Um espaço de discussão sobre Filosofia, Psicanálise, Arte, Política, Crítica cultural e Atualidades.

sábado, 30 de novembro de 2013

Verdade política

Embora sempre seja necessário, e na verdade imprescindível, será também muito difícil debater com sobriedade e de forma serena sobre política (bem como sobre religião de futebol, tal como se costuma popularmente dizer). Se pessoas arriscam sua integridade física e sua própria vida em confrontos com a polícia nas ruas, terão elas a disposição a um distanciamento emocional perante suas ideias políticas quando em um debate?

A demanda de posicionamento objetivo em uma discussão frequentemente se mostra fraca demais, quando comparada ao quanto nós nos identificamos pessoalmente, não apenas com nossos ideais políticos, mas com a necessidade de que eles tenham sua validade sedimentada e, de certa forma, confirmada pela concordância do outro. A verdade política não é apenas da ordem da descrição de mundo, mas da legitimidade de nosso desejo de que nossos ideais alcancem eles mesmos uma legitimidade apenas perceptível pelo modo com que as outras pessoas, desde as mais próximas a nós até o âmbito planetário, estão dispostas a investir afetivamente nela. Isso significa que o verdadeiro em política está íntima e profundamente mesclado aos fins que queremos perseguir, aos meios que queremos empregar, ao preço que estamos dispostos a pagar (tanto em termos materiais quanto humanos) e uma infinidade de outros elementos que não permitem de forma alguma uma cisão clara entre validade descritivo-objetiva e legitimidade de nossos investimentos afetivos. Tudo isso se complica em muito pelo fato de que descrições objetivas de mundo, verdadeiras no registro factual, não apenas podem servir como um ótimo suporte para induzir concepções tendenciosas de mundo, mentiras e ilusões (para o que dei um exemplo na postagem da semana passada), como também podem consistir em uma duplicação, no âmbito do pensamento, da sedimentação de relações de poder na realidade constituída socialmente. Esta última ideia, lançada e desenvolvida longamente pelos autores da escola de Frankfurt, nos mostra que não somente o pensamento é falso, mas a própria realidade.

A imbricação de nosso investimento afetivo com o teor objetivo de nossas descrições da realidade também nos leva a perceber o quanto precisamos muitas vezes convencer a nós mesmos da validade de nossos posicionamentos políticos através do ganho da adesão alheia. Não é difícil perceber que, diante do envolvimento de nosso arbítrio no recorte e nas abstrações necessárias do real para podermos pensá-lo, a cada momento necessitamos recalcar a verdade de que pensamos do modo como o fazemos em virtude do fato de que assim queremos. Tal como disse Nietzsche, toda percepção de mundo é mentirosa, por sempre termos que prestar atenção a uma quantidade finita, e na verdade bastante reduzida, de seus elementos constituintes: não somente nosso pensamento, mas o próprio ato perceptivo, opera por abstração. Considerando a complexidade astronômica do universo político, nossas opiniões são constantemente assombradas pela percepção difusa de má consciência. (Esta última se caracteriza pelo posicionamento hesitante, sem base firme, sobre si mesmo, em meio a uma pressão do sentimento de culpa.) Nesse sentido, a discordância alheia se torna especialmente irritante, não apenas por demonstrar um desejo diferente do meu, mas por corroer sua certeza — muitas vezes precária —, sendo que ele é uma base altamente instável para uma verdade que se pretende objetiva sobre o espaço e os bens públicos.

Outro aspecto bastante instrutivo é o quanto não apenas a realidade é construída por nosso discurso, mas o nosso próprio opositor. Em diversos momentos, parece-me claro que o consenso não é apenas difícil: ele é evitado inconscientemente de modo a constituir o outro como inimigo e a discussão como campo de batalha. A continuidade desse estado de coisas confere ao debate uma carga apologética de nossa disposição de sair da passividade política, de nossa inércia resignada em relação ao curso do mundo. Nesse momento, a animosidade e a disposição para discutir de forma ferrenha substituem não apenas a sobriedade necessária para uma discussão objetiva, mas também nosso próprio compromisso com ações concretas relativas ao real político em sentido mais prático-concreto. O caráter interminável da discussão adquire aquela característica de um infinito ruim, tal como concebido por Hegel, pelo fato de se perder em ramificações que não convergem para a percepção de seu sentido como totalidade. A multiplicidade e vivacidade dos aspectos considerados, em vez de contribuírem de forma decisiva para o progresso das concepções de mundo, alimentam uma mobilidade estática, em que todos os atores se debatem indefinidamente, com pouco ou nenhum reforço mútuo.

Diante das várias fontes de incerteza na verdade política, é necessário, no âmbito das discussões sobre esses temas, reconhecer a implicação vertiginosa da incerteza dos desejos, tanto nossos quanto alheios, no que consideramos a objetividade do espaço público. Sem isso, sempre vamos despender em um ideal de verdade uma energia afetiva grande demais, que pode ser gasta de forma bastante mais produtiva na construção de nosso espaço em comum.

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sábado, 23 de novembro de 2013

A ritualização moral da política

Nos Estados Unidos, criou-se a palavra “spectrial” para designar um julgamento (trial) que, por sua evidência mediática e interesse popular, transforma-se em um espetáculo (spectacle) prolongado, com sucessivas fases, personagens e roteiros que se alternam como fonte de interesse geral. Por mais que alguém esteja plenamente convencido da legitimidade jurídica da ação penal 470, em que se julga o caso do assim chamado mensalão, não poderá se furtar a reconhecer que esse neologismo estadunidense lhe é perfeitamente aplicável. O fato de que o processo não foi desmembrado, por exemplo, é um detalhe que contribuiu para isso, em virtude de todos os embates entre os ministros ocorrerem em uma mesma temática geral, facilitando o recorte e enquadramento por parte dos meios de comunicação, principalmente o televisivo. Somando-se outras características, como a vaidade e o ímpeto oratório dos magistrados, principalmente nos momentos de discordância, temos ingredientes que potencializaram, em muito, o teor espetacularizado do julgamento. As já reconhecidas impropriedades na condução do encarceramento das três figuras públicas mais notórias, ocorrendo não por acaso no dia da proclamação da república, reforçam gravemente a percepção de que todo o processo foi um espetáculo não apenas em virtude do uso que lhe foi conferido por parte da imprensa e de outros meios de circulação mediática, mas principalmente em virtude de uma sistemática apropriação discursiva, imagética e simbólica que se entrelaça com o mecanismo da condução processual. Meu objetivo é fazer uma análise do que significa esse complexo de fatores que convergem na dimensão espetacular (no sentido mais próprio do termo) da ação penal 470.

