Um espaço de discussão sobre Filosofia, Psicanálise, Arte, Política, Crítica cultural e Atualidades.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Tíquete para a aula


Confesso que tenho uma visão pessimista quanto ao que podemos avaliar da educação no Brasil. Creio que ela seja ainda, em grande medida, do tipo “bancária”, e não “dialógica”, tal como Paulo Freire cunhou esses conceitos. Significa dizer que nosso processo de ensino e aprendizagem ainda se baseia fundamentalmente na aquisição de conhecimentos por parte dos alunos, que devem “devolver” (no mais das vezes de forma pouco criativa) este saber periodicamente através das avaliações. Imagino que nas escolas e faculdades em nosso país as estratégias educacionais baseadas numa participação mais substantiva do corpo discente é muito mais exceção do que regra. Além disso, os momentos em que tal participação se dá acabam fazendo propaganda contrária a ela, ao potencializarem um efeito ruim, contido na substituição de uma aula expositiva por falas pouco articuladas, pouco rigorosas, dos alunos. Meu objetivo hoje é menos propor algum princípio pedagógico novo e mais defender uma forma de condução das aulas que faça justiça aos princípios da pedagogia de Paulo Freire. Minhas reflexões tomam como objeto primordialmente cursos de filosofia e ciências humanas no âmbito universitário, mas creio que possam perfeitamente ser aplicadas no ensino fundamental e médio.

Embora virtualmente todas as professoras e professores concordem com a ideia de que o mais significativo no processo de aprendizado é a capacidade de refletir sobre determinados saberes (e habilidades), a prática diária conduz incessantemente à percepção de que é necessário transmitir um conteúdo programático quase sempre muito grande para a carga horária das disciplinas. Em virtude disso (além de outros fatores), a ênfase na aquisição de conteúdos expostos pelo professor torna-se, no mais das vezes, absoluta. — Antes de prosseguir, entretanto, é necessário o reconhecimento explícito de que dominar determinadas teorias, conceitos e problemas é de crucial importância em diversos ramos do saber escolar e acadêmico, para que um progresso intelectual seja consistente. Quando lecionamos para turmas de períodos avançados da grade curricular sempre passamos pela experiência frustrante de, ao trabalharmos alguma teoria contemporânea, percebermos que os alunos demonstram pouco ou nenhum conhecimento de teorias anteriores, necessárias para avançar no curso. Na medida em que todos esses conhecimentos apresentam uma alta carga técnica de elaboração conceitual, os docentes são sistematicamente levados a pensar que seu papel ativo de apresentar, transmitir e articular de forma rigorosa e clara tais conteúdos é não apenas indispensável, quanto tende a ser prejudicado pelas estratégias de participação dos alunos quando o substituem, mesmo que apenas parcialmente.

Apesar da minha crítica inicial ao peso da postura exclusivista do professor como quem apresenta os conteúdos, não tenho dificuldade nenhuma em assumir que considero o outro extremo como muito mais prejudicial, a saber: a transformação de aulas teóricas em um espaço de discussão geral entre alunos individualmente ou em grupos. Creio que haja formas criativas e progressistas de trabalhar com discussões em sala, mas, especialmente quando está em jogo um conteúdo teórico de difícil assimilação, que necessita uma habilidade específica para fugir de uma percepção de senso comum, a exposição qualificada, rigorosa e conceitualmente avançada por parte de um professor me parece insubstituível. Apenas com o propósito de ilustrar o que estou dizendo, imaginemos o quanto a divisão da turma em apresentação de grupo para discussões ao longo do semestre seria melhor, em termos de ensino e aprendizado, do que assistir aos seminários de Michel Foucault, Theodor Adorno, Habermas e outros teóricos. Note bem: não estou cometendo a insensatez de comparar a mim ou qualquer outro docente em particular a estes filósofos. Trata-se apenas de mostrar que, em diversos graus e formas, o contato com uma exposição rigorosa de conceitos por parte de quem os domina bem é insubstituível. Essa ideia me parece tão mais acertada quanto entra em jogo a percepção dos discentes de que a divisão do conteúdo programático em seminários de alunos se presta tão-somente a substituir o trabalho do professor. Nesses momentos, o quanto cada aluno aprende ao expor sua temática acaba sendo perdido todas as outras vezes em que não pôde dialogar com um exposição mais avançada do que as dos colegas.

Diante deste cenário, parece-me claro que o núcleo do problema consiste em compatibilizar e tornar harmônicos os princípios da necessidade de o aluno ter exposições conceituais rigorosas, consistentes e avançadas, por um lado, e o desiderato de participação ativa não apenas na construção de seu próprio conhecimento, quanto também na condução do processo de ensino. Indo direto ao ponto, o que me parece de crucial importância, em uma disciplina de filosofia e ciências humanas, é que cada aluno tenha se preparado de forma reflexiva sobre o tema de cada aula. É necessário eliminar, definitivamente, a possibilidade de os alunos acompanharem como meros ouvintes cada aula, uma após outra, e estudarem todos os textos faltando dois ou três dias para a prova. Embora essa prática, obviamente, não seja a única, minha visão pessimista diz que ocorre em mais de três quartos das vezes. Para evitar esse tipo de situação, muitos docentes pedem fichamentos, resumos e outras formas de elaboração dos tópicos e textos estudados. Embora isso contribua de fato para atenuar o problema, muitas vezes o valor dado para as atividades é muito pequeno, e elas mesmas são pouco interessantes, podendo ser feitas de forma mecânica e pouco reflexiva. A estratégia que comecei a adotar em 2013 é a de que todos os alunos apresentem em cada aula duas perguntas com suas respectivas respostas sobre o tema a ser tratado em aula. Deverão ser questões que demonstrem a leitura e reflexão, pelo menos em estágio inicial, sobre algum texto a ser estudado. Além disso, a depender do tamanho da turma, certa quantidade de alunos serão sorteados para ler em voz alta as questões e respostas, de modo a que todos saibam o que foi feito pelos colegas. À medida que a compreensão do texto vai avançando, as questões formuladas por um aluno deverão ser respondidas pelos outros. Além dessa exposição oral, o que foi escrito deverá ser entregue no dia, pois contará como avaliação. Ao contrário das outras estratégias de pontuação que critiquei antes, parece-me imprescindível que tais atividades diárias ao longo da disciplina valham no mínimo cerca de um terço dos pontos do semestre, de modo a criar a mentalidade de que este processo de engajamento prévio tem um valor real, substantivo, no processo de aprendizagem. Além disso, deve-se, por uma questão de princípio, reservar uma parte da carga horária da disciplina (eu diria talvez 1/4) à leitura do texto e confecção das perguntas e respostas, de modo a marcar, mais uma vez, o valor a ser dado a essa preparação.

