Quero falar hoje, mais uma vez, sobre a onda de protestos
que se alastra por todo o país. Dois pontos me interessam especialmente: sua
origem, seu princípio motivacional mais específico, em termos de dinâmica
política, sócio-econômica e cultural, e os rumos que este movimento pode
adquirir a essa altura.
Boa quantidade de comentários que tenho lido coloca que tais
protestos ocorrem apesar de o índice de desemprego ser baixíssimo, de a
popularidade da presidente ser elevada, de ter havido ascensão sócio-econômica
de milhões de pessoas na última década etc. Uma pesquisa feita no dia 19 e 20
de junho e publicada na revista Época expõe este quadro paradoxal de
forma gritante: 75% da população apoiam os protestos, ao mesmo tempo em que 71%
se dizem satisfeitos ou muito satisfeitos com as condições de vida atuais. De
meu ponto de vista, não se tem aí uma contradição, mas sim um paradoxo no
sentido próprio do termo, ou seja, uma contradição aparente, que precisa ser
deslindada. Essa inclusão social, na medida em que realmente se efetivou,
significa também o acesso a veículos formadores de opinião altamente
subversivos à imagem incessantemente orquestrada pelo oligopólio dos meios de
comunicação de massa. Por mais que esses antigos veículos ainda sejam bastante
frequentados, perderam sua exclusividade reconfortante, e ninguém mais se ilude
quanto ao poder das informações trocadas na rede mundial de computadores. Os
movimentos da assim chamada primavera árabe, hoje está claro, não teriam o
impulso e a velocidade de articulação que tiveram sem a facilitação dada pelas
redes sociais, que servem não apenas para agendar encontros, debates e
manifestações, mas também para trocar posicionamentos críticos sobre as
condições políticas, econômicas e sociais.
Ao mesmo tempo em que favoreceu essa inclusão de uma grande
massa de pessoas em um novo modelo de articulação de opinião pública, o
progresso sócio-econômico desde 2003 também mostrou o quanto é efetivamente
possível avançar através da mediação política no confronto entre trabalhadores
e capitalistas. Tal como já falei em um texto anterior do blog, os movimentos
de direita vivem, em grande medida, de certa taxa elevada de desilusão,
de desencantamento por parte da população. Não é difícil perceber que
movimentos radicais de direita obtêm votações expressivas em momentos de crise
profunda, pois propõem medidas imediatas, de choque econômico, de restrição de
direitos, de hostilidade a minorias éticas, a imigrantes etc. Nesse sentido, a
eleição de Lula foi impulsionada, segundo penso, pela própria melhora
sócio-econômica produzida pelo Plano Real implementado no governo Itamar
Franco.
Se juntarmos estes dois elementos, formamos um dos polos
essenciais das forças que se conjugaram para fazer eclodir esses protestos. O
outro polo é a percepção que se tornou aguda do quanto todas as esferas de
mediação da política representativa de gabinete, com seus conchavos, concessões
de oportunidade, negligências deliberadas etc., se tornaram dolorosamente descompassadas,
anacrônicas, atrasadas em relação a este movimento de progresso cultural e
econômico de grande parte da população (produziu o que se chamaria em inglês um
“political lag”).
É como se tivéssemos colocado um motor de carro de corrida em um veículo
barato, que desperdiça de forma dramática o que é gerado como impulsão para o
progresso. As repetidas conduções de José Sarney para a presidência do senado,
a eleição de Renan Calheiros para o mesmo cargo do qual foi deposto por crime
de decoro parlamentar, todo o escândalo do mensalão, as sucessivas notícias
relativas à malversação do dinheiro público e infinitas outras notícias eram
percebidas sempre como algo muito indigesto, difícil de engolir por uma
população que cada vez mais começava a perceber a dimensão arcaica de tudo
isso. As várias denúncias de superfaturamento das obras para a Copa do Mundo
foram aquele caldo final que estragou completamente o processo de digestão dos
fatos políticos. A repressão violenta do Movimento do Passe Livre na cidade de
São Paulo foi a gota ácida que fez gerar essa onda de refluxo que se multiplica
pelo país afora.