A cada vez que alguém argumenta criticamente contra este processo com base no conceito de espetáculo, precisa fazer frente ao contra-argumento de que as dezenas de milhares de páginas dos autos contêm inumeráveis provas de desvio de dinheiro público. Mesmo que se admita que José Dirceu tenha sido condenado sem provas concretas, ou seja, apenas com a aplicação da teoria do domínio do fato (ao ser suposto coordenador das principais decisões), o núcleo principal do interesse jurídico se mantém: crimes de corrupção, lavagem de dinheiro, pagamento e recebimento de propinas, verba de campanha política não contabilizada oficialmente (caixa dois) etc. Isso significa que, contra todo e qualquer excesso em termos de evidenciação de espetáculo, recorre-se ao “amuleto” da verdade juridicamente inquestionável em seu núcleo. Contra a acusação de excessos da precessualidade jurídica, o “amuleto” é outro: a constatação de que a todo instante ocorrem excessos e imprecisões jurídicas pelo país afora e as mesmas vozes não se levantam contra elas. Quando, por outro lado, argumentamos que diversos outros casos de corrupção, se devidamente apurados, poderiam ser reconhecidos como tão grandes ou maiores quanto este que foi chamado de “o maior escândalo de corrupção no Brasil”, retorna-se com o “amuleto” de que se trata de um crime, e que como tal não tem sua necessidade de punição relativizada pelo fracasso ou ineficiência da instituição jurídica em outros momentos. — Não é difícil perceber que a evidência da verdade no registro factual é constantemente empregada como meio de exorcizar a crítica de apropriação simbólica e de manipulação ideológica, cujo regime de verdade se situa em outro patamar de nossa leitura de mundo, de forma alguma menos importante.

Verdades, mesmo quando não são parciais, prestam-se como veículos para falsidades, ilusões e mentiras. Isso configura o núcleo mais interessante do que conhecemos como ideologia, em que esses polos contraditórios do saber se entrelaçam de forma tão vertiginosa que, no mosaico de sua representação de mundo, permite aproximações e distanciamentos capazes de apoiar muitas vias de interpretação e de juízo sobre a realidade. No caso de que nos ocupamos, a exposição espetacular dos delitos usou e abusou da verdade contida no âmbito jurídico a fim de reforçar, por meio de uma repetição ritualística, simbólica e discursiva, uma leitura moral do fenômeno da política. Tal estratégia se serve da menoridade e ingenuidade da concepção popular da racionalidade do gigantesco complexo da condução da vida pública, principalmente em seu emaranhado das tratativas partidárias, para, ao mesmo tempo, reforçar sua permanência nesse estado, em que o senso de afronta aos valores morais é transferido de forma imediata, e portanto não-crítica, a uma visão macro do significado político-histórico da subida do Partido dos Trabalhadores ao comando central da nação. Toda a teatralidade e cinematografia desse spectrial quer tornar a lógica multifacetada e heterogênea dos compromissos públicos, estatais e partidários comensurável à pretensa transparência de nossos juízos morais. Estes, ligando-se à construção íntima de ideais purificados em demasia do que seja a pessoa humana, receberam um especial apoio na figura de um negro justiceiro que alcançou o cargo mais elevado da justiça no país.

Que cada um dos acusados deva pagar pelos desvios de conduta que praticou é uma verdade jurídica que quer corroer toda a sobriedade de nosso juízo sobre o valor da condução política do governo federal desde a primeira eleição de Lula. Uma vez que o PT condensou durante décadas a percepção utópica de convergência possível entre justiça social e capitalismo “tal como é”, realizando em grande medida políticas de inclusão social reconhecidas internacionalmente, o curto-circuito entre a intimidade moral e a objetividade política sob a égide da positividade jurídica serve muito bem ao propósito de anular ao máximo a percepção da viabilidade de instauração de formas de vida sociais e humanas nutridas por uma concepção progressista e de mundo. Tal estratégia é veículo para o reforço de uma visão pragmática de condução do espaço público, em que os slogans de competência, por exemplo — dos quais se serviram muitos políticos tradicionais como Paulo Maluf —, adquirem um frescor e validade dificilmente alcançáveis por outros meios. Cria-se, assim, um solo ideológico propício a uma percepção de mundo resignada, já desde sempre favorecida pelo imaginário popular de que todo político é ladrão, e agora recebendo uma chancela continuamente propagandeada como definitiva e acachapante. O princípio de incerteza política, que nos exige sempre o olhar apurado para captar a imbricação vertiginosa entre verdade e falsidade, é feito passar pela lógica da descarga emocional da vergonha, como se a exposição das vísceras políticas de um ideal utópico decaído confirmasse a impossibilidade de sermos diferentes daquilo a que a inércia da vida em sociedade já desde sempre nos relegou. A política como maldição é vendida insistentemente como uma espécie de contrabando nos bens morais que aprendemos a incorporar desde que nos concebemos como seres humanos.

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sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Experiências vitais

Ações e projetos políticos têm várias camadas e ordens de significado, que diferem em extensão, sentido, princípio (tanto imediato quanto de longo prazo), nível de abstração etc. Isso faz com que sejam sempre passíveis de avaliações e críticas quanto a um aspecto que divergem às vezes radicalmente ao se considerar outro fundamento. A análise, assim, torna-se não apenas difícil, mas também suspeita de artificialidade. Em contraste, leituras que focam apenas um aspecto tendem a conseguir contornar sua parcialidade, sua tendenciosidade, ao se apresentarem como seguras ou “determinadas”. Esse último caso é perfeitamente factível pelo modo como tais análises não se veem obrigadas a “ir e vir” de um princípio a outro, marchando inexoráveis rumo a uma conclusão “acachapante”. — Hoje quero demonstrar a necessidade de leituras políticas multifacetadas tomando como objeto a disputa referente ao uso de animais em experimentos científicos.