Eu diria que, de forma análoga a como é necessário comprar uma passagem para viajar, ter um passaporte para entrar em um país, comprar um tíquete para assistir ao filme, é necessário também um “tíquete” para assistir aula: ter estudado e refletido sobre o que será exposto. A situação típica: “Eu não pesquisei nada, não estudei nada, não li nada, e vou assistir uma aula” deveria ser completamente banida de nosso processo educativo. Além dos malefícios evidentes da atitude meramente passiva dos alunos, existe ainda um outro “prejuízo”, mas para o professor. Se o aluno não tem nenhum conhecimento do texto a ser discutido em sala, quais as chances de ele poder medir, por exemplo, o quanto a exposição acrescenta ao que o texto clássico diz? Como poderá avaliar a originalidade da exposição, sua ousadia de propor uma interpretação nova etc., se não há parâmetro nenhum, nem sequer do próprio texto-base? Nesse sentido, muito do esforço de preparar uma boa aula, indo além do que um autor clássico disse e do que os comentadores já explicitaram, fica perdido.

Na medida em que as perguntas e respostas dos alunos vão se enriquecendo com as exposições do texto e das leituras próprias, tanto menos se tornam necessários esses famigerados seminários em grupo ou individuais, pois as participações podem se dar no registro de apresentação/debate dos conteúdos, pois toda a turma já está a par dos elementos conceituais, podendo interferir de forma criativa ao longo dos trabalhos. Assim, não apenas não sacrificamos o que há de significativo na exposição por parte do professor, quanto a enriquecemos com as intervenções dos alunos, as quais podem se dar de forma muito mais bem informada e com frequência proporcional ao quanto cada perspectiva dos alunos se amadurece no decorrer do curso.

Se você gostou dessa postagem,
compartilhe em seu mural no Facebook.


sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Esquerda e direita, ainda.


Um dos primeiros filósofos a refletir programaticamente sobre os fundamentos e os parâmetros de validade do conhecimento teórico, Aristóteles havia dito que nas ciências da ética e da política não se deveria exigir tanta clareza e exatidão quanto na matemática e no conhecimento sobre a natureza. De fato, a mobilidade e a confluência às vezes não harmônica de inumeráveis fatores no comportamento humano, não apenas tomado no âmbito político e social, mas também de cada indivíduo, torna por vezes até ridícula alguma tentativa de precisão quanto a ações futuras, e mesmo quanto à validade de princípios gerais do que leva cada pessoa ou grupo a agir, pensar e sentir. Embora essa ideia se nos afigure hoje, 2300 anos depois da morte de Aristóteles, como até mesmo evidente, por outro lado a extensão e o grau de sua aplicabilidade, ou seja, o quanto podemos tolerar de incerteza no âmbito da ciências humanas, ainda é bastante discutível, e me parece que em vários momentos esse princípio não recebe a devida atenção. Dos vários exemplos, o que gostaria de discutir hoje são os conceitos de esquerda e direita na política.

Desde que o regime dito socialista na União das Repúblicas Soviéticas sofreu uma derrocada significativa, ao que se seguiu a tomada do poder central por partidos políticos tradicionalmente ligados às forças de esquerda (como de movimentos operários e de grupos de defesa de parcelas oprimidas da sociedade), essa tradicional divisão do espectro político passou a ser criticada de diversas formas. O questionamento mais “clássico” é: se partidos e representantes de movimentos sociais, ao terem em mãos as principais chaves para orquestração das políticas sociais e econômicas, não apenas executam durante um bom tempo medidas tradicionalmente ligadas a partidos de direita (como o aumento e manutenção de taxas de juros elevadas, empréstimos subsidiados a grandes empresas, favorecimento de concentração de empresas prestadoras de serviço etc.), como se pode manter tal divisão sem se pagar o preço de um grande idealismo? — É precisamente este preço que muitas pessoas temem apagar, e se relutam a fazê-lo. De fato, o raciocínio parece coerente e forte: se partidos que sempre se disseram de esquerda, ao se defrontarem com as vicissitudes em princípio intransponíveis da pluralidade continuamente renovada de interesses divergentes, se veem obrigados a práticas que mantêm e acolhem programas dos mais variados, como não taxar de uma abstração idealista a manutenção do conceito de esquerda, por exemplo?

Em debates deste tipo, o dispositivo de argumentação que me parece mais eficaz é o questionamento dos princípios que dão suporte a uma perspectiva, uma vez que seus defensores muitas vezes não possuem suficiente consciência do modelo e estratégia de pensamento nos quais se firmam. Em relação a este argumento que apresentei acima, seu princípio de apoio é o de que conceitos referentes à realidade social somente possuem validade suficiente quando os quadros de sua aplicabilidade concreta são suficientemente consistentes no âmbito macro, de conjunto. Na medida em que certo conceito é por demais relativizado, de modo a não se concretizar com um grau de coerência ampla significativa, então seria necessário, segundo essa perspectiva, “descer” a um plano descritivo mais rente à superfície irregular, múltipla e diversificadamente colorida da realidade tal como “efetivamente” praticada. Desse modo, escaparíamos da pecha de idealistas, que supostamente habitam em castelos conceituais no ar de nosso desejo juvenil revolucionário.

