O trabalho de pesquisa teórica, tanto no âmbito de ciências
humanas quanto exatas, possui diversas características que geram a percepção de
estranhamento em relação à realidade. O tipo de investimento pessoal para
alcançar resultados consistentes difere bastante da realização de outras
tarefas, mesmo quando estas são longas. Um mestrado em filosofia ou ciências
humanas, por exemplo, demanda não apenas estudos constantes e prolongados, mas
com um foco dirigido para um objeto bem circunscrito. Por mais que a graduação
tenha sido longa, quatro anos ou mais, o estudo de pós tende a gerar um impacto
afetivo especial devido ao fato, entre outras coisas, de exigir uma
concentração em detalhes, em nuances de interpretação em perspectivas distintas,
tudo isso gravitando ao redor de uma temática homogênea, que tende a produzir o
sentimento de certa saturação, de algo por demais insistente. Durante as
disciplinas cursadas na graduação, por maior que tenha sido o trabalho
intelectual, a diversidade de assuntos produzia um contrapeso para a demanda de
atenção, de atitude concentrada.

Há vários outros elementos que caracterizam essa
discrepância do labor teórico para com o cotidiano, e falar de todos eles
implicaria discutir a natureza da construção e prática do saber científico em
geral, o que não é o caso para esta postagem do blog. Quero focar apenas uma
questão muito relevante, que é a dificuldade inerente a uma das primeiras
tarefas de quem se propõe a fazer uma pesquisa de pós-graduação: a escolha do
tema. Vou deixar de lado as diferenças entre as diversas disciplinas e cursos,
procurando focalizar elementos comuns ao estudo da filosofia e de ciências
humanas e sociais.
Ao se escolher o tema da pesquisa, é necessário estabelecer
uma formação de compromisso, um meio termo, entre o interesse, o gosto pessoal,
e a adequação às expectativas da instituição onde se quer estudar. Embora não
para todas as pessoas, mas creio que para a grande maioria esteja bastante
claro que o excesso para um desses extremos é prejudicial. Focar apenas naquilo
que nos dá prazer em estudar ou deixar este aspecto completamente de lado e
obedecer totalmente àquilo que pode ser moda ou é praticado normalmente pelo
conjunto de professores não promete, por motivos distintos, um bom rendimento
ao longo de no mínimo dois anos de esforço contínuo. É interessante observar
que, mesmo quando uma determinada temática obedece a parâmetros de
aceitabilidade institucionais, o excessivo interesse e gosto por parte do
pesquisador pode ser prejudicial, em virtude da dificuldade de se distanciar
afetivamente em relação ao objeto. O desejo de compreendê-lo de forma
abrangente demais, de pesquisar absolutamente tudo sobre ele, de não deixar
passar nada que possa ser relevante etc., tudo isso pode tornar o trabalho
incompatível com o que se espera de um trabalho acadêmico bem feito, enxuto,
realizável dentro de um prazo adequado, tanto para o pesquisador quanto para a
instituição.
Este contraste entre o impacto afetivo do objeto e a demanda
de adequação aos requisitos teóricos tem outra faceta, mais difícil de ser
apreendida, e que se reflete negativamente na qualidade de grande parte dos
projetos. Trata-se do equívoco de pensar que o objeto-de-pesquisa é uma parte
da realidade cultural, como cultura de massa, religião, arte moderna,
alcoolismo, violência contra mulher etc. Na verdade, a pesquisa científica tem
como foco determinada forma teórica de olhar para esse recorte da realidade
exterior. O objeto-de-reflexão, que ao se redigir o texto se identifica
ao objeto-de-apresentação, é a trama dos conceitos, de argumentos, de
hipóteses e de resoluções apresentadas por um ou mais teóricos. Nesse sentido,
a pergunta inicial que alguém deve se fazer, diante da tarefa de escrever um
projeto, não é propriamente “O que eu quero estudar?”, mas sim: “Qual
perspectiva teórica eu quero apresentar sobre determinada realidade?”.
Em termos práticos, não se devem tomar objetos de nosso
interesse e então procurar algum teórico que fale sobre eles, mas sim
aprofundar-se em textos importantes sobre um assunto e tentar formular um
problema teórico a partir da própria leitura. Seguindo o primeiro viés, pode-se
formular diversas questões em princípio muito interessantes, ricas e de fato
inovadoras, mas a lida concreta com o trabalho de pesquisa pode se tornar
inviável, em virtude de ser grande o risco de não se encontrar uma boa base na
literatura de apoio. Embora prometa alguma inovação na área de conhecimento
pretendido, a escassez de elementos teóricos já formulados pode tornar inviável
toda a pesquisa. Adotando o outro direcionamento, a saber, buscar o tema, as
questões e hipóteses teóricas a partir de todo o “caldo” de leituras, resumos e
fichamentos dos textos estudados, a viabilidade da pesquisa é muito mais assegurada,
pois tudo o que se quer responder, de alguma maneira, já está pelo menos
indicado por aquilo que fez surgir toda a problemática.
Embora seja evidente que em muitos casos a nossa perspectiva
“direta” para com determinado fenômeno seja componente integral do que nos
levará a escrever sobre certos temas, como o consumo, a influência religiosa
nos costumes, o discurso político de alguns grupos e atores sociais etc., a
qualidade da pesquisa será marcada essencialmente pelo modo com que se
demonstra a capacidade de aprender a enxergar a realidade com as lentes
fornecidas por conceitos teóricos significativos. Isso se dá, primeiramente,
pelo fato de que o esforço de tentar se aperceber da consistência de conceitos
alheios (com os quais muitas vezes não concordamos) é um exercício
indispensável para formar a própria capacidade intelectual, deslocando nosso
olhar, já formado através de mecanismos fragmentários e não sistematizados, e
fazendo-o fluir pelas vias da articulação rigorosa de etapas argumentativas
consistentes. Trata-se de um exercício de alteridade de pensar não
apenas junto com o outro, mas através dele, para que se possa, ao
fim do per-curso, poder decidir com conhecimento de causa o que se quer e não
se quer agregar à nossa própria visão de mundo. Além disso, em uma determinada
etapa, tanto de nosso desenvolvimento pessoal, quanto também do estado de nosso
conhecimento social sobre o assunto, um conceito teórico específico pode nos
parece equivocado, mas através de estudos consistentes essa avaliação pode
mudar, fazendo com que toda uma concepção científica seja tomada como
consistente e útil para compreender a realidade.
“Mas e se eu quiser apresentar uma leitura original,
pessoal, de uma realidade?” — Esta pergunta é muito interessante, pelo fato de
que mesmo nesse caso o que deverá ser apresentado não é propriamente “o
objeto”, mas sim um modo/modelo teórico, conceitual, específico de falar sobre
ele. Quando Freud, por exemplo, criou sua teoria sobre o fenômeno
histérico, construiu e apresentou, na verdade, conceitos e hipóteses que nos
permitem compreender este fenômeno psíquico a partir de um viés teórico
determinado. O que o fez ser um cientista de suma importância no panorama da
ciências humanas do século XX foi a qualidade do edifício teórico que ele
construiu. Todas as suas observações relativas aos objetos realmente
significativas somente têm relevância pelo modo com que amparam, apoiam,
ilustram e esclarecem seus conceitos, argumentos e hipóteses. — Assim,
independente de a pesquisa apresentar uma perspectiva original ou de outro
autor, o que está em jogo é, fundamentalmente, o valor teórico/conceitual do
que é apresentado, ou seja, seu grau de coerência, de sistematicidade, de
clareza de suas hipóteses etc.
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