No dia 18/10/2013, dezenas de pessoas invadiram o Instituto Royal, em São Roque, SP, onde se faziam experiências com animais, e libertaram 178 cães da raça beagle. A justificativa mais imediata é que os animais estavam sujeitos a maus-tratos. Naturalmente, essa acusação deveria ser levada às autoridades competentes, pois seria necessário averiguar as reais condições dos testes, em vez de se praticar uma condenação sumária através da invasão de uma propriedade particular. Todos que participaram do ato, no entanto, sabem perfeitamente que a ação pode ser condenada segundo essa perspectiva. Sua legitimidade reside no fato de que “era preciso fazer alguma coisa”, diante do que parecia ser um atentado contínuo à vida de dezenas de animais.

Mesmo que se defenda a prática de experiências científicas desse tipo, é inegável que sua fiscalização e controle são muito precários. Em universidades que possuem comitês de ética em experimentação animal, por exemplo, faltam órgãos fiscalizadores dos laboratórios para averiguar se os projetos estão ou não seguindo as diretrizes aprovadas pelos comitês: um pesquisador (docente ou discente) envia um projeto especificando substâncias e suas dosagens para analgesia e anestesia dos espécimes, recebe a anuência do comitê, mas somente seguirá todo o roteiro segundo sua própria consciência, uma vez que não prestará contas dos procedimentos efetivamente seguidos. Embora seja evidente que não se podem condenar de antemão pós-graduandos e pesquisadores universitários como antiéticos, é também óbvio que muitos podem sê-lo, e nesse sentido ações de ruptura como a da invasão do Instituto Royal se justificam por fomentar a consciência do quanto são necessárias ações mais incisivas, concretas, de proteção aos animais usados em laboratório.

Como sucede em ações desse tipo, no entanto, as motivações eram múltiplas, e grande parte das pessoas, não apenas que participaram da invasão, mas que se posicionaram sobre ela, argumentam contra toda e qualquer experiência com animais: desde a que tem como finalidade o desenvolvimento de cosméticos (as quais eu condeno), até a que se dedica à cura de doenças gravíssimas, como o câncer e a AIDS.

A comunidade científica e universitária já teve que fazer frente a algumas iniciativas de parlamentares que propuseram o fim de tais métodos de pesquisa. Nesse momento, não está em jogo apenas a falta de fiscalização suficiente dos procedimentos de teste, mas uma concepção de princípio bastante geral acerca da legitimidade de nos posicionarmos, como espécie, acima de todas as outras. De forma análoga a como não permitimos experiências de alto risco com seres humanos, também deveríamos proibi-las em animais. O argumento mais imediatamente empregado contra a suspensão de tais experimentos é que não é possível substituir totalmente as experiências com um organismo vivo por modelos computacionais ou por análises in vitro de culturas celulares ou de tecidos. Embora vários textos e livros se dediquem a este assunto, argumentando, por exemplo, que a discrepância entre os organismos coloca sob suspeita as projeções em seres humanos de resultados obtidos com espécies muito diferentes, parece-me inegável que uma quantidade significativa de pesquisas somente tem chance de progresso através do uso de animais vivos. Além disso, em vários casos a proximidade de um determinado sistema fisiológico justifica a extrapolação dos dados para nossa espécie. Veja nesse link uma notícia que reputo como espetacular, que fala do sucesso de uma pesquisa em que macacos conseguiram mover braços mecânicos projetados em computador. Se este trabalho seguir seu desenvolvimento tal como já demonstrado nos resultados expostos até o momento, significará um avanço simplesmente maravilhoso, ao propiciar o resgate de condições mínimas de uma vida boa a pessoas paraplégicas. Recuperar a capacidade de andar quando se perderam as duas pernas é algo a ser comemorado com uma alegria indizível. Igualmente claro, no entanto, é que tal avanço não seria possível ou pelo menos demoraria infinitamente mais se dezenas de animais não pudessem ser usadas nesses experimentos, uma vez que o sistema neurológico precisou ser testado em seu funcionamento real.

A discussão, porém, continua, mesmo alcançando um acordo quanto ao caráter imprescindível de tais experiências com animais para o progresso científico, pois a crítica ao especismo, ou seja, a consideração de que a vida humana vale mais do que a de qualquer outro animal, diz que não temos o direito de usar tais espécimes como meio para o bem-estar humano. Tal perspectiva se baseia em um conceito de vida que me parece por demais abstrato, análogo ao que serve de base à crítica da eutanásia, por exemplo, em que se diz que enquanto houver vida, ela deve ser preservada. De meu ponto de vista, a condição de um sofrimento exasperado e sem perspectiva de cura não qualifica uma vida que deva ser preservada. Sua continuidade afronta a perspectiva de que a vida vale na proporção em que ela é desejável pelo modo com que é experienciada, e não simplesmente devido a seu valor como vida simplesmente.

Aplicando essa perspectiva ao caso da experiência com os animais, eu diria que os testes que se esforcem por minimizar ao máximo o número de espécimes e por atenuar o mais possível seu sofrimento caminham no sentido de favorecer a vida, não sendo de forma alguma um atentado contra ela. O sacrifício de todos os espécimes empregados nessa pesquisa para devolver o movimento a pessoas com paralisia, por exemplo, está totalmente legitimado, tendo em vista a quantidade virtualmente infinita de seres humanos e não humanos que terão condições de vida restauradas a um patamar de dignidade minimamente tolerável. Trocar este progresso nas condições de vida de milhares e milhões de pessoas (e de animais, pois muitas pesquisas são feitas para sua saúde) pela preservação da vida de alguns animais submetidos a sofrimento controlado em laboratório é, na verdade, auto-contraditório, pois, em nome de um conceito abstrato de vida, perpetuam-se sofrimentos conscientemente vividos de forma descontrolada por uma quantidade virtualmente indefinida de seres humanos e não humanos.

