Já
há algum tempo entrou de forma vigorosa na pauta das discussões políticas a questão
de se os partidos políticos constituem ainda uma via legítima para a condução
das questões de interesse público. Particularmente após as manifestações de
junho de 2013, diversos pensadores argumentam que a forma partido não apenas
está em decadência, mas virtualmente faliu, mantendo-se de forma artificial, ao
sabor da inércia e do engessamento de todo o ordenamento jurídico eleitoral.
Quem advoga tal posicionamento pode ver como uma solução o reforço de
mecanismos de democracia direta, tal como defende, por exemplo, Vladimir
Safatle, que em diversas ocasiões usou a Islândia como exemplo de aplicação
destes princípios.
O
pano de fundo de tais considerações é, sem dúvida, a assim chamada “crise de
representação”, em que todos os mecanismos e instâncias que medeiam o indivíduo
e as instâncias superiores de poder aparecem cada vez mais corrompidos,
ineficazes, pesados, lentos, desviantes em relação a princípios ideológicos
mais substantivos etc. É inegável que a situação do Partido dos Trabalhadores
no governo federal contribuiu em larga medida para esta percepção, uma vez que
foi levado a sair de certo purismo ideológico para a admissão da necessidade de
formar alianças com, e fazer concessões a, grupos políticos que antes combatia
ardorosamente. Em outra postagem já comentei o quanto há de moralismo na recusa
de tais alianças. Agora quero abordar esta outra face ligada à percepção de que
o partido político, como tal, deve ser desacreditado.
Todas
as vezes em que sociedades experimentam movimentos de democratização mais
enfáticos, temos também uma reação de setores que favorecem a aristocracia,
defendem privilégios, esbravejam contra o que lhes parece uma ameaça a valores
tradicionais, naturais ou até mesmo sagrados. A própria emergência da política
na Grécia antiga foi vivida como degeneração de valores de nobreza que
configuravam a realização de ideais elevados de formação do ser humano. Nesse
sentido, a democracia corporifica de forma às vezes dramática o princípio
político por excelência, que é o de ampliação máxima do espaço de participação
nos destinos do bem público, do interesse comum.
Das
infinitas questões mobilizadas nessa expansão, uma está no fato de termos que
aprender a conviver com diferenças, às vezes muito grandes, chegando a ser
indigestas. Não só isso. É necessário perceber claramente que todo avanço precisa reconhecer a necessidade
de sua própria limitação. Para tornar reais os nossos objetivos de
progresso, precisamos acolher quem pensa de forma contrária. Ideais utópicos
purificados, nesse sentido, são anti-políticos, pois tendem a
descredenciar como insuficientes, precárias, lentas e ineficazes diversas
políticas que, vistas segundo a ótica da democratização possível em termos
factuais, deveriam ser tomadas como índice de progresso. Um exemplo que, embora
um tanto caricato, ilustra bem isso que estou dizendo é o diálogo entre os
candidatos Plínio Salgado e Dilma Rousseff em um debate na campanha à
presidência em 2010. Plínio colocou para sua adversária de forma escancarada a
ideia de que o salário mínimo era vergonhoso, devendo ser várias vezes maior
para se adequar àquilo que o Dieese estabelece. Ora, não tendo o candidato
nenhum compromisso com outra força política que não seu próprio grupo, não
possuindo nenhuma chance de ganhar a eleição, ele estava completamente
desimpedido para afirmar qualquer ideal político tão luminoso, que deixa na
sombra a programática política de valorização do salário mínimo nos oito anos
do governo Lula. Nesse sentido, tais posicionamentos utópicos e irrealistas
favorecem candidaturas regressivas, pois diminui drasticamente a diferença
entre uma candidatura reacionária que não valoriza o salário mínimo e outra que
faz esforços para seu melhoramento constante.
De
forma análoga a como esses ideais utópicos prejudicam o progresso real e
concreto, a perspectiva de uma participação democrática direta também
desfavorece a percepção de que todo movimento político somente vigora na medida
em que agregamos interesses próximos, mesmo que contenham inúmeras diferenças.
Até mesmo em uma eleição para um Diretório Central dos Estudantes de uma
universidade, todos os envolvidos sabem perfeitamente que é necessário agrupar
esforços, deixar de lado algumas diferenças para ressaltar as semelhanças, de
modo a amplificar a percepção do que é mais significativo no avanço em
determinadas posições relativas ao bem comum. Não se age politicamente na
condição de indivíduo, mas sim sempre na condição de porta-voz e ao mesmo tempo
de representado por outras vozes que agem em conjunto: e esse conjunto sempre
será “abstrato” perante o que cada um de seus membros toma como o melhor. O
espaço da política é o do aprendizado constante e reiterado das vicissitudes,
forças e fraquezas, de ter que dialogar, negociar e fazer alianças com quem é diferente,
para que possamos construir uma percepção do que significa o bem público que
inclua necessariamente a lógica de sua construção lenta, parcial e sempre
passível de regressão e recaída.
Nesse
sentido, a crise de representação me parece claramente uma crise da mentalidade
do que significa representar e ser representado, e a recusa dos partidos é
índice da recusa do fenômeno político como tal, particularmente do caráter mais
dramático da democracia.






