Um espaço de discussão sobre Filosofia, Psicanálise, Arte, Política, Crítica cultural e Atualidades.

sábado, 27 de setembro de 2014

Entre o universal e o particular

Uma questão relevante para toda a atividade teórica é o peso relativo que se deve dar, em cada interpretação de uma realidade, para a validade geral dos conceitos e para a singularidade, para o caráter específico de um fato, objeto, circunstância, processo etc. Entre a crença no poder esclarecedor dos primeiros e o desejo de fidelidade aos segundos, sempre será uma difícil tarefa encontrar um meio-termo não apenas adequado, mas convincente. Essa problemática foi especialmente elucidada através da epistemologia de Thomas Kuhn, em que se compreendeu a atividade da ciência a partir do tensionamento entre a fidelidade inexpugnável a um paradigma e a observância do quanto fatos particulares se mostram avessos a essa leitura previamente determinada. Se isso é bastante intrincado e sujeito a infinitos debates no âmbito das ciências exatas e experimentais, tanto mais tende a sê-lo no campo das ciências humanas, em que, como sabemos, a discrepância entre princípios universais e atitudes/comportamentos — mesmo considerados no âmbito da sociedade — é muito mais a regra do que um elemento que gravita ao redor do núcleo mais substantivo de um paradigma. No caso da psicanálise, ao qual quero me dedicar aqui, essa dificuldade constitui uma questão-chave da própria teoria.

Quando o psicanalista está diante do relato de seu paciente, a adesão incondicional aos conceitos teóricos de Freud, Lacan, Melanie Klein e outros conduz perigosamente a uma espécie de variante do que Freud chamou de psicanálise selvagem, pois, mesmo que não o seja de forma literal, uma vez que o analista pode de fato levar em consideração a especificidade dos sintomas e a capacidade de o analisando assimilar o que lhe é falado, ainda assim pode-se passar ao largo do que caracteriza a “verdade pessoal” do paciente.

O outro extremo é a crença exagerada na leitura “intuitiva” do que é trazido ao consultório, momento em que a grande atenção à singularidade do que é relatado não é um índice seguro de sua verdade, pois, no limite, nem mesmo se poderá dizer que o tratamento é psicanalítico. Se abdicamos do conceito de inconsciente e de recalque, por exemplo, dificilmente se podem compreender todos os conteúdos transmitidos através da fala como a superfície de um complexo subjetivo que somente pode ser compreendido em suas falhas, incongruências e compulsões em virtude de conteúdos não-manifestos, cujo conflito eclode nas formas dos sonhos e sintomas.

A grande questão é posta pela dificuldade de estabelecer qualquer princípio geral de mediania ou razoabilidade do quanto deve pesar a especificidade do relato e a validade dos conceitos na escuta psicanalítica. Isto se torna especialmente dramático tendo em vista que a psicanálise tende a abdicar do desejo de uma “correção” do modo como cada indivíduo concebe a si mesmo. A remoção desejável dos sintomas, como uma das consequências esperadas de um bom tratamento, precisa incluir a incerteza fundamental do quanto o sujeito se identifica com tudo aquilo que configura sua própria neurose. Esta não é apenas um mal a ser extirpado como se fosse um tumor maligno, pois através dela muita coisa é tornada possível de se fazer trafegar e circular psiquicamente, dando a cada um a possibilidade de se firmar e se afirmar no trânsito com as outras pessoas e com as suas próprias capacidades de ação.

Em última instância, eu diria que a verdade psicanalítica se instaura sempre como um movimento de atualização crítica dos processos de formação e de trânsito entre a interioridade individual e a exterioridade objetiva da cultura. Tal mobilidade nos leva a pensar que o ponto de equilíbrio entre a particularidade e a universalidade se desloca não apenas de analisando para  analisando, mas também de momento a outro no processo analítico de cada um. É o processo contínuo de recolocação em perspectiva do que já havia sido dito e trabalhado que pode conduzir a uma verdade que não seja nem a mera aceitação intuitiva do que é expresso, nem a reprodução “selvagem” do que é garantido pela teoria.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

A realidade como um clichê


De vez em quando leio colunas de jornal e textos de blogs de pessoas muito bem intencionadas que inserem um “o PT errou” em meio a comentários elogiosos e críticos. Essa fala é mais do que evidente: é tautológica. Todos nós erramos, já no âmbito individual, quanto mais um partido que congrega milhares de pessoas, tendo que se haver com correntes políticas e econômicas poderosíssimas, que possuem sustentação eleitoral. A grande questão está é em como ponderar os erros do partido e seus acertos, dentro de uma ótica política macro.