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sábado, 2 de novembro de 2013

Traduzindo conceitos

Como ocorre com toda ciência, a psicanálise também precisou constituir seu objeto de estudo, através do delineamento do espaço do psiquismo em contraste com o âmbito biológico e com a dimensão apenas consciente, linguística ou cultural. Diante da impossibilidade de uma determinação factual, positiva, da realidade psíquica, que sempre precisará ser inferida hipoteticamente a partir de suas manifestações mais evidentes, multiplicam-se as dificuldades de articulação e estabelecimento dos conceitos que pretendem fornecer suficiente visibilidade para aquilo que, por sua própria “natureza”, não é visível. Nesse último aspecto, é instrutiva a comparação de Freud entre o inconsciente e a coisa em si de Kant, na medida em que ambos se situam para além de nossa percepção consciente, embora o primeiro admita um grau de aproximação cognitiva maior do que a segunda, de acordo com a perspectiva freudiana. Nesse cenário, não causa surpresa verificar o quanto o discurso psicanalítico está eivado de metáforas, analogias, metonímias, empréstimos conceituais de outras ciências, como biologia, termodinâmica, física, bem como de ciências humanas e de filosofia. Trata-se, de fato, de um grande esforço de definição do psíquico-inconsciente por diversos movimentos metafóricos no sentido mais próprio do termo, a saber, de trânsito, tráfego e transporte de significados, através, portanto, de uma nucleação dinâmica de movimentos de transitividade semântica, conotativa e definitória.

Embora Freud sempre tenha desejado conferir à psicanálise o estatuto de uma ciência, e não apenas de uma prática, ele não pôde fazer valer todo o poder semântico e definidor dos conceitos que tomou de empréstimo de outras ciências. Isso é não apenas atestado pelo abandono de uma fisiologia pseudo-positiva para os mecanismos psíquicos tal como ensaiada no Projeto para uma psicologia científica, mas também devido à dimensão prática, clínica e intuitiva do saber psicanalítico, que se desdobra e ganha consistência como uma derivação da fala dos pacientes histéricos e obsessivos. O discurso mais abstratamente teórico ainda poderá ser visto como resultado de um movimento tradutivo, de re-significação de um dizer de si que não possui virtualmente nada da fixidez e clareza distintiva dos conceitos científicos.

O discurso psicanalítico se forma, então, através do encontro de dois movimentos que deslocam, traduzem e re-elaboram palavras e conceitos: um deles por assim dizer horizontal, proveniente das ciências, da filosofia e das artes; e outro vertical, oriundo da experiência clínica. Na medida em que a psicanálise não pode prescindir nem do enriquecimento dado pela experiência prática, nem das formulações teóricas, não é possível — sob o preço de uma violenta ação arbitrária e incompatível com o projeto freudiano — fixar com exatidão o que tem maior peso de determinação no delineamento do vocabulário psicanalítico. Isso fica especialmente claro no contato com o próprio texto de Freud, em que as palavras de uso cotidiano, por mais que adquiram densidade conceitual e semântica teórica, ainda permanecem ligadas à experiência lexical originária. Isso é explicado não apenas pela constituição mais transparente da língua alemã, que não passou por uma metamorfose substantiva semelhante à da língua portuguesa em relação ao latim e o grego, mas também pelo desejo programático de Freud de evitar o movimento de abstração enfático que caracteriza a Filosofia.

Na medida em que nos situamos no âmbito do texto original freudiano, essa mobilidade semântica e sintática pode ser acompanhada em seus diferentes matizes, permitindo situarmo-nos em algum de seus patamares, desde os mais concretamente clínicos até os mais abstratos, como a metapsicologia. Na medida em que nos colocamos a tarefa de não apenas traduzir os textos freudianos para um outro idioma, mas também falar deles, explicá-los e apresentá-los em outra língua, temos um outro movimento, não mais horizontal ou vertical, mas por assim dizer de translação, de deslocamento paralelo para um outro espaço em que as correlações horizontais e verticais obedecem a leis e princípios lexicais diferentes, e nesse momento começa a ficar especialmente imperiosa a tarefa de decidir o privilégio que será concedido, em cada caso, ao deslocamento horizontal/teórico ou vertical/prático-clínico. — Como essa temática é bastante geral, podendo ser discutida em relação a inúmeros conceitos, vamos nos restringir aqui ao de pulsão.

A palavra alemã “Trieb” é de uso bastante comum, coloquial, e aponta para uma força interna que impulsiona de forma basilar, fundante da ação ou do movimento em geral. Não é empregada apenas em relação aos seres humanos, sendo distinguida fundamentalmente do esforço (Streben) que fazemos para alcançar alguma coisa. Nesse sentido, ela aponta para o que há de mais elementar como ímpeto volitivo. Este uso geral e não-técnico realmente dá margem a uma leitura ampla de Trieb como um impulso ou instinto, considerando tais palavras em português como conectadas a uma força ou o ímpeto não especificado, e, no caso de instinto, ligado essencialmente à dimensão somática, biológica, de natureza. Considerando que as formas mais superficiais de nossa consciência dos desejos incluem especificações linguísticas, simbólicas, culturais, para este ímpeto mais fundamental, a palavra “instinto” foi escolhida pelo tradutor inglês James Strachey e mais recentemente por Paulo César de Souza como correlatos de da palavra alemã Trieb.

A teoria pulsional de Freud especifica claramente a dimensão somática como fonte do Trieb. O caráter pressionante da pulsão, que o autor considera sua característica mais própria, liga-se à tensão somática, que exige uma forma de satisfação, meta de todo Trieb. Como o conceito de instinto nos remete inevitavelmente à ideia do comportamento animal, o tradutor brasileiro defendeu sua opção dizendo que, por um lado, o comportamento instintivo não apresentaria sempre uma regularidade tão enrijecida quanto normalmente se pensa; por outro lado, a tradução de Trieb por pulsão incluiria certa arrogância humana de se pensar acima e distanciado dos outros animais. Não nos cabe aqui investigar em que medida o comportamento instintivo dos animais apresenta rigidez total ou não, mas voltaremos a esse ponto ao final. Quanto a essa suposta arrogância, parece-me fruto de uma percepção muito equivocada, pois defender que haja diferenças substantivas do ímpeto volitivo humano perante o animal não significa em hipótese alguma apoiar qualquer superioridade de nossa espécie em relação às demais. Deste modo, importa mais considerar o modo com que o conceito de Trieb em Freud se conecta de forma sui generis ao âmbito somático, fisiológico.

