Em uma postagem anterior, eu havia abordado o
problema da fixação das pessoas em seus aparelhos tecnológicos através da ideia
de uma transfusão de realidades, em que o âmbito virtual e o real se
complementam na oferta de satisfação de se poder transitar de um para o outro.
Hoje quero falar de outro aspecto dessa questão, mas enfocando um aspecto
negativo: do uso compulsivo (vício) da Internet.

Depois de décadas de aperfeiçoamento e expansão
contínuos da rede mundial de computadores, torna-se ocioso explicitar suas
vantagens, tanto para a produtividade acadêmica, quanto para transações
comerciais, relacionamentos afetivos, divulgação de informações, democratização
do processo interativo com notícias e um sem-número de outras coisas.
Igualmente claro é o lado negativo para toda essa expansão, a saber, a
proliferação de fraudes, promoção de diversos tipos de crime, disseminação de
calúnias etc. Dentro deste leque de elementos negativos, um deles reside no
fascínio que os diversos conteúdos da Internet exercem sobre os consumidores. É
deveras impressionante a quantidade de horas despendidas por alguns usuários,
que se sentem compelidos, a cada poucos minutos, a verificar e-mail, interagir
em redes sociais, buscar notícias ao longo de todo o dia, assistir dezenas de
vídeos (desde alguns mais relevantes culturalmente até aqueles mais idiotas),
procurar a companhia em salas de bate-papo, jogar diversos tipos de passatempos
extremamente simples, e uma série de outras atividades que tendem a absorver a
atenção de uma forma impensável antes do advento dos computadores pessoais.
Tal como eu havia dito na postagem a que me
referi, o princípio explicativo de fuga de realidade não é satisfatório. Não se
trata apenas de um desejo difuso de negação de nossa realidade, mas também não
somente de uma ânsia de preenchimento, de busca de sentido a se obter através
das diversas formas de estimulação visual, tátil, imaginária e de troca de
ideias. Ambos os conceitos são, sim, válidos, mas devem ser empregados sob a
luz fornecida pela ótica da corrosão do próprio tempo. Muito do sentido
do uso compulsivo da Internet estaria ligado a um gozo incompreendido e,
portanto, inconsciente de usufruir do tempo na medida em que ele é
completamente esvaziado de interesses ligados ao progresso da vida, seja de um
ponto de vista do trabalho, seja também de fontes de prazer construtivos, como
ir a um espetáculo de dança, caminhar no parque, ler livros de literatura,
jogar futebol com os amigos, desenhar, pintar, dançar etc. Isso significa dizer
que todos os conteúdos realmente significantes trazidos pelo ambiente virtual
configuram, para o usuário obsessivo, um enorme pretexto, pois o que eles
trazem de bom têm o mesmo estatuto que as trivialidades, que os vídeos
engraçados-mas-nem-tanto, que as notícias irrelevantes, que discussões
intermináveis que não levam a lugar algum etc. Em certo sentido, toda essa
vinculação obsessiva com o virtual deve ser visto como uma negação, não apenas
do trabalho produtivo, mas também do lazer considerado em sua face mais robusta
e construtiva para nosso senso pessoal de aproveitamento da vida.
Percebo uma relação analógica bastante
esclarecedora entre a compulsão com a internet e com o café. Em ambos os casos,
temos uma frequentação baseada em doses que se espalham ao longo do dia
e se repetem cotidianamente durante toda a semana. Tanto o virtual quanto essa
bebida são estimulantes, mantêm-nos acesos e interessados, causam certo
frisson, gerando uma sensação menos ou mais elétrica do que o nosso estado
normal. A cada instante de tédio ou monotonia, ambos podem ser recortados como
uma solução fácil, à mão, para pontuar aquele momento do dia com mais uma
injeção de ânimo, de colorido, de estimulação, de interesse. Ambos nos
“despertam” da placidez empobrecida do cotidiano.
Ao mesmo tempo, porém, tanto o café quanto a
internet são corrosivos. O primeiro pode causar perda ou distúrbio do
sono, taquicardia e certo grau de ansiedade. A segunda, tal como dissemos
acima, absorve, invade e coloniza o tempo em pequenas e grandes doses,
fazendo-o escoar inapelavelmente na proporção com que somos atraídos pela
miríade de conteúdos e de ofertas de atividades de interação, mobilização de
nossa curiosidade etc.
Em ambos casos, temos uma formação de compromisso
entre o que há de “positivo” em termos de inoculação de sensações e
experiências, de reforço da percepção de vivacidade, por um lado, e o negativo,
ligado ao constante distúrbio e colonização de nosso espaço vital por algo
extrínseco, alheio, com a eterna promessa e efetivação de se experimentar o que
é diferente do que já estávamos vivenciando.
No caso da compulsão com a internet, essa
ambiguidade entre o positivo e o negativo sempre será resolvida através do
posicionamento típico de quem é viciado em um jogo: a cada nova notícia, a cada
nova interação em redes sociais etc., está contida a promessa de um conteúdo
que terá feito valer a pena esse desvio de atenção, e, no acumulado de todos
esses desvios, o que terá contato efetivamente, de um ponto de vista
psicanalítico, será, entre outras coisas, o próprio gozo com o escoamento
sem sentido do tempo, tornado possível pelo excesso de sentido que
as milhares fontes de conteúdo prometem o tempo todo.
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