Nesse momento, vejo aqueles mesmos textos e colunas fazerem uma longa análise do partido e suas chances eleitorais como se essas derivassem dos “erros” vistos em sua existência tal como interpretam. Ora, a adesão eleitoral precisa, sempre e obrigatoriamente, ser analisada à luz dos mecanismos de evidenciação dos erros e acertos dos partidos, a saber: os meios de comunicação em massa. Como é óbvio, esses veículos não apenas “informam”, mas selecionam o que informar, com que ênfase, com que grau de profundidade e de desdobramento, e um mar de outras coisas que impedem completamente uma linha contínua entre o “erro do PT” e suas chances eleitorais — o que, aliás, vale também para os outros partidos.

O poder da mídia pode ser medido não apenas pelo que ela produz, mas também pelo que ela evita, impede, bloqueia. Se tudo o que ocorreu no governo Aécio Neves fosse trazido à baila e evidenciado de forma proporcional a como se faz em relação ao PT, Aécio nem sequer teria sido reeleito, quanto mais se arrogaria a concorrer à presidência. Por outro lado, o poder de veto sobre notícias ruins sobre Aécio (seus “erros”) foi suficiente para ele se reeleger, mas não para convencer a todos que tenha política propositiva o bastante para o âmbito nacional. O “poder de manipulação” (tal como se costuma dizer pejorativamente) pode ser extremamente forte, sem que isso chegue a significar a “introjeção” de preferências políticas de forma totalmente acachapante. “Ser forte” é diferente de “ser decisivo em todos os planos”.

Agora entra em jogo o aspecto mais interessante. Embora essa mediação da mídia seja mais do que evidente, entretanto muitas vezes não só é esquecida, como ainda por cima é recusada sob o estigma de “não adianta continuar jogando a culpa na imprensa”. É como se a ideia da atuação midiática, sendo repetitiva, tornasse-se um clichê, um “discurso pronto”, que “se esgotou”, e que, assim, teria perdido a validade. Ora, o que os dispositivos de poder mais querem é isso mesmo: transformarem-se em uma segunda natureza devido ao modo como se impõem sistemática e continuamente. É preciso falar o óbvio, para que ele não se dilua de tal forma na realidade que chegue a se confundir com ela. Que seja sempre necessário encontrar argumentos novos não nos dispensa da necessidade de sempre lembrar algo que parece se tornar inválido como um clichê, porque simplesmente a própria realidade se transformou em um! Nesse momento, vale a ideia de Theodor Adorno de que não só o discurso sobre o real é falso, mas a própria realidade, sob o peso das relações de poder que nos impedem de ver além delas.

sábado, 13 de setembro de 2014

Identificação versus progresso


Embora comprar uma calça e votar em uma eleição para governador sejam ações muito diferentes, já há muito tempo se observou criticamente que o mecanismo de divulgação e propaganda em ambos os casos tornou-se bastante semelhante. Não faltam análises de como a política passou a ser fortemente influenciada pelos mecanismos publicitários, não apenas na produção dos programas televisivos do horário eleitoral gratuito, mas também na promoção dos candidatos em diversos outros meios, incluindo suas falas em comícios. O quanto tal semelhança é verdadeira, ou seja, até que ponto estratégias de campanha política absorveram as relativas a quaisquer mercadorias, isto é algo complexo e que não temos como analisar agora. Gostaria apenas de tecer algumas considerações sobre um princípio comum de assimilação da oferta de uma candidatura e de um produto mercadológico específico, a saber, de cursos preparatórios para o vestibular ou cargos públicos.

Já deve ter chamado sua atenção o fato de que os cursos pré-vestibulares, em sua grande maioria, preferem fazer propaganda com base nos alunos que mais se destacaram, alcançando os primeiros lugares de cada curso, em vez de indicarem o percentual de seus estudantes que foram aprovados. A explicação mais imediata seria a de que a primeira estratégia dissimula baixos índices de aprovação, evidenciando os melhores alunos para encobrir o fato de a porcentagem de aprovados ser pequena. Embora isso deva ser realmente o caso em diversas circunstâncias, em mais de uma vez vi peças publicitárias de cursinhos em que havia os dois tipos informação, sendo que a primeira, referente aos mais bem colocados, recebia todo destaque, enquanto a outra tinha uma visibilidade pequena. Quero crer que isso é mais representativo da mentalidade de uma grande parte da classe média do que apenas indicador de uma via de comercialização deste serviço.

Para o estudante mediano, parece-me inquestionável que vale muito mais o percentual de aprovação dos estudantes em um curso do que o fato de ali ter estudado alguém que passou em primeiro lugar, mas mesmo assim os publicitários sabem que um curso ganhará mais alunos usando a estratégia de mostrar os primeiros lugares. Por quê?

