Hoje
gostaria de aproveitar o espaço do blog para postar o texto de uma palestra que
proferi em 29/04/2014 no evento “Filosofia e religião”, promovido pelo Programa
de Educação Tutorial do departamento de Filosofia da UFMG.
Em O anticristo, Nietzsche empreende uma
violenta crítica ao cristianismo. Entre os vários momentos de sua argumentação,
um dos mais significativos é a caracterização que o autor faz de uma tipologia
de Jesus, pretendendo resgatar filosoficamente o que teria correspondido à
mensagem evangélica do Cristo, em flagrante contraste com a doutrina de Paulo e
de todas as igrejas e seitas cristãs posteriores. Essa parte do texto está nos
aforismos de 28 a 35, depois da apresentação geral da crítica ao cristianismo,
da análise do vínculo entre este último e o judaísmo, bem como de sua relação
com o budismo, e antes da crítica ao cristianismo histórico, que se inicia após
a morte de Jesus.
 |
| Crucificação. Gravura digital. Verlaine Freitas |
Ao
falar do “tipo psicológico” do redentor, Nietzsche exclui um interesse histórico-científico,
pois escritos teológicos e hagiográficos (biografia de santos) são os mais
sujeitos a deturpações e manipulações interessadas, com vistas ao poder. Os
seguidores de todo grande mestre sempre têm uma enorme dificuldade de perceber
e relatar o que há que verdadeiramente novo e original nele, não se apercebendo
o quanto eles se colocam nessa narrativa. Além disso, na medida em que a seita
nascente precisou de um teólogo para lutar contra os teólogos judeus, não se
pode excluir a ideia de que foram bem mais os discípulos que tomaram a Jesus
como santo, salvador e Messias do que ele próprio.
O
interesse de Nietzsche é, assim, falar não propriamente da dimensão histórica,
real, da vida de Jesus, mas sim do que poderia ser seu tipo psicológico, que ainda deve poder ser visto de um ponto de
vista filosófico apesar de toda deturpação provocada pelos evangelhos, que são
por sua vez o único veículo substancial para se ter acesso à mensagem de Jesus.
Trata-se, assim, de uma figuração filosófica abstrata, no sentido de se colocar
como uma das várias tentativas possíveis de se tentar ler além dos evangelhos através
deles.
Nietzsche
recusa inicialmente a atribuição dos conceitos de gênio e herói que Ernest Renan
faz a Jesus (em seu livro La vie de Jésus).
O conceito de herói não cabe em
virtude do princípio máximo do evangelho de não resistir ao mal, de se recolher
em relação a toda inimizade e luta no mundo. A boa nova significa propriamente esta recusa do enfrentamento com o
real, o recolhimento em si mesmo, em um coração puro que corporifica toda a
bondade concebida como reino de Deus. Em vez da instauração e do regozijo com a
diferença do e no exercício da força, que qualifica propriamente a atitude
heróica, tem-se a universalização de um princípio radicalmente individual. Em
função disso, o outro conceito, de gênio,
também se mostra inadequado, pois, em vez da criação de um mundo novo, da
criatividade propriamente falando, tem-se o egoísmo
negativo, da retroação perante tudo o que possa ser sinal de dor,
sofrimento, luta, poder e transgressão (e de realidade!). De forma simétrica ao
egoísmo positivo (que é o de somente
se preocupar consigo e querer acumular a maior satisfação possível em
detrimento dos outros), o negativo é
marcado pela recusa querer, e de se preocupar com, qualquer outra coisa além de
sua própria paz interior: recusa-se tudo o que, externamente, possa perturbar
esse estado de espírito. É preciso anular, por uma atitude de retraimento
máximo, toda possibilidade de o mal ser reconhecido não apenas em sua
legitimidade, mas em sua própria realidade.
A
origem deste movimento de retroação interiorizada seria uma condição
fisiológica de hiperestesia, de
extrema sensibilidade e aversão à dor, a qualquer sensação que possa vir a
irritar. Disso decorre um ódio em relação à realidade como um todo. Não
resistir ao inimigo, recusá-lo de antemão como tal, não o enfrentar, significa
negar a realidade em seu potencial de ruptura em relação a uma suposta paz de
espírito alcançável por este recolhimento. Trata-se de um tipo de hedonismo,
mas, uma vez mais, negativo: um
prazer concebido como negação máxima de toda possibilidade de dor, desprazer,
maldade, luta e transgressão.
