Um espaço de discussão sobre Filosofia, Psicanálise, Arte, Política, Crítica cultural e Atualidades.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Holofotes e panos quentes


Debater política é algo deveras não apenas difícil, mas com uma dificuldade de fundo especialmente problemática de equacionar, que reside, não apenas no teor moral de nossos juízos sobre política (moralidade que se percebe em expressões muito frequentes em debates, como “vender a consciência”), mas também no fato de que toda a visibilidade dos fatos em questão está sempre mediada, filtrada e dirigida pelos meios de comunicação em massa, cujas propriedades, sem exceção, residem nas mãos de pouquíssimas famílias bilionárias, que pagam a peso de ouro comentaristas, redatores e demais formadores de opinião para sempre exacerbar ao máximo possível as contradições internas de partidos de esquerda, como o PT, e colocar na sombra as mesmas questões de outros partidos. O cartel absolutamente criminoso que corroeu mais de 2 bilhões e meio de reais no governo do estado de São Paulo — o que representa 50 vezes o quanto foi consumido no assim chamado mensalão — obteve uma visibilidade ínfima se comparada a este último. O motivo é muito óbvio, mesmo para quem não quer ver: o único partido envolvido nessas tramoias foi o PSDB.

Existem inumeráveis programas sociais encampados pelo PT no Brasil afora, que diferem em qualidade e quantidade de forma absurda em relação a governos como PFL e PSDB, mas isto é ignorado por 99% da população, que somente sabe da política através da voz aveludada do sr. William Bonner, que ganha mais de um milhão de reais por mês para falar mal de políticas que tentam dar um mínimo de dignidade a quem ganha menos de quinhentos. No mesmo dia em que se recebe por Whatsapp uma piada questionando que os beneficiários do bolsa-família não trabalham, recebe-se outra questionando que, se o desemprego é menos de 6% no país, por que há tantos mais beneficiários deste programa? — Há várias formas de ler um mesmo dado e uma mesma ação política: sempre dependerá da escolha de cada um, e a visão que a população tem é quase integralmente baseada no teor de espetáculo moralizante que a imprensa dedica a tudo que é contraditório e incerto nas políticas que beneficiam as classes baixas. Não se tenha dúvida que não apenas no metrô de São Paulo houve prejuízos maiores do que os da Petrobrás a que a Veja dá todos os holofotes, quanto também durante os governos Itamar franco e Fernando Henrique Cardoso, mas o procurador-geral da república, digo: o engavetador-geral da república, na época, jamais levantou a sua nádega direita para expelir um peido que pudesse chamar a atenção proporcional às devidas falcatruas.

Nessa toada, sempre serão dadas todas as lentes de aumento e holofotes para qualquer erro, desvio etc. em quaisquer partidos de esquerda, e se abafarão de forma absurdamente desavergonhada crimes tão ou (muito) mais acintosos em partidos de direita. — Como discutir política de forma objetiva diante de um cenário como esse?

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sexta-feira, 27 de junho de 2014

Idiossincrasias


Todos nós sabemos perfeitamente o quanto muita gente “reclama” de perda de espaço, de individualidade, quando em um relacionamento amoroso (particularmente, é claro, no casamento). Ora, se isso ocorre, significa dizer que não apenas “a relação em si” corrói este espaço de nossa singularidade, quanto — e essa é a minha perspectiva — existe um gosto, um gozo, bastante comum de realizar uma colonização predatória do espaço do outro em que sua diferença, o gosto de ser si-mesmo, pode se fazer. A velha atitude de moldar e modelar o outro tal como gostaríamos que ele fosse parece ser nutrida, em sua base, por este desejo devorador da diferença que nos leva a querer que o outro se “desacostume” a ser ele mesmo.