Imagine o que seria, hoje, se o FMI tivesse que ser invocado
na concessão de algum empréstimo, impondo diversas medidas recessivas e de
cortes de benefícios sociais. Ora, todos os gastos mal aproveitados para
viabilizar a Copa do Mundo geraram uma recusa análoga à que receberiam essas
imposições do FMI. Ceder às exigências da FIFA funcionou, nesse contexto, como
um atestado de super-arcaísmo para a esfera de mediação de política institucional,
que não apenas parece não progredir no mesmo ritmo que o desenvolvimento
sócio-econômico e cultural, quanto se mostrou um acinte ao desejo de
emancipação política. Assim, muito do sentido de toda esta onda de protestos
pode ser resumida na ideia de que “a esquerda é o povo”, tal como falado em
alguns textos que circulam pela Internet. De fato, pode-se questionar o quanto
o PSOL está à esquerda do PT ou se o PV está à direita etc., mas o que estaria
mais à esquerda do que os próprios movimentos populares que se alastram sem a
verticalidade das instituições políticas? Nesse sentido, é perfeitamente
compreensível a hostilidade às bandeiras partidárias, por mais que não se
justifique a violência contra seus membros. Se grande parte da população se
desiludiu com os caminhos éticos trilhados pelo PT, não é de forma alguma
incompreensível que uma grande parte dos manifestantes pense que o PT de hoje é
o PSTU amanhã. Tudo isso explica, também, o fato de que é difícil encontrar uma
pauta de reivindicações específica. Itens de negociação claros ocorrem,
paradigmaticamente, em políticas de gabinete ou na relação entre patrão e
empregado, como nas greves por melhores salários. Nesse momento, sente-se a
necessidade de explicitação da ojeriza a todo o processo arcaico de mediação
política institucionalizada, que engessa o progresso social, econômico e
cultural.
É a partir deste cenário de indistinção política que entra
em jogo a questão dos rumos possíveis dos protestos. O que salta aos olhos é o
quanto as polícias, tal como coloquei no texto da semana passada, querem
produzir violência como meio de desacreditar todos os protestos. Não se trata
apenas de repressão violenta, mas de incitação à violência como modo de
exclusão das manifestações como sendo não-políticas, na medida em que
consideramos, tradicionalmente, a violência como negação da política. Correlato
a este aspecto, temos, por parte dos grandes meios de comunicação, uma outra
forma de neutralização, a saber, a glamorização
erótica e estética dos movimentos. Sintomaticamente, um vídeo produzido
pela TV Folha traz diversas imagens belíssimas dos movimentos, com um fundo
musical também lindíssimo executado por uma orquestra de cordas. Temos uma dupla anulação do sentido mais próprio
que teriam as manifestações, pois estas são reduzidas à negação violenta da
política ou à sua sublimação nos emblemas dos “anos rebeldes”, vividos sem
lenço e sem documento.
Em relação ao primeiro aspecto, é necessário ter em mente
algo específico: as polícias que reprimem os manifestantes são de
responsabilidade dos governos estaduais, e tanto em São Paulo quanto em Minas
Gerais, onde as ações policiais a atitude dos grupos violentos dentro dos
protestos foi especialmente impactante, de verdadeira barbárie, os governadores
são do PSDB, partido de oposição ao governo federal. É em função disso que os
movimentos devem ser desacreditados e incitados pela truculência policial, pois
continuam com seu rosto político desfigurado como tal. Um rosto que nem
precisaria de uma pauta de reivindicações específicas para ter força, mas essa
pauta se torna sempre mais difícil em virtude do fato de que a energia
política dos protestos fica consumida pelo próprio desejo de anular a
violência policial com mais ousadia. Outro aspecto bastante concreto é o fato
de que, se vários relatos dos manifestantes são verídicos, as provocações à
polícia partem de grupos de policiais infiltrados nos protestos.
Não é difícil perceber que quanto mais os governos estaduais
“fizerem seu serviço” de desfigurar o aspecto progressivamente político dos
movimentos, mais essa face toma uma feição difusa pelo país inteiro, fazendo
convergir a ideia de que todos os protestos se dirigem à sede do poder político
relativo ao país inteiro, ou seja, o governo federal, do PT. Essa é a dupla
face da estratégia de apropriação dos movimentos por parte da direita política
mais significativa em termos eleitorais. Tanto no vandalismo, quanto nos “anos
rebeldes”, temos a construção de um sentido nacional para os protestos, e a
feição nacionalista de vários grupos que fazem parte dos protestos alimenta
essa cooptação pelo espectro mais à direita e reacionária no âmbito da política
nacional — cooptação largamente favorecida pelo sentido apartidário dos
protestos.
Como conclusão, eu diria que se o PT pretende se manter como
a força política de esquerda progressista que se mostrou no âmbito
sócio-econômico nos últimos dez anos, precisa dar uma resposta consistente ao
sentimento generalizado de arcaísmo, descompasso e anacronismo das mediações
políticas institucionalizadas. Para bem ou para mal, grande parte da população
está exigindo um progresso nas instituições políticas proporcional ao que se
verificou em outros planos da vida. A pergunta de para onde nos levarão tais movimentos
será respondida pela força persuasiva com que o governo federal responderá a
essa demanda.
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