Tal como disse Theodor Adorno de forma programática, não se deve sempre “culpar” os conceitos pelo fato de a realidade não ser cabal- ou completamente assimilada por eles. Em uma grande quantidade de casos, essa distância é, sim, índice de fraqueza conceitual, como os conceitos de anjo, forças cósmicas morais, superioridade das raças etc. Em outros momentos, entretanto, um conceito, uma ideia, um paradigma de análise significa uma espécie de baliza para que se meça a realidade em termos de nossas expectativas de justiça, de progresso social, de compromisso político, de coerência administrativa. Todos esses fatores e dimensões sócio-políticas possuem bem mais validade normativa do que descritiva. Nesse sentido, não é pelo fato de partidos que supostamente “encarnavam” e “incorporavam” um ideário de esquerda passarem a adotar políticas tipicamente associadas à direita, que os conceitos de esquerda e de direita perderam seu valor.

Se podemos aprender algo com essa espécie de consciência política decepcionada e pseudo-órfã de ideais socialistas, então se trata da tarefa de assumir que “esquerda” e “direita” não descrevem partidos, grupos de pessoas ou mesmo um indivíduo em sua totalidade atual ou em seu desdobramento histórico, mas sim determinadas ações, projetos, estratégias, práticas etc., compreendidos dentro do contexto em que se inserem, lastreadas por suas finalidades, consequências reais e meios empregados. Nesse sentido, um partido não “é” de esquerda, mas sim, hipoteticamente, propõe mais projetos e implementa mais políticas de esquerda, a saber, que favorecem a distribuição de renda, fomentam justiça social, amparam os direitos de minorias, contribuem para o reconhecimento do direito de expressão simbólica de indivíduos marginalizados pelo sistema econômico etc. Assim, numa abstração apenas retórica, podemos dizer que no absurdo de nenhum governo no mundo praticar nenhuma política semelhante a essas, mesmo assim este conceito continuaria válido...

Se você gostou dessa postagem,
compartilhe em seu mural no Facebook.


sábado, 8 de fevereiro de 2014

A escolha de um tema


O trabalho de pesquisa teórica, tanto no âmbito de ciências humanas quanto exatas, possui diversas características que geram a percepção de estranhamento em relação à realidade. O tipo de investimento pessoal para alcançar resultados consistentes difere bastante da realização de outras tarefas, mesmo quando estas são longas. Um mestrado em filosofia ou ciências humanas, por exemplo, demanda não apenas estudos constantes e prolongados, mas com um foco dirigido para um objeto bem circunscrito. Por mais que a graduação tenha sido longa, quatro anos ou mais, o estudo de pós tende a gerar um impacto afetivo especial devido ao fato, entre outras coisas, de exigir uma concentração em detalhes, em nuances de interpretação em perspectivas distintas, tudo isso gravitando ao redor de uma temática homogênea, que tende a produzir o sentimento de certa saturação, de algo por demais insistente. Durante as disciplinas cursadas na graduação, por maior que tenha sido o trabalho intelectual, a diversidade de assuntos produzia um contrapeso para a demanda de atenção, de atitude concentrada.

Há vários outros elementos que caracterizam essa discrepância do labor teórico para com o cotidiano, e falar de todos eles implicaria discutir a natureza da construção e prática do saber científico em geral, o que não é o caso para esta postagem do blog. Quero focar apenas uma questão muito relevante, que é a dificuldade inerente a uma das primeiras tarefas de quem se propõe a fazer uma pesquisa de pós-graduação: a escolha do tema. Vou deixar de lado as diferenças entre as diversas disciplinas e cursos, procurando focalizar elementos comuns ao estudo da filosofia e de ciências humanas e sociais.
 
Ao se escolher o tema da pesquisa, é necessário estabelecer uma formação de compromisso, um meio termo, entre o interesse, o gosto pessoal, e a adequação às expectativas da instituição onde se quer estudar. Embora não para todas as pessoas, mas creio que para a grande maioria esteja bastante claro que o excesso para um desses extremos é prejudicial. Focar apenas naquilo que nos dá prazer em estudar ou deixar este aspecto completamente de lado e obedecer totalmente àquilo que pode ser moda ou é praticado normalmente pelo conjunto de professores não promete, por motivos distintos, um bom rendimento ao longo de no mínimo dois anos de esforço contínuo. É interessante observar que, mesmo quando uma determinada temática obedece a parâmetros de aceitabilidade institucionais, o excessivo interesse e gosto por parte do pesquisador pode ser prejudicial, em virtude da dificuldade de se distanciar afetivamente em relação ao objeto. O desejo de compreendê-lo de forma abrangente demais, de pesquisar absolutamente tudo sobre ele, de não deixar passar nada que possa ser relevante etc., tudo isso pode tornar o trabalho incompatível com o que se espera de um trabalho acadêmico bem feito, enxuto, realizável dentro de um prazo adequado, tanto para o pesquisador quanto para a instituição.

Este contraste entre o impacto afetivo do objeto e a demanda de adequação aos requisitos teóricos tem outra faceta, mais difícil de ser apreendida, e que se reflete negativamente na qualidade de grande parte dos projetos. Trata-se do equívoco de pensar que o objeto-de-pesquisa é uma parte da realidade cultural, como cultura de massa, religião, arte moderna, alcoolismo, violência contra mulher etc. Na verdade, a pesquisa científica tem como foco determinada forma teórica de olhar para esse recorte da realidade exterior. O objeto-de-reflexão, que ao se redigir o texto se identifica ao objeto-de-apresentação, é a trama dos conceitos, de argumentos, de hipóteses e de resoluções apresentadas por um ou mais teóricos. Nesse sentido, a pergunta inicial que alguém deve se fazer, diante da tarefa de escrever um projeto, não é propriamente “O que eu quero estudar?”, mas sim: “Qual perspectiva teórica eu quero apresentar sobre determinada realidade?”.

