo para isso o fato de que a primeira sequência que vemos é o final, ou seja, policiais entrando no apartamento e encontrando o corpo de Anne já em estado de decomposição. Todo o restante será visto, então, como em retrospecto. Considerando a extrema escassez de quaisquer outros elementos, o início funciona como uma “vacina”, que abstrai a expectativa de algo transcendente às situações vividas, ou seja, previne o interesse que normalmente se tem pela novidade da trama dos fatos. Ninguém precisa ficar com medo que alguém diga que “ela morre no final”, embora haja, sim, uma surpresa, mesmo que enfaticamente preparada a ponto de ser previsível. De forma análoga a como o amor estampado no título se apresenta descarnado de quase todos os elementos que poderiam configurá-lo, a vida é apresentada em sua diminuição incessante. Tudo conflui para tornar o tempo, em seu escoamento abstrativo, o núcleo temático do filme, cuja virtude estética, assim, consistirá em recusar, de forma auto-consciente e deliberada, tudo o que a cultura de massa agrega em suas obras.

Em vez do cinema de ilusões multicoloridas e tridimensionais, o que temos nessas duas obras é, de fato, uma radiografia descarnada do real em sua evidência acachapante. Considerando a expressiva premiação de ambas, parece que, realmente, o mundo quer celebrar esse olhar des-iludido de si mesmo.

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sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Não há argumento contra um tiro de fuzil

Escrever ensaios curtos sobre realidades políticas é sempre muito difícil em virtude do fato de a extensão do texto solicitar um corte sempre muito drástico em relação ao objeto, que sempre conterá uma quantidade infinita de variáveis que precisam ser abstraídas, e muitas delas são de crucial importância, mas que só poderiam ser levadas em conta com uma extensão de argumentos bem maior. Apesar dessa dificuldade, creio que não se deva abdicar do desejo de falar brevemente sobre algum aspecto de determinada realidade histórica. Nesse sentido, gostaria de falar do conflito entre Israel e a Palestina, a partir de um princípio de análise que, a bem dizer, não é novo, mas que enseja reflexões que devem sempre ser retomadas.

Três são as dimensões que quero levar em conta: o caráter religioso do conflito, a franca superioridade militar de Israel e a realidade histórica do aumento sucessivo dos territórios palestinos ocupados desde a fundação do estado judaico. Há algo de comum entre eles que se mostra na dinâmica histórica não apenas do conflito, como também das narrativas sobre ele, na história que é contada e que inclui, também, as opiniões, as tomadas de posição política a favor ou contra um dos lados. Considerando a necessidade imperiosa de sempre, de novo e mais uma vez estabelecer um diálogo, ponderar o que seria de direito e portanto justo para cada um dos lados, todos aqueles três fatores parecem convergir, de uma maneira ou outra para algo que Theodor Adorno identificou como sintoma do capitalismo tardio: a ausência de mediações.

Na concepção adorniana — que na verdade não me parece válida em todos os seus momentos —, a situação do capitalismo de alta concentração de renda teria suprimido vertiginosamente a mediação da livre concorrência, de tal forma que a produção, circulação e o consumo das mercadorias ficariam menos sujeitos à complexa e intrincada área da oferta e da procura, mas sim cada vez mais a um movimento transnacional, balizado pela concentração de capital exorbitante no âmbito planetário. Uma outra aplicação dessa ideia seria a de que nos produtos de indústria cultural o espaço próprio da mediação individual do gosto, do juízo que se faz sobre a qualidade da obra, teria cedido lugar a uma conexão imediata entre o interesse de grandes corporações (como Hollywood, grandes gravadoras, redes de televisão etc.) e a necessidade de cada trabalhador de obter relaxamento e distração o mais mecânicos possíveis, de modo a poder voltar a trabalhar no dia seguinte. Em ambos os casos, uma série de mediações, de conexões, de modos de interpretar, re-conduzir e elaborar caminhos alternativos é sistematicamente reduzida ou mesmo suprimida.

