O erótico se nutre do sexual, mas não se resume a ele,
existindo na exata proporção com que este se mostra inadequado e em descompasso
consigo mesmo. Somente pelo fato de o sexual não se reduzir ao natural e, ao
mesmo tempo, ser vivenciado como excessivo e intimamente em desajuste com o
nosso senso pessoal, nosso próprio eu, somente nesse momento de dupla diferença
interna é que o erótico pode florescer. Um dos elementos culturais mais
propriamente determinantes da mobilidade erótica do sexual é a
interdição, a promulgação dos sentimentos de vergonha, culpa e remorso no
vínculo como a nudez e o comércio pervertido com o corpo e o gozo do outro.
Assim, o erótico ganha seu poder de excitação, sua atratividade propriamente
dita, pelo vigor das atitudes transgressivas, como na orgia, no adultério, nas
inversões sexuais, nas perversões, nos fetiches etc. Meu objetivo é desdobrar
um pouco de cada um desses conceitos, mostrando ao final o papel do
cristianismo nesse cenário.
A reprodução humana é sexuada, mas sua sexualidade não é
reprodutiva, pois o que impele ao sexo e o que dá seu sentido mais próprio, em
nossa espécie, não é o instinto de reprodução, mas sim a busca de prazer. Isto
significa, entre outras coisas, que o prazer sexual humano é desviante,
múltiplo, adquire várias formas e pontos de apoio na corporeidade. Virtualmente
toda parte do corpo pode produzir uma estimulação e uma excitação, tornando-se
uma zona erógena. Considerando a gênese da sexualidade na primeira infância, a
cada experiência de estimulação deverá corresponder uma série de imagens,
cenas, fantasias, que visam fixar imagética e imaginariamente essas
quantidades de afeto que podem ser vividas facilmente como excessivas,
traumáticas, em virtude da radical fragilidade de um ego ainda muito incipiente.
Como as imagens, cenas e fantasias são qualitativamente distintas das
excitações e estimulações que elas procuraram fixar, logo toda sexualidade será
sempre marcada por uma distância muito grande entre o âmbito das representações
e a vivência concreta de nossas satisfações.
O erotismo surge como uma forma de canalização e ao mesmo
tempo de resposta à desconexão e descompasso entre o âmbito representativo e
dos afetos, da corporeidade, da excitação. Ele se pauta pela promessa, busca e
tentativa de recusa da sedução, sendo marcado, assim, pela lógica do comércio e
das trocas de mensagens que, elas mesmas, desconhecem o princípio de sua
consistência mais substantiva. A obscuridade da sedução é exatamente a mola
propulsora do erotismo, que precisa sempre negociar os diversos graus de evidência
do sexual, de sua recusa, de sua distância em relação ao desejo.
Sendo o erótico um comércio e uma troca de mensagens
sedutoras baseadas na obscuridade e descompasso do sexual, ele se estabelece
como uma “ciência” e uma técnica que quer produzir o sexo e compreendê-lo na
medida em que o apreende nas vias de sua evidenciação. Se quisermos, trata-se
de um da certa pedagogia, no sentido etimológico de uma condução e
captação do que há de infantilmente obscuro no desejo rumo à sua consumação na
prática e na consciência de si. Como, entretanto, nenhuma pedagogia existe sem
a ligação sempre renovada com as proibições, os limites e fronteiras do agir,
aqui também o interdito é um elemento fundamental, e marca, no plano coletivo,
um reforço absolutamente significativo na opacidade do sexual. Todos os tabus e
interdições que pesam sobre o sexo, variando de cultura para cultura, como do
incesto, da nudez, da poligamia, das perversões, tal como a pedofilia, a
zoofilia etc., reforçam a obscuridade do sexual, instituindo formas social e
historicamente determinadas de inacessibilidade a ele. Elas codificam, no plano
da cultura, uma ambiguidade constitutiva do sexual, a saber, de atração e de
repulsa, de prazer e de angústia, de incitamento ao saber e a seu enigma.
Muito do prazer erótico pode ser conceituado como um plus
em relação ao sexual por trafegar na porosidade dos interditos,
relembrando-os para, assim, evidenciar sua ruptura como símbolo e imagem de
acesso ao subterrâneo sexual de nosso psiquismo. Romper a proibição
configura-se, deste modo, como uma espécie de metáfora cultural para a ruptura
do corpo do outro. Penetrar e ser penetrado são uma das primeiras formas de
metáfora suficientemente amadurecidas para o complexo misterioso e
descompassado entre a torrente de estimulação e excitação das primeiras
experiências com o mundo e as vias fantasísticas de sua fixação. A ruptura do
interdito seria um outro nível de metaforização, de deslocamento metafórico.