De forma análoga a como grandes produções de Hollywood enfatizam com todas as letras e imagens quem é o ator ou atriz principal, deixando em segundo ou terceiro planos o diretor ou até o próprio enredo, aquelas campanhas publicitárias demonstram que o indivíduo de classe média é muito mais fortemente atraído pela via da identificação com quem mais “brilhou” em um concurso do que pela maior possibilidade concreta de ele mesmo obter sucesso. Está em jogo a típica mentalidade desse estrato sócio-econômico: sente mais prazer e motivação para se identificar com quem está no topo, com quem demonstra um ideal de riqueza, excelência e beleza, do que com estratégias sociais, econômicas e políticas por assim dizer ascendentes, que, por mais que o beneficiem, não veiculam este prazer imaginário de se situar para além daquilo que já se é. Entre o gozo imaginário do sucesso e o favorecimento na prática de vida cotidiana, as classes médias tendem, em uma medida preocupante, ao primeiro.

Se empregarmos este princípio de análise na adesão às propostas políticas, então compreendemos com clareza que políticas voltadas para a inclusão social, que tendem a beneficiar grande contingente de pessoas marginalizadas e excluídas socialmente, podem contar muito pouco para a classe média, por mais que se assuma conscientemente que tais propostas são as mais relevantes no âmbito macro da sociedade. De forma análoga à situação do curso pré-vestibular, mesmo que certas estratégias de ação governamental incluam um tal indivíduo como seu destinatário, o impacto afetivo pode ser fraco a ponto de elas não serem “compradas”.

Tal como Marx disse, em diversos momentos é necessário convencer aos trabalhadores a agirem de acordo com o que é de seu próprio interesse. Com o crescimento avassalador da sociedade de consumo no decorrer do século XX, que inclui um extremo cultivo da própria personalidade, aquele poder de adesão fomentado por processos identificatórios imaginários tende a ganhar muita força, sobrepujando investimentos afetivos em âmbitos que produzem satisfações bem mais tangíveis, palpáveis, mas que possuem a grave “precariedade” de não transportarem imediatamente cada pessoa a um mundo de realização plena. Esta última tarefa é muito mais bem realizada por todo o contexto do consumo, seja de objetos ou de obras culturais. — Esta conexão estrutural entre a atitude do consumo e a adesão a propostas políticas é a mais preocupante, e não o fato de que campanhas eleitorais se sirvam de estratégias publicitárias usadas para mercadorias ou serviços.

sábado, 6 de setembro de 2014

Medo 2.0?


A candidata Marina Silva e alguns de seus apoiadores têm dito que Dilma e seus partidários estão revivendo o uso do medo como fator determinante nas eleições presidenciais, tal como foi feito contra Lula nas eleições de 2002. Naquela época, a atriz Regina Duarte apareceu em várias das peças televisivas de José Serra afirmando explicitamente que tinha medo de um eventual governo do PT. A questão é: em que medida as críticas colocadas a Marina possuem o mesmo sentido que as da campanha de José Serra?

Inicialmente, é preciso reconhecer que não se podem excluir os afetos como um princípio motor de decisões políticas, sejam as do eleitorado, sejam as dos governantes — o quanto ele é legítimo e portanto justificado, eis a questão a ser vista mais de perto.

Toda escolha popular de um governante está marcada por algum grau de indefinição, que aumenta com a perspectiva de vitória de um grupo político diferente do que já ocupa o poder. Considerando as dimensões continentais e a enorme população do Brasil, inserido no cenário capitalista globalizado, tal incerteza pode ser obviamente vivida como fonte de insegurança, receio e medo. No caso das campanhas, a legitimidade de se apontar os riscos de candidaturas adversárias é avaliada em função do modo como se evidenciam as causas ou os próprios afetos. Em 2002, a estratégia adotada foi muito claramente dirigida para se ressaltar a própria força e caráter imediato da apreensão, do receio, da insegurança. A frase “Eu tenho medo” ganhou destaque e era a protagonista número 1 das inserções estreladas por Regina Duarte. A escolha de uma atriz não foi por acaso: seu talento deveria ser usado precisamente no sentido de estimular muito mais a percepção do impacto afetivo vinculado à vitória de Lula do que a reflexão objetivamente pautada sobre o significado de suas propostas de governo.