Em termos práticos, isso pode ser visto em ação desde as primeiras trocas de alguma forma de intimidade, em que, ao vermos uma atitude ou um modo de ser que nos parece estranho, bizarro ou um desperdício, dizemos: “Nossa! Você gosta de fazer isso desse jeito, hein!”, ou: “Como você deixa essas coisas sempre nesse estado!”. Pronto. Já está feita a primeira colonização de um espaço de idiossincrasia, de uma singularidade improdutiva, relapsa ou estranha. Foi feita a primeira tentativa de saneamento das “ervas daninhas” que povoavam o nicho ecológico alheio. — Não resta dúvida que tudo é feito na mais absoluta consciência esclarecida e, ao mesmo tempo, ingênua de sabermos o que é melhor para o outro a partir de nosso olhar objetivo, não totalmente mergulhado na complacência conivente que a outra pessoa tem de seus próprios pecadilhos cotidianos.

Não se nega em absoluto o potencial benéfico da crítica, pois ninguém recusa o princípio geral de que é bom melhorar a si mesmo a partir de uma perspectiva sensata vinda de outrem, que consegue se aperceber do que nós realmente não conseguimos. O problema reside no fato de que, em uma grande quantidade de vezes, este valor objetivo da crítica é posto a funcionar sob o impulso de saneamento das “máculas”, inaptidões, desperdícios, bizarrices, que, todas juntas e reunidas, perfazem o que nós chamamos de individualidade.

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segunda-feira, 23 de junho de 2014

Qual é a sua, Aécio?


O sr. Aécio Neves, caso queira aumentar suas chances ao concorrer à presidência da república, deveria responder de forma bastante clara uma pergunta que Lula fez a Alkmin em um dos debates das eleições de 2006: "qual é o projeto de política social de seu possível governo?". Se ele considera, tal como vários de seus companheiros de partido, que o Bolsa Família é assistencialista e, tal como se lê em comentários na internet, uma compra de voto institucionalizada, que o diga clara e explicitamente. Além disso, como ele se posiciona em relação à política dos governos Lula e Dilma de valorização do salário mínimo? Acredita ele, junto com seu principal assessor de assuntos econômicos, Armínio Fraga, que o salário mínimo está alto demais?


Os candidatos do PT e outros partidos de esquerda sempre são defrontados acidamente com questões muito sensíveis no imaginário popular, tal como a legalização do aborto, fazendo com que necessitem abandonar posições progressistas em favor de apoio de parcelas conservadoras do eleitorado, como as ligadas às igrejas católicas e evangélicas. De certa forma, a problemática de políticas diretamente dirigidas ao bem-estar de populações pobres acabou tendo um efeito análogo para as candidaturas dos partidos de direita, como PSDB e DEM. Mas, tal como ocorreu naquele debate entre Alkmin e Lula, suspeito que Aécio vai tentar empurrar com a barriga todas as questões relativas a políticas sociais, com respostas evasivas, linhas de atuação genéricas, sem se comprometer com nenhum viés mais decidido.

Outro ponto frágil é sua insistência no endurecimento no combate às drogas, em franco contraste com o bem-sucedido plano do prefeito Fernando Haddad de São Paulo. Considerando-se os ótimos índices de recuperação de grande parcela dos viciados que habitavam a assim chamada cracolândia, o candidato deveria se posicionar claramente sobre tais formas de apoio aos dependentes, pois não faz muito sentido "pedir tempo", dizer que seu grupo vai estudar a situação etc., uma vez que este já é um problema enfrentado de forma vigorosa pela atual prefeitura de São Paulo, cuja atuação, aliás, tem sofrido resistência por parte de Alkimin.

Suspeito que, em vez de respostas diretas sobre estas questões sociais candentes, o que ocupará por um bom tempo as primeiras páginas dos jornais é a sua intenção de reduzir à metade o número de ministérios e outras formas espetaculares de propagandear seus famosos "choques de gestão". Será que Aécio e seus auxiliares pensam que o número de ministérios está tão alto quanto o salário mínimo?

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domingo, 22 de junho de 2014

Torcendo pelo meu partido


Avaliar um partido político é algo muito difícil, pois é necessário fazer frente a uma complexidade heterogênea: muitos fatores de ordens muito diversas precisam ocupar um “mesmo espaço” de julgamento. Isso é um enorme empecilho para se focar itens pontuais na avaliação, pois, ao se ajuizar a pertinência de uma área de atuação, pode-se facilmente ser questionado pelo vínculo desta com outras. No caso de o interlocutor já ter um juízo favorável a um partido que criticamos, a avaliação específica tende a ser desacreditada tomando-se outras áreas como “mais importantes”, ou “essa não é a única” etc.

