Uma boa escrita de texto teórico contém vários elementos que
devem ser bem manejados, desde estratégias expositivas de conceitos complexos,
até o uso de vírgulas, passando por divisão de tópicos, concatenação de frases
etc. A seguir compilei diversos elementos que me parecem muito úteis para
confeccionar uma boa monografia, dissertação ou tese, bem como projetos de
pesquisa, principalmente em filosofia e ciências humanas. Nenhum deve ser
tomado como regra absoluta, pois todos dependem sempre dos casos específicos,
do estilo de cada pessoa etc. Eles partem de minha experiência com orientação
de pesquisas, e como parecerista de artigos e projetos, apontando erros e
inadequações frequentes que encontro.
1. Todo texto é
fruto de uma estratégia de persuasão. Embora saibamos perfeitamente que não
está em jogo “dizer uma verdade”, o horizonte da concordância do leitor precisa
estar presente como ponto de fuga. Em virtude disso, toda a argumentação
necessita de escalonamento, do passo-a-passo, de tal forma que cada ideia,
conceito e afirmação operem como apoios sucessivos para os anteriores, a fim de
almejar a convicção final do leitor de que o texto é válido. O foco de atenção
principal deve ser a diferença entre os argumentos fortalecerem uns aos outros
ou apenas se justaporem como se fossem verbetes em um dicionário;
2. Embora
escrevamos de forma intuitiva, mesclando várias ideias, é preciso ter clareza
se X é uma afirmação ou um argumento que serve de fundamento a uma afirmação.
Nem sempre é possível ou necessário distinguir, mas em vários momentos é muito
inadequado deixar de fazê-lo, pois expor uma ideia e argumentar (justificar,
embasar) têm valores diferentes no texto. Muitas vezes alguém afirma X como se
isso fornecesse base, sustentação a uma ideia, quando, na verdade, não passa de
mais uma afirmação, que precisa ser defendida; a “economia” de ‘afirmar’ versus
‘argumentar’ é um fator importante na qualidade do texto;
3. Outra
‘economia’ (ou seja, relação entre quantidades e qualidades) do texto é da
presença e profundidade de conceitos. Muita gente acrescenta conceitos e temas
para “enriquecer” a argumentação, quando na verdade pode empobrecê-la, pois a
profusão de pontos teóricos tende a tornar cada um deles por demais ‘rasos’ e
confusos. ‘Riqueza’ conceitual tem mais a ver com o aprofundamento reflexivo do
que com quantidade de conceitos; como, porém, a profundidade é alcançada, entre
outras coisas, pela mobilização de ideias, logo é preciso cultivar um senso
especial para responder à questão: ‘esse conceito ajuda a aprofundar a ideia X
ou é mais uma que disputa espaço com ela?’;
4. Um texto de
mais de 5 ou 6 páginas deve conter divisões de itens temáticos; um único texto
de 10 páginas para o qual não se encontrou nenhuma divisão tende a ser
excessivamente “monolítico”, pois, tal como se divide um argumento em
parágrafos, e estes em frases, o texto deve ser, preferencialmente, dividido em
itens, para demonstrar ao leitor que se tem clareza dos passos argumentativos
seguidos. Naturalmente, trata-se de uma regra geral que admite exceções, pois
em alguns casos, ao se analisar um conto, por exemplo, os assuntos se sucedem
de forma muito próxima, prescindindo da divisão de tópicos;
5. Ao longo da
monografia, dissertação ou tese, deve-se evitar o retorno a um mesmo tema, a
não ser que seja abordado sob outro viés ou perspectiva (quando então se
justifica totalmente) ou quando é mais aprofundado; o erro mais comum é tratar
o mesmo tópico com menor profundidade, o que não é adequado; quanto mais
repetição, mais é a aparência de incerteza do que se diz;
6. Devem-se
economizar radicalmente os elogios ao autor e teoria estudados; frases como
“aqui a argumentação de Marx é primorosa” ou “Nietzsche foi um gênio da
filosofia que refletiu de forma contundente sobre seu tempo” podem dar a clara
impressão de que se quer conferir relevância ao próprio texto, fazendo a
apologia do estudado;
7. Não se deve
indicar com muita frequência que se está falando a partir de uma determinada
teoria, dizendo “segundo Kant”, “de acordo com o filósofo de Kögnisberg”, “tal
como pensa Kant” etc., pois, uma vez que já se sabe que o próprio texto é uma
interpretação e uma leitura da obra X, deve-se apenas pontuar a referência a
ela em alguns momentos, seja porque se trocou o texto-base, seja para não
deixar a escrita “flutuando”;
8. Por outro
lado, é necessário informar quando um argumento ou ideia não pertence ao autor
estudado, sendo uma extrapolação. Claro que em vários momentos se fazem
interpretações um tanto livres, mas ainda baseadas no texto original, mas há
aquelas afirmações que precisam ser demarcadas como não presentes na obra de
referência. Considerando o contexto de interpretação, de leitura de uma obra
clássica, tem-se a expectativa de que tudo — salvo aviso prévio — constitui uma
elucidação, uma exegese, e assim é necessário demonstrar que tanto o mérito
quanto o demérito de uma afirmação são nossos, e não do autor estudado;
9. Devem-se
economizar expressões que denotem dúvida ou incerteza, como “parece que”,
“talvez”, “de alguma forma”, pois indicam insegurança excessiva. Uma vez que se
trate de um texto teórico, subentende-se que tudo se dá no regime de uma
discussão, de avaliação do leitor. As expressões acima devem ser usadas apenas
quando a dúvida quanto à validade do exposto é expressiva, necessita ser
considerada;
10. Devem-se
retirar ao máximo os “que é”, “que são”, “que somos” etc., pois em quase todas
as vezes são desnecessários e sobrecarregam o texto. Exemplo: em vez de “os
conceitos que são empregados nessa análise”, use: “os conceitos empregados
nessa análise”; em vez de “o autor que é muito referido por Nietzsche”, use: “o
autor muito referido por Nietzsche”;
11. Frases não
devem ser nem longas demais, nem curtas demais. No primeiro caso, costuma-se
alterar o sujeito da frase de uma oração a outra, o que gera o efeito “em
cascata”, como “aninhamento” das referências sujeito-predicado, o que torna o
raciocínio tortuoso; no segundo, o resultado é a aparência de um fichamento, de
um escrito feito meramente para estudo próprio, ao passo que se devem conectar
mais as frases, fornecendo mais fluxo argumentativo, mais linearidade na
concatenação das ideias, impedindo que fiquem como “blocos” um ao lado do
outro;
12. Há um vício
muito comum de usar a palavra “processo” de forma totalmente supérflua. Dizer,
por exemplo, “processo de formação” é uma redundância em grande parte dos
casos, pois “formação” já indica processo. Trata-se do desejo, nesses casos, de
acentuar a processualidade, o decurso, e não o resultado, mas se isso se repete
muito, torna-se um cacoete, um preciosismo, que, mais uma vez, sobrecarrega o
texto.