Quero aplicar esta ideia a cada um dos 3 elementos que citei antes, começando pela dimensão religiosa. Para falar dela, uso um conceito da experiência estética que se tornou bastante significativo nas reflexões filosóficas do século XVIII: “sublime é aquilo em relação ao qual tudo mais é incomensuravelmente pequeno”; com essa definição, Kant codificou a sublimidade como algo que ultrapassa infinitamente as dimensões e o poder de resistência humanos. O céu estrelado, com suas inumeráveis estrelas que se desdobram em uma infinidade de galáxias é um exemplo de algo sublime, pois na tentativa de apreendermos esse cosmos como um todo, como uma unidade, nós sempre nos perdemos. A percepção do sublime é prazerosa, dentre outros motivos, exatamente porque faltam elos de conexão suficientes entre nós e este infinito que se descortina num abismo inapreensível. Diante desta enormidade que não podemos captar com nossas dimensões corpóreas, experimentamos uma espécie de estremecimento, um certo desprazer, em virtude da percepção de nossa pequenez. Por outro lado, segundo Kant, esta infinidade que nos escapa acaba sendo percebida como uma espécie de reflexo da infinidade de nossa própria razão, de nossa própria determinação como seres racionais. Este segundo momento é caracterizado por um prazer, mas que Kant chama de negativo, pelo fato de que é antecedido por um desprazer, ligado ao nosso fracasso em nos medirmos com aquilo que escapa a todas as medidas possíveis.

Não é difícil perceber o que essa descrição da experiência do sublime é perfeitamente afim ao espírito religioso. Muito do prazer, do êxtase, do enlevo espiritual consiste precisamente no fato de nos conectarmos com um ser que ultrapassa todas as medidas humanas e está muito além de nós, mas — e isso é de suma importância — não simplesmente é tomado como virando totalmente as costas para nós, permitindo algum tipo de proximidade. Tal conexão possível, entretanto, sempre dependerá de um salto cognitivo, de uma disposição pessoal de engajamento pela fé, pelos rituais de sacrifício, pela obediência a doutrinas etc. — Nesse sentido, o fato de que ambos os lados do conflito entre Israel e Palestina tomarem aquela terra como sagrada faz com que seu mérito, o princípio de justiça que norteia o discurso sobre ela, esteja ancorado fortemente em uma dimensão de mundo transcendente, que nega as mediações construtivas de aproximação em grau em relação a ela. Como pensar a disposição daquelas pessoas de "negociar" diplomaticamente partes de algo que tem seu sentido por sua unidade sagrada?

Em franco contraste com a sublimidade religiosa, temos a realidade nua e crua de que o estado de Israel, com poucos anos de sua existência reconhecida pela ONU em 1948, já pôde congregar um arsenal bélico dezenas de vezes superior ao dos palestinos. A cada nova expansão do território judaico, o que se vê é a afirmação de um poder de fogo incontestável, cuja lei estabelece de forma peremptória sua própria validade. Deve-se enfatizar, por outro lado, que esta última está para além do verdadeiro e do falso. Diante de um tiro de fuzil, qualquer argumento é reduzido à insignificância de um sopro de voz. Para que esta imposição ocorra, basta a mais remota manifestação de sobrevida da agressividade alheia. Tal como já se comentou à exaustão, os movimentos mais extremistas de ambos os lados do conflito se nutrem abundantemente da existência de seu correlato. A cada vez que um membro do Hamas vocifera contra a pura e simples existência do estado de Israel, os membros dos partidos de extrema-direita israelenses soltam um sorriso íntimo que dificilmente precisa ser ocultado. É exatamente disso que a direita israelense precisa: quanto mais evidência houver da negação do diálogo por parte do comando palestino, mais a crueza da força bruta bélica pode ser mobilizada. O espaço para ela é cavado precisamente onde a mediação do bom senso, da interlocução e dos princípios de diplomacia política se ausenta.

Intimamente conectado com esta superioridade bélica está a dinâmica histórica das conquistas territoriais israelenses. Ao longo do tempo, elas se colocam como realidades consumadas, em que a reversão se torna concretamente impossível. Os fatos começam a inflar uma realidade pelo modo com que sedimentam quaisquer formas de falsidade, torturas e despropósitos. Exemplo claro é a questão dos refugiados palestinos, expulsos de suas terras devido à expansão territorial judaica. Nas negociações das últimas décadas, sempre se questionou: e como ficam esses refugiados diante de uma perspectiva de paz? Podem eles voltar para suas terras? — Ocorre que, passadas dezenas de anos, não temos mais apenas refugiados, mas sim seus filhos, e filhos de seus filhos, como também esposas e maridos vindos de alhures. Como reverter uma situação que se cristalizou ao redor de um ato de violência, mas cuja solidez sedimentada ao longo do tempo impede qualquer forma a razoável de negociação?