Em termos práticos, não se devem tomar objetos de nosso interesse e então procurar algum teórico que fale sobre eles, mas sim aprofundar-se em textos importantes sobre um assunto e tentar formular um problema teórico a partir da própria leitura. Seguindo o primeiro viés, pode-se formular diversas questões em princípio muito interessantes, ricas e de fato inovadoras, mas a lida concreta com o trabalho de pesquisa pode se tornar inviável, em virtude de ser grande o risco de não se encontrar uma boa base na literatura de apoio. Embora prometa alguma inovação na área de conhecimento pretendido, a escassez de elementos teóricos já formulados pode tornar inviável toda a pesquisa. Adotando o outro direcionamento, a saber, buscar o tema, as questões e hipóteses teóricas a partir de todo o “caldo” de leituras, resumos e fichamentos dos textos estudados, a viabilidade da pesquisa é muito mais assegurada, pois tudo o que se quer responder, de alguma maneira, já está pelo menos indicado por aquilo que fez surgir toda a problemática.

Embora seja evidente que em muitos casos a nossa perspectiva “direta” para com determinado fenômeno seja componente integral do que nos levará a escrever sobre certos temas, como o consumo, a influência religiosa nos costumes, o discurso político de alguns grupos e atores sociais etc., a qualidade da pesquisa será marcada essencialmente pelo modo com que se demonstra a capacidade de aprender a enxergar a realidade com as lentes fornecidas por conceitos teóricos significativos. Isso se dá, primeiramente, pelo fato de que o esforço de tentar se aperceber da consistência de conceitos alheios (com os quais muitas vezes não concordamos) é um exercício indispensável para formar a própria capacidade intelectual, deslocando nosso olhar, já formado através de mecanismos fragmentários e não sistematizados, e fazendo-o fluir pelas vias da articulação rigorosa de etapas argumentativas consistentes. Trata-se de um exercício de alteridade de pensar não apenas junto com o outro, mas através dele, para que se possa, ao fim do per-curso, poder decidir com conhecimento de causa o que se quer e não se quer agregar à nossa própria visão de mundo. Além disso, em uma determinada etapa, tanto de nosso desenvolvimento pessoal, quanto também do estado de nosso conhecimento social sobre o assunto, um conceito teórico específico pode nos parece equivocado, mas através de estudos consistentes essa avaliação pode mudar, fazendo com que toda uma concepção científica seja tomada como consistente e útil para compreender a realidade.

“Mas e se eu quiser apresentar uma leitura original, pessoal, de uma realidade?” — Esta pergunta é muito interessante, pelo fato de que mesmo nesse caso o que deverá ser apresentado não é propriamente “o objeto”, mas sim um modo/modelo teórico, conceitual, específico de falar sobre ele. Quando Freud, por exemplo, criou sua teoria sobre o fenômeno histérico, construiu e apresentou, na verdade, conceitos e hipóteses que nos permitem compreender este fenômeno psíquico a partir de um viés teórico determinado. O que o fez ser um cientista de suma importância no panorama da ciências humanas do século XX foi a qualidade do edifício teórico que ele construiu. Todas as suas observações relativas aos objetos realmente significativas somente têm relevância pelo modo com que amparam, apoiam, ilustram e esclarecem seus conceitos, argumentos e hipóteses. — Assim, independente de a pesquisa apresentar uma perspectiva original ou de outro autor, o que está em jogo é, fundamentalmente, o valor teórico/conceitual do que é apresentado, ou seja, seu grau de coerência, de sistematicidade, de clareza de suas hipóteses etc.

Se você gostou dessa postagem,
compartilhe em seu mural no Facebook.

Compartilhar

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Pseudo-liberdade

A construção de sociedades marcadas por uma concepção essencialmente individualizada de seus componentes sempre terá diversos tipos de problemas de harmonização entre os planos individual e coletivo, não apenas no que concerne ao egoísmo e desrespeito ou violência para com as outras pessoas, mas também no plano da própria auto-concepção individual. A interioridade subjetiva, vivida no horizonte de sociedades com milhões de pessoas e que se sentem aumentadas infinitamente pela inter-relação econômica e política mundial, exprime tensões e paradoxos visíveis na dificuldade de conciliar o desejo de liberdade e a dinâmica que determina o sentido da existência coletiva. — Hoje quero falar de uma questão relacionada a isso: uma forma por assim dizer neurótica de afirmar a própria condição de ser livre através da auto-sabotagem.

A construção laboriosa e continuada do que se pretende alcançar, bem como da manutenção reiterada de relacionamentos afetivos, exige um esforço que é muito facilmente assimilável como doação de si à realidade, como anulação. Embora as exigências de nossos investimentos sejam infinitamente variáveis, não é nada difícil que a tensão emocional e seu consequente dispêndio de energia psíquica aumentem muito com o passar do tempo, em que é exigido de nós re-começar, re-ssituarmo-nos, re-elaborar o que foi vivido, de modo que a cada instante a “simples” continuidade exige uma espécie de começo em escala micro. Que tudo isso seja vivenciado como um excessivo peso de determinação extrínseca a nós mesmos marca uma condição de heteronomia, de ausência de liberdade, de subjugação a uma objetividade do real por demais irritante. Se somarmos a este complexo de coisas a dúvida em relação ao resultado final (se tudo terá valido a pena), logo uma “solução” pode ser antecipar o fim através da simples recusa de continuar.