Em típicos momentos do debate, um juízo negativo é já combatido pela atitude altamente preventiva, defensiva, “alérgica”, em que a perspectiva do caso singular já é percebida como uma crítica global (disfarçada). Nesse instante, evidencia-se a mesma lógica do torcedor de futebol: por mais que o time seja bom, “não pode” perder legitimamente uma partida ou ter atuado reconhecidamente de forma ruim (a culpa será do juiz ou das regras, ou ainda se recorrerá àquele “outro campeonato” em que o adversário perdeu), pois admitir isso fere gravemente os mecanismos narcísicos de identificação global, fundados muito mais em investimentos pré-racionais de imagens arcaicas do que em convicção discursivamente construída.

Apesar dessas dificuldades, a avaliação política geral, de conjunto, somente terá consistência pelo somatório dos juízos sobre cada área de atuação, pois estes é que dão a suficiente legitimidade para o julgamento global, em que se escolhe prestar mais atenção em certos aspectos e não em outros, ponderar as avaliações singulares etc.

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sábado, 21 de junho de 2014

Psicanálise do motorista de carro


Em 2009, a agência de publicidade Artplan criou para o governo federal uma campanha educativa para motoristas cujo slogan era “Seja educado no trânsito como você é na sua vida”. De fato, é uma experiência tão comum, que os motoristas podem perceber o quanto eles mesmos a vivenciam, a saber: alterar completamente seu nível de tolerância, paciência e calma quando estão dirigindo, de modo a se tornarem irreconhecíveis. Como todo fenômeno que rompe a linearidade e a conexão sensata dos pensamentos, ações e sentimentos, este também desperta um interesse psicanalítico.

Ao dizer sobre como os objetos, instrumentos, móveis e demais coisas do ambiente marcam profundamente nosso modo de ser na contemporaneidade, Adorno questiona: “qual o motorista nunca foi tentado pela potência do motor de seu veículo a atropelar os animais de rua, pedestres, crianças e ciclistas?”. O contexto da argumentação do autor mostra sua ênfase na determinação, na influência e na força de modelagem de nossas ações por toda a maquinaria de nossa existência cotidiana. Trata-se de uma perspectiva marcadamente sociológica, reservando pouco espaço para questionarmos o quanto todos esses elementos não sejam tão determinantes, mas sim facilitadores para a eclosão de certos comportamentos.

Quando cometemos um ato falho, com uma palavra diferente da que pretendíamos, uma das formas mais corriqueiras de explicação é o fato de não estarmos atentos, ou muito cansados, ou termos nos ocupado há pouco com o assunto referente à palavra efetivamente dita. Tal como argumentou Freud, todas essas condições, na verdade, apenas produzem a atmosfera psíquica favorável à eclosão de um conteúdo inconsciente que, em outras circunstâncias, permaneceria oculto. A explicação para a especificidade de uma palavra equivocada ser dita quando em uma situação de stress, por exemplo, deve ser buscada através das associações afetivas com outras palavras, de modo que o conteúdo latente possa ser esclarecido.

O trânsito das grandes metrópoles tende a ser um ambiente altamente facilitador para a eclosão de comportamentos agressivos, mas não de forma totalmente determinante, pois é tão evidente haver quanto não haver aquela mudança de atitude do motorista em relação à sua vida cotidiana. Muitas pessoas dirigem seus carros de forma tranquila, sem nenhuma agressividade especialmente detectável no contexto do trânsito. Não nos cabe aqui fazer uma análise psicanalítica que pretendesse dar a chave de compreensão dos motivos inconscientes dessa transformação dos motoristas, mas sim falar em geral do quanto o ambiente e a própria situação de dirigir um carro são facilitadores psíquicos para os comportamentos que gostaríamos que não existissem.