Nesse último aspecto, pareceu-me bastante significativa a posição do jornalista João Pereira Coutinho, da Folha de São Paulo, que falou em sua coluna do dia 22 de janeiro de 2013 que, devido às circunstâncias atuais de imbricação territorial entre israelenses e palestinos, com as diversas colônias judaicas que povoam — invadindo — sempre e de novo a Cisjordânia, a ideia de dois Estados convivendo lado a lado com seu territórios próprios não faz mais sentido. Em um movimento retórico, o colunista diz que as dezenas de livros na livraria frequentada por ele que falam sobre a possibilidade dos dois Estados poderiam ir para a lata do lixo. — Trata-se exatamente disso: absorver fatos consumados como base para raciocínios futuros, de tal forma que cada avanço dos movimentos expansionistas israelenses paute a discussão devido ao modo como se coloca em sua irreversibilidade. De forma análoga a como não discutimos contra um tanque de guerra, também não argumentamos contra fatos, como aliás já nos ensina a velha sabedoria popular.

Esta realidade nua e crua, entretanto, na sua solidez inquestionável, é comprada por vidas humanas. Pelo que se pode ver como saldo de cada porção da realidade percebida como algo já cristalizado, tem-se sempre mais e mais seres humanos sendo consumidos. — Ao redor das feridas causadas pelos sulcos que o tempo cava na existência, coagulam-se os fatos. Diante da inevitabilidade das então formadas cicatrizes, resta esperar que não simplesmente desapareçam, de modo que a planície habitada pelo silêncio do futuro não sacramente o desatino das injustiças perpetradas no passado.

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sábado, 19 de janeiro de 2013

Poéticas do amor

Hoje quero comentar um pequeno texto de Fabrício Carpinejar, “O que nos faz decidir a ficar com alguém”, publicado no jornal Zero Hora, em 15/01/2013. Clique na imagem abaixo para ler a coluna tal como publicada originalmente.



Ao se fazer uma leitura crítica deste texto, é necessário reconhecer desde já sua limitação como uma pequena coluna de jornal, sem nenhuma pretensão mais significativa, tanto em termos poéticos, quanto de visão, por assim dizer, objetiva sobre o amor. Considerando já sua pequena extensão, não se pode “carregar” demais uma crítica com exigências desproporcionais. Apesar dessas ressalvas, creio que a proposta delineie com suficiente clareza uma poética do amor romântico que, esta sim, é bastante difundida e encontra ressonância numa grande parte da literatura mundial e também numa mentalidade compartilhada por milhões de pessoas. Minhas observações, então, caminham no sentido de tomar a proposta do texto de Carpinejar como ilustração de algo realmente significativo como objeto de crítica.

O mistério da força de atração amorosa admitiu, no início da civilização ocidental, na Grécia e em Roma, uma leitura através da ação de deuses, que, de forma análoga à da inspiração dos poetas, insufla no coração dos amantes um calor e uma chama arrebatadores, capazes de nos mover, interna e intimamente, a um outro ser de tal forma que o sentido de nossa atitude e sentimento permanece por demais opaco, e é exatamente esta opacidade que se traduz na transcendência divina. Trata-se do desejo de traduzir o incompreensível no desejo, transpondo para uma metafísica do afeto o quanto se mostram indizíveis a força e as formas com que nos deixamos arrastar por uma torrente de movimentos de alma, de corpo e de consciência. Que tal movimento produtivo admita sua elevação por assim dizer definitivamente sublime com a doutrina cristã, isso nos levaria para outros caminhos, que não podemos minimamente percorrer agora, mas, de qualquer forma, indica uma via possível de refratar as cores tempestuosas da paixão em um plano cristalino de universalidade transparente a si mesma.

