Em 2009, a agência de publicidade Artplan criou para o
governo federal uma campanha educativa para motoristas cujo slogan era “Seja
educado no trânsito como você é na sua vida”. De fato, é uma experiência tão
comum, que os motoristas podem perceber o quanto eles mesmos a vivenciam, a
saber: alterar completamente seu nível de tolerância, paciência e calma quando
estão dirigindo, de modo a se tornarem irreconhecíveis. Como todo fenômeno que
rompe a linearidade e a conexão sensata dos pensamentos, ações e sentimentos,
este também desperta um interesse psicanalítico.

Ao dizer sobre como os objetos, instrumentos, móveis e
demais coisas do ambiente marcam profundamente nosso modo de ser na
contemporaneidade, Adorno questiona: “qual o motorista nunca foi tentado pela
potência do motor de seu veículo a atropelar os animais de rua, pedestres,
crianças e ciclistas?”. O contexto da argumentação do autor mostra sua ênfase
na determinação, na influência e na força de modelagem de nossas ações por toda
a maquinaria de nossa existência cotidiana. Trata-se de uma perspectiva
marcadamente sociológica, reservando pouco espaço para questionarmos o quanto
todos esses elementos não sejam tão determinantes, mas sim facilitadores
para a eclosão de certos comportamentos.
Quando cometemos um ato falho, com uma palavra diferente da
que pretendíamos, uma das formas mais corriqueiras de explicação é o fato de
não estarmos atentos, ou muito cansados, ou termos nos ocupado há pouco com o
assunto referente à palavra efetivamente dita. Tal como argumentou Freud, todas
essas condições, na verdade, apenas produzem a atmosfera psíquica favorável à
eclosão de um conteúdo inconsciente que, em outras circunstâncias, permaneceria
oculto. A explicação para a especificidade de uma palavra equivocada ser dita
quando em uma situação de stress, por exemplo, deve ser buscada através das
associações afetivas com outras palavras, de modo que o conteúdo latente possa
ser esclarecido.
O trânsito das grandes metrópoles tende a ser um ambiente
altamente facilitador para a eclosão de comportamentos agressivos, mas não de
forma totalmente determinante, pois é tão evidente haver quanto não haver
aquela mudança de atitude do motorista em relação à sua vida cotidiana. Muitas
pessoas dirigem seus carros de forma tranquila, sem nenhuma agressividade
especialmente detectável no contexto do trânsito. Não nos cabe aqui fazer uma
análise psicanalítica que pretendesse dar a chave de compreensão dos motivos
inconscientes dessa transformação dos motoristas, mas sim falar em geral do
quanto o ambiente e a própria situação de dirigir um carro são facilitadores
psíquicos para os comportamentos que gostaríamos que não existissem.

O automóvel pode ser facilmente vivido como uma extensão do
próprio corpo. O fato de se estar segurando o volante e apertando o pedal do
acelerador, envolvido por toda a carroceria e em conexão corporal direta
através do banco, induz de forma vigorosa uma identificação metafórica (por
analogia/comparação) e metonímica (por relação da parte ao todo) do sujeito com
este invólucro suficiente para movê-lo de forma veloz e acelerada. Estando em
todos os automóveis separados uns dos outros tal como nos corpos estão
reciprocamente, não é difícil perceber que esta expansão metafórica se alastra
também para fora de cada conjunto homem-máquina, incluindo todos os outros que
trafegam no mesmo espaço. Em geral, tem-se uma espécie de sociedade de
indivíduos “inflados” por esta expansão dada pelo invólucro metálico e
mecanizado, que se percebem restringidos por todos os outros em sua expansão
vital.
A subtração da paciência dos motoristas é
proporcional à multiplicação de seu poder de deslocamento pelo carro: se
o automóvel foi feito para aumentar a velocidade com que nos deslocamos,
qualquer barreira nessa expansão pode ser facilmente percebida não mais como um
mero obstáculo (tal como na vida cotidiana), mas sim como uma contradição
interna, intrínseca ao ambiente de maximização de força, poder e velocidade.
Nesse momento, qualquer erro ou negligência alheia, seja de pedestre ou
motorista, pode incitar um desejo de justiçamento extremo, em que a punição se
torna francamente desproporcional à falta. Considerando a facilitação psíquica
dada por “estar certo”, pode-se querer condenar o outro não propriamente pelo
seu erro, mas pela contradição ao que meu próprio ego se tornou, ao ser
multiplicado pela ambientação do automóvel. Isso significa, entre outras
coisas, que cada motorista “já espera” o erro, a negligência ou a imperícia de
qualquer outro para puni-lo segundo esta lógica. Em certo sentido, qualquer
evento significará meramente um pretexto, o que fica demonstrado pelo fato de
deslizes alheios insignificantes poderem gerar uma fúria inacreditável.
Na identificação metafórica e metonímica com o carro, creio
que seja um fator significativo a própria condição de olhar para a realidade
externa através do pára-brisa. Tudo se passa como se a realidade exterior
ganhasse um aspecto onírico ou ficcional, quase cinematográfico, tornando o ato
de dirigir próximo a um devaneio, no qual sempre projetamos livremente nossas
fantasias intimamente mais recompensadoras e narcisicamente inflacionadas. Isto
aponta para um desligamento qualitativo do sujeito com o exterior do carro,
induzindo a um perigoso senso de descompromisso para com o que ocorre à sua
volta. Tal como não nos envergonhamos de nossas fantasias nos sonhos diurnos
(os devaneios), o motorista parece ser movido também por um senso de
engrandecimento que o libera intimamente da necessidade de prestar contas da
racionalidade de suas escolhas.
Dada a complexidade do tráfego nas metrópoles com milhões de
habitantes, toda esta inflação narcísica deve, na verdade, dar lugar a um
movimento substancialmente inverso. Embola a tolerância seja um valor que
reconhecemos como válido para todos os âmbitos da vida, no trânsito ela deve
ser multiplicada: o outro motorista tem o direito de errar, de cometer uma
imprudência, de ser negligente, de ser apressado em demasia etc. Desde que a
ação não produza um acidente, que ela implique apenas em nossa necessidade de
frear, de perder alguns segundos ou minutos, a falha alheia deve ser claramente
situada dentro da própria normalidade da condução do veículo. Até mesmo a
intolerância alheia para com nossos próprios erros deve ser computada do mesmo
modo!
Nesse momento entra em jogo uma outra questão, que é o fato
de os motoristas se sentirem como que “pedagogos” dos outros, punindo com rigor
(buzinando, xingando) para demonstrar que “isto não se faz”. Na verdade, a
verdadeira “pedagogia” consiste em mostrar que “o que se faz” é tolerar o erro
alheio, dar espaço a quem tem pressa demais, compreender o quanto a falta de
atenção é um componente eternamente compartilhado em alguma medida por todos no
cenário do tráfego etc. Tendo em vista a compreensão intuitiva que cada
motorista possui da maximização de si pelo carro, creio que esta percepção da
necessidade de um plus de tolerância, de calma e de generosidade seja
vivenciada por muitos, fazendo com que o trânsito de diversas metrópoles não
apenas não seja especialmente violento, mas bastante harmônico.
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