Embora seja evidente, não custa nada lembrar que existem situações que devem ser realmente temidas e, portanto, evitadas enfaticamente. O bom e velho Aristóteles já dizia de forma muito clara que a disposição para enfrentar todos e quaisquer perigos não qualifica a coragem, mas sim a temeridade. A primeira está vinculada a uma avaliação sóbria dos ganhos e das perdas, dos riscos e das chances de sucesso com algo que pode ser causa de um mal. A segunda, por sua vez, embora esteja muito mais próxima da primeira do que a covardia, não se confunde com ela, em virtude do fato de não ser mediada por esta análise de nossas reais condições de sucesso. Ela tem algo importante em comum com a covardia: pode ser — ou normalmente o é — marcada por uma prevalência dos afetos em relação a um julgamento orientado às características e dados objetivos da realidade. O temerário e o covarde tendem a, cada um o seu modo, conectar de forma pouco mediada racionalmente todo o complexo de suas emoções, expectativas e angústias ao que se pode perceber imediatamente no objeto e contexto da ação, fazendo uma leitura muitas vezes apenas por uma imagem, frases de efeito, discursos inflamados etc.

Nesse sentido, penso que há, sim, vários aspectos na candidatura e na campanha de Marina Silva realmente perigosos para a situação política no Brasil, que devem ser vistos de perto, caso não desejemos ser temerários. Embora a postulante à presidência tenha dito que é a favor de um estado laico, algumas de suas falas têm demonstrado que suas posições políticas sofrem forte influência de sua religiosidade (ela é membro da denominação religiosa Assembleia de Deus). Uma especialmente significativa foi sua defesa ao pastor Marco Feliciano parante as críticas recebidas quando este ocupava a presidência da Comissão de Defesa de Direitos Humanos e Minorias no Congresso Nacional. Marina disse com todas as letras que o pastor era criticado não por suas ideias, mas sim pelo simples fato de ser evangélico.

Ora, Feliciano propôs e defendeu arduamente que os psicólogos pudessem oferecer tratamento e cura para a homossexualidade, contrariando o que havia disposto o Conselho Federal de Psicologia. É mais do que evidente que essa contrariedade aos direitos humanos dos homossexuais — que querem que sua escolha afetiva não possa ser tratada como doença — está diretamente relacionada a uma leitura de viés fundamentalista da bíblia, mas igualmente óbvio é que ela foi violentamente atacada por seu conteúdo, e não meramente porque seu autor provém de uma igreja evangélica. Isso demonstrou o quanto a postura de Marina Silva possui um pendor corporativista ligado à defesa de grupos religiosos, passando por cima de um dado mais do que evidente do que significa a tarefa política de progresso para o reconhecimento da dignidade de minorias marginalizadas pelo sistema social, político e econômico atual. Pergunta: o que custaria a Marina dizer algo minimamente sensato nesse episódio? Por exemplo: “Não vejo problema algum em um evangélico como Feliciano ser presidente desta Comissão, mas creio que alguns pontos levantados por ele não são válidos, como permitir a oferta de cura a homossexuais”. Isso significaria desprestígio em geral para sua seita? Faria com que ela perdesse muito apoio popular evangélico? — Ou será que ela concorda que os psicólogos possam oferecer tratamento e cura para a homossexualidade?

Sendo a candidata oriunda de uma longa luta a favor do meio ambiente, compreende-se com especial clareza que ela considere importante investir em fontes de energia alternativas ao petróleo. Dificilmente alguém com uma visão progressista iria discordar disso. A construção de um futuro sustentável, não para apenas o país, mas para o mundo, passa necessariamente por diminuir ao máximo a dependência com as fontes de energia não-renováveis. Tal investimento, entretanto, precisa ser realizado de forma absolutamente sóbria, calculando as perdas e ganhos na substituição em jogo em cada caso, bem como o tempo oportuno para sua implementação. Marina indicou que se deveria investir menos na produção de petróleo das bacias do pré-sal, argumentando pela necessidade da busca de outras fontes de energia.

Ora, aquelas reservas petrolíferas, no momento presente, são altamente relevantes para o Brasil. Planeja-se investir seus recursos majoritariamente em educação e saúde, e significam um passo relevante para consolidar a autonomia do Brasil como produtor de petróleo. Em nome de um ideário ambientalista em si mesmo justificável, não se pode, todavia, “forçar” as condições atuais a se adequarem a isto que parece claramente um utopismo verde totalmente irrealista.