Mais 2000 anos após esta experiência fundadora da tradução do amor pela influência de Eros e mais tarde do Cupido, a psicanálise forneceu uma outra espécie de transcendência, mas agora em sentido inverso, como algo que ultrapassa a percepção da experiência cotidiana pelo fato de ser, não mais transcendente, mas sim profundamente incrustado no subterrâneo de nosso próprio ser. A força mágica que antes se atribuiu aos seres sobrenaturais agora é concebida uma espécie de “magia branca” de nosso próprio inconsciente, com seus segredos tão inconfessos quanto indizíveis eram as potências divinas. Em vez da comunicação misteriosa com os poderes celestiais, temos agora a emanação de uma força atrativa, gravitacionalmente imperiosa, dominadora de nós mesmos, cujas razões humilham a nossa própria. Nesse sentido, é característico o uso da ideia de quebranto no texto que comentamos, pois se trata, realmente, de plasmar uma poética de um encantamento a partir das profundezas de nosso inconsciente, tão ou mais misterioso — e por isso mesmo sedutor — que o jogo de forças sobrenaturais.

Nuclear nesta poética da transcendência íntima dos afetos inconscientes é a força do símbolo. Tal como a etimologia desta palavra já indica, trata-se da conjunção (sýn-), da conexão de duas partes que se jogam (-bolo = bállein = lançar), que se movimentam em acordo recíproco, de tal forma que sua unificação desvela produzindo uma força tão enigmática quanto fascinante. Seu poder provém, dentre outros aspectos, do modo com que atualiza um significado ao fazer comunicar planos de realidade, em princípio, desligados, incomunicáveis ou simplesmente alheios um ao outro. É como se o símbolo tornasse possível o escoamento tenso e intenso de forças opacas, que somente são reconhecidas e vivenciadas como tais pelo modo com que sua gravitação recíproca enconta seu fulcro definitivo ao se acoplarem nesta unidade benfazeja que habita os subterrâneos de nosso ser.

Será a partir precisamente desse enlace poderoso que se verá a chama do amor nesta poética, que quer derivar o prolongamento vital do sentimento a partir de um evento originário. O exemplo de colar o brinco se associando, devido a uma magia íntima, a outra colagem, não por acaso situada na infância, produz uma outra, entre dois seres, que desdobram esta conjunção mágica como em uma fileira infinita de espelhos, reproduzindo esta linha inercial de conexões simbolicamente viçosas.

Nesta “pintura”, neste quadro poético de um sopro enigmático inicial, cabe menos perguntar por aquilo que conserva esta chama enigmática acesa, mas sim explicitar, ao contrário, que “pouco adianta” lutar contra sua força ou querer entender sua ação, que impele à atratividade com o outro. A pergunta pela manutenção deste calor inicial seria, naturalmente, índice de uma racionalização anti-poética, que poderia até fazer perder a graça daquilo que, outrora, foi vivido como uma graça divina.

De meu ponto de vista, embora tal perspectiva tenha todo o seu valor no âmbito da autonomia do poético, não deve ser confundida com uma outra possibilidade de construção, igualmente capaz de poeticidade, de nossa ideia de amor, baseada propriamente na ideia de construção. A partir da mesma psicanálise que nutre este romantismo do ímpeto misterioso, podemos dizer de uma dilaceração demoníaca, cindida, contraditória, da sexualidade nos seus extratos mais arcaicos e por isso mesmo profundos. Este aprofundamento contém, na verdade, tanta atração quanto repulsa, traduzindo-se no fato de o desejo ser inapelavelmente acompanhado pelo não desejo, pelas orquestrações contraditórias do eu e de seu universo narcisista, capaz de fazer orbitar ao seu redor forças defensivas tão ou mais fortes do que aquelas que atraem para o núcleo sanguíneo da paixão. — Se assim é, e tudo isso necessitaria de vários outros textos para seu delineamento minimamente satisfatório, então a perseverança do amor, sua continuidade e mesmo seu reforço ao longo do tempo não seriam mais traduzidos por uma inércia causada por um evento primordial, como também não pela tentativa de renovação ou cuidado de proteção de uma chama como se dentro de uma lamparina, mas, bastante ao contrário, pelo modo com que cotidianamente as contradições intra- e inter-subjetivas se articulem de forma criativa, inusitada, insuspeita, ácida, instigante — e uma série de outros aspectos que, eles sim, pontuam a passagem do tempo na cumplicidade mútua de alimentar um sentimento através das diferenças e identidades de dois mundos inapelavelmente contraditórios.