Fazer isso significa assumir um posicionamento explícito quanto à carga teórica demandada na tradução e interpretação do Trieb freudiano. Implica dizer que necessitamos conferir uma especificidade técnica que não é transparente na própria palavra alemã, em virtude do que salientamos antes sobre o caráter mais fundamental da raiz de todo ímpeto volitivo, na verdade não apenas humano. Ocorre que essa tecnificação conceitual salientada pela tradução, entretanto, auxilia a evidenciar um adensamento teórico que Freud conferiu a este conceito, que não se torna claro no âmbito linguístico-vocabular do texto original. É evidente que não devemos tratar essa característica como uma fraqueza ou desvantagem do próprio texto freudiano, mas sim considerar a tradução como veículo indutor de nossa atenção para um movimento conceitual do texto não imediatamente perceptível na sua superfície lexical. Se isso é válido, então um dos princípios mais básicos que orientam as duas traduções novas mais abrangentes da obra de Freud (de Luiz Hanns e Paulo César de Souza), a saber, a relutância de empregar termos e estruturação discursiva mais técnica, não procede em pelo menos alguns momentos decisivos na leitura tradutiva do original.

Parece-me claro que a pulsão na teoria freudiana deve ser concebida através de dois grandes movimentos, mais ou menos bem delineados no vínculo entre a base somática e o âmbito da fantasia. Em vários momentos Freud coloca explicitamente que a sexualidade surge como se apoiando nas funções de autopreservação. Trata-se de uma relação parasitária, em um movimento de derivação. Nesse sentido, a base somática é, de fato, fonte da estimulação pulsional, em virtude do caráter erógeno de todo o corpo do bebê. Tal como vemos em uma muito citada passagem dos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, nada do corpo do bebê está isento da possibilidade de produzir excitação. Toda essa carga de estimulação, entretanto, não está desconectada do âmbito perceptivo, em que a presença da mãe e de sua solicitude sexual são veículos inquestionáveis para a fixação desta carga afetiva em representações fantasísticas, que irão se consolidar como traços mnésicos, nas primeiras formas de recalcamento originário. Todo este primeiro percurso marca um psiquismo ainda incipiente, não completamente organizado e não cindido nos sistemas inconsciente e pré-consciente/consciente.

Na medida em que o âmbito das representações fantasísticas se consolida, temos então a emergência deste núcleo de representações fixadas, ao redor das quais irá gravitar uma carga de afeto extremamente forte, cuja força deriva precisamente do caráter ainda fragmentário, parcial e contraditório das representações. Nesse momento, cabe falar da constituição do ímpeto pulsional em sentido mais estrito e teoricamente mais adensado do termo: não como uma base difusa e indeterminada de todo e qualquer um ímpeto volitivo, mas sim como uma carga afetiva pulsante cujo núcleo atrativo radica não na dimensão somática, mas sim nas representações fantasísticas que aglutinaram, fixando, o impacto estimulatório do corpo do bebê em contato com o mundo ao seu redor, particularmente a mãe.

Nesse sentido, o objeto, um dos quatro componentes do Trieb, não seria propriamente a coisa externa, mas sim a representação fantasística recalcada e, portanto, inconsciente. Ele seria o mais variável da pulsão, não ao considerarmos este segundo movimento de consolidação das representações recalcadas, pois nesse registro o que se tem é uma fixação por assim dizer extrema. A variabilidade e contingência objetal reside no fato de não haver um lastro biológico, de natureza, para este polo fantasístico atrator dos afetos. O objeto pulsional, então, demarca uma fixação de uma energia psíquica, a libido, não originalmente existente em nós por natureza, mas que dependeu, sim, de modo essencial de toda a dimensão somática para sua emergência. Essa mediação do objeto pulsional recalcado, por sua vez, estabelece o ponto de ancoragem do que será a energia pulsional em sentido mais próprio.

Se tais reflexões estão corretas, então a fonte do Trieb não pode ser o corpo, na medida em que o objeto pulsional tenha se constituído através do recalque originário. Nesse sentido, pulsão e recalque são dois conceitos intimamente co-relacionados, de modo que a ideia freudiana de que o recalcado exerce uma pressão constante para seu retorno e de que a pulsão, de forma diferente do estímulo, exerce uma força constante, exprimem um mesmo estado de coisas, a saber, a constituição pulsional do psiquismo a partir da fixação de investimentos libidinais nos primórdios de constituição do aparelho psíquico. Também implica dizer que o Trieb não pode ser concebido como uma força primária e indiferenciada proveniente de extratos naturais profundos dos organismos em geral incluindo o ser humano. Essa concepção, afiançada pela semântica coloquial do termo, necessita ser substituída pela construção teórica freudiana, que faz a energia pulsional originar-se do movimento histórico individual de constituição dos primeiros objetos fantasísticos, dependente em larga medida das contingências do vínculo entre o sujeito que se forma e as condições ambientais e de vínculo afetivo com a mãe e com o pai.

A palavra “instinto”, de acordo com essa perspectiva, é extremamente inadequada, pois nos reenvia a uma concepção naturalizante do ímpeto motor, mesmo que desconsideremos as questões relativas ao comportamento hereditariamente fixado dos animais. No que concerne a este último aspecto, meu posicionamento é o de que nem tudo no comportamento animal é motivado por instinto, cabendo variações e desvios individualizados de comportamento e percepção, com maior ou menor expressividade, dependendo de cada espécie, e nesse ponto sigo as formulações de Henry Bergson. Segundo o autor francês, o que marca o comportamento instintivo é a acoplagem não-mediada entre os planos cognitivo, ou seja, de percepção da realidade, e o prático, do ímpeto de ação. Na medida em que percebemos os animais manifestando variações individualizadas de comportamento, então podemos dizer que está em jogo uma forma de ação em que o instinto não é integralmente determinante do agir. No que concerne ao ser humano, essa acoplagem imediata somente pode ser dita para reações muito específicas do arco reflexo e algumas ações do recém-nascido, que deixam de ser realizadas de forma tão automática com alguns meses de vida.