Estas e outras proposições mais polêmicas, como a proibição da pesquisa com células tronco e a autonomia plena para o Banco Central, parecem-me delinear um quadro extremamente perigoso ao futuro do Brasil. Não temer isto, agir como se se tratasse de elementos menores em um contexto macro, apostando na necessidade de uma reformulação geral da condução do país — tudo isto me parece, de fato, muito temerário.

sábado, 30 de agosto de 2014

A conivência hermenêutica


O princípio da complacência hermenêutica estabelece que, aos comentar um texto, deve-se fornecer a interpretação mais favorável ao autor, extraindo as melhores conclusões possíveis a partir dos argumentos expostos. Se, mesmo com esta leitura favorável, ainda for possível demonstrar que a argumentação é inválida, então a crítica terá todas as condições de ser levada a sério. Este procedimento é de fato recomendável, pois o seu oposto — a saber, focalizar as partes mais frágeis e/ou interpretar de forma ruim os argumentos — demonstra em grande medida uma indisposição na leitura e no comentário, o que nos faz crer que haja uma predisposição de ordem “pessoal”, diferente da relação concreta com as ideias analisadas. Em vários casos, uma crítica negativa a um determinado texto pode significar a necessidade ou o desejo de invalidar uma teoria de forma geral, momento em que a validação de argumentos específicos enfraquece essa disposição contrária “em bloco”.

Quem dedica sua trajetória acadêmica, principalmente em filosofia e ciências humanas, à interpretação de teorias de grandes pensadores costuma praticar o que considero uma variante desse estratégia de leitura: a conivência hermenêutica. Na ânsia de extrair o maior poder de compreensão sobre a realidade a partir de uma determinada teoria — o que, em si, não tem nada de reprovável —, o comentador tende a negligenciar e a diminuir a um mínimo possível as imprecisões, equívocos, contradições e parcialidades encontrados. Quando um aspecto negativo é por demais evidente e é impossível de ser negligenciado — como a defesa da escravatura por Aristóteles —, entra em jogo a costumeira estratégia de explicá-lo através das limitações da mentalidade geral da época em que a teoria foi concebida. Nesse momento, a lógica de leitura funciona assim: o autor ou a autora “clássicos” analisados podem ter sido especialmente geniais em avançar para além do seu tempo, mas onde eles não o foram, seu pertencimento à sua época tende a não apenas explicar a fraqueza de seu pensamento, mas também justificá-la. Além disso, esse aspecto negativo tenderá a ser isolado do complexo geral da teoria, uma vez que estabelecer relações com outros argumentos, temas e conceitos poderia enfraquecê-los demais. Este procedimento se assemelha ao que Freud concebeu como um dos mecanismos de defesa do eu, a saber, a separação e o isolamento de um grupo psíquico, que se torna impedido de circular e estabelecer conexões com outras formas de pensamento e ação.

Eu concordo que se deva, de fato, extrair o máximo possível em nossa leitura dos grandes pensadores. Ocorre que este “máximo” precisa incluir a percepção do quanto os equívocos, imprecisões, contradições e impasses revelam uma verdade sob uma outra forma, além daquela que é expressa diretamente. Explorar o que é falho na argumentação de um autor pode ser bastante produtivo, na medida em que nos apercebemos da lógica conceitual que levou a este erro. De forma análoga a como o ato falho foi explicitado por Freud como uma via de acesso a uma verdade subjetiva recusada e recalcada, a imprecisão em uma teoria deve ser vista com especial cuidado, bem como posta em circulação com outros argumentos, conceitos e temas, não com o intuito de simplesmente abalar e invalidar toda uma concepção filosófica ou teórica, mas para que possamos aproveitar o que surgiu e se manifestou como equívoco.

Para realizar isso, entretanto, é necessário não apenas distanciamento crítico, mas também uma negação do movimento identificatório e narcísico com a teoria estudada. Se o princípio da complacência hermenêutica visa anular os efeitos de uma contrariedade e uma hostilidade prévias, a conivência hermenêutica exprime o oposto, uma identificação que nos torna cegos para um conhecimento muitas vezes com um valor que deveria ser especialmente aproveitado.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

A objetividade jurisprudencial da crítica de arte


Toda atividade de crítica envolve valores, pois é sempre exercida com base em parâmetros, modelos e critérios que estabelecem diferenças a partir das quais juízos serão emitidos. Trata-se de julgamentos de diversas ordens, que pautam o nosso olhar acerca da originalidade, do valor cultural, da importância societária, do teor ético, do significado político e uma série de outros. Quando se fala em crítica de arte, um dos elementos fundamentais a serem considerados liga-se à suposta falta de objetividade nos critérios, uma vez que se percebe claramente que entre uma avaliação médica, por exemplo, e da qualidade artística de uma obra temos uma diferença quase intransponível. Considerando que, neste segundo caso, a dimensão intuitiva, do próprio sentimento, das preferências pessoais, contém um peso muito grande, não é difícil se chegar à conclusão (com a qual não concordo) de que o melhor seria deixar para cada um a responsabilidade de seu próprio juízo sobre questões estéticas e artísticas. — Nesse cenário, como argumentar a favor da necessidade de uma crítica de arte, e, ao mesmo tempo, da legitimidade de sua pretensão a ser tomada de forma não-relativista, almejando certa objetividade, mesmo que não seja matemática e científica?