Duas situações típicas desse estado de coisas:

1) Dificilmente alguém escapa ao longo da vida da experiência de ter alívio e mesmo alegria quando uma situação de incerteza se resolve, mas para a alternativa pior. O desgosto de não ter alcançado o melhor acaba um tanto obscurecido pelo prazer da fuga da situação de dúvida e incerteza, pois a tensão emocional e psíquica do desconhecimento, da impossibilidade de agir em virtude disso, parece pior do que ter algo ruim em mãos, mas com a possibilidade de fazer por conta própria algo que solucione o problema.

2) Tal como coloquei em uma postagem anterior, é um exemplo consumado de auto-sabotagem a atitude de antecipar de forma ansiosa o que se gostaria que as coisas fossem, “punir” o presente por ainda ser o que ele é, e acabar inviabilizando o que se gostaria de alcançar. A distância entre a fantasia que impulsiona o desejo e sua concretização futura é anulada, de modo que tudo o que poderia construir mediações para fazer a ponte entre a interioridade e a objetividade do mundo deixa de ter seu espaço mínimo.

Ora, um dos sintomas de vigor emocional e psíquico consiste precisamente em ser capaz de sustentar a continuidade do estado de incerteza, tal como muito bem sabia Nietzsche. A não-necessidade de suprir as lacunas de nossa convicção sobre o valor de nossas ações, sobre o sucesso ou fracasso do curso do mundo, sobre o sentido ou absurdo de nossa caminhada, sobre o mistério do quanto seremos recompensados por nosso investimento afetivo no outro etc., esta não-carência demonstra o quanto damos muito mais valor àquilo que podemos efetivamente praticar, construir e obter do que à negatividade que pesa como obstáculo.

Nesse sentido, a auto-sabotagem, a recusa de continuar, a desistência pura e simples configuram uma simulação canhestra da capacidade de autodeterminação, de ter em mãos o poder de determinar a si mesmo, negando a condição de heteronomia (que é a condição oposta à de autonomia). Em vez de a liberdade ser definida como resultado da superação de obstáculos e da negatividade, como já havia dito Hegel, ela é vivenciada intimamente como uma condição, como mera negação dos obstáculos e incertezas provenientes da realidade. Ao longo do tempo, o que resulta é um empobrecimento e restrições cada vez maiores, pois a percepção de si como livre por decisão de seu próprio arbítrio recusador tem como ponto de fuga tão-somente o âmbito do pensamento, da imaginação e da fantasia, onde não há todo aquele um “massacrante” peso da objetividade social, da natureza e dos afetos.

Se você gostou dessa postagem,
compartilhe em seu mural no Facebook.

sábado, 25 de janeiro de 2014

Troca de valores


Quem viaja para outros países, não apenas Estados Unidos e Europa, mas também para alguns da América Latina, como o Chile, constata de forma impressionante o quanto produtos industrializados, como roupas, calçados, automóveis e eletrônicos, são bem mais baratos lá do que aqui. Sempre quando do lançamento de um produto badalado, como os iPhone’s da Apple ou um console de videogame, vemos várias reportagens mostrando que no Brasil tal produto é “o mais caro do mundo”. A explicação que parece vigorar há mais tempo, e na qual muitos ainda insistem, é a de que a carga tributária no Brasil é alta demais. Várias matérias jornalísticas têm mostrado, entretanto, que, embora esse seja um fator real, não é o decisivo, pois na verdade o preponderante seriam as altas taxas de lucro das empresas. Por tudo que li a respeito, estou convencido de que essa segunda perspectiva é a correta. Se assim é, a pergunta a se responder é a seguinte: por que nós no Brasil aceitamos pagar tão caro pelos produtos industrializados?

Em sua coluna no jornal Folha de São Paulo, Vladimir Safatle respondeu exatamente a essa questão com uma ideia que me parece acertada, embora insuficiente para dar conta da especificidade deste fenômeno no Brasil. Resumindo, sua posição é a de que pagamos mais caro porque o preço alto confere status ao comprador. Safatle cita o exemplo de um psicanalista seu amigo que passou a ter mais pacientes quando aumentou consideravelmente o preço da consulta. Pagar caro teria o sentido de um fetiche, de modo que o comprador se identifica com o preço da mercadoria ou do serviço. Essa ideia é, de fato, representativa de muito da atitude do consumo, em que, seguindo conceitos basilares da teoria de Jean Baudrillard, o ímpeto do consumo não é ligado ao uso concreto que se faz dos objetos, mas sim à apropriação das coisas como signos de valores menos ou mais abstratos, como feminilidade, status, juventude, alegria, vigor sexual etc. O problema em empregar este princípio como explicação para o caso brasileiro está no fato de que ele é válido em todos países em que o capitalismo chegou a ter a mobilidade e desenvolvimento que vemos nas Américas e na Europa. Já na década de 50 do século passado Theodor Adorno havia dito explicitamente que o preço era uma das coisas que se compram em uma mercadoria, e as formulações teóricas de Baudrillard datam dos anos 70 na França. Assim, continuamos com a questão: por que no Brasil esse princípio da atitude consumptiva se dá de forma tão gritante?

Todas as nossas atitudes são sempre motivadas por vários fatores, que não se situam em um mesmo plano de consciência, pois alguns são mais profundamente arraigados em nós, marcados por um forte grau de inconsciência, enquanto outros podem ser mais facilmente localizáveis no âmbito de nossa percepção e das trocas no imaginário coletivo. A fim de entender como se dá o resultado dessa convergência de elementos motivacionais, muitas vezes é interessante estabelecer um vínculo entre fenômenos aparentemente sem ligação. Tal como a técnica da associação livre de Freud demonstrou, quando conectamos vivências aparentemente discrepantes surgem significados subjetivos que passam ao largo de nossa percepção e censura conscientes, possibilitando-nos compreender uma motivação comum a mais de uma atitude, o que faz com que ambas sejam esclarecidas de um modo que não seria alcançável na leitura de cada uma isoladamente.