Nem
fanatismo, nem luta, nem qualquer forma
de negação cabe no tipo
psicológico do salvador. A boa nova significa uma infantilidade do coração e da
vida como fatos alcançáveis por qualquer um através de uma pura (disposição)
prática. Que o Reino de Deus pertença às crianças significaria a anulação de
toda maturidade como requisito para se compreender a “Verdade” que Jesus quis
trazer ao (ou fazer-se para o) mundo. Não há a necessidade de nenhuma prova, de
nenhuma demonstração rigorosa dessa verdade ou de absolutamente nada afirmado
por ele, pois o próprio Cristo é sua prova, sua maravilha, sua recompensa, e
cada um pode compartilhar esta graça através de uma fé que não é conquistada
por esforço, que não recebe nenhuma formulação que necessite de conhecimento
prévio, bastando para isso apenas o coração purificado. Embora toda a mensagem
evangélica se sirva de conceitos, palavras e metáforas, nada deve ser tomado
literalmente, de forma fixa e determinada, mas tão-somente como símbolos,
alegorias, metáforas, como aliás tudo o mais que é externo à própria
interioridade de um coração puro.
Jesus
seria, através de uma atribuição alegórica, um espírito livre, mas na
verdade por negação preestabelecida (por uma prática) de tudo o que é signo de
aprisionamento, de fixidez para o espírito, de ressentimento.
A
psicologia do evangelho (de Jesus) desconhece os conceitos de culpa, punição,
recompensa e pecado, pois esses conceitos representariam uma distância entre o
indivíduo e Deus que é anulada precisamente pela boa nova, a saber, que o Reino
de Deus está em nós. A felicidade, a beatitude, não está distante daquilo que
cada ser humano é em seu sentido mais próprio, a saber, um filho de Deus, de
modo que tudo mais é apenas um veículo para se falar desta única realidade.
Todo o evangelho se resume, assim, em uma prática,
em um modo de vida, em uma luz interior que não necessita nem sequer de uma
crença em sentido mais forte do termo em relação a uma transcendência. Disso
decorre a não necessidade de diferenciar os homens por sua raça, nacionalidade,
de não repreender nem punir a ninguém (veja-se o caso da adúltera perdoada).
Toda
a dimensão doutrinária e ritualística do judaísmo foi anulada com essa prática
de vida cristã, em virtude do fato de que nem sequer a oração foi tomada como
necessária, pois cada um já é divino, bem-aventurado, “evangélico”, ao agir
segundo uma prática em que se percebe como filho de Deus, ou o próprio Deus.
Todo o ideal de purificação dos pecados, de salvação através da fé dos judeus
foi abolido por esta prática interiorizada. Jesus não precisava negar
absolutamente nada pelo fato de que sua própria prática já significava a recusa
“a priori” do mundo.
Como
consequência disso, tem-se que toda a dogmática cristã de um Reino de Deus para
além da vida, de um porvir de um juízo final, da virgindade de Maria, da
concepção de Deus como pessoa etc.: tudo isto significa um atentado ao
evangelho de Jesus, que somente conhece como realidade a interna, tomando tudo
mais como mero veículo de significação simbólica. Para ele, a palavra “Filho”
significa este passo de assunção rumo de um sentimento da transfiguração total
das coisas, a beatitude, e a palavra “Pai” significa este próprio sentimento da
eternidade, da beatitude em sua consumação. “Filho” seria a singularidade do estar-disposto a, do
agir, do caminhar; “Pai” seria a universalidade
conquistada intimamente pelo sentimento de pertença ao âmbito macro dos que
assim vivem.
Jesus
morreu tal como viveu e ensinou: sem lutar contra nada, sem tentar evitar nada
que o afligisse, mesmo a mais injusta das acusações, e na verdade exigia que ela fosse praticada contra
ele. Não apenas não se defender e não lutar contra o inimigo, mas amá-lo, acolhê-lo intimamente em seu
coração: é isso que representa a morte na cruz, que deveria simbolizar, pela
prática assumida da desistência de luta, a morte do mal. Ao contrário do que
Paulo pregou, Jesus não veio ao mundo para salvar os homens de seus pecados,
mas isso não simplesmente é falso perante o evangelho, pois, de certa forma, a
prática cristã (originária) quer anular o pecado do mundo através de sua
absorção na renúncia a lutar contra ele. Nesse sentido, todo cristão “salva
todos os homens de seus pecados”, se age como o Cristo: absorvendo todos os
males e morrendo com eles!
Se você
gostou dessa postagem,
compartilhe
em seu mural no Facebook.