A tradução de Trieb por pulsão vem, assim, demarcar um espaço de especificação conceitual importante, não só no âmbito do texto freudiano, mas em termos de nossa concepção sobre questões antropológicas significativas, em que a mediação simbólica entre o ímpeto desiderativo e a ação adquire um modo de compreensão muito importante.

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sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Fazer história


Nas provas de História de certos vestibulares ou de conclusão do ensino médio, deve causar certa estranheza aos estudantes a inserção de questões sobre política e economia atuais. Pode soar um tanto duvidoso se, por exemplo, o atual escândalo da espionagem generalizada feita pelo governo dos EUA seja um dos temas, considerando que tal acontecimento ainda está em curso, e que nem sabemos da importância que lhe será conferida daqui a cem anos, quando então deverá contar ou não como um fato histórico relevante. A resposta é conhecida de todos nós: história não é apenas o já reconhecido em um tempo passado, mas também o que nos constitui atualmente, o que fazemos, praticamos e construímos no horizonte mais restrito ou mais ampliado da civilização e da cultura. Não se trata apenas de um saber sobre o que já se realizou, mas também de uma prática, de concepções de mundo que se refazem e se alternam constantemente. Nesse sentido, habitamos continuamente o palco da história, e nossos passos são as vias para seu alargamento.

Embora esta concepção possa ser reconhecida imediatamente como válida, entretanto sua eficácia parece diminuir nas mentes quando deve ser colocada em jogo em alguns momentos decisivos. Quero comentar duas situações típicas desse estado de coisas: (1) a criação de neologismos, principalmente no trabalho de tradução de textos, (2) e a construção de prédios de salas de aula em universidades.

1) A tarefa de tradução é especialmente árdua e delicada, não apenas devido às dificuldades inerentes a se encontrarem boas correspondências entre palavras, expressões idiomáticas e conceitos entre os dois idiomas, mas fundamentalmente pela consciência de que não haverá acoplagem perfeita. A variação de significados de um mesmo vocábulo em virtude de suas conotações diferenciadas em cada contexto, por exemplo, impede ou dificulta enormemente a manutenção de uma mesma palavra no idioma de chegada, perdendo-se algo do senso de continuidade. Esses e vários outros problemas demandam soluções criativas, de modo a contornar a solidez e a inércia de significações e correlações sintáticas das duas línguas. Na medida em que o leque de significados de uma palavra do idioma original difere das palavras já existentes no idioma de chegada, tem-se a ideia de forjar uma nova palavra, um neologismo, para tornar possível a tradução.

Está muito claro que esta solução deve ser submetida a um exame minucioso, para que não simplesmente se multipliquem novos vocábulos, tornando o texto artificial, pedante e excessivamente técnico. Por outro lado, algumas vezes percebemos uma resistência excessiva a se adotarem palavras que já constam até mesmo nos dicionários, mas que foram introduzidos recentemente. Nesses momentos, há que se questionar: quanto tempo será necessário até que uma palavra não seja mais um neologismo, apesar de já empregada por várias pessoas, seja no âmbito técnico especializado ou coloquialmente? Muitas palavras que denotam conceitos psicanalíticos, por exemplo, foram criadas em virtude da necessidade de apreensão conceitual de fenômenos que não haviam sido ainda objetos de estudo, como narcisismo, psicose, sadismo, masoquismo etc. Todos esses vocábulos, com pouco mais de 100 anos de existência, podem ser considerados “ainda” neologismos? É muito evidente que não, mas durante cerca de três ou quatro décadas o foram, ganhando sua cidadania no âmbito da teoria psicanalítica devido à necessidade intrínseca de lidar com os fenômenos a que se referem.

Na escolha de termos a serem usados ao se traduzir, não apenas o peso da tradição do uso de determinados vocábulos não é decisivo, quanto também pode contar como um fator negativo. Isso se dá em virtude do fato de sua ancestralidade carregar uma série de associações conotativas que funcionam como obstáculo a se pensar de forma diferente, que é precisamente o que se quer como resultado de uma nova aposta teórica. Nesses momentos, é preciso cautela, mas também uma boa dose de confiança na possibilidade de construção histórica de novas concepções de mundo.

2) A vida num ambiente universitário tem diversas características que a aproximam da que se tem em uma cidade. Há vários prédios, ruas, agências bancárias, restaurantes, espaços para shows, cinemas, e até mesmo uma prefeitura (cada campus universitário tem a sua). Em virtude de toda essa circulação de seus “habitantes”, é evidente que cada pessoa tenda a se reconhecer nos espaços que frequenta, não apenas em virtude do tempo em que ocupa tais espaços, mas também por sua identificação com todos aqueles que vieram antes. “Nesse DA já passaram várias gerações de estudantes, que enfrentaram a repressão ditatorial, lutaram pelas diretas já e construíram a identidade estudantil de nossa universidade”: essa frase pode condensar muito da percepção de envolvimento histórico de um estudante com o ambiente da faculdade onde estuda.

Ocorre, porém, que os espaços universitários precisam se expandir. Eles necessitam não apenas de ampliações dos prédios já existentes, como de outros edifícios e até mesmo de novos campi. Nesse momento, entra em jogo, mais uma vez, a relutância de perceber a si mesmo como tendo o papel de construir a história, momento em que é preciso renunciar ao prazer de se alojar em um espaço já saturado de identidade construída historicamente. — Atualmente vivencio uma situação como essa. A faculdade em que leciono (FAFICH, Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG) ganhou um novo prédio, com instalações modernas, auditórios muito bem equipados, tendo salas de aula amplas e quase todas com projetores multimídia. Diversos alunos, entretanto, têm se mostrado relutantes a assistir às aulas nesse novo prédio, usando como justificativa, entre outras coisas, a ausência de uma cantina e de bancos nos corredores e no pátio para aguardar o início das aulas, mas o argumento que me chamou mais a atenção foi o de que “este prédio não possui história”. Todos os outros devem realmente ser levados em consideração, mas eles têm em comum a característica de poderem ser respondidos através de alguma medida concreta, como instalar uma lanchonete, fazer licitação para compra dos bancos etc. O último deles, entretanto, somente pode ser respondido com aquela mesma noção de história que apontamos no início de nosso texto. — É especialmente saboroso recordar que quando o prédio atual da FAFICH foi inaugurado, em 1990, muitas vozes se levantaram contra sua ocupação. Dentre as diversas justificativas para a recusa, você é capaz de imaginar qual era a mais falada?