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sábado, 12 de janeiro de 2013

Arte e vida

Quando comecei a estudar artes plásticas, ficou claro para mim uma regra geral: na criação artística, nenhuma regra objetiva (ou seja, relativa ao objeto, ao artefato artístico) é suficiente, por mais complexa e nuançada que seja. Todas as indicações de um enquadramento dinâmico, da centralidade do tema, da busca de equilíbrio dinâmico, da necessidade de não completar as informações pictóricas (deixando ao espectador essa tarefa), e diversas outras podem ser facilmente rompidas em qualquer obra, sem que isso signifique a diminuição de seu valor artístico. Além disso, mesmo que todas sejam seguidas, ainda se está longe de “garantir” tal qualidade estética. Não se nega, com isso, a utilidade de tais princípios, mas a força artística de qualquer obra parece resultar, na verdade, de se seguir uma regra que por assim dizer é anterior, externa ou alheia a todas as outras, sem que, por outro lado, exista pela necessidade de ignorá-las. Tal regra, que, necessariamente, devia ser seguida em cada passo de constituição do objeto me pareceu sempre ligada a uma disposição subjetiva de abarcar todas as outras, de tal forma que suas exceções e rupturas existam sob a égide dessa perspectiva mais profunda, que traça sua própria linha diretriz, mas cuja característica mais essencial está em não se conformar a nenhuma ligada às propriedades objetivas das coisas. Esse complexo de fatores parece muito bem expresso pela ideia de Kant de que o artista deve seguir uma regra que ele mesmo não é capaz de traduzir verbalmente nem para as outras pessoas, nem para si próprio. Além disso, como o filósofo também diz, o que em um talento médio deve ser evitado como um erro, nas mãos de um grande artista se transforma no que dá vida à obra.

Embora a comparação do âmbito estético com a vida em geral esteja sujeita a diversas impropriedades, uma vez que esse movimento analógico pode carregar consigo muitos vínculos falsificadores da questão, eu diria que a vida cotidiana também está repleta de circunstâncias em que quaisquer regras gerais são insuficientes para dizer o que de melhor deve ser feito. Tal como aquelas indicações de enquadramento e equilíbrio dinâmico, por exemplo, não são simplesmente inúteis, mas também não suficientes, do mesmo modo ideias, conceitos, regras e normas de vida devem ser sistematicamente questionadas à luz do que pode ser percebido como um desvio, um erro e uma impropriedade. Na verdade, eu diria que muito do sabor do mundo reside nas exceções, no que questiona sua pertinência, sua adequação ao que já se esperava dele.

Embora seja óbvio, considerando todo o conhecimento sociológico e filosófico que se acumulou em termos críticos sobre a conformação individual a partir da sociedade, é sempre interessante refletir acerca do modo com que uma quantidade virtualmente infinita de regras fundamentam de forma nuclear e inercial nossos modos de vida. Chamou-se de segunda natureza esta curiosa propriedade que a cultura possui de assumir uma estabilidade e regularidade bastante semelhantes aos fenômenos da natureza tomada em seu caráter primário, estudado pela biologia, química, física etc. Muito da dificuldade de ruptura dessa sedimentação cultural provém do fato de que nossa própria percepção do que seria legítimo nela se origina dela mesma. Grande parte do núcleo de nossa subjetividade ganhou robustez e sua própria capacidade crítica a partir do modo como unificamos a nós mesmos e observamos alguma espécie de ordem nas coisas. Desse modo, para além do imenso valor que a estabilidade de mundo produzida por tais normas possui, a habilidade de perceber quando, como e com que frequência devem ser cumpridas constitui uma habilidade de inestimável valor.