Jean-Michel Basquiat. Bautismo
A recusa de qualquer tipo de objetividade para uma crítica de arte funda-se em larga medida na atitude de partir de sua própria perspectiva pessoal, de seu próprio gosto, como algo que, mesmo não sendo tomado de forma absoluta em sentido pleno, não é aceito como relativo tem um sentido mais forte. Mesmo que aceitemos que nossos juízos de preferência somente façam sentido dentro de um contexto em que aprendemos a dizer o que é bom e ruim, uma forte dose de narcisismo nos compele sempre a pensar que fomos suficientemente autoconscientes o bastante para ultrapassar a cegueira e ingenuidade perante isso que não apenas nos condicionou, mas ainda o faz em grande medida. É de uma dificuldade quase intransponível admitir que nosso prazer signifique a confirmação do quanto nosso gosto foi moldado pelos exemplos, modelos e paradigmas do que seja bom, mediano, aceitável, ruim, de mau gosto, kitsch etc. Essa admissão significa um exercício de alteridade e de demissão de si mesmo como autodeterminado pouco condizente com o culto da própria personalidade no registro das sociedades individualistas contemporâneas. O curioso, neste cenário, é que quanto mais nós nos aferramos a esta auto-determinação, desconsiderando o teor relativo de nossos juízos, mais precisamos ser relativistas no que concerne à crítica de arte, uma vez que o caráter auto-fundado de nossos juízos se nutre da admissão do valor, também algo absoluto, dos julgamentos alheios.

A crítica de arte nunca se estabelece a partir de princípios auto-centrados. Trata-se, na verdade, de um processo muito próximo do jurisprudencial no direito. Por mais que nossos critérios de valor não sejam objetivamente válidos, entretanto eles podem agregar validade ao longo de suas relações recíprocas, percebidas no desdobramento da história da arte, da filosofia estética, e da tradição da própria crítica. Podemos falar de um processo de sedimentação de valores que pautam sempre e de novo aquilo que deverá ser visto em relação a novos produtos. Não se trata de dizer que devamos sempre considerar a tradição como aquilo que estabelece critérios de validade incontestáveis, mas sim que todo juízo particular somente faz sentido no horizonte de uma comunidade de julgamentos, de pessoas que julgam não só a partir de sua própria perspectiva, mas em contraste, confronto, diálogo, complementação, para com os outros. Nada no horizonte artístico se estabelece em sua ipseidade, singularidade, radical. Todo lance originário e novo somente tem sua importância em sua diferença pelo modo com que se defronta com o que é igual, com o que se homogeneizou devido à sedimentação dos olhares em relação aos objetos artísticos, às expectativas do público, a nosso discurso sobre arte, ao afastamento de questões mais abstratas perante o modo com que vemos e percebemos concretamente os objetos etc.

É precisamente por considerar este enredamento do discurso particular em um complexo mais geral e articulado historicamente, que podemos instituir a racionalidade da crítica de arte como o que impulsiona novos valores em contraste com o que já se esperava ao longo de experiências pretéritas. Em nenhum momento o que é esperado no âmbito artístico irá se satisfazer com o nivelamento já estabelecido historicamente. O que marca essencialmente a esfera estética é o fato de valorizar a instauração de significados e valores novos, que desafiam o olhar já solidificado da tradição historicamente vivenciada. Por mais que um artista seja reconhecido em sua excelência de composição musical, por exemplo, desde pelo menos o renascimento a originalidade foi considerada como o que agrega uma vivacidade incapaz de ser alcançada no interior de uma excelência já reconhecida como tal. O grande problema da arte contemporânea é fato de que ela sempre se colocou como um problema, ou seja, como algo que se lança à nossa frente em descompasso radical, fundamental, perante o que há de mais sólido em nossos juízos coletivamente orientados. Theodor Adorno tem uma expressão muito interessante para isso, quando diz que ao longo da história da arte, cada novo movimento negou o anterior com uma proposta poético-artística diferenciada. O renascimento foi negado pelo maneirismo, que por sua vez foi negado pelo barroco, que sofreu também a negação pelo classicismo, sendo este também visto como ultrapassado pelo romantismo etc. A partir do impressionismo, entretanto, não se nega apenas um movimento anterior, mas o próprio sentido de tradição em sua totalidade, em seu movimento de solidificação histórica como tal. Isto leva Adorno a dizer que a percepção de que a arte está em crise acompanha a modernidade como não apenas um elemento dentre outros, mas sim como algo que lhe é essencial.