Permitam-me usar um caso que ocorreu comigo, como um dos vários exemplos para uma atitude que considero também típica no Brasil. No prédio onde tenho lecionado nos últimos semestres, todos os quatro são brancos e, como sempre acontece, os marcadores que a instituição oferece acabam secando muito rápido devido ao uso coletivo. Para evitar este problema, comprei um marcador um pouco mais caro, recarregável. Há alguns meses, esqueci-o na sala de aula, provavelmente na canaleta de alumínio na base do quadro. Dois dias depois, notei que ele não estava na sala, nem na pasta em que ficam todos os objetos a serem usados na aula, nem havia sido devolvido aos funcionários da secretaria do prédio. Como a sala só é aberta com chave por cada professor durante período de aula, o mais provável é que algum dos colegas de trabalho se apossou do marcador de quadro branco, pois viu que era um tanto “especial”.

O que impressiona neste como em outros casos semelhantes é a mesquinhez da atitude. O objeto em questão tem um valor pequeno demais quando comparado à percepção de si como honesto. Embora seja muito evidente que grandes furtos sejam repreensíveis proporcionalmente ao valor do objeto furtado, o complexo psíquico-emocional do que tipicamente se chama “um mísero ladrão de galinhas” é um objeto que merece uma investigação específica. Indo direto ao que nos interessa aqui, está muito claro que a pessoa que pratica essas pequenas apropriações de objetos se “vende” por muito pouco, rebaixando-se, em sua dignidade, ao valor da própria coisa. Trata-se — de forma pouco metafórica — de uma compra e de uma venda, pois se está “adquirindo” um produto e dando-se em troca a própria qualificação de si como honesto.

Voltando à questão do preço das mercadorias, é importante notar que toda vez que compramos um objeto, pagamos não propriamente com o dinheiro, mas com o nosso tempo de trabalho (ou o de nossos pais, ou de quem quer que nos tenha dado dinheiro): comprar significa trocar esforço, trabalho e energia por um objeto (que por sua vez também condensa trabalho alheio, como diz Marx, mas vamos abstrair deste lado da equação). Em outras palavras: trocamos “um pouco de nós mesmos” por algo que queremos. — A esta altura não deve ser difícil perceber em que consiste o argumento: quem admite, aceita, se resigna a pagar caro por uma mercadoria está, neste mesmo ato, vendendo a si mesmo por um preço baixo. Ora, isso é bem análogo à atitude mesquinha de se apropriar indevidamente de coisas alheias, bem como de “querer levar vantagem em tudo”, mesmo — e tipicamente — quando são vantagens pequenas demais comparadas a nossa dignidade, paz de espírito e amor-próprio. Em suma: tudo é muito caro no Brasil devido a um complexo psíquico-emocional compartilhado em nossa sociedade que resulta em darmos pouco valor a nós mesmos, em nos vendermos por muito pouco.

Essa perspectiva não se opõe à defendida por Adorno e Safatle, em virtude do fato de que a percepção de pouco valor para si é compensada, através de uma formação de compromisso, com a identificação imaginária com o preço pago pelo produto. A um só tempo, nós nos rebaixamos e nos elevamos na compra de uma mercadoria cara, de tal forma que o processo de identificação com o preço é uma espécie de facilitador psíquico para a pré-disposição de auto-rebaixamento.

Desnecessário dizer que tudo isso não significa uma descrição da personalidade, do caráter e da disposição afetiva de todas as pessoas no Brasil. Trata-se de uma tipificação ideal, um princípio genérico de análise que se aplica a uma cultura em um plano que não se traduz na descrição de cada indivíduo. Além disso, ela ainda deixa em aberto a questão de por que esses traços gerais são fortes em nosso meio e não em alguns países da América Latina, que indubitavelmente passaram por um processo de colonização bastante próximo ao nosso — Apesar dessas lacunas inerentes a esse tipo de análise, creio que ela aponta para uma característica marcante de nossa sociedade, podendo contribuir para reflexões mais aprofundadas, com ganhos significativos para a visão sobre a “brasilidade”.

Se você gostou dessa postagem,
compartilhe em seu mural no Facebook.

sábado, 18 de janeiro de 2014

Revolução por encomenda


Os protestos que eclodiram em São Paulo em junho de 2013 e se espalharam pelo Brasil constituíram um fato político muito relevante, em virtude não apenas de sua força, quanto também do modo como destoaram de outros movimentos precedentes. Os governadores e a presidência da república foram levados a tomar posições políticas mais à esquerda, se não em suas atitudes concretas, pelo menos em seu discurso. Uma vez terminada a copa das confederações, os protestos refluíram, embora seu “espírito” possa ser invocado para explicar outros movimentos populares, como é o caso dos assim chamados “rolezinhos” nesse começo de 2014. Tal como já se pode prever por determinadas manifestações em redes sociais, blogs e comentários em colunas jornalísticas, haverá uma nova onda de protestos quando da realização da copa do mundo de futebol em junho deste ano. O que significa essa reedição anunciada dos protestos? Serão estes tão legítimos como manifestação popular quanto foram os de 2013? Podem ser tomados como sua continuação e “reforço”?

“Hegel observa em uma de suas obras que todos os fatos e personagens de grande importância na história do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes. Esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa.” Estas são as duas primeiras frases do texto de Marx O 18 Brumário de Luís Bonaparte, que se tornaram célebres, sendo muito citadas toda vez que se quer desmascarar criticamente a pretensão de legitimidade de determinados projetos políticos, sociais, artísticos ou religiosos, demonstrando serem eles na verdade reedições de outros sob uma nova feição.