O automóvel pode ser facilmente vivido como uma extensão do próprio corpo. O fato de se estar segurando o volante e apertando o pedal do acelerador, envolvido por toda a carroceria e em conexão corporal direta através do banco, induz de forma vigorosa uma identificação metafórica (por analogia/comparação) e metonímica (por relação da parte ao todo) do sujeito com este invólucro suficiente para movê-lo de forma veloz e acelerada. Estando em todos os automóveis separados uns dos outros tal como nos corpos estão reciprocamente, não é difícil perceber que esta expansão metafórica se alastra também para fora de cada conjunto homem-máquina, incluindo todos os outros que trafegam no mesmo espaço. Em geral, tem-se uma espécie de sociedade de indivíduos “inflados” por esta expansão dada pelo invólucro metálico e mecanizado, que se percebem restringidos por todos os outros em sua expansão vital.

A subtração da paciência dos motoristas é proporcional à multiplicação de seu poder de deslocamento pelo carro: se o automóvel foi feito para aumentar a velocidade com que nos deslocamos, qualquer barreira nessa expansão pode ser facilmente percebida não mais como um mero obstáculo (tal como na vida cotidiana), mas sim como uma contradição interna, intrínseca ao ambiente de maximização de força, poder e velocidade. Nesse momento, qualquer erro ou negligência alheia, seja de pedestre ou motorista, pode incitar um desejo de justiçamento extremo, em que a punição se torna francamente desproporcional à falta. Considerando a facilitação psíquica dada por “estar certo”, pode-se querer condenar o outro não propriamente pelo seu erro, mas pela contradição ao que meu próprio ego se tornou, ao ser multiplicado pela ambientação do automóvel. Isso significa, entre outras coisas, que cada motorista “já espera” o erro, a negligência ou a imperícia de qualquer outro para puni-lo segundo esta lógica. Em certo sentido, qualquer evento significará meramente um pretexto, o que fica demonstrado pelo fato de deslizes alheios insignificantes poderem gerar uma fúria inacreditável.

Na identificação metafórica e metonímica com o carro, creio que seja um fator significativo a própria condição de olhar para a realidade externa através do pára-brisa. Tudo se passa como se a realidade exterior ganhasse um aspecto onírico ou ficcional, quase cinematográfico, tornando o ato de dirigir próximo a um devaneio, no qual sempre projetamos livremente nossas fantasias intimamente mais recompensadoras e narcisicamente inflacionadas. Isto aponta para um desligamento qualitativo do sujeito com o exterior do carro, induzindo a um perigoso senso de descompromisso para com o que ocorre à sua volta. Tal como não nos envergonhamos de nossas fantasias nos sonhos diurnos (os devaneios), o motorista parece ser movido também por um senso de engrandecimento que o libera intimamente da necessidade de prestar contas da racionalidade de suas escolhas.

Dada a complexidade do tráfego nas metrópoles com milhões de habitantes, toda esta inflação narcísica deve, na verdade, dar lugar a um movimento substancialmente inverso. Embola a tolerância seja um valor que reconhecemos como válido para todos os âmbitos da vida, no trânsito ela deve ser multiplicada: o outro motorista tem o direito de errar, de cometer uma imprudência, de ser negligente, de ser apressado em demasia etc. Desde que a ação não produza um acidente, que ela implique apenas em nossa necessidade de frear, de perder alguns segundos ou minutos, a falha alheia deve ser claramente situada dentro da própria normalidade da condução do veículo. Até mesmo a intolerância alheia para com nossos próprios erros deve ser computada do mesmo modo!

Nesse momento entra em jogo uma outra questão, que é o fato de os motoristas se sentirem como que “pedagogos” dos outros, punindo com rigor (buzinando, xingando) para demonstrar que “isto não se faz”. Na verdade, a verdadeira “pedagogia” consiste em mostrar que “o que se faz” é tolerar o erro alheio, dar espaço a quem tem pressa demais, compreender o quanto a falta de atenção é um componente eternamente compartilhado em alguma medida por todos no cenário do tráfego etc. Tendo em vista a compreensão intuitiva que cada motorista possui da maximização de si pelo carro, creio que esta percepção da necessidade de um plus de tolerância, de calma e de generosidade seja vivenciada por muitos, fazendo com que o trânsito de diversas metrópoles não apenas não seja especialmente violento, mas bastante harmônico.

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quinta-feira, 19 de junho de 2014

Qual o sentido de um palavrão?