A palavra “crise” tem a mesma origem da palavra “crítica”, que é o verbo grego crinein, cujo significado mais originário é o de separar, tendo derivado para critério, como aquilo a partir do qual se podem separar as coisas em virtude de determinados valores, como bom e ruim, verdadeiro e falso, original e cópia etc. Na medida em que está em crise, podemos dizer que a arte contemporânea é sempre crítica, no sentido de algo que demanda necessariamente uma atitude diferente em relação àquilo que já experimentamos. Ela demanda um novo posicionamento, em busca de uma racionalidade que nos capacite a compreender seu sentido para além de duas possibilidades: ratificação do status quo, ou seja, confirmação da validade do que já se pensava sobre arte, e a gratuidade radical do que supostamente pudesse ter validade pela simples colocação de um diferente. Nesse sentido, a argumentação de Kant sobre o gênio como o talento que torna o artista aquilo que ele é, possui interesse para nós, pois, segundo o filósofo, o gênio é marcado pela liberdade em relação às regras preestabelecidas, tendo a capacidade de inovar, usando livremente elementos que seriam um erro e uma impropriedade na mão de pessoas com menos talento, como componentes de uma totalidade substancialmente viva pelo modo com que negam esse ajuste em relação a regras visualizáveis de forma mais evidente. Por outro lado, porém, igualmente significativo é que pode haver “absurdos originais”, quando a diferença em relação às regras já dadas não nos impele a conceber uma regra nova a partir da diferença que se apresenta, que se coloca como uma aposta de validade e de significado. Nesse sentido, podemos dizer que a arte contemporânea trafega em um limite tenso entre o absurdo e o sentido, flertando sempre com os limites do que este último poderia ser, desafiando o primeiro a se mostrar frontal- e claramente.

Recorrendo mais uma vez à estética de Adorno, vemos uma clivagem essencial entre cultura de massa e arte em sentido mais próprio. Esta última, marcada essencialmente pela necessidade de vender — e isto não apenas no sentido financeiro e econômico —, protege-se do perigo de não fazer sucesso, de não ser aceita por milhões de pessoas. Que um filme de produzido em Hollywood, por exemplo, não dê retorno financeiro para milhões de dólares gastos em sua produção é algo que ocorre apesar de e contra todas as medidas de proteção adotadas. A arte, ao contrário, expõe-se, segundo seu próprio conceito, a partir de sua lei de movimento interno, à possibilidade de fracasso. Sendo marcada pelo ímpeto de desafiar as leis de nossa percepção estética, sempre correrá o risco de ser tomada como um absurdo. Assim, de forma instrutiva por oposição à cultura de massa, seu sucesso econômico, como das obras de Picasso (que ficou milionário), por exemplo, é algo que se acrescenta a ela de forma extrínseca, não pautando o exercício de criação e de configuração do objeto artístico de forma definitória.

Apesar da clareza com que podemos dizer deste contraste entre a atitude crítico-desafiadora da arte e auto-protetora-conservadora da cultura de massa, em diversos momentos esta fronteira se mostra bastante obscura, pelo modo com que a cultura de massa se apropria de elementos “negativos” da arte, bem como por ser marcada essencialmente pelo avanço nas suas técnicas de reprodução da realidade, tanto já vivida quanto imaginada nos planos de ficção científica. Há que se considerar, também, que a cultura de massa se apropria do que nos choca em nossa sensibilidade puritana, moralizada. A pornografia é um exemplo muito claro de que a indústria cultural sempre venderá imagens, signos e valores de ruptura que somente fazem sentido pelo modo com que desafiam, de no âmbito lúdico e ficcional, valores vividos concretamente no âmbito da cultura e da sociedade em sua inércia historicamente determinada. É perfeitamente viável a coexistência de produtos pornográficos e uma moral puritana, repressora do sexo, em virtude do fato de que a pornografia não representa uma liberdade sexual em sentido estrito, pois o que ela vende não é sexo, mas apenas uma manipulação (cínica) de índices e imagens com um apelo sexual já completamente filtrado por uma mentalidade que quer retirar das pessoas o gosto com a exigência de lidar com a negatividade do sexo, do desejo, da recusa, da demanda alheios.

