Quem estuda psicanálise logo se depara com a realidade das diferenças
de tempo para que uma verdade do plano subjetivo se faça vivida de forma
mais consistente na realidade. Há vários ciclos de assimilação dos conteúdos
descobertos e ritmos diferentes com que se fazem associações posteriores que
agregam mais elementos de uma cena a ser deslindada. Não se trata apenas de uma
questão cronológica, de mais tempo, mas de diferenças qualitativas com
que as verdades psíquicas são compreendidas em virtude da especificidade de
cada abordagem. Em função dessa diferença, um fenômeno especialmente
interessante chama nossa atenção. Muitas vezes o tempo para se digerir algo que
reconhecemos como válido, uma “verdade”, começa a ser irritantemente longo,
como se uma frase que descreve certo conteúdo psíquico continuasse a se fazer
presente “martelando” nossa perspectiva de mundo atual com um saber que começa
a adquirir a feição de um mantra (originalmente, uma sílaba, palavra ou verso
no hinduísmo e no budismo repetidos indefinidamente com alguma intenção
doutrinária). A questão que nos interessa aqui é precisamente essa percepção do
quanto uma descrição válida ou verdadeira sobre a realidade começa a ser
colocada sob suspeita pelo fato de ela se repetir demais.
Theodor Adorno dizia que não apenas o nosso discurso pode
ser falso, mas a própria realidade a que ele se refere. Isso se dá porque o
real sempre será moldado por nossos conceitos, princípios e valores, todos eles
frutos de sedimentação de relações de poder constituídas ao longo dos séculos.
Por mais que tenhamos uma perspectiva crítica sobre essa conformação social da
experiência, sempre haverá uma ampla margem de sombra e obscuridade sobre o que
percebemos como “a realidade ela mesma”. Isso pode ser perfeitamente aplicado,
por motivações diversas, ao âmbito de constituição de nossa subjetividade, de
nosso psiquismo. Nossos desejos inconscientes não perfazem simplesmente algo
que deva ser admitido de forma literal, ou seja, tal como se apresentam nas
elaborações fantasísticas descobertas no trabalho de análise. Freud sempre
dizia que um dos resultados do trabalho analítico pode consistir em
desenvolvermos a capacidade de julgar conscientemente como inadequados à
compleição subjetiva global do indivíduo certos desejos inconscientes. Em
virtude disso, começamos a experimentar um entrelaçamento vertiginoso entre uma
verdade que se alcançou em relação a algo que é falso em sua pretensão de se
mostrar como tal na superfície, na dimensão concreta, de nossa existência.
Um dos grandes esforços para a elucidação psicanalítica do
psiquismo consiste em um estabelecimento de uma comunicabilidade de
diversos planos, instâncias e agências psíquicas. Muito da neurose consiste no bloqueio
desse trânsito, fazendo com que haja um embate por demais “duro” entre os
diversos campos da subjetividade, desde os mais profundos e arcaicos até os
mais evidentes e atuais. A dificuldade reside em que os critérios de
validade, de justificativa e de razão de ser de cada um desses
elementos em conflito são por demais heterogêneos, mas necessariamente deverão
ser vivenciados em conjunto, formando a totalidade que é o próprio sujeito. Em
grande parte do processo tanto de análise quanto de tentativa de vivência
concreta, ou seja, de “pôr em prática” os conhecimentos analíticos, será
inevitável que se gaste uma energia psíquica para costurar as vias de
interlocução tradutiva do que podemos considerar como diferentes racionalidades. Como está muito claro que não existe um
ponto de apoio previamente garantido como critério de verdade, a consequência é
que deverão ser criados pontos de referência móveis, que se deslocam ao longo
do tempo. Mas há uma outra consequência, que se liga ao que falamos no início
do texto: começamos a firmar a perspectiva de que a verdade sobre nós mesmos
necessariamente é cambiante, inevitavelmente sempre construída e reconstruída
através das metamorfoses sucessivas com que produzimos elaborações discursivos
sobre nossos conteúdos inconscientes. Se algo, como discurso sobre nós mesmos,
mantém-se, repetindo-se indefinidamente, somente pode ser falso — como um
mantra. Ora, não necessariamente.
Uma das características mais absurdas do inconsciente
consiste no fato de ser constituído por fixações profundas no psiquismo, cuja
força de atração gravitacional psíquica é desmesuradamente grande em relação à
nossa perspectiva consciente mais superficial. Por mais que sejam de fato
imprescindíveis novas formulações e reformulações linguísticas sobre nossos
conteúdos inconscientes, não se pode descartar previamente que seja uma verdade
sobre nós mesmos algo que incessantemente cobra sua atualização compulsiva e
inexpugnável. Nesse momento, a verdade começa a cansar, e então nós como
que procuramos um alívio de seu peso colocando em suspeição a sua própria
validade pelo fato de que ela se repete. Não é difícil caracterizar essa
estratégia como mais uma das várias que são colocadas a serviço da resistência
subjetiva ao trabalho analítico, as quais, de tão recorrentes e inevitáveis,
também começam a nos cansar...
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