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sábado, 19 de outubro de 2013

Exemplaridade justiceira

No início desse mês (outubro/2013), um fato foi muito referido em blogs e em redes sociais na Internet, pois foi gravado e exibido em vídeo, em que um motociclista é abordado por um assaltante com arma de fogo, mas o roubo é frustrado por um policial que atira no meliante, que pareceu reagir à voz de prisão. Caso você não tenha visto, clique na imagem abaixo.




O vídeo tem certo interesse estético, ao apresentar em uma sequência relativamente longa o percurso do motociclista, em que compartilhamos não apenas alguns instantes da normalidade cotidiana da vida de outra pessoa, mas também assumimos uma perspectiva próxima à de quem pilota uma moto, produzindo uma sensação próxima à de um videogame, com a típica instabilidade e sensação de liberdade desse veículo. A violência com que esse plano é interrompido por uma arma apontada a poucos centímetros é reforçada pelo contraste com a sequência anterior. O acontecimento inesperado dos tiros que o assaltante leva ganha um significado especial devido ao curtíssimo intervalo de tempo entre o assalto e o desfecho do caso, pelo menos como parte de toda a cena.

Considerando que o assaltante parece, de fato, esboçar a reação de atirar no policial, a atitude deste último está justificada. Em relação a isso não há muito o que comentar. Meu interesse se volta integralmente para uma típica reação a fatos como esse, a qual realmente se verificou em comentários em todos os sites, blogs e colunas jornalísticas em que o caso foi mostrado ou discutido, a saber: a demonstração de grande contentamento e até mesmo euforia pela punição imediata do assaltante, condensando-se na ideia-clichê de que “bandido bom é bandido morto”. Está em jogo a figura do imaginário popular de justiça como punição sumária, até mesmo através de pena de morte, dos criminosos.

O que salta aos olhos é a radical discrepância entre o caráter imediato, líquido e certo dessa punição ao crime e a lentidão postergadora de um aparato jurídico que não apenas tarda, mas se mostra favorecedor de estratos sócio-econômicos abastados. Diante desta fraqueza da justiça institucionalizada, a evidência incontestável do delito praticado a sangue frio e com ameaça à vida parece tornar mais do que a adequada a punição violenta e imediata que se seguiu. É preciso, então, investigar detidamente alguns princípios da mobilização desses afetos extremos ligados à exemplaridade justiceira, que toma a punição a sangue-frio como a mais adequada para um crime também ele cometido à queima-roupa. Para isso, é interessante a ideia de que algo pode ser verdadeiro em termos objetivos, mas falso subjetivamente. A verdade objetiva pode ser verificada em termos de adequação ética, jurídica, política, científica etc., ao passo que a falsidade ou mentira subjetiva qualifica um modo de se apropriar desta verdade para realizar desejos, satisfazer fantasias, fazer fluir sentimentos e afetos que em grande medida somente são tornados possíveis devido à circunstância de que algo na realidade os “legitima”. É como se estivesse em jogo certa ideologia de nossos desejos, em que nós nos apropriamos de forma oblíqua e dissimulada de elementos objetivamente válidos para fazer fluir um modo de relação afetiva com o real que já gostaríamos de exercer, mas nossa censura interna e inconsciente não nos permitia. — Em suma: a verdade externa funciona como pretexto para a mentira interna.

Está muito claro que aquelas cenas mobilizam nosso desejo de punição. Uma forma interessante de encaminhar o questionamento é: punição de quê? — Indo direto ao ponto, eu digo que punimos nossa própria injustiça, que quer morrer junto com quem a exemplifica de forma espetaculizada. Não apenas todo criminoso no mundo deve morrer simbolicamente com o fuzilado, mas isso deve ocorrer através de uma ação ela própria violenta, crua, corporalmente viva e instantânea. O sentido de justiça vingativa que lhe é inerente devido à narrativa do fato não-ficcional (legítima defesa de si e de terceiros) lhe subtrai a qualificação de maldade, mas paradoxalmente a define também como má em um sentido relacional importante: nega de forma bastante enfática (e na verdade como fonte de gozo) a mediação do tribunal da razão — para empregar uma expressão de Immanuel Kant. Em virtude de negar esse intermediário raciocinativo ético-moral, essa exemplaridade justiceira quer alcançar uma mobilidade desconcertante para além do bem e do mal concebidos a partir de algum paradigma fora da própria ação. Ela não apenas quer se situar como a vivência forte de uma espécie de ponto final da injustiça sofrida naquele momento, que adquire então uma reparação acachapante, quanto também pretende ser vivida como um instante de instauração mítica de nossa consciência de justiça. Nesse último aspecto, é como se todo o espetáculo de justiçamento proferisse um aviso de consciência: “Veja o que pode acontecer com todo desejo de maldade”.

Como se pode perceber, existe uma imbricação violenta entre a ânsia de digerir contradições morais íntimas e profundas e a necessidade de concepção de justiça reparativa em um âmbito macro, não apenas social, mas como também civilizatório e até mesmo cósmico. Tal como os estudos de antropologia mostram, esse trânsito é realizado como ritual, particularmente nos de sacrifício, em que a perda de uma vida faz refluir para o corpo coletivo e para a ordem do universo tudo o que foi perdido no sangue da vítima. No caso de que nos ocupamos, trata-se de um ritual de expiação (de reparação de crime), em que um ser absorve todos os males ou demônios que devem ser aplacados junto com a própria vida. Nesse trânsito ritualístico, a corporeidade é de crucial importância, pois exprime materialmente todo o complexo vertiginoso e violento das emoções, bem como participa da objetividade do mundo como matéria, como algo que ocupa o próprio espaço concreto as coisas, da vida, do cosmos. O corpo é ao mesmo tempo uma “propriedade” nossa (que pode ser roubada), e nós mesmos (com o qual nos identificamos como parte de nossa própria pessoa).

