Tal como já se observou algumas vezes, uma das falas mais
usuais quando se comentam os protestos pelo Brasil é que tudo é muito confuso,
que não se entende o que daria unidade a todas as manifestações, que parecem
por demais difusas e excessivas. Por outro lado, a palavra de ordem nos
comentários é “crise de representação”, com o que concordo, tal como formulei
nas três últimas postagens, sob perspectivas distintas. O que proponho agora é
uma reflexão conectando estes dois pontos, isto é, o não-saber, a incerteza, e
os dois polos da representação: o que representa e o que é representado.
Tal como a psicanálise nos indica claramente, muitas vezes a
incompreensão é o resultado, não de uma incapacidade de conhecer ou da
dificuldade inerente ao objeto por ser assimilado, mas de um desejo de recusar o conhecimento. Desde
seus primeiros escritos, Freud insistia em que a dimensão patológica da neurose
consiste em em larga medida no esforço de manter inconscientes certas
representações por demais indigestas e inadmissíveis para a auto-concepção do
sujeito. Nesse sentido, a perspectiva de incongruência, do caráter difuso e
caótico das manifestações seria índice do esforço de não saber, que se
dirige a uma crise de representação não apenas da política institucionalizada —
essa é a minha aposta —, mas também daquela que cada um de nós produz no espaço
das trocas cotidianas de nossa “micro” política.
Uma das características do conflito psíquico inconsciente,
ainda segundo Freud, é que ele produz efeitos de ruptura que desestabilizam,
dividem violentamente o complexo geral do psiquismo. Essa clivagem se exprime
precisamente na diferença dos significados afetivos de representações mais
arcaicas e portanto profundas, e outras mais superficiais e recentes. Na medida
em que estes estratos psíquicos ocupam um mesmo espaço representacional, é
preciso muito esforço para torná-los compatíveis, e a neurose se define por um
certo fracasso nessa tarefa. A força impactante dos protestos atuais, não
apenas considerando sua violência literal, mas sua própria intensidade, quando
vemos mais de um milhão de pessoas nas ruas do Rio de Janeiro, testemunha a
existência de um conflito de representações pouco digerido, demonstrando o
caráter inadmissível de uma força de protesto por assim dizer subterrânea.
Minha ideia é que muito do sentido desses protestos consiste
em se dirigir à nossa própria inércia compassiva perante os diversos níveis de
representação política. Estamos protestando contra nossa própria incapacidade
de pensar politicamente de forma consistente e progressiva. Estamos
reivindicando ser menos boçais como atores políticos para a construção de um
espaço de cidadania minimamente decente. Protestamos contra nossa estupidez de
votar em políticos calhordas, contra nosso gozo masoquista de eleger políticos
com quilos de processos por corrupção em seu currículo. Estamos dizendo que
cansamos de carregar o peso da verdade de que tudo de ruim que vemos na
política institucionalizada reflete nossas corrupções cotidianas e, por isso, “normais”.
É necessário muito esforço de negligência para pensar que o
eleitor de Paulo Maluf não está querendo sancionar a legitimidade de sua
própria corrupção com seu voto. Eleger não apenas este, mas outros políticos já
julgados e condenados mais de uma vez em diversas instâncias jurídicas,
significa conceder suficiente visibilidade, se não para a desonestidade nua e
crua, pelo menos para a suficiente maleabilidade moral que sirva como solo para
fazer frutificar a irresponsabilidade política como testemunho de um bom senso
de adaptação predatória às agruras da vida capitalista. Como se pode ver,
realmente trata-se de uma crise de representação, mas, agora, considerada em
termos de uma contradição mais íntima e interna.
Protesta-se, também, contra o fato de que sabemos que este
protesto virulento, explícito e fulgurante é por demais impotente por si só.
Estamos nos manifestando contra o fato de que esses milhares e milhões de
pessoas irão votar de forma absolutamente irresponsável nas próximas eleições.
Sim, é algo contraditório, e é por isso mesmo que tais manifestações têm a
força que têm, ou seja, porque exprimem afetos muito pouco assimiláveis à
lógica consciente. Estamos protestando porque nossa política do dia-a-dia está
abandonada e concentrada neste soco errático desferido com os olhos vendados
para a racionalidade cotidiana da política. Protestamos contra o fato de que só
sabemos, nesse momento, protestar assim.
Ora, mas, tal como muitos sintomas neuróticos produzem um
ganho para a vida da pessoa — que Freud chamou a de que ganho secundário, ou
seja, como quando alguém que é viciado em trabalhar ganha muito dinheiro com
este seu comportamento obsessivo —, esta explosão conflituosa dos protestos
gerou seus efeitos positivos. Diversas passagens de ônibus pelo país tiveram
seus preços reduzidos, projetos polêmicos foram rejeitados no Congresso
Nacional, medidas de melhoria do sistema viário urbano foram tomadas etc. Só
que houve, também, um outro tipo de efeito, analisável sob esse registro da
auto-representação: as assembleias horizontais populares, bem como as ocupações
das câmaras municipais em diversas cidades. É como se não apenas os políticos
profissionais, mas as próprias pessoas que gritam estejam ouvindo “a voz das
ruas”. — Se, diante de várias medidas progressistas das instituições políticas
cabe a pergunta de por quanto tempo os políticos profissionais ouvirão o que os
protestos estão dizendo, cabe também a pergunta de por quanto tempo o povo
também o fará.
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