Na medida em que dois eventos ou personagens estão distantes um do outro por pelo menos cinco décadas, como a revolução de 1848 e a de 1789 (tomadas como um dos exemplos por Marx), é possível verificar com um bom grau de certeza se estamos diante de uma repetição decaída, um arremedo, uma simulação, ou se temos algo essencialmente diferente, com novos princípios e concepções de mundo. Se a distância temporal diminui demais, como um ano ou menos, em princípio nos recusamos a considerar que se trate de uma repetição falsificada, em virtude de que tendemos obviamente a tomar o segundo evento como um desdobramento ou continuação do primeiro. — A pergunta é: como e em que medida podemos aplicar este conceito crítico de Marx na relação entre os protestos de junho de 2013 e os que se vislumbram no horizonte para junho de 2014? — ou não se justifica de forma alguma sua aplicação nesse caso?

Quando a assembleia constituinte de 1988 fixou o mandato de José Sarney em cinco anos e os demais governos passaram a ter quatro anos de duração, bastava um pouco de atenção para se constatar uma “coincidência” muito interessante: todas as eleições para os governos estaduais e federal passaram a ocorrer sempre em um ano de copa do mundo de futebol. Considerando que esse evento esportivo se dá precisamente no auge dos debates eleitorais, e também que a seleção brasileira de futebol tem sempre uma perspectiva de vitória ou de uma boa campanha, esse paralelismo copa/eleição deve ter sido, se não claramente planejado, pelo menos concebido como uma aposta para perpetuação dos grupos políticos dominantes àquela época. Com a vitória de Lula em 2002, o que pode ter sido uma boa estratégia de manutenção do poder virou-se contra os grupos políticos até então vigentes.

Agora, devido a uma peripécia do destino, o “fator copa” começou a se delinear claramente o exato oposto do favorecimento de continuidade no poder. Embora os índices de popularidade dos governadores em cujos estados houve protestos tenha baixado de forma expressiva, é inegável que o mais afetado foi o governo federal. Considerando o enorme poder dos grandes meios de comunicação de influenciar a leitura popular do que significam os protestos, torna-se especialmente fácil estampar sempre com mais evidência, e antes de quaisquer outros, o impacto da imagem do governo federal na opinião pública. Em suma: a copa do mundo como símbolo de malversação do dinheiro público está sendo meticulosamente construída como uma bomba-relógio a explodir no colo do governo federal com vistas a enfraquecê-lo na disputa eleitoral. Nesse sentido, os protestos já anunciados contêm, sim, um forte teor de farsa, pois, segundo penso, serão patrocinados, de diversas formas, por forças políticas substancialmente contrárias ao espírito das próprias manifestações.

Ora, perguntará um crítico desta perspectiva: “Não é evidente que as mesmas condições econômico-políticas que deram origem aos protestos de 2013 ainda vigoram? Se assim é, então como retirar legitimidade de manifestações populares cujo objeto de reivindicação ainda persiste tal como antes?”.

A resposta que proponho é a seguinte. No âmbito político há diversos planos de verdade. O que é válido sob um aspecto pode ser utilizado para fomentar uma perspectiva falsificada e que favoreça o exercício de relações de poder injustas socialmente. Tal como exemplifiquei em uma outra postagem, verdades no plano jurídico, por exemplo, podem servir como veículos para dissimular metas e articulações políticas muito difíceis de serem desmascaradas nos termos em que aparecem no debate público. Nesse sentido, o que há de verdadeiro na dimensão mais de esquerda das forças populares que querem se colocar como um ator político presta-se muito bem (em determinado contexto) como aliado das forças de direita mais reacionárias, uma vez que tais movimentos de protesto foram e serão marcados por uma pauta difusa de reivindicações, sendo muito mais caracterizados como um enorme NÃO do que como via de afirmar uma política específica para se alcançar isso que “todos nós queremos”: melhor saúde, educação, transportes públicos etc. As manifestações, mobilizadas como fogos de artifício preenchendo o céu da política com feixes luminosos de “nãos”, podem ser vias para moldar a imagem das forças políticas mais à direita como alternativa disponível para substituir as atuais no plano federal. Naturalmente, não se trata de uma aposta isenta de seus possíveis percalços, a começar pelo fato de que os governos estaduais também podem ser afetados negativamente pelos protestos, mas, como disse acima, o âmbito político federal parece muito mais facilmente prejudicável.

Mesmo que a política representativa, exercida cotidianamente nos gabinetes, mostre-se degenerada e corroída em seu potencial de mudanças substantivas, necessariamente continuará a ser o palco dos debates e o espaço onde os diversos interesses sócio-econômicos deverão ser resolvidos. Não é possível substituí-la por uma assembleia popular constantemente mobilizada, mesmo porque as assembleias sempre serão, também elas, uma “representação” de uma mentalidade mais difusa pelos milhões de outras pessoas que irão se recusar a tomar parte nelas. Entre a pedrada, o coquetel molotov, o incêndio numa concessionária de carro, o grito de guerra de um black bloc, por um lado, e o poder infinito de coerção do capital financeiro, por outro, os embates políticos entre representantes mais próximos dos movimentos populares e aqueles ligados, por exemplo, às elites agrárias, mostram-se como uma “sintonia fina” eternamente ajustada, desfeita e reajustada ao sabor das possibilidades reais de progresso, encarando eternamente a possibilidade de regressão. Em um momento especialmente delicado como a eleição para o governo federal, o que pode estar no horizonte dos próximos meses é uma estratégia de interferência bruta dessa sintonia fina através do aproveitamento ideológico do potencial disruptivo dos movimentos de massa por parte de setores reacionários da política.

Se você gostou dessa postagem,
compartilhe em seu mural no Facebook.


sábado, 28 de dezembro de 2013

Miscelânea


“Amar” é um verbo muito adverbial; tem muitos modos, frequências, intensidades, tempos.