A arte, situando-nos em um horizonte de desafio do sentido já estabelecido pelo nosso olhar, é crítica e demanda uma crítica discursiva, de modo a traduzir conceitualmente aquilo que está implicado nestes modos de desafio de nosso olhar, de nossa percepção, de nossos juízos de gosto. Não só não existe objetividade científica e matemática para esta tarefa de tradução conceitual da dimensão crítico-negativa do artístico-estético, quanto ela seria o oposto daquilo que gostaríamos — e na verdade precisamos — neste horizonte, uma vez que se trata de estabelecer novos princípios de racionalidade para a percepção de objetos que se colocam como tendo um valor pelo modo com que negam nossos princípios de valor já previamente estabelecidos. Que nós devamos prestar atenção a este movimento e a esta demanda de uma nova racionalidade que se instaura continuamente — e na verdade a cada objeto artístico contemporâneo com que nos defrontamos —, isto somente pode ser reconhecido através de uma longa formação estética cuja existência deveria ser objeto de planejamento político rigoroso. Ela não se dá simplesmente por convencimento através de ideias e conceitos assimilados teoricamente. Somente com uma prática, um bom lastro de conhecimento histórico e uma atitude de frequentação íntima com a arte, naquilo que ela tem de mais arrojado, original e impactante, somente assim é que visualizamos uma objetividade cuja lógica consiste precisamente em ultrapassar a demanda de uma objetividade científica e pautada por aquilo que já aceitamos como válido.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

White blocs


Em sua Genealogia da moral, Nietzsche havia dito que a punição não produz consciência culpada no criminoso. Em vez de a atuação judiciária gerar a interiorização da consciência coletiva de erro, de falta e de crime, ou seja: arrependimento, o que se produz, na verdade, é a percepção de se defrontar com um poder igualmente malévolo, violento, tão injusto e criminoso quanto o próprio ato original. Essa perspectiva, naturalmente, deve ser situada no contexto do final do século XIX, em que as instituições policiais, judiciárias e de encarceramento eram por demais precárias, se comparadas às da Alemanha e da Europa em geral nos dias de hoje. Em países de terceiro mundo como o Brasil, essa ideia tem — ou pode ter — toda validade, principalmente levando-se em conta as condições calamitosas dos presídios. Processos judiciais relativos às manifestações que eclodiram no país em junho de 2013, entretanto, fizeram com que essa descrição nietzschiana fosse trazida ao primeiro plano. Tanto a polícia, quanto o ministério público, quanto a magistratura, na medida do possível em termos políticos e de produção mediática de imagem, querem se medir com os supostos criminosos no mesmo plano de sua ação: querem ser algo como white blocs.

Esse contexto policial-judiciário nos coloca face a face com a dimensão política do direito. De forma análoga a como o conhecimento científico se expande, consolida-se e recebe impulso em função de interesses de diversas ordens, submetendo-se a uma política do saber heterogênea, que deixa na sombra de nossa consciência coisas que seriam importantíssimas socialmente, enquanto investiga com afinco outras de interesse capitalista — assim também ocorre com a “vontade jurídica”. Esta pode ser voraz, aguerrida, determinada a fazer valer o rigor ínsito em seu princípio, ou ser condescendente, protelatória, contemporizadora. No atual momento, o que a marca especialmente é a evidência de que está disposta não apenas a operar no limite da razoabilidade, mas a ultrapassá-lo: é um processo de intimidação em cláusulas próximas de um coquetel molov, só que em vez de arremessá-lo, é inventado sob a máscara cínica de um frasco de achocolatado. O princípio de atuação parece ser este mesmo: dissuadir a violência do protesto ao mostrar as armas com que esta será combatida: não (apenas) a razoabilidade da lei e de seu processo, mas (também) a violência jurídica e policial.

Claro está que as investigações não são simplesmente arbitrárias; isto as anularia de forma grave. O que ocorre utiliza um cenário mais do que conhecido por quem faz crítica cultural: a construção ideológica do fato, que mescla verdade e falsidade intrinsecamente, tendo sempre à mão cinco gramas de um verdadeiro para justificar duzentos gramas de um arbitrário. Diferente da ideologia clássica, entretanto, agora não se está interessado na diluição do falso no verdadeiro, que torna sempre difícil e penoso o processo de crítica. Estamos diante da evidenciação do arbitrário como tal em que o pretexto do que é justo/verdadeiro serve apenas para nos escancarar a mobilização cínica de argumentos, ou seja, sem a vergonha de ter seu próprio interesse desnudado como mola propulsora de uma ação injusta/falsa. (Sobre a estratégia cínica na contemporaneidade, em contraste com a ideologia tradicional, recomendo a leitura do ótimo livro Cinismo e falência da crítica, de Vladimir Safatle.)

O que se constrói em termos de percepção do vínculo entre justiça e política a partir deste entrelaçamento ideológico e cínico? Considerando a perspectiva do consumidor de notícia típico, de classe média entrincheirado em seu apartamento, temos mais uma vez a absorção espetacular do perigo, do risco e da insensatez de se sair do círculo traçado pelo conforto do cotidiano. Trata-se de cultivar aquele juízo mais do que desejado por quem detém o poder e quer se dirigir a todos os que estão insatisfeitos com sua distribuição: “não vale a pena lutar”.