Toda essa força ritualística nutre-se da narrativa visual (das cenas do vídeo), que insere a maldade como um golpe acintoso contra a normalidade linear da vida cotidiana. Essa violência intrusiva permite a facilitação psíquica de se distanciar do criminoso, negando qualquer tipo de identificação consciente. Isto, na verdade, fornece os meios adequados para uma identificação pervertida e inconsciente: “uma vez que ele é totalmente-outro, está fora de questão e acima de qualquer suspeita que eu possa me identificar com ele”. A ruptura feroz da normalidade da vida é uma espécie de fiador para um trânsito intenso através de vias psíquicas que somente ocorrem pelo fato de se darem à sombra da consciência. Quanto mais evidente a negação dos processos identificatórios, tanto mais fluida pode ser a encenação que acopla os personagens deste palco inconsciente. Se todo esse raciocínio está correto, então isso significa que há várias formas de identificação e de sua recusa com os três personagens da cena, e muito da violência emocional demonstrada pelas reações das pessoas pode ser explicado devido ao caráter contraditório de tais identificações. O esforço para negar alguma delas se traduz, entre outras coisas, pelo destempero emocional de se regozijar com a fantasia ritualística de extirpar toda a criminalidade do mundo através da violência justiceira e sanguinária cuja legitimidade é proporcional à evidência da maldade. O que não é de forma alguma evidente é o quanto e como participamos desse mal.

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sábado, 12 de outubro de 2013

Vias de desfiguração ideológica do racismo


A sociedade brasileira é racista. Um dos argumentos empregados contra essa ideia baseia-se na constatação de que no Brasil, de forma diferente dos Estados Unidos, por exemplo, já houve muita miscigenação entre brancos, pretos e indígenas, de modo a termos uma profusão de tipos raciais médios. Diante de uma gradação infinita e principalmente indefinida entre tipos raciais que dificilmente são “puros”, muitas vezes defende-se que cotas raciais para ingresso em universidades públicas não teriam muito sentido, tal como disse um editorial da revista Veja, que se apoiou no curioso o fato de dois irmãos gêmeos terem recebido avaliações opostas uma à outra quanto a sua raça ao realizarem o exame vestibular.

Um grande problema em relação a tais argumentos é que preconceitos e formas de segregação, violência e desrespeito para com o outro não necessitam de bases materiais, sejam elas biológicas, de riqueza ou outras quaisquer, para serem exercidas em toda sua força. Podem-se construir inimigos tomando-se como apoio características concretas mínimas e até mesmo inexistentes, tecidas de forma substancialmente imaginária. Tal como a psicanálise ensina fartamente, a atitude neurótica consiste em larga medida na leitura de mundo mediada por fantasias inconscientes, das quais temos muito pouca transparência em relação a seu poder e modo de determinação de nossas atitudes conscientes. Para que elas entrem em ação, caracterizando todo um quadro de comportamentos e atitudes sintomáticos, muitas vezes basta uma tênue associação com desejos recalcados, de tal forma que uma grande cadeia associativa se incumbir de fazer fluir uma quantidade impressionante de afetos, cuja racionalidade, motivação e sentido nos escapam. Assim, havendo a disposição de segregar o outro, qualquer proximidade à raça negra, mesmo que mínima, pode ser mais do que suficiente. Se a atitude racista não depende de uma realidade substantiva em termos materiais para ser exercida, tampouco é abrandada pelo fato de nos convencermos que tal realidade não existe, ou não é significativa devido a sua indefinição.

Há que se considerar, também, que não é pelo fato de haver tipos raciais intermediários com gradação infinita que o racismo não possa existir, também ele, em graus, embora na verdade não de forma tão indefinida, pois sua ferocidade aumenta exponencialmente. É muito evidente que existe maior ou menor aversão a uma pessoa em virtude do fato de ela aparentar maior proximidade com a raça negra. Todos nós sabemos que os afetos possuem intensidade muito variável, e a violência racista também, apoiando-se na percepção de que se trata de uma pessoa que “não é tão branca quanto nós”, passando pela ideia de que é alguém “muito moreno”, “quase mulato” etc.

Por outro lado, tal miscigenação não serve apenas de apoio para negar a existência do racismo, nem apenas para camuflá-la, como se diz usualmente, uma vez que pode ser percebida pela própria pessoa como um suporte para o exercício de sua violência contra o outro. Nesses momentos, em vez de considerar a mescla racial em direção aos pretos e indígenas, a pessoa se considera, de alguma maneira e em algum grau, partícipe da raça branca, de tal forma que essa característica lhe serve de apoio psíquico para se isolar dos pretos e indígenas e assim poder hostilizá-los.

É bem verdade que a condição histórica de coexistência das diversas raças no país gerou certa cultura de convivência e aceitação de descendentes africanos e indígenas. Embora seja muito difícil de dizer o quanto a miscigenação contribuiu positivamente para isso, o certo é que essa atitude de tolerância é sustentada com base na percepção de que tais grupos oprimidos se satisfaçam com e se resignem a uma condição subalterna. Tão logo manifestem algum talento, capacidade e determinação que os faça ascenderem em sua condição sócio-econômica, sofrem uma hostilidade mais do que proporcional à sua ascensão. — Essa realidade social, que na verdade é bem conhecida por todos que tenham sido vítimas dela, tem parentesco com a de diversos imigrantes de países ricos que são tolerados na medida em que apenas se conformem a prestar serviços elementares e subalternos. Quando exigem espaços para manifestação de sua cultura, quando demandam suficiente visibilidade e expressão de seus modos de vida próprios, ou seja, quando começam a reivindicar serem ouvidos e vistos como parte integrante e viva de toda a esfera social, ajudando a construir sua identidade, nesse momento são categoricamente hostilizados.

A luta contra o racismo exige o desmascaramento consistente dessas formas de obscurecimento ideológico das atitudes de segregação, em que quaisquer de suas formas abrandadas são expostas com visibilidade desproporcional e portanto falsificadora da realidade violenta a que os pretos e indígenas estão submetidos.

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