Neste plano, romper um tabu, enfrentar a vergonha da nudez, praticar a
poligamia, significa sempre, ao mesmo tempo, uma erótica de um corpo coletivo,
tornado assim comensurável à dinâmica individual das mensagens sexuais.
A interdição só possui sentido em virtude da transgressão,
pois, como mostrou Freud de forma enfática, somente se proíbe o que já se sabe
como objeto de desejo. O incesto, sendo um tabu universalmente presente em
todas as civilizações até hoje conhecidas, deve corresponder a um desejo cuja
força e presença são proporcionais a sua universalidade. Por outro lado, no que
concerne ao erotismo, o interdito tem seu sentido na transgressão pelo fato de
que toda proibição parece ser feita para ser transgredida. A questão que se
coloca sempre é: o quanto e qual interdição queremos transgredir? O quanto de
robustez emocional precisamos para atravessar o interdito e “sobreviver”?
É de sobrevivência, afinal, que se trata na lógica cultural
dos interditos. Diante das ameaças de ruptura, de desconhecimento e de perdição
presentes na incerteza do redemoinho sexual, a cultura do ocidente codificou o
sagrado como o que é puro e imaculado. O reino do espírito em- e para-si deverá
ser eximido das ambiguidades e da virulência do erótico-sexual. Embora isso nos
pareça evidente, tendo em vista a milenar formação cristã de nossas sociedades,
nem sempre foi assim. Em muitas mitologias e religiões primitivas, a
sexualidade foi tomada como força propulsora de diversos de seus símbolos, de
tal forma que o sagrado absorvia toda a ambiguidade violenta, dilacerada e
enigmática da sexualidade, e sua transcendência exprimia a celebração do gozo e
da dor como componentes inalienáveis do mistério da existência. No
cristianismo, ao contrário, em vez de uma projeção da força transgressiva do
sexual, o sagrado passou a significar a recusa da ambiguidade, a negação da
atitude erótica transgressiva em sua própria legitimidade de existência.
O cristianismo, no entanto, tem a sua erotica. Deve-se amar ao próximo como a si mesmo, deve-se amar ao
inimigo, ou seja, a quem nos faz mal, deve-se amar a Deus acima de todas as
coisas. Trata-se de um amor, obviamente, espiritualizado, universal, descarnado
não apenas de seus componentes erótico-sexuais, quanto de uma dupla
singularidade: de quem deseja e do objeto desejado. Ama-se de tal forma que não
entre em jogo o desafio em relação à particularidade com que ao mesmo tempo
desejo e recuso minha própria excitação, meu gozo. Em vez de tal erótica se
nutrir da incerteza do quanto o outro efetivamente pode entrar como um dos
polos das trocas enigmáticas de mensagens sexuais, funda-se na certeza prévia
de um amor cuja motivação mais substantiva é a de garantir a definição
hiper-moralizada de si mesmo como quem ultrapassa radicalmente a ambiguidade, o
perigo e as aventuras do erótico-sexual. De forma análoga a como não se deve
resistir ao mal, lutar contra o inimigo, para assim esvaziar a legitimação de
existência da força, o amor universal cristão quer anular toda legitimidade
transgressiva do erótico, dissolvendo-a na idealização sublime de um coração
puro.
Em vez da ambiguidade intrínseca de todo sexual, o
cristianismo divide radicalmente o erótico na pureza do coração e na mácula
abjeta do pecado. Tal como as cartas de Paulo colocam enfaticamente, embora a
Lei seja fundadora do pecado, este pré-existe a ela, como índice da impureza do
próprio desejar como tal. Assim, a força da transgressão erótico-sexual é
anulada na polaridade maniqueísta do amor universal puro e no enraizamento do
desejo no pecado. Em vez da progressividade cultural das trocas das mensagens
eróticas, o que se tem é um princípio hiperbólico de correção, culpa e remorso
indefinidamente reafirmado em todas as práticas de martírio, confissão e
penitência. A atitude confessional é o exato oposto e simétrico do erotismo
transgressivo, pois a explicitação imagético-discursiva do sexual como pecado e
crime a ser pago pretende colocá-lo sob o estigma de uma existência já desde
sempre recusada, inválida. Ela incita, sim, a se lembrar do sexo, tal como
enfatiza Michel Foucault em seu livro A vontade de saber, mas isso deve
ser articulado por nós, ao contrário do que faz o filósofo francês, no registro
de uma culpabilidade eternamente tomada como testemunha do caráter abjeto,
repugnante e deplorável do que há de transgressivo e, portanto, de erótico na
sexualidade.
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