Desde minha adolescência, sempre achei no mínimo muito estranho que as pessoas usassem gestos como do dedo médio em riste para ofender alguém. Palavrões de ordem sexual, como “vai tomar no cu”, sempre me pareceram algo meio sem sentido, em virtude do fato de que, obviamente, muitas pessoas gostam e praticam sexo anal sendo penetradas (felizmente!). Se eu, como homem, gosto que uma mulher queira e goste de fazer sexo anal, sendo que o mesmo acontece com outros homens que queiram relação com homens, somente uma boa dose de desajuste na concepção do vínculo entre sexualidade e o resto da vida pode explicar este uso do que, na vivência íntima é prazeroso, mas se torna índice de agressão, ofensa.

Claro está que a insinuação subjacente é não apenas machista, mas “masculinista”, no sentido de tomar a posição feminina como um índice de apequenamento, humilhação, subjugação. As coisas adquirem um interesse até mesmo anedótico quando mulheres heterossexuais e gays usam esses mesmos veículos para xingamento. Isto se dá, obviamente, pela absorção de códigos que se descolam de sua gênese mais imediata, passando a designar de forma irrefletida a ideia de ofender, mesmo que para isso se use algo que as próprias mulheres gostem.

Essas reflexões foram incitadas por um grande coincidência, pois há poucos dias eu estava pensando exatamente nesse deslocamento dos conteúdos sexuais motivados por uma forte dose de recalque, quando um motorista buzinou de forma altamente injustificável para mim, pois queria que eu virasse à direita em uma via em que eu decididamente não era obrigado a fazê-lo. A estupidez do gesto e a altura da buzina foram tão grandes, que qualquer motorista que tivesse a disposição de fazer gestos obscenos teria feito algum com certeza. Nesse instante, pensei: “que pena que eu não tenha agora nenhum gesto que possa demonstrar minha indignação com a esta atitude insensata; o máximo que posso fazer é colocar a mão para fora em uma atitude interrogativa, como se dissesse que não fazia sentido buzinar naquele momento”.

Moral da história: esclarecimento filosófico-psicanalítico priva você de um vocabulário eficaz e rápido na luta esganiçada por manter sua dignidade no dia-a-dia!

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Insuficiência crônica


Nietzsche desconfiava muito do poder, do valor e da veracidade da consciência. Chegou ao extremo de dizer que não existe causalidade intelectual, ou seja, que não são crenças e ideias, mas sim apenas o próprio querer, o impulso, que gera ações. Essa desconfiança é compartilhada em larga medida pela psicanálise, que vê nos estratos mais superficiais e conscientes de nosso psiquismo apenas a ponta do iceberg de fenômenos muito mais intrincados e complexos, que permanecem inconscientes.

Essas perspectivas sempre me veem à cabeça quando da leitura de determinadas críticas contundentes ao nosso modo de vida, cujo impacto às vezes é tão grande que geram a percepção de que não há saída, de que somos condenados a modos de vida medíocres, alienados, pobres espiritualmente etc. Um modo recorrente de manter a validade dessas críticas é lançar mão da ideia de que nos tornarmos conscientes desse estado de coisas já nos colocaria em um patamar substancialmente diferenciado em relação a quem está imerso em toda a dinâmica, mas não reflete sobre ela. Hegel já havia empregado isto inúmeras vezes em sua concepção dialética da realidade, dizendo, por exemplo, que o homem é um animal, mas a consciência de sua animalidade o retira deste mesmo plano, elevando-o à espiritualidade própria da cultura. No tratamento psicanalítico isso também ocorre, na medida em que a consciência dos sintomas é um passo necessário para sua superação.

Ocorre que muitas vezes tal conscientização não significa nem sequer um passo, mas apenas a abertura dos olhos, que nada mais fazem do que contemplar toda a situação como uma realidade, um fato, uma fatalidade. O que deveria fornecer a percepção de necessidade de agir, de mudar, acaba gerando apenas a satisfação narcisista de saber-de-si. Nesse momento, o ser-consciente está para a realidade de vida assim como o atestado está para o óbito: apenas testemunha e confirma o que está dado.

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