*

Teia. Gravura digital. Verlaine Freitas 12/2013
Exemplo de auto-sabotagem: antecipar de forma ansiosa o que se gostaria que as coisas fossem, “punir” o presente por ainda ser o que ele é e acabar inviabilizando o que se gostaria de alcançar.

*

Interessante como é fácil oscilar entre os extremos de resignar-se e querer corrigir o mundo. Em ambos os casos, falta a mediação laborativa do diálogo entre o que somos, o que desejamos e o que é possível construir na realidade.

*

Quem se pré-dispõe de fato a aquiescer à demanda do outro tem mais liberdade e consistência para se recusar a fazê-lo, se assim o quiser.

*

Eu me cansei de gente que diz que está cansada/o disso, daquilo e daquilo outro.

Importa pensar que a humanidade não fracassou, porque dor, desrespeito e violência haverá enquanto seres humanos pisarem no mundo, bem como vontade de mudar e disposição para aproveitar o que há de bom, que também haverá enquanto seres humanos pisarem nesse mesmo mundo.

*

Na relação afetiva com o outro, são duas coisas diferentes: (1) pedir, solicitar e dizer o que queremos e o que não gostamos, e (2) cobrar essas mesmas coisas. Pode soar paradoxal, mas é possível pedir sem cobrar, e mesmo cobrar sem ter o significado de se pedir.

Dizer ao outro qual é nosso desejo, nosso gosto e nossa disposição tem o sentido de um convite, de uma abertura de mundo a ser participada como acréscimo de realidade. Trata-se de uma chave de compartilhamento de afetos, experiências e prazeres a ser trocada e ter sua força de abertura de mundos acrescida.

A cobrança, por sua vez, está sempre “atrasada”, contém um “quê” de punição, de rancor pelo outro se atrever a ser ele mesmo — independente de isso se dar de um jeito ruim ou bom, “verdadeiro” ou “falso” etc. —; bem como pode ser sempre hiper-precoce, antecipada por angústia/medo de as coisas saírem do trilho fixado por nossa insegurança sobre o desejo do outro.

No primeiro caso, muita coisa pode perfeitamente não ser pedida nem falada, pois o acordo mútuo baseia-se naquela cumplicidade de quem não tem medo do desejo do outro. No outro caso, tudo parece ser arrastado pela ação gravitacional da ansiedade, restando pouco espaço para o não-pedido, não-dito.

Em suma, quem não sabe da liberdade de pedir e dizer de si ao outro, estará sempre pronto a cobrar e punir — nisso consiste, na verdade, muito de seu gozo.

*

Será que um dia riremos da seriedade carrancuda com que usamos a vida como apêndice de nossos valores? Falaremos de um modo mais prosaico e matreiro sobre a sublimidade inafiançável de nossos ideais? — Quisera eu pisar como um porco imundo sobre o sorriso sem hálito da voz da razão. Possa uma vírgula absurda, inserta na melodia emudecida de quem somente trabalha, clivar sua sobriedade anêmica. Quiçá laboremos um dia mais pela expressão contraditória de nosso gozo do que pelo enxerto cadavérico de sentido no cotidiano.

*

Um dia Alfredo encontrou um caminho escondido entre suas dúvidas. Estava pardacento como uma camada desmanchada de lápis sobreposta por certezas que ele aprendeu na televisão, na missa e na escola. Furou o tecido do papel que sempre desempenhara na rotina de ser somente ele, e acabou vendo outro lado do saber, que somente tem sabor pelo fato de que aprendemos uma nova língua: a de gostar da atitude irreverente de reescrever a própria história.

*

Poetas entraram em greve. Reivindicam mais facilidade para adquirir licença poética, mais liberdade semântica e igual coerência estética na leitura de cada verso plurissintático. Patrulhas ideológicas reprimem violentamente os grevistas; a atmosfera está irrespirável com as bombas de efeito moralizante. Vândalos e baderneiros ocupam todas as saídas do senso comum, reintroduzem a ordenação insípida de uma gramática já desgastada pela obviedade do cotidiano.

Em toda parte já se percebem os efeitos do movimento: até o pôr-do-sol tem sido hiper-prosaico, desde que um último verso havia saído da pena de um fura-greve, que resolvera declinar um verbo inaudito.

*

Gente que sempre mede o que lhe acontece com a régua do que deveria ocorrer: será sempre um funcionário executor — e insatisfeito — de seu próprio idealismo.

*
Existe um perigo na literatura, no cinema e na filosofia, incluindo as obras que são realmente boas: elas estimulam o desejo e o gosto de viver de forma “épica”, grandiosa e plena de significação quase que universal em vários momentos em que isso não deveria estar em jogo. Nesses instantes — que na verdade vivemos grande parte do tempo — o gostoso é a pequenez da gratuidade e do não-futuro, do não-saber-o-que-isso-significa, da irresponsabilidade de não ser adulto o suficiente para se medir com quem soube dizer de forma homérica sobre os profundos enigmas da existência. É preciso se habituar em ser menos do que imaginamos, para poder sentir o gosto do que a gente é, de fato.

*

Alberto não mudava de humor; precisava desdobrar-se para ser não-de-novo, mas aprendeu com o tempo. — De como um tempo ensolarado para um de chuva que molha bobo, de como um tempo quente mesmo para quem não tem. Com o tempo aprendeu que tem estações quatro em cada dia; que é mentira que só no ano tem. Amanhece perdendo folha, ensolara de meio prumo, fresco vento sopra tarde e noite cai esfria orvalhando triste. — É tristeza não calada, silvos e silêncios poucos de mato gostam de rastejar na longa sombra de mundo, mas aquele olho, grande agoura no alto e morre cedo, vigiado foi o negrume de tudo — amém.


Se você gostou dessa postagem,
compartilhe em seu mural no Facebook.