Essa perspectiva, entretanto, pode ser facilmente deturpada pelo fato de ser traduzida como uma regra fixada na transgressão. O excesso e a exceção se transformariam como que em um núcleo ao redor do qual tudo passa a girar e se converter numa espécie de fetichismo da ruptura. Esse posicionamento, entretanto, está sempre sujeito à confluência de infinitos valores, nunca se dando de forma tão cabalmente definível pela pura ruptura, pois sempre se mescla a graus e formas de aceitação de padrões. Entretanto, como uma atitude tipificável de alguma forma, possui muito de seu sentido dado pela insistência em seguir uma regra que vigora na medida em que rompe todas as outras.

Aquele ponto de vista estético do agir quer insistir em que vida e arte convergem em seu grau de excelência pelo fato de terem seu princípio constitutivo mais fundamental nutrido por regras que não se fixam no que pode ser estipulado positivamente, seja em termos de normas específicas a serem seguidas, ou quebradas e negligenciada sistematicamente. Dizer que o fundamento dessa disposição subjetiva mais geral é intuitivo não ajuda muito, pelo fato de que intuição sempre apela para algo imediato, em que não podemos nos tornar conscientes de sua operação. De qualquer forma, trata-se realmente de uma capacidade tão inviável de ser descrita quanto os princípios que norteiam a produção de uma obra de arte realmente significativa. Por outro lado, não se trata de algo simplesmente imediato, em virtude do fato de que se enriquece — ou melhor, pode se enriquecer — pelo modo com que observamos a adequação e inadequação dos elementos particulares do mundo àquilo que já esperávamos deles. A capacidade de valorizar tanto as exceções, desvios e erros, quanto o que deve já ser aproveitado, de modo a construir um conjunto cuja harmonia está para além tanto da norma quanto de sua ruptura, isso é o que eu diria que aproxima de forma íntima a arte e a vida.

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sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Progresso enrijecido

O debate sobre o caráter científico das ciências humanas sempre foi dificultado pelo fato de tal conceito ter-se originado no âmbito dos conhecimentos ligados à natureza, como na física, na biologia e na química. Toda vez que se coloca a questão sobre a cientificidade de uma teoria como a psicanálise ou mesmo de um saber mais estabelecido, como a sociologia, a discussão se mostra em larga medida viciada pela concepção das ciências experimentais e matemáticas.

Por outro lado, nem toda comparação dos procedimentos de ambas as esferas é ocioso, uma vez que há vários pontos de contato entre elas, e não apenas disparidades. Tanto o princípio geral de que toda teoria deve se basear em conceitos que ultrapassam a mera descrição factual, quanto também a necessidade de uma sistematização das hipóteses e das conclusões obtidas no enfrentamento com o material empírico, mostram uma proximidade entre os dois tipos de ciência que convida ao estabelecimento de relações analógicas que podem ser úteis para ambos os lados.

Uma pesquisa empírica de biologia, por exemplo, consistindo no levantamento de uma hipótese a ser verificada em um material de teste, pode ser perfeitamente considerada bastante valiosa, mesmo que sua ideia inicial se mostre equivocada. Se se investiga uma suposta associação entre raios ultravioletas e a propagação de um determinado vírus, pode-se concluir que tal vínculo não existe em diversas circunstâncias em que se esperava sua ocorrência. Mesmo que tal resultado signifique o abandono de uma determinada linha de trabalho baseada no uso de tais raios luminosos para o combate a algumas viroses, trata-se de uma conquista do conhecimento, na medida em que trabalhos científicos posteriores já podem tomar tal resultado como indicando um esforço de pesquisa que não precisa ser despendido.

Parece-me representativo, não apenas do aspecto operacional da ciências humanas, mas também de seu “espírito”, de sua mentalidade, que o aproveitamento de resultados negativos da pesquisa seja muito pouco presente. Uma vez que tais saberes, usando-se a clássica distinção de Dilthey, dedicam-se bem mais a interpretar do que propriamente explicar seu objeto, as hipóteses de trabalho parecem inapelavelmente ligadas a algum projeto construtivo, propositivo, de acréscimo de possibilidades de leitura sobre a realidade. Isso não me parece necessariamente um vício, desde que não inclua uma excessiva rigidez da predisposição de apenas produzir um aperfeiçoamento do conhecimento teórico sobre a realidade, deixando de lado ou em segundo plano um trabalho propriamente negativo, de crítica de um conhecimento já estabelecido, de práticas já sedimentadas etc.

Permitam-me usar minha produção acadêmica mais recente como exemplo do que quero argumentar. Já há algum tempo, minha pesquisa tem consistido fundamentalmente em mostrar discordâncias em relação aos princípios mais fundamentais da filosofia de Theodor Adorno, que foi meu objeto de estudo durante vários anos. Tendo assimilado e aceito deste autor diversas perspectivas, temas e conceitos, comecei a considerá-los inadequados à luz de outros estudos de teoria psicanalítica, passando então a produzir artigos e fazer apresentações em congressos que ressaltam tal posicionamento crítico. (Um desses trabalhos pode ser acessado neste link, em que faço um apanhado geral de meu projeto de pesquisa sobre a presença da psicanálise no livro Dialética do esclarecimento, escrito em conjunto por Adorno e Horkheimer) Foi com alguma surpresa, mas nem tanta assim, que ouvi de algumas pessoas observações com certo teor de ironia — sem que isso signifique qualquer forma de agressividade —, no sentido de que minha pesquisa consiste em criticar Adorno, em ser contra ele. Independente de tais trabalhos apresentarem ou não uma linha teórica propositiva mais específica a partir do viés psicanalítico lhe serve de base, eu diria, de um ponto de vista geral, que qualquer pesquisa de filosofia e ciências humanas deve ser tomada como válida, proveitosa e enriquecedora, mesmo que seu resultado seja essencialmente negativo, no sentido de colocação em dúvida, de quebra de paradigmas estabelecidos etc., desde que, obviamente, seja bem realizada, baseando-se em argumentos sólidos, apresente coerência e uma série de outras características típicas de um saber sistematizado.

Que se tenha predileção somente por pesquisas propositivas, digo mais uma vez, não me parece um mal em si mesmo, mas me parece índice de uma pré-concepção, de um preconceito que, como quase todos eles, tende a gerar frutos indesejáveis. Vejo como um certo “mal-estar” da pesquisa em filosofia e ciências humanas a tendência de um estudioso da obra de um autor clássico apresentar tal teoria sem se dedicar a não apenas mostrar, mas também realçar e tirar consequências de suas lacunas, suas tensões, suas impropriedades etc. Em vários momentos pode-se ver que um determinado aspecto negativo é até referido, mas justificado com base no contexto histórico, limitação do conhecimento de sua época etc. Se alguém, por exemplo, estuda a obra de Heidegger, pode perfeitamente demorar-se décadas em uma pesquisa sempre ignorando, deixando de lado e desconsiderando a relação daquele pensador com o nazismo, como se já se “soubesse”, de antemão, que esse engajamento político não tem nada a ver com suas teorias sobre o ser. Um plantonista pode também, ao estudar o livro A república, absorver totalmente a crítica às artes como integrando o projeto platônico de uma cidade ideal, sem questionar em nenhum momento o quanto se trata — ou não — de uma atitude equivocada, regressiva, perante a arte.

Diante de abstrações tão evidentes de aspectos francamente criticáveis, ou que pelo menos demandam um enfrentamento crítico aprofundado e sério, parece realmente claro que a atitude de focar apenas a dimensão positiva do objeto de estudo estabelece uma regra seguida tacitamente em uma esmagadora maioria das vezes. Se mesmo aquilo que salta aos olhos como um absurdo, falso, politicamente regressivo, é retirado do campo de visão, logo se pode fazer uma espécie de “regra de 3” e se perguntar: e aquilo que é sutil, difícil de ser percebido como um equívoco, podendo ser colocado em dúvida, mas não simplesmente rejeitado? Não tenho dúvida que todos esses elementos são tragados por essa pré-disposição de considerar a validade da pesquisa como dada essencialmente pelo modo como ela produz resultados positivos, construtivos.

Se, na velha querela da comparação entre ciências exatas e humanas, as primeiras parecem aos olhos das últimas como excessivamente “duras”, por demais fixadas em paradigmas de assimilação do real a fórmulas matemáticas, as ciências humanas, pelo visto, também sofrem de um tipo de rigidez, só que disfarçada sob a capa